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11.10.01


Com raras e louváveis exceções, se você perguntar a um morador de um bairro periférico onde ele mora, ele vai responder que mora no bairro núcleo da vizinhança. Assim, moradores do Engenho de Dentro, por exemplo, geralmente afirmam ter ser lar no Méier, algum milagre geográfico transforma Jacarepaguá em Barra da Tijuca e, se depender dos habitantes de Senador Camará esta localidade não existe, apenas seu vizinho Bangu.

Talvez isso se deva à estratégia montada pelas imobiliárias que tentam valorizar os imóveis que vendem ou alugam incluindo-os em um bairro adjacente mais bem cotados.

É verdade que existem espalhados pela cidade alguns pontos que eu chamo de limbo. Eu mesma já morei em um deles. É aquele lugarzinho que ninguém sabe afirmar ao certo a que bairro pertence. Meu antigo apartamento ficava ali na descida da Estrada Grajaú-Jacarepaguá, próximo ao antigo zoológico (para o qual, visando fortalecer a receita, o Barão de Drummont inventou o jogo do bicho). Lá eu recebia correspondência para o Grajaú, para Vila Isabel e para Engenho Novo. Era exatamente na convergência desses três bairros.

Lins é um desses bairros que teimam em ser outra coisa. Ele quer ser Méier. E, depois da inauguração da Linha Amarela, a área gosta de ser carinhosamente chamada de Baixo Barra.

Gosto da poesia dos subúrbios, mesmo maculada pela guerra nos morros próximos e pela ausência crescente de árvores. No Lins as ruas são ladeadas majoritariamente por casas romanticamente antigas. As que sobreviveram ao gosto duvidoso do revestimento de azulejos, transportam a gente para um tempo não muito distante de sossego e camaradagem.

Por lá os termômetros de rua marcavam hoje 37ºC. E pensar que a apenas dois dias eles não passavam de vinte... Levo minhas sandálias rasteiras para passear por estas calçadas, ignorando o sol estorricante e adiando quase indefinidamente para a próxima quadra a entrada em um transporte que me traria para casa. Observar as crianças indo e vindo da escola, as donas de casa puxando seus carrinhos de compras, os homens conversando na porta dos botequins, os velhos de olhos vagos... De repente, ao dobrar uma esquina, o caos da Dias da Cruz. Misturar-se à multidão, ver o colorido das lojas populares inundando o passeio, observar os rostos de quem corre ou de quem, por hábito, busca a rua nestas horas tediosas do início da tarde...

Há um enorme supermercado em torno do qual um pequeno aglomerado de pessoas pulula. Tem gente que vai ao supermercado todo dia. No meu dicionário isso é uma das definições para solidão. É um povo que se move lentamente no tempo. E é fácil identificá-los, observa a banca de alho. Algum dia, lá na década de 80, o alho esteve muito caro. Uma carestia relativa, mas presente. Era comum descascar-se alho antes de pagar para evitar acrescentar o peso da casca ao preço final. Faz tempo esta realidade mudou, mas ainda é comum ver aquelas caras e mãos enrugadas concentradas na demorada, árdua e mal-cheirosa tarefa de economizar algumas unidades de centavos. Deve ser triste ter tempo demais no dia e tempo de menos na vida...

Tempo... Preciso correr agora... Estou atrasada...

Houve uma metamorfose nos motoristas de táxi depois que ar condicionado nos carros tornou-se uma coisa ordinária. Estão, por via de regra, mais amáveis. Globo e Tupi AM são praticamente uma lembrança distante. Quase sempre o dial pára na MPB FM, na Nova Brasil FM ou na JB. Talvez também porque tenha mudado o perfil destes profissionais. Foi-se o tempo dos semi-alfabetizados e chegaram os ex-funcionários de bancos ou outras grandes empresas que não conseguem recolocação em suas próprias áreas. Ainda é possível encontrar velhos motoritas com assentos de bolinha de madeira e toalhinha encardida no ombro, mas eles vão escasseando como as casas de subúrbio e os moradores típicos do Lins.



10.10.01

TODA FORMA DE PODER
(Engenheiros do Hawaii)

Eu presto atenção no que eles dizem
Mas eles não dizem nada
Bush e Bin Laden(1) tiram sarro de você
Que não faz nada
Começo a achar normal que algum boçal
Atire bombas na embaixada
Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer tudo que eu vi
Toda forma de poder
É uma forma de morrer por nada
Toda forma de conduta
Se transforma numa luta armada
A história se repete
Mas a força deixa a estória mal contada
Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer tudo que eu vi
O fascismo é fascinante
Deixa a gente ignorante e fascinada
É tão fácil ir adiante
E esquecer que a coisa toda tá errada

(1) A letra original diz Fidel e Pinochet
Fotos dos acontecimentos do último mês retiradas do Terra


9.10.01


Hoje ele completaria 61 anos. O que ele, que nasceu na Inglaterra e escolheu os EUA para viver, diria de tudo isso?


pazamor


Amigo,
gostar a mim parece
gostar assim
como uma prece
silenciosa.
Sim, lendo ociosa
o cio nos olhos,
o cheiro no corpo,
o cinismo nos lábios.
Libido,
li brincando.
Longe, cá no fim do mundo,
me dou e nada mudou.
Mudo, um sorriso.
Só riso.
Um só.
Um sonho,
um sopro...

(1986)

8.10.01


Hoje ás 19:30, na Estação Botafogo 1, tem o documentário Timor Lorosae – O massacre que o mundo não viu de Lucélia Santos. O filme ilustra a inacreditável tragédia da ex-possessão portuguesa, um massacre (centenas de milhares de mortos) promovido pelos indonésios comparável ao Holocausto que levanta algumas questões interessantes e bastante atuais.

1 – Por que será que o mundo demorou tanto (25 anos) a se indignar com o que acontecia em Timor Leste?

2 – Por que Milosevic é julgado em Haia e Timor foi tratado como uma questão interna da Indonésia?

Parece bastante com “aquele” assunto, não é mesmo?

Fiquei olhando as imagens dos ataques dos aliados na TV e imaginando que nunca veremos a sofrimento estampado no rosto dos civis afegãos atingidos, que jamais assistiremos entrevistas com suas viúvas e órfãos, com seus amigos, que nenhum astro ou estrela cederá seu cachê para eles, que ninguém entrará em cadeia mundial para pedir doações para as famílias daqueles que arriscam a vida para salvar os inocentes.

Todo meu apoio a estas iniciativas que humanizam números e tentam minorar um sofrimento sem medidas. Só penso: por que elas são unilaterais? Por que a desgraça caucasiana e rica é pungente, real e personalizada e a miserável é verde e indefinida, com pipocos brilhantes e sem cara? E chego a infeliz e pouco original conclusão de que todos somos iguais, mas alguns são mais iguais que os outros.

Ainda bem que reservo esta palavra para poucas ocasiões: ódio. Odeio bin Laden por ter jogado o mundo nessa lama, por ter acendido o pior lado daqueles que agora se igualam a ele. Lamento tremendamente que o ocidente tenha mordido a isca. Infelizmente o demônio encarnado sabe o que faz e apontou seus canhões para aqueles que passaram quase todas as décadas do último século em alguma sorte de guerra. E se o que se quer é uma briga, há que se provocar um inimigo belicoso. Um analista reproduziu na televisão uma impressão que eu tinha: qualquer que seja o resultado dessa empreitada (a menos que prevaleça uma racionalidade da qual já quase desacredito e ele, capturado e julgado, seja condenado a prisão perpétua), a besta sairá vitoriosa. Se for preso, julgado e executado, ele será um mártir. Se for morto em combate, ele é o mártir. Se não for capturado, ele vira herói.


7.10.01

Eu me recuso a dizer mais do que "até o próximo encontro". É uma meleca... Este povo chega na nossa vida, enche o coração da gente de carinho e depois resolve ir morar do outro lado do Atlântico. Pode? O que é que eu faço? Torço para que tudo dê muito certo, porque aquela cidade é o má-xi-mo, o amor é lindo, você e ele são tudo de bom e merecem idem. E não consigo imaginar nada mais romântico do que largar tudo e ir com o amor da sua vida para .
Ontem, no tradicionalíssimo Nova Capela, depois de um magnífico cabrito com brócolis e muito alho e alguns chopes, ouvi:

"A empregada estava tendo uma crise brava de vômito e diarréia, verdinha, verdinha, molinha, molinha, depois de comer uma coxinha de galinha atrás da Central do Brasil. A gente estava se arrumando para levar a pobre para um hospital público.

Minha mãe disse:
_ Fica assim não. Podia ser pior.

Aí eu perguntei perguntei:
_ Como, mãe, como podia ser pior?

Minha mãe pensou um pouco e respondeu:
_ Ela podia ser a galinha."

5.10.01


Carinho é bom e eu gosto.

Obrigada, Violinha. Mas acerta aí na sua frase: ainda não conheço, ainda não sou amiga. Hoje é o marco zero da nossa amizade.

Um grande beijo para você.
Gostei da história que a Stella me contou:

Você me lembrou de uma história q aconteceu com minha irmã há uns 10 anos.

Certo dia, ela pediu às filhas Aninha, de 4 anos, e Clara, de 2, que juntassem os brinquedos que não gostavam mais, para serem doados. Aninha olhou bem nos olhos da mãe e disse: "Mãe, vamos dar Clara para os pobres"?

Não sei se era medo que a irmã mais nova (brinquedo vivo) fosse embora ou era o desejo de se livrar dela, mesmo...


hehehe Só os primogênitos sabem que sentimento é esse. O moleque aqui em casa passou um tempo insistindo para que eu e o pai déssemos um irmãozinho para ele. Quando viajamos, ele ficou na casa da minha mãe, que divide o quintal com minha irmã, meu cunhado e meu sobrinho. Na volta ele me confidenciou que havia desistido de ter um irmão: "Só com esse tempo com meu primo eu vi que criança pequena é muito chata." Fecha a fábrica e o pano.




4.10.01


Brincar faz parte do processo de desenvolvimento infantil.

Infelizmente, nem todas as crianças têm acesso aos brinquedos que temos oportunidade de prover aos nossos filhos. Já ouvi muita gente falando que não sabe o que fazer com brinquedos que lotam os quartos da classe média e com os quais nossas crianças não brincam mais, por isso resolvi divulgar uma iniciativa interessante.

Os laboratórios Bronstein (não, não tenho nenhum vínculo com eles), aqui do Rio, estão recebendo desde o dia 25 até o dia 6 de outubro brinquedos usados que serão distribuídos para crianças carentes. Eles podem ser depositados em qualquer das filiais abaixo. No dia 6/10 das 10:00 às 12:00 haverá uma recreação especial, comemorando o fim da Campanha Brinquedo Velho, Sorriso Novo.

Barra
Av. das Américas, 500 bl. 2/212
Av. Ayrton Senna 2150, bl. B/219

Bangu
Av. Cônego de Vasconcelos 523/lj. A

Bonsucesso
R. Cardoso de Morais 61/303

Botafogo (Matriz)
R. Marquês de Olinda 12

Cachambi
Rua Cachambi 337/Lj. A

Campo Grande
R. Augusto Vasconcelos, 177/lj. 105

Catete
Largo do Machado 54

Centro
Av. Rio Branco 257 sobreloja
R. do Ouvidor 161/505

Copacabana
Av. N. S. de Copacabana 1072/sobreloja
R. Barata Ribeiro 13 lj. B

Caxias
R. Pref. José Carlos Lacerda 1256/601

Icaraí
R. Cel. Moreira César 229/1015

Ilha
Estrada do Galeão 2751/lj. B

Ipanema
R. Garcia D’Avila 64/302

Leblon
R. Ataulfo de Paiva 566/204

Madureira
R. Carolina Machado 530/403

Méier
R. Dias da Cruz 215/sobreloja

Niterói
R. Dr. Borman 23/lj. 2

Penha
Av. Brás de Pina 688

Taquara
Av. Nelson Cardoso 1149/ sobrelojas 202 2 203

Teresópolis
Av. Lúcio Meira 670/506

Tijuca
R. Bom Pastor 295
Pç Saens Peña 45/320 e 326

Vila Isabel
R. Barão de São Francisco, 373/lj. J


BIBLIOTECAS CRESCEM NOS QUINTAIS DO RIO

O pedreiro Evandro dos Santos fez da garagem de sua casa, na Vila da Penha, uma biblioteca comunitária. Segundo ele, “não existem analfabetos, apenas intelectos não-lapidados.” Por lá encontra-se Proust, Ken Foller, Monteiro Lobato, As minas de Rei Salomão de R. Haggar na tradução de Eça de Queiroz, Agatha Christie e um livro de culinária em japonês além de outros 19 mil volumes que compõem seu acervo. A biblioteca abre na hora em que o leitor chega e fecha quando o último vai embora. Não há burocracia para consultar ou emprestar as obras. É tudo de graça, até as feijoadas e saraus literários promovidos pelo sergipano. A biblioteca foi batizada com o nome do poeta conterrâneo do visionário: Tobias Barreto de Menezes.

Evandro veio semi-alfabetizado para o Rio aos 18 anos. Foi um pastor de uma congregação batista quem terminou o trabalho usando a bíblia como cartilha. “O livro é vida. Sem ler, a gente vira robô” – diz aquele que chegou a ter uma coleção com 300 livretos de cordel antes mesmo de conseguir decifrar o que estava escrito ali. Ele ainda cita o faraó Ramsés II: “A biblioteca é o remédio do espírito”.

Em 1998, foi fazer uma obra numa loja e deparou-se com cercade50 livros que iriam para o lixo. Entre eles, havia a História do Brasil de Pedro Calmon e a coleção completa de Euclydes da Cunha. Evandro levou tudo para a casa. “As bibliotecas são túmulos. Não se pode falar. É uma burocracia danada para pegar um livro: tem que ter cadastro, foto, dinheiro”, enumera.

Começou a pedir doações em tudo quanto era canto. Milhares de livros foram buscados de ônibus, atravessando a cidade, pelo incansável Evandro. Dificuldade zero = sucesso instantâneo. Para idosos, gestantes e até preguiçosos Evandro pega um ônibus e leva a obra solicitada.

Entre as obras há raridades: um compêndio de medicina editado em 1900, uma Bíblia em latim de 1852 e talvez a única edição conhecida da História dos Mártires Evangélicos, de 1817.

Evandro agora sonha em construir uma sede para a biblioteca ou comprar um carro para pegar mais livros. Tem também o projeto de criar ali um centro de alfabetização de adultos, uma escola de línguas, uma oficina literária...


Vamos colaborar?

Biblioteca Comunitária Tobias Barreto de Menezes
Rua Engenheiro Augusto Bernachi, 130
Largo do Bicão - Vila da Penha
Rio de Janeiro – RJ
CEP 21235-720
Tel.: (21) 2481-5336


(Baseado em artigo publicado em 3/10/2001 no JB)

OUTRAS INICIATIVAS

Uma rede de bibliotecas comunitárias, sem apoio da iniciativa privada, governos ou organizações não-governamentais, está crescendo nos subúrbios do Rio e na Baixada.

O professor Marcelo Sanuto inspirou-se no exemplo do pedreiro Evandro para abrir em 1999, uma biblioteca numa área de 50 metros quadrados nos fundos de sua casa, no centro de Duque de Caxias. O acervo conta hoje com 10 mil volumes. A biblioteca está aberta em horário alternativo, das 18 às 21 horas.

Biblioteca Comunitária Paulo Freire
Tel.: (21) 2771-2502


O pastor Nivaldino Bastos montou sua versão na Igreja Batista do Irajá. Ela funciona desde maio com duas salas com livros didáticos e uma de enciclopédias. São 9 mil exemplares.

Biblioteca Comunitária Lima Barreto
(21)2471-5289


O corretor Flávio Rezende quer tirar a garotada da rua e mostrar Monteiro Lobato para eles. No porão de sua casa já se acumulam 2 mil livros que estarão disponíveis quando for inaugurada em Neves, distrito de São Gonçalo a:

Biblioteca Comunitária Machado de Assis
(faltam as estantes para dispor os livros)
Tel.: (21) 3707-1485


Há mais uma destas bibliotecas em Caxias, outra em Belford Roxo, uma em São João de Meriti e em Valença, na região sul do estado.

(baseado em artigo de 4/10/2001 do JB)

3.10.01

Mais recados:

Para Meg: Já entrei em contato com o reblogger para verificar se exite limite para o tamanho do post. Assim que tiver uma resposta, falo com você.

Recadinhos:

Para Jesse, que me pergunta se sou escritora: Acho que sou ainda escrevinhadora. Vivo cultivando o hábito de escrever, que me dá um prazer danado. De vez em quando alguém se interessa, gosta... Quem sabe um dia, né? :-)

Para Fer e Lettíssima: Valeu o toque!
1 - Metafísica idealista: A realidade suprema é de natureza mais espiritual do que física, mais mental do que material. “O que não pode ser pensado não pode ser real” (Parmênides). “O mundo é minha idéia” (Schopenhauer). O idealista não nega a existência do mundo à nossa volta, mas mesmo sendo essa coisas reais, elas não o são de forma derradeira. Para o idealista cristão, a realidade suprema é o Deus da Trindade. Platão considerou o espírito do homem uma “alma” que emana de um empíreo de “idéias” perfeitas e externas.Berkley assume a posição cristã ortodoxa de que a alma é imortal, tendo sido criada por Deus para desfrutar a vida eterna com Ele, após suas provações na Terra. Para Kant, o homem é livre (é um espírito) e determinado ( ser físico, sujeito à lei natural). O idealista hegeliano considera o homem uma parte vital do Absoluto (centelha do Espírito Eterno em que será reabsorvido na morte).

[O “EC”, nesse caso, preside ao nascimento de idéias, tratadas como possibilidades intrínsecas que necessitam ser desenvolvidas dentro do “encarcerado”. O conhecimento é mais “espremido” para fora do que “despejado”. É primordialmente a matéria aprovada aquela que deve ser “espremida” e não, usualmente, a que um estudante escolhe por si mesmo.]

2 – Metafísica realista: A matéria é a realidade suprema, não é simplesmente uma idéia na mente de indivíduos observadores ou mesmo na mente de um Observador Eterno. Ela existe em si e por si mesma, independente de nossas mentes.

2.1 – Realismo Racional: O mundo material é real e existe fora da mente daqueles que o observam.

2.1.1- Realismo Clássico: Aristóteles [O “EC” habilita o equilíbrio intelectual e não o ajuste ao ambiente físico e social. A espontaneidade e a criatividade são apreciadas]

2.1.2- Religioso ou Tomismo (Aristóteles visto pela lente de São Tomás de Aquino): Tanto a matéria como o espírito foram criados por Deus, que construiu um universo ordenado e racional a partir de Sua sabedoria e bondade supremas. Embora não seja exatamente mais real do que a matéria, o espírito é, contudo, mais importante. O homem é uma fusão do material com o espiritual, corpo e alma formando uma só natureza. Somos livres e responsáveis por nossas ações; mas também somos imortais, tendo sido colocados na Terra para amar e honrar nosso Criador, e assim merecermos a felicidade eterna. [ O “EC” deve levar à natureza como obra saída da mão de Deus, já que a ordem e a harmonia do universo são o fruto da criação divina]

2.2- Realismo Natural e Científico: Cético e experimental. Não há um domínio espiritual ou sua existência não pode ser provada. O homem é um organismo biológico dotado de um sistema nervoso altamente desenvolvido e uma disposição inerentemente social. Aquilo que chamamos “pensamento” consiste, realmente, numa função altamente complexa do organismo que o relaciona com seu meio ambiente, semelhante a outras funções orgânicas. Não há livre arbítrio. O indivíduo está determinado pelo impacto do meio físico e social sobre sua estrutura genética.

[Para a concepção realista, o “EC” deve então transmitir um núcleo central de matérias que familiarize o "cativo" com o mundo à sua volta]

3 – Metafísica Pragmática: Só podemos conhecer aquilo que nossos sentidos experimentam. Aborda a realidade da transformação, a natureza essencialmente social e biológica do homem, a relatividade dos valores e o uso da inteligência crítica. O mundo não é dependente nem independente da idéia que o homem faz dele. A realidade equivale à “interação” do ser humano com seu meio ambiente – é a soma total do que “experimentamos”. O mundo só é significativo na medida em que o homem lhe atribui significado. Se o universo possui alguma finalidade mais profunda, ela está oculta do homem; e o que o homem não pode experimentar não pode ser real para ele. A mudança é a essência da realidade e devemos estar sempre preparados para alterar o modo como fazemos as coisas. A realidade é criada pela interação de uma pessoa com seu meio ambiente. A natureza humana é fundamentalmente plástica e variável. O ser humano é um organismo vivo, continuamente empenhado em reconstruir e interpretar suas próprias experiências. [O “EC” é fim e meio, visando melhorar e aperfeiçoar o “prisioneiro” e é o método para fazer isso. Não deve geralmente opor-se aos interesses do “prisioneiro”, mas deve ser uma decorrência natural desses interesses. A função do “EC” é vida e não uma preparação para ela.]

(Resumo do primeiro capítulo do livro Introdução à Filosofia da Educação de George F. Kneller)
Uau! Que felicidade! Finalmente tenho a sensação de não estar falando sozinha. Como é bom sentir isso! Adorei ver comentários aqui mesmo, na minha casa, e saber que o que andei postando aqui gerou assunto na vizinhança.

A Letti colocou um link na página dela falando do Mito da Caverna. E através dele chegou por aqui o Tirupi, que comentou o fato em seu blog. A Juliana mandou por ali mesmo seu recado, comentado depois pela Zel. Não é o máximo para quem andava se queixando?

Eu não coloquei os meus comentários então, mas depois da avalanche de questionamentos da minha mais nova queridona deste mundo virtual, a Meg, achei que fiquei mesmo devendo uma justificativa para o texto ter parado ali.

Ela pergunta: “De qual fonte vc retirou a alegoria (e não mito, como infelizmente vários tradutores antigos chamam) da Caverna. Faça o devido estorno/desconto, em relação aos mitos já classificados por Barthes (esses são modernos, performáticos).”

Respondo: Tudo começou quando fui visitar o site da Helô. Encontrei por lá uma citação do Saramago que achei interessante e fui pesquisar para encontrar na íntegra. Descobri que ele estava falando de seu livro “A Caverna” que usa esta alegoria (não é chic ter uma amiga que ensina um monte de coisas interessantes para a gente?). Claro que este título já entrou na minha lista de aquisições inadiáveis. Então fui atrás da alegoria propriamente dita. E foi bonito porque quando li todo o texto lembrei exatamente da aula em que eu o estudei, lá na época do Curso de Formação de Professores. Sim, Meg querida, eu já fui normalista! A alegoria tal como se apresenta aqui foi retirada de um site sobre pedagogia, cujo endereço posso tentar recuperar para você.

Não chego à unha de seu menor dedo do pé quando o assunto é filosofia e realmente não tenho como saber, como falou a Juliana, se esta é a tradução correta, se esta abordagem carrega uma visão modernosa do discurso. Olho esta discussão mais acadêmica apenas da arquibancada, babando com a erudição de vocês. Ele está aqui porque me deu o que pensar. E eu acho que isso é bom.

Meg: “Vc tem um destinatário específico que re-presente os papéis de Platão (que é quem realmente fala, pela boca de Sócrates) e para nós representados pelos ouvintes/leitores do diálogo platônico?”

CC: Será que consegui responder a isto a seguir?

Meg: No post que você colocou, alguém entenderá como e por quê através de quem? Se dará o insight de que vivemos num mundo de sobras? De cópias, de projeções na parede da caverna? Como alguém que vive no mesmo mundo que nós, afeito (de afecção) a todas as mesmíssimas características da condição descrita por Platão/Sócrates, pode trazer-nos essa mensagem, de que há um mundo mais real (repare não real, mas mais real) que é o originado pela fogueira (má tradução para fogo) no domínio carcerário? Seria um soi-disant EC (extra-caverna) como ET (extra-terrestre)?

CC: O mundo não é de sombras. Também delas, mas não só. Estamos vendo apenas uma pequena parte do mundo (as sombras) e é disso que se trata. Foi assim que eu entendi, numa leitura inicial. Na verdade, essa alegoria me cativou porque pode ser lida através dos olhos da pedagogia, da comunicação social, da religião, da ufologia... Segundo o prisma educacional, a caverna seria a ignorância; para a comunicação social, a manipulação da mídia; para religião, talvez o ateísmo, a condição do espírito encarnado ou as ilusões; para a ufologia, o próprio planeta Terra. E, para cada uma das abordagens, a resposta para o através de quem é diferente. Para que o insight fosse a única solução, seria necessário que não houvesse outras pessoas fora do cárcere. O EC poderia ser o messias, o professor, a mídia independente, o ET... Minha resposta favorita seria: o EC mora em nós e ele sempre entoa, mesmo do fundo da caverna mais profunda e escura, as mesmas questões. E são estas questões humanas que dão força ao prisioneiro para arrebentar as próprias amarras e caminhar com os próprios pés para fora da caverna. Felizes são aqueles que encontram um guia no limiar da caverna. Mas soltar a primeira corrente e olhar em volta é um exercício solitário e muito doloroso, geralmente executado por quem já não suporta questões sem respostas.

Meg: “E daí que a compreensão do real a partir das sombras pode ser também da mesma qualidade das sombras. O que você acha?

CC: Deixa eu ver se entendi a sua pergunta. Você está me perguntando se a luz e toda a realidade que ela mostra seriam uma não sombra e uma não caverna? Se estaríamos definindo o real pelo metro do já conhecido? E que isto não seria uma verdadeira revelação mas apenas um jogo de positivo e negativo? E que ainda haveria algo além? É isso? Se for isso, vou te contar que estou usando as linhas filosóficas que vou colocar no próximo post para brincar com várias possibilidades. Repito: o número e qualidade das respostas é proporcional à quantidade de abordagens escolhidas.

2.10.01


O que você pensaria de uma mulher que largou um emprego no McDonald's para se inscrever num concurso de miss onde foi consagrada a mais bonita de seu estado naquele ano? E que foi nesta época que ela disse a amigos que seria Marilyn Monroe? E se eu dissesse que esta mulher foi contratada como modelo da Ford e que este foi o trampolim para sua carreira de atriz? E se eu falasse que ela já foi eleita a mulher mais linda e/ou mais sexy por várias publicações mundo afora e que deixou muito marmanjo babando com um gesto que durou no máximo dois segundos? O que você diria de uma beleza que a idade só realça?

E se eu contasse que ela estreou nas telas num filme de Woody Allen e que o emprego na lanchonete era para judar com as despesas da faculdade onde ela ingressou com 16 anos? E se eu dissesse que ela tem um QI tão alto que permitiu seu ingresso num clube de gênios e que por cada trabalho leva para casa 12 milhões de dólares? E que tal um envolvimento em diversas causas humanitárias?

Esta história de linda, rica, inteligente e famosa, mas - coitada - vítima de uma tragédia é um prato cheio. Eu ainda me lembro do alvoroço que foi quando Lady Di morreu. Causa tanta comoção porque tem gente raciocina assim (ainda que não reconheça nem para seu travesseiro): eu não tenho nada do que esta criatura tem, mas pelo menos a) estou viva; b) não estou num leito de hospital. Desgraça envolvendo celebridade sempre rende.

Eu fico torcendo para que Sharon Stone se recupere logo desta hemorragia cerebral e volte a emprestar sua beleza e talento de sempre às nossas telas e aos nosso vídeos.

Pode parecer maluquice, mas eu realmente gosto de andar de ônibus. Lógico que fora da obrigação cotidiana, dos horários em que é impossível caber mais uma mosca e sem grandes obrigações de horários. Gosto de estar perto de gente, de gente de verdade, daquelas que fazem números largos em estatísticas.

No meio da tarde, é possível sentar-se e, no conforto relativo que este tipo de transporte pode proporcionar, observar as mudanças na paisagem e da fauna humana que entra e sai à medida que o carro avança pelos bairros. Vejo em cada pedacinho da cidade um caráter próprio, expresso também na alma e na cultura peculiar de seus habitantes. Observo o homem caladão sentado ao meu lado. Perdido em seus pensamentos durante a viagem e sem me dirigir palavra, ele me conta sua história.

Ele é aposentado. Usa um chinelo estilo franciscano, uma calça que a sua senhora transformou em bermuda e uma camisa social com estampa antiga. A patroa também imprimiu sua marca ali, virando a gola puída para aumentar sua vida útil.

Não se queixa. O dinheiro da aposentadoria é pouco, mas pelo menos conseguiu, ao longo da vida comprar um terreninho e lá construir sua casa. Muitos de seus ex-colegas estão em maus lençóis. Aqueles que escolheram morar em apartamentos ainda penam com prestações intermináveis e taxas de condomínios extorsivas. É uma pena que aquele seu bairro, que antes era apenas simples e distante, agora tenha sido cercado por favelas onde traficantes impõem sua rotina de terror. A mulher já pensa em mudar de lá, mas a casa é boa e se fossem vender iam conseguir um preço muito baixo e ter se conformar em viver em um cubículo qualquer ou em morar com um dos filhos. Isso ele não quer de jeito nenhum. Não consegue se imaginar morando num lugar onde é preciso dirigir até para comprar pão. Ele sabe das suas manias. Em pouco tempo ele e a mulher se iam se transformar num estorvo. E o que seria dos dois sem os cachorros, o quintal, as coisas arrumadas do jeito deles e as amizades que cultivaram durante décadas com a vizinhança?

Os filhos ajudam muito e por isso as coisas não são mais difíceis ainda. O mais velho faz questão de cuidar de todas as receitas médicas. Ele e a patroa tem todos os medicamentos ao tempo e à hora. O outro contribui quando alguma coisa grande e urgente aparece. Foi ele quem pagou todo o material e mão-de-obra quando foi preciso consertar aquele vazamento no banheiro. A filha caçula está sempre por ali, ajudando a mãe, fazendo as vezes de motorista quando precisa.

Ele já teve carro. Um corcel, alguns fuscas e até um chevette. Hoje em dia não pode mais manter este luxo. Andar de carro só com os filhos. No resto do tempo, ele vai mesmo de ônibus. Aos poucos vai descobrindo as vantagens por ter vivido tanto. Não são muitas, mas não pagar passagem é uma delas.

As crianças – não adianta, ele continua chamando os filhos de “as crianças” – são de ouro. Aproveitaram bem o sacrifício que ele e a mãe fizeram para que tivessem uma boa educação. Colhem hoje os frutos de uma juventude mergulhada em livros, sem muita diversão, que o dinheiro era contado. Não gosta que eles todos tenham decidido ir morar lá para as bandas da Barra. Preferia ter a turma mais perto dele, ver os netos com mais freqüência, mas tudo bem. Ele tem muito orgulho dos meninos.

A única que deu algum trabalho foi a garota. Sempre foi agitada, meio rebelde. Dos três é a única que não tem um diploma. Mas agora que o filho está maiorzinho, está pensando em voltar a estudar. O neto é uma alegria na vida dele, mas ela podia ter tido um pouco mais de juízo e deixado que ele viesse quando a vida dela estivesse mais organizada. A gente não escolhe o caminho dos filhos. Depois de determinado ponto, só o que se pode fazer é torcer para que eles escolham a retidão. A gente também vai aprendendo que a vida devagar vai entrando nos trilhos, mesmo depois dos maiores sustos. Ele ainda lembra da cara da mulher e da decepção que ele mesmo sentiu quando a filha contou que estava de barriga. Ora, sim senhor! Foi um soco no estômago. O pai do menino fez tudo como manda o figurino e só não se casaram no papel porque queriam que quando acontecesse, fosse como nos sonhos dela, na igreja, com vestido... E ele estava começando a vida, andava desprevenido e ainda tinha toda a despesa com a vinda do bebê. A filha largou os estudos e só pôde começar a trabalhar depois que o bebê desmamou. Foi dureza. A família toda colaborou para construir uma casinha num cantinho que estava esquecido lá no quintal (os terrenos de antigamente é que eram terrenos de verdade), onde eles moraram até firmarem as pernas. Depois que eles mudaram para Jacarepaguá, o aluguel desta casinha passou a ajudar bastante.

No ano passado conseguiram fazer a cerimônia com tudo o que tinham direito. A alegria do pai que conduz a filha até o altar apaga qualquer coisa tristeza. Dona Encrenca chorou que nem bebê com o neto no colo. Êta mulher danada! Ele sabe que jamais vai conseguir dizer a ela o quanto ela estava bonita naquele dia e como ele ainda é apaixonado pela mãe de seus filhos. As roupas dos dois foram compradas pela filha, que queria todo mundo nos trinques. Ela vive insistindo para ele ir com ela numa destas lojas de shopping para escolher umas coisinhas novas para vestir. Pra quê? Ele não gosta de gastar dinheiro com bobagens.

Neste momento, ele está indo visitar uma irmã doente no Hospital do Andaraí. Olha o ponto chegando!

Despeço-me e agradeço em silêncio sua companhia muda.

No lugar que ele deixou vago, senta-se uma negra gorda...

1.10.01


Não esquecer de falar sobre:

- ônibus
- chinelo franciscano
- material de construção

Deixa eu ir, que estána hora do moleque voltar da escola.


É, meu camarada...

Tô vendo que o negócio é mesmo como dizia o filósofo: "quem não chora não mama".

Depois de chiar que ninguém me dava bola, três almas caridosas resolveram dar um alô por aqui: BellaTrix, Vicky e Violinha. Valeu, meninas!

Como em time que está ganhando não se mexe, talvez eu consiga pelo menos um comentário para cada post continuando minha trip de chantagem emocional.

30.9.01


Kitty
Domingo de sol no Rio de Janeiro!? Se algum membro da família tem alguma coisa para fazer na rua, mesmo que seja buscar uma papelada na casa de um colega de trabalho, todo mundo entra correndo no carro, porque sabe que no caminho vai cruzar com festa para todo lado.

Antes de dobrarmos a primeira esquina, já fomos cercado pelo fervilhar do Maracanã, numa manhã ordinariamente dominical em que os pais esperam filhos que foram prestar um exame qualquer. Feliz coincidência: no rádio os Novos Baianos cantam “Besta É Tu” falando do estádio num destes dia da semana.

Passamos na esquina da Rua Radialista Waldir Amaral, cruzamos o Espaço Jamelão na avenida do samba. O Cristo estava lá em cima, com seus braços eternamente abertos. O que há demais em um túnel? Uma linda imagem de Santa Bárbara que ficou escondida durante muito tempo e finalmente está em lugar de destaque.

As pessoas e os carros tomam as ruas. A frente da igreja está cheia de fiéis. A praça repleta de manifestantes de branco orando e discursando. Na frente da maternidade colorida de flores, pessoas celebram a chegada de novos membros às suas famílias. O prédio me traz uma história triste à lembrança e ela derrete ao sol. Ali ao lado mora uma amiga que não vejo há tempos. Saudades de seu sorriso largo...

Largo do Boticário. Piso em suas pedras elegantes. Espio o rio que emprestou seu nome aos nascidos ou simplesmente apaixonados pela cidade. Em suas águas os tamoios acreditavam conferir beleza às mulheres e virilidade aos homens. Por ali morou um grande artista que apaixonou-se pelo rosto de uma amiga minha. As casas parecem mais velhas do que realmente são, usando material retirado das demolições das edificações que ficavam onde hoje está a Avenida Presidente Vargas.

É hora do almoço? Petisco da Vila, claro! O garçom parece a Lúcia Helena daquela propaganda do Unibanco, mimando o guri que ele conhece desde o tempo em que ainda morava dentro da minha barriga.

Definitivamente deveria haver alguma lei que proibisse que os dias do final de semana fossem cinzentos como ontem. Sábado carrancudo no Rio é um absurdo! Passei o dia todo madorrenta. Os meus meninos foram ver a exposição surrealista, mas museu lotado não é realmente um antídoto anti-tédio para mim. O dia só não foi totalmente perdido porque na volta para casa meu amo e senhor teve a brilhante idéia de passar na videolocadora.

Um filme para mim e outro para ele, teoricamente. Eu gostei dos dois, de formas diferentes. Eternamente Lulu é divertido, mesmo tratando de uma situação dramática, afinal saias justas são geralmente assim: pateticamente engraçadas. O diálogo no avião, o lobby, o corredor e os quartos do hotel, a visita à família de um filho que a vida extraviou... Cenas que poderiam acontecer com quase todo mundo... Roteiro tão bom que a gente consegue abstrair os intérpretes dos protagonistas: Senhora Banderas e Patrick Swayze.

Vivendo no Limite é um filme estranho que eu deliberadamente evitei quando passou nos cinemas. Mas é um bom filme, embora eu tenha saído da sala numa cena mais brava. Como naquela mensagem que roda pela Internet exortando todos a agradecerem por não trabalharem numa fábrica de supositórios que garante que seus produtos são previamente testados, depois de assistir a este filme também nos sentimos compelidos a dar graças por nosso próprio trabalho. Já pensou trabalhar como paramédico de madrugada num bairro marginal de uma grande cidade? E Nicolas Cage é simplesmente o máximo! É angustiante. É um filmaço.

E ainda faltam meia tarde, uma noite e uma madrugada para acabar o final de semana.

28.9.01


O MITO DA CAVERNA


Platão expôs o mito da caverna no Livro VII da República, onde ele trata o tema da formação do ser humano. A principal obra de Platão tem a forma de um diálogo imaginário, no qual é investigada a natureza da justiça, do qual participam o filósofo Sócrates e os irmãos de Platão, Glauco e Adimanto. No Livro VII Sócrates conta a Glauco o famoso mito da caverna como um retrato da ignorância humana, que deve ser superada pela educação.


Caverna


Sócrates -- Agora imagina a maneira como segue o estado da nossas natureza relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens numa morada subterrâneas, em forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância, de perna e pescoço acorrentados, de modo que não podem mexer-se nem ver senão o que está diante deles, pois as corrente os impedem de voltar a cabeça; a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascendente. Imagina que ao longo dessa estrada está construído um pequeno muro, semelhante às divisórias que os apresentadores de títeres armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas.

Glauco -- Estou vendo.

Sócrates -- Imagina agora, ao longo desse pequeno muro, homens que transportam objetos de toda espécie, que o transpõem: estatuetas de homens e animais, de pedra, madeira e toda espécie de matéria; naturalmente, entre esses transportadores, uns falam e outros seguem em silêncio.

Glauco -- Um quadro estranho e estranhos prisioneiros.

Sócrates -- Assemelham-se a nós. E, para começar, achas que, numa tal condição, eles tenham alguma vez visto, de si mesmos e de seus companheiros, mais do que as sombras projetadas pelo fogo na parede da caverna que lhes fica defronte?

Glauco -- Como, se são obrigados a ficar de cabeça imóvel durante toda a vida?

Sócrates -- E com as coisas que desfilam? Não se passa o mesmo?

Glauco -- Sem dúvida.

Sócrates -- Portanto, se pudessem se comunicar uns com os outros, não achas que tomariam por objetos reais as sombras que veriam?

Glauco -- É bem possível.

Sócrates -- E se a parede do fundo da prisão provocasse eco, sempre que um dos transportadores falasse, não julgariam ouvir a sombra que passasse diante deles?

Glauco -- Sim, por Zeus!

Sócrates -- Dessa forma, tais homens não atribuirão realidade senão às sombras dos objetos fabricados?

Glauco -- Assim terá de ser.

Sócrates -- Considera agora o que lhes acontecerá, naturalmente, se forem libertados das suas cadeias e curados da sua ignorância. Que se liberte um desse prisioneiros, que seja ele obrigado a endireitar-se imediatamente, a voltar o pescoço, a caminhar, a erguer os olhos para a luz: ao fazer todos estes movimentos sofrerá, e o deslumbramento impedi-lo-á de distinguir os objetos de que antes via as sombras. Que achas que responderá se alguém lhe vier dizer que não viu até então senão fantasmas, mas que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, vê com mais justeza? Se, enfim, mostrando-lhe cada uma das coisas que passam, o obrigar, à força de perguntas, a dizer o que é? Não achas que ficará embaraçado e que as sombras que via outrora lhe parecerão mais verdadeiras do que os objetos que lhe mostram agora?

Glauco -- Muito mais verdadeiras.

Sócrates -- E se o forçarem a fixar a luz, os seus olhos não ficarão magoados? Não desviará ele a vista para voltar às coisas que pode fitar e não acreditará que estas são realmente mais distintas do que as que se lhe mostram?

Glauco -- Com toda a certeza.

Sócrates -- E se o arrancarem à força da sua caverna, o obrigarem a subir a encosta rude e escarpada e não o largarem antes de o terem arrastado até a luz do Sol, não sofrerá vivamente e não se queixará de tais violências? E, quando tiver chegado à luz, poderá, com os olhos ofuscados pelo seu brilho, distinguir uma só das coisas que ora denominamos verdadeiras?

Glauco -- Não o conseguirá, pelo menos de início.

Sócrates -- Terá, creio eu, necessidade de se habituar a ver os objetos da região superior. Começará por distinguir mais facilmente as sombras; em seguida, as imagens dos homens e dos outros objetos que se refletem nas águas; por último, os próprios objetos. Depois disso, poderá, enfrentando a claridade dos astros e da Lua, contemplar mais facilmente, durante a noite, os corpos celestes e o próprio céu do que, durante o dia, o Sol e sua luz.

Glauco -- Sem dúvida.

Sócrates -- Por fim, suponho eu, será o sol, e não as suas imagens refletidas nas águas ou em qualquer outra coisa, mas o próprio Sol, no seu verdadeiro lugar, que poderá ver e contemplar tal qual é.

Glauco -- Necessariamente.

Sócrates -- Depois disso, poderá concluir, a respeito do Sol, que é ele que faz as estações e os anos, que governa tudo no mundo visível e que, de certa maneira, é a causa de tudo o que ele via com os seus companheiros, na caverna.

Glauco -- É evidente que chegará a essa conclusão.

Sócrates -- Ora, lembrando-se de sua primeira morada, da sabedoria que aí se professa e daqueles que foram seus companheiros de cativeiro, não achas que se alegrará com a mudança e lamentará os que lá ficaram?

Glauco -- Sim, com certeza Sócrates.

Sócrates -- E se então distribuíssem honras e louvores, se tivessem recompensas para aquele que se apercebesse, com o olhar mais vivo, da passagem das sombras, que melhor se recordasse das que costumavam chegar em primeiro ou em último lugar, ou virem juntas, e que por isso era o mais hábil em adivinhar a sua aparição, e que provocasse a inveja daqueles que, entre os prisioneiros, são venerados e poderosos? Ou então, como o herói de Homero, não preferirá mil vezes ser um simples lavrador, e sofrer tudo no mundo, a voltar às antigas ilusões e viver como vivia?

Glauco -- Sou de tua opinião. Preferirá sofrer tudo a ter de viver dessa maneira.

Sócrates -- Imagina ainda que esse homem volta à caverna e vai sentar-se no seu antigo lugar: não ficará com os olhos cegos pelas trevas ao se afastar bruscamente da luz do Sol?

Glauco -- Por certo que sim.

Sócrates -- E se tiver de entrar de novo em competição com os prisioneiros que não se libertaram de suas correntes, para julgar essas sombras, estando ainda sua vista confusa e antes que seus olhos se tenham recomposto, pois habituar-se à escuridão exigirá um tempo bastante longo, não fará que os outros se riam à sua custa e digam que, tendo ido lá acima, voltou com a vista estragada, pelo que não vale a pena tentar subir até lá? E se alguém tentar libertar e conduzir para o alto, esse alguém não o mataria, se pudesse fazê-lo?

Glauco -- Sem nenhuma dúvida.

Sócrates -- Agora, meu caro Glauco, é preciso aplicar, ponto por ponto, esta imagem ao que dissemos atrás e comparar o mundo que nos cerca com a vida da prisão na caverna, e a luz do fogo que a ilumina com a força do Sol. Quanto à subida à região superior e à contemplação dos seus objetos, se a considerares como a ascensão da alma para a mansão inteligível, não te enganarás quanto à minha idéia, visto que também tu desejas conhecê-la. Só Deus sabe se ela é verdadeira. Quanto a mim, a minha opinião é esta: no mundo inteligível, a idéia do bem é a última a ser apreendida, e com dificuldade, mas não se pode apreendê-la sem concluir que ela é a causa de tudo o que de reto e belo existe em todas as coisas; no mundo visível, ela engendrou a luz; no mundo inteligível, é ela que é soberana e dispensa a verdade e a inteligência; e é preciso vê-la para se comportar com sabedoria na vida particular e na vida pública.

Glauco -- Concordo com a tua opinião, até onde posso compreendê-la.


Oh, Senhor!
Por que será que ninguém comenta as coisas que escrevo aqui? Por que ninguém fala comigo? Será que eu tenho mau hálito virtual?


Quem souber cantar que cante,
Quem souber tocar que toque,
Quem puder gritar que grite
Quem tiver apito apite
Faça esse mundo acordar

(Lupicínio Rodrigues)

27.9.01

O Erê
(Toni Garrido/ Da Gama/ Lazão/ Bino/ Bernado Vilhena)


Pra entender o Erê
Tem que tá moleque
Tem que conquistar alguém
E a consciência leve

Há semanas em que tudo vem
Há semanas que é seca pura
Há selvagens que são do bem
A sequencia do filme muda

Milhões de anos luz podem curar
O que alguns segundos na vida podem representar
O Erê, a criança, sincera convicção
Fazendo a vida com o que o sol nos traz

Você sabe
Um sentimento não trai
Um bom sentimento não trai

Pra entender o Erê
Tem que tá moleque
Tem que conquistar alguém
E a consciência leve

Pare e pense no que já se viu
Pense e sinta o que já se fez
O mundo visto de uma janela
Pelos olhos de uma criança

**********

Viva São Cosme e São Damião!
Que a Desatadora remova os nódulos de gordura que vou cultivar ao dividir o conteúdo dos saquinhos com o moleque...




O show do Marco Suzano na terça-feira no SESC Copacabana foi simplesmente maravilhoso. O homem é o máximo. Faz miséria com um pandeiro. Teve ainda as participações especialíssimas de Jorginho do Pandeiro e de Celsinho Silva. O programa de música instrumental às terças continua em outubro. O próximo e Altamiro Carrilho. Programa dos melhores da cidade, ainda mais com ingressos a R$10,00.

Ainda pude ver alguns rostos especialíssimos na platéia, com o Moska (que não assina mais Paulinho) e a minha amada idolatrada, salve-salve Fernandinha Abreu.

Aliás o deleite com a Fernanda continuou ontem, assistindo ao Ensaio Geral no Multishow. Além da musa, ainda apareceram no programa nada mais nada menos que Chico, Benjor, Lobão, Lenine, Pedro Luís e Gerson King Combo. Delícia das delícias!



Quatro anos hoje :-(

Epílogo

Helena foi, de repente, arrebatada por um desconforto crescente. Aquilo que ela detectou nos olhos de João lhe pareceu comum e era completamente diferente do que via no rosto de Fred. Se Fred demonstrava carinho, desejo e admiração, o que era tudo aquilo com que convivera por toda a vida? Ela observou as pessoas a sua volta que a encaravam, como sempre. Estava muito perturbada. Quis ir embora.

A noite foi terrível, com insônia entremeada por pesadelos. Helena sentia-se despertando de um sonho bom para uma realidade tosca. Entretanto não conseguia divisar que realidade era esta.

Quando seu irmão chegou em casa vindo do treino no final da manhã, viu pela porta entreaberta que ela estava apenas de calcinha e sutiã diante da parede de espelho do seu quarto. Ia seguindo seu caminho.

- Mano!?
- Oi!
- Vem aqui um pouquinho...
- Tudo bem? Aconteceu alguma coisa?
- Não. Senta aí... Eu estive pensando em algumas coisas e queria que você me desse a sua opinião. Você acha que eu deveria fazer um tratamento ortodôntico?
- Bem... Você sabe que primeiro devia cuidar da sua respiração. Se você continuar respirando mal, pela boca...
- Isso mesmo! Sabe? Eu podia aproveitar a cirurgia de correção de desvio de septo para dar um jeito no nariz, né?
- Eu gosto do seu nariz. Ele tem personalidade.
- Mas aí o queixo ia sobressair... Bom, eu podia dar um jeito nisso também...
- O que está acontecendo com você, maninha?
- Sei lá... Eu queria mudar algumas coisas... Uma aluna minha da academia operou as orelhas e voltou prá casa no mesmo dia. E nem foi tão caro... Acho que ia ficar bem melhor se as minhas orelhas não aparecessem debaixo do cabelo. Talvez um permanente ajudasse a criar mais volume também...
- Ih! Relaxa... A gente gosta de você do jeitinho que você é.
- É mesmo? E prótese de silicone nos seios? A da mãe ficou tão linda! E um implante para aumentar o bumbum?
- Gente! Esse exercício de imaginação de auto-mutilação pelo jeito não vai terminar nunca. Olha aqui: eu vou para o meu quarto, que eu ainda tenho muito o que fazer, tá? E se você quer saber, acho você não devia procurar um cirurgião plástico não. Procura um ginecologista que isso deve ser TPM.
- Grosso! Tem certas coisas que a gente só pode conversar com outra mulher mesmo. Homem não entende nada...

Quando Fred chegou, logo percebeu que a namorada estava acabrunhada. Teve que insistir muito antes que ela começasse a dar pistas sobre o que estava acontecendo.

- Aquele seu amigo ontem...
- Eu sabia! Eu sabia que isso ia dar problema...
- Viu só? Então, deixa...
- Deixa nada! É melhor você falar o que está te incomodando prá gente tentar resolver logo.
- É que eu fiquei curiosa com as coisas que ele falou. Sua coleção... Você nunca me falou que fazia uma coleção...
- E não faço. É por isso que eu não gosto de badalação. Tem muita gente boba circulando por aí. Este cara é um deles.
- Do que é que ele estava falando, então?
- Deixa prá lá...
- Foi você que disse que a gente tinha que conversar para resolver...
- Verdade... Bom, ele faz parte de uma turma que eu conheço há muito tempo, desde a época do segundo grau, quando eu comecei a namorar a Sílvia. A gente se encontrou por causa de uma tragédia. Eu estava passando quando ela foi atropelada. Fui eu que chamei a ambulância, que liguei para os pais dela, que fui com ela para o hospital. A gente ficou amigo e eu ia visitar sempre. O pai dela trabalhava como louco para fugir do drama da filha, a mãe só sabia chorar. Fui que acabei assumindo o papel de acompanhante dela nas sessões de fisioterapia, de terapia... Era comigo que ela desabafava sobre o namorado que tinha sumido... A amizade acabou virando namoro. Eu ficava com ela quase o tempo todo. Era difícil. Às vezes ela ficava muito deprimida... Ela demorou quase dois anos para passar da cadeira de rodas para as muletas e mais outro ano para livrar-se delas. Quando tudo ficou bem, o ex-namorado reapareceu e... Bom, eu aproveitei uma chance que apareceu e fui estudar por um tempo no Canadá. Deve ter sido nesta época que você conheceu minha irmã e por isso a gente não se conheceu. Lá eu conheci a Anna. A gente chegou a pensar em se casar, mas eu não queria morar o resto da vida naquele frio. Eu sou um bicho tropical, você sabe... Ela ficou com medo de vir para cá e sofrer com o sol...
- Por quê? Ela não gostava de calor?
- Ela é albina. Aí eu voltei sozinho e acabei conhecendo a Júlia. A gente ficou junto um tempo, mas eu não consegui mais acompanhar o ritmo e a animação dela depois que ela fez o transplante de córnea. O João e a turma dele começaram a pegar no meu pé quando eu comecei a namorar a Lili. Ela praticava boxe e era bem forte e eles diziam que era melhor eu andar na linha senão ela ia acabar me mandando para a enfermaria. Quando me viram com a Arlete, então... Foi um escândalo. Mas o negócio com a ela não durou muito. Ela perdeu mais de cinqüenta quilos com a cirurgia de redução do estômago e só queria saber de malhar, de fazer trilha ecológica, de escalar a Pedra da Gávea e eu queria sossego.
- Tá! Pára de falar das suas ex que eu já estou ficando com ciúmes! Nem lembro mais porque você está me contando tudo isso. Ah, era a tal coleção, né? Quer saber? Deixa prá lá que eu não estou entendendo o que uma coisa tem a ver com outra e já estou ficando com vontade mesmo é de dar uma volta. Vamos pegar um cineminha?
- Eu prefiro um lugar onde eu possa ficar olhando para você...
- Tudo bem... Vamos ver o pôr-do-sol no Arpoador, então.

E Helena nunca mais pensou em cirurgia plástica

25.9.01

Capítulo II

Era a festa de inauguração de uma nova academia de dança. Uma colega dos velhos tempos era a proprietária e enviou o convite para Helena. Ela não perdia nenhum evento social. Adorava ver e ser vista. Gostava muito de conversar com as pessoas, em especial aquelas que pertenciam ao seu mundo.

Por algum motivo que ela desconhecia, caprichou mais do que o normal na própria produção. Antes de sair conferiu o resultado no espelho e aprovou.

Chegou um pouco atrasada, o lugar já estava cheio de gente e ela tentava chegar à anfitriã, mas parava aqui e ali para cumprimentar um e outro conhecidos. Ela era muito popular. Ninguém jamais esquecia seu nome ou seu rosto.

Finalmente, alcançou a amiga e congratularam-se com entusiasmo. Helena estava realmente feliz com a realização do sonho da companheira e por estar ali, em seu habitat natural, cercada de gente, espelhos e barras.

- Eu quero muito que você conheça o meu irmão, disse a amiga. Fred, ô Fred, vem cá. Quero te apresentar à Helena, aquela minha colega dos tempos da escola de dança, que eu te falei. Helena, este é o Fred, meu irmão.

O olhar de Fred incomodava Helena. Era diferente dos olhares a que estava acostumada. Ele olhava para a sua boca enquanto ela falava. Helena tentava desvencilhar-se dele e ele continuava um assunto sem pé nem cabeça. Perdia-se no seu decote. Ela disse que ia pegar alguma coisa para beber e ele segurou o garçom pelo braço e perguntou o que ela ia querer. Entregou-lhe o copo de vinho branco e conduziu-a até uma das mesas. Observou discretamente o caimento de sua saia enquanto ela cruzava as pernas.

- Você é amiga da mana há muito tempo?
- Continua trabalhando com balé?

Ela estava assustada.

- Desculpa, mas preciso mesmo falar com algumas pessoas. A gente se fala mais depois, tá?

Ela levantou-se e começou a andar para longe dele. Ele alcançou a mão dela e disse que só deixaria que ela se perdesse na multidão depois de lhe autorizar a pegar o número de seu telefone com a irmã. Ela não tinha experiência com estas coisas. Concordou e saiu quase correndo.

Ele ligou no dia seguinte. E no outro e no outro e outros mais até que ela concordasse em encontrar-se com ele. Era preciso que se conhecessem melhor, ele dizia. Helena foi perdendo o medo e conhecendo um outro tipo de sentimento que ela ainda não conseguia entender o que era. Ele, sem a presença física e aquele olhar, não era tão assustador, afinal. Conversava sobre coisas interessantes e era bem gentil. E era irmão de uma de suas amigas mais antigas. Não havia o que temer, tranqüilizava-se.

Ela queria ir ao cinema, mas ele insistiu que fossem a algum lugar onde pudessem conversar.

Na verdade, eu queria um lugar onde pudesse olhar bem para você, ele disse quando finalmente se encontraram. Ela começou a ficar assustada de novo, mas ele logo percebeu. Disse que ela não precisava ter medo. Ele só estava encantado por ela. Ela era perfeita. Ela era maravilhosa.

Helena nunca tinha ouvido nada parecido com tanta sinceridade. Ele parecia realmente gostar dela. E conversa seguiu leve. Ela estava se sentindo à vontade com ele. Riram juntos. Ele contou uma versão resumida de sua história e prestou bastante atenção quando ela contou a dela.

Quando chegaram à porta da casa dela ele inclinou-se para dar-lhe um beijo. Ela virou o rosto, sem jeito. Ele perguntou por que não e ela respondeu que não sabia. Helena nunca tinha sido beijada antes.

Ela pensou que depois disso ele jamais a procuraria novamente, porém outros telefonemas vieram e eles se encontraram novamente. Ele trouxe flores. Ele disse que queria namorá-la. Ela jamais poderia sonhar com homem mais romântico. Ela contou que jamais havia namorado. Ele disse que não entendia o que os outros rapazes tinham na cabeça, que ficaria muito honrado em ser seu primeiro namorado. Ela viveria mil anos e jamais esqueceria a sensação daquele beijo. Ela estava apaixonada.

Fred seguia o roteiro dos sonhos de Helena. Ele era muito carinhoso e paciente com as resistências dela. Sabia ouvi-la. Sabia encantá-la. Sabia conquistar seu coração.

Três meses transcorreram desde o primeiro encontro. Ele fez o convite. Ela já estava tomando pílula há um mês. Foi mais lindo do que ela jamais imaginara.

O tempoia passando e ela estranhava o fato de sempre estarem sozinhos. Eles não saiam com outros casais e ele jamais falava sobre seus amigos. Ela imaginava que ele devia gostar de ficar o tempo todo com ela, sem ninguém para atrapalhar. Entretanto, sentia falta de estar com outras pessoas em festas e lugares da moda, como era seu hábito antes de conhecê-lo. Insistiu tanto nisso, que depois de algum tempo, mesmo sob protestos, ele acabou cedendo.

Foram a uma casa noturna que tinha aberto suas portas recentemente e já atraía aquela turma de que ela gostava tanto. Ao contrário do habitual, ele não estava segurando sua mão, nem mantinha o braço sobre os ombros dela. Aqui está cheio demais e ele quer me deixar livre para circular, ela pensou. Encontrou muitos conhecidos e ficou contente em estar de novo em circulação. Era bom estar em contato com aquele ambiente novamente.

- Você não conhece ninguém por aqui, tchutchuquinho?
- Por enquanto não vi ninguém conhecido.

Neste instante alguém tocou o ombro dele e ele virou-se.

- E aí, campeão? Há quanto tempo! Como é que estão as coisas, Fred? Você anda sumido, cara! Garimpando mais alguma peça para a sua coleção?
- Tudo bem. Esta aqui é a Helena. Helena, este é o João.

O amigo de Fred lançou sobre ela o olhar familiar, aquele que o namorado quase a fizera esquecer que existia. Estava visivelmente alcoolizado e conquistou de imediato a antipatia da moça. João sorriu e piscou para o amigo. Aproximou-se do ouvido, mas falou tão alto que ela pode ouvir:

- Você não tem jeito, né?

E afastou-se.

Helena ficou curiosa com a observação de João. E que coleção era essa que Fred jamais mencionara?


O trabalho de casa pedia que ele recortasse ilustrações de algumas profissões que ele conhecesse.

- Mãe, presidente é profissão?

- É.

- Então posso colocar aqui uma foto do Fernando Henrique?

- Pode. Deixa eu ver as outras figuras que você escolheu.

Diante de fotos do presidente da república, do papa, de Schumacher comemorando mais um grande prêmio e da Júlia Roberts recebendoum Oscar, pensei que é de pequeno que se pensa grande.

24.9.01

Foi estranho...

Depois de AI fiquei com um nó na garganta, um desconforto, mas não chorei. Eu sou chorona, mas o filme não me tocou o coração. Minha leitura foi mais cerebral mesmo.

Então ontem finalmente assisti a Dançando no Escuro e aí voltei a cachoeira lacrimal normal. Que coisa angustiante! Ui, ui, ui! O filme é ma-ra-vi-lho-so, mas eu fiquei me sentindo mal, enjoada... Não teve remédio, para rebater tive que apelar, pegar pesado e encarar um Jim Carey em Eu, Eu Mesmo e Irene. Eu nem sou o tipo que curte piada escatológica, grosseria e violência gratuita, mas precisava tanto dar uma risada, relaxar, soltar a franga que até me diverti bastante. Apesar das caretas, muitas vezes exageradas e dispensáveis, eu gosto do Jim Carey. Que bom que ele não fica só nisso e já mostrou do que é capaz em filmes como No Mundo da Lua e Show de Truman. No filme que vi ontem tem uma cena em que ele mostra um enorme talento em expressão corporal, simulando uma cena de luta consigo mesmo, recebendo e perpetrando golpes e jogando(se) para dentro de um carro.

Ruim de aturar mesmo foi a sua aparição naquele programa em cadeia mundial pelos heróis da catástrofe norte-americana. A idéia é boa, mas o resultado destas coisas é sempre meloso e cafona. E o Jim Carey fazendo aquela cara me fez pensar que ele só não é bom tentando criar um personagem diferente para ele mesmo.





[De maniqueu + -ismo; fr. manichéisme.]
S. m.
1. Filos. Doutrina do persa Mani ou Manes (séc. III), sobre a qual se criou uma seita religiosa que teve adeptos na Índia, China, África, Itália e S. da Espanha, e segundo a qual o Universo foi criado e é dominado por dois princípios antagônicos e irredutíveis: Deus ou o bem absoluto, e o mal absoluto ou o Diabo.
2. P. ext. Doutrina que se funda em princípios opostos, bem e mal.

Num de seus primeiros discursos sobre os atentados e as possíveis reações norte-americanas, o presidente George W. Bush disse a seguinte frase: "Esta é uma GUERRA do BEM contra o MAL".

A partir daí o mundo inteiro percebeu que não haveria uma solução justa, com busca, apreensão, julgamento e condenação dos culpados. Ao invés disto teríamos guerra. Pouco importava que não houvesse então (e ainda agora) provas inquestionáveis sobre quem era o inimigo. Considera-se detalhe insignificante o fato de o FBI ter divulgado pelo menos dois nomes errados na lista dos terroristas que teriam sequestrado, pilotado e arremessado os aviões. Quem ousa colocar em dúvida todo o processo de investigação e chamá-lo de viciado? Quem ousa questionar a satisfação da indústria bélica norte-americana que ajudou a eleger (como foram mesmo as eleições?) este presidente?

Diante da afirmação de que os EUA eram o bem algumas pessoas começaram a pensar: será? Surgiram aí os primeiros textos que questionavam o fato de os yankees estarem quietinhos em seu canto e serem uma nação pacífica. Estavam mesmo? Eram mesmo? Então quem seriam aqueles que apoiavam Israel? Quem teria treinado e apoiado o talibã? Quem armou Sadam? Quem são os que estão matando árabes nas ruas de suas cidades em atitude revanchista? De onde vem o calamor pela guerra (desde que ela não aconteça em seu território)?

Então a coisa ficou assim:

primeiro momento: choque mundial com ínfimas manifestação de alegria
segundo momento: questionamento internacional
terceiro momento: estamos culpando as vítimas?

Creio que não. Só estamos exercitando a capacidade de fugir de maniqueísmos. Matar milhares de inocentes norte-americanos e de mais de 60 nacionalidades e deplorável, inaceitável, horrível e todos os outros nomes que conseguirmos imaginar para a nossa indignação. E matar milhares de inocentes afegãos ou de qualquer outro país árabe é aceitável? Por quê? Por que a vida ocidental vale mais que a dos filhos do Islã? Seu sangue não é vermelho? Não são também pais, filhos, cônjuges, amigos? Não querem apenas viver feliz e seguros?

Se o Islã produz Bin Laden, o ocidente produz McVeigh, Unabomber, Marcinho VP, Jader Barbalho, ACM e Fernandinho Beira-mar. Vamos bombardear o mundo inteiro? Não são todos norte-americanos que estão nas ruas espancando árabes, certo? Também não são todos os mulçumanos que querem o fim da civilização ocidental.

Onde está o maniqueísmo?


23.9.01


Ontem fui ver AI. Muito melhor se eu tivesse comparecido à pré-estréia, quando estive em LA há pouco mais de um mês, vinda de NY. Seriam olhos mais puros, que não se chocariam tanto com a ilusão de torres gêmeas sobrevivendo ao tempo e a pelo menos duas hecatombes. Seria mais fácil digerir a necessidade humana de circo de morte, a busca incessante por culpados pela infelicidade e irreversibilidade do fim...

Hoje recebi um e-mail da Casa Branca. Claro que foi um auto-responder, mas me deu a certeza de que os links abaixo entregam a correspondência no endereço correto. A campanha pela paz continua. Neste momento está acontecendo um movimento em torno da Lagoa Rodrigo de Freitas e no dia 25 às 12:00 haverá uma manifestação ecumênica no Saara (centro de comércio popular no centro do Rio).

21.9.01




Capítulo 1

Todos na família de Helena eram belos. A mãe mantinha uma loja de roupas, que, de alguma forma, lhe dava a confortável impressão de que não havia abandonado de todo a vida de modelo de outrora. O irmão era um atleta de renome, assediado tanto por seu talento quanto por sua aparência que despertava paixões nas mocinhas em tempestade hormonal. Com o pai Helena não tinha muito contato, desde que ela deixara a família para unir-se a uma jovem que, na época, tinha metade de sua idade.

Helena atraía olhares por onde quer que passasse. Ninguém ficava indiferente a ela. Com o tempo ela aprendeu a lidar com pescoços torcidos e olhares perplexos. Helena era incrível e irremediavelmente feia.

A mãe que sonhara com uma bonequinha para reviver seus próprios passos não deixou-se abater por esta adversidade. Desde cedo a menina foi matriculada em cursos de modelo e no balé. Se alguém esboçasse alguma crítica a mãe tinha a resposta na ponta da língüa e aos poucos Helena aprendeu a repeti-la: tinham inveja do seu talento.

Não era de todo mentira. O que lhe faltava em graça e beleza ela compensava com uma técnica irrepreensível. Além disto, era uma pessoa de trato agradável e muito simpática. Assim, aos dezoito anos começou a ensinar seus ofícios sem jamais ter conseguido qualquer contrato ou convite para exercê-los, exceto nos eventos promovidos pela própria mãe.

Helena nunca tivera um namorado. Ninguém estranhava quando ela dizia isto. Estava na cara. Mas havia aprendido bem a lição com mãe e repetia que era muito exigente. As pessoas se entreolhavam. Havia um agravante: os rapazes, principalmente os amigos dos irmãos, consideravam que ela era carta definitivamente fora do baralho e permitiam-se brincar com ela como se ela fosse café-com-leite. Gracejavam, simulavam convites e olhares apaixonados, como em casa fariam com uma tia idosa ou alguém que se visita no hospital. Achavam-se divertidos e imaginavam que ela jamais poderia levar aquilo a sério. Mas ela levava. E diante do recuo quando fazia menção de retribuir as atenções afirmava que os meninos de hoje não queriam compromisso de verdade.

O irmão não interferia nestes assuntos. Agia naturalmente, como se nada fosse. Silenciosamente compactuava com o jogo das mulheres da família. Se mesmo os estranhos, apreciando o bom gênio da irmã, poupavam-na de um confronto com a realidade, por que ele, sangue do seu sangue, deveria despertá-la de sua fantasia?

Assim, a jovem seguiu com sua auto-imagem distorcida até que...

Como quase todo mundo, já fui submetida a testes de QI. Nunca soube resultados numéricos, mas sei que estou alguns pontinhos acima da minha xará ex-Tchan.

Estou falando isso porque me passou pela cabeça que se descobrissem algumas das minhas preferências, como esta, minha (questionável) reputação ficaria comprometida.

20.9.01


Ontem meu amo e senhor me presenteou, colocando para tocar a canção que eu precisava ouvir. Hoje, a Fer cantou "Take me to the River" e me fez lembrar daquele peixinho que começa a cantar quando a gente passa por ele. Além desta música, o simpático ser da água canta meu mantra, o melhor presente que eu poderia ter recebido ontem.

Há ainda motivos para sorrir. Eis um deles:


PP


Esta criaturinha chegou ontem da escola dizendo que tinha uma surpresa para a hora de dormir. Ao contrário de nossa rotina, ontem foi ele quem leu um livro para mim. Quanto orgulho eu senti dele! Como fico feliz em ver o seu sorriso largo, onde já está faltando um dentinho! Que venham muito mais lágrimas de alegria!

19.9.01


Mais um endereço importante: Shared Voice.

Chega uma hora em que não podemos nos enfiar embaixo da cama para esperar o desastre. Se o sistema em que vivemos tem algum mérito é o de permitir que todo e qualquer cidadão expresse suas opiniões. Nós, que amamos a paz, nos chocamos com os atentados, mas discordamos veementemente das medidas de guerra que estão sendo tomadas. Defendemos a prisão e julgamento dos agressores, mas não concordamos com o extermínio de milhares de civis inocentes que vem sendo anunciado.

Marília, uma amiga virtual, começou a pedir informações sobre sites onde pudesse manifestar o repúdio à guerra. A Fer surgiu com algumas sugestões. Recomendo a todos que visitem os links abaixo, deixem suas assinaturas e/ou opiniões e repassem para o maior número possível de pessoas.

1 - Working for Change - é uma carta para o presidente Bush solicitando uma solução pacífica.
2 - Café Utne - fórum e debate
3 - 9-11 Peace - Vamos romper o ciclo de violência
4 - Petição aos líderes mundiais contra a guerra - em português, espanhol, inglês, francês, italiano e alemão.

17.9.01

Uma urgência toma conta de mim.
Padeço com a sofreguidão dos que se despedem.
Demoro um pouco mais nos abraços.
Declaro meu amor com mais freqüência.
Faço ouvidos moucos para os agravos.
Danço a Macarena tendo a Baía da Guanabara como cenário e tomo chopp com amigos novos e de décadas.
Sorrio para todos na rua.
Estou tirando as manchas daquela camiseta pacifista e me engajando em todo e qualquer movimento pela paz.

Ando tão à flor da pele que até uma música antiga do Rei me faz chorar.

14.9.01



Minha tia-avó faleceu ontem. Viveu uma vida feliz e parte quando já chegava aos noventa. Construiu uma família sólida e unida. Viu filhos, netos e bisnetos seguirem seus caminhos em paz. Nossa saudade é tranqüila.

Entretanto, minha madrinha, sua filha, não poderá lhe prestar pessoalmente as últimas homenagens. Nem minha prima ou seus filhos. Nem meu primo e os bisnetos que gerou para aquela que era a mais velha de nossa família. Estão todos nos EUA, alguns a passeio, outros residentes, alguns bem perto de onde aconteceu parte da tragédia, outros mais distantes. Todos tomados como reféns do terror.

Tristeza...

Mas em meios aos telefonemas familiares que informam horários e locais, a notícia: minha irmã do meio está novamente grávida.

Alegria e esperança.

A vida segue. Cíclica.


13.9.01

LOUCURA NÃO SE CURA COM MAIS LOUCURA

Outro dia comentava num grupo de amigos sobre o desejo revanchista de alguns ao presenciarem um crime hediondo. Defendia-se a pena de morte. São os mesmos que hoje defendem uma declaração de guerra, antes mesmo de saberem quem são os inimigos. Creio que nada melhora ao nos igualarmos aos criminosos.

Quando falo isso não defendo a impunidade. Não mesmo! Os crimes devem ser punidos com justiça. E justiça não é olho por olho dente por dente. Hoje no jornal leio que se houver retaliação, haverá re-retaliação e em breve não haverá olhos suficientes. Assim vejo. Matar um assassino não trará a vida perdida de volta. Apenas aplacará uma necessidade de vingança.

Perdão também não significa impunidade. O caso há algumas semanas na revista Veja sobre pai que ajuda o presídio onde os seqüestradores e assassinos de seus filhos estão detidos é um bom exemplo. Ele não defende que estas criaturas sejam
postas em liberdade, apenas conseguiu, com muito trabalho e exercício racional e de amor, retirar o ódio de seu coração. Se assim não tivesse sido, como ele mesmo declarou, poderia ter atentado contra os criminosos e alavancaria outra série de desgraças, sendo ele mesmo preso, deixando desamparadas a mulher e as filhas.

O sentimento de vingança, além de não repor o que foi perdido, geralmente volta-se contra seu agente, corroendo e envenenando, não raro desencadeando ainda mais desastres.

Ontem vi fotos de ruas de Nova Iorque. Pixações diziam: Matem os árabes. Cartazes exigiam um ataque ao Afeganistão. Nada disso trará de volta as dezenas de milhares de vidas perdidas e ainda causará a morte de outros tantos. Os culpados devem ser descobertos e punidos exemplarmente. Mas devemos estar atentos para este sentimento generalizado de ódio que cresce
contra o Islã, que abriga em seu seio milhões de humanos que nada têm a ver com toda esta monstruosidade.

Não podemos deixar de lembrar da lei da causa e efeito. É preciso recordar que o Talibã foi posto no poder pelos EUA e que o Iraque armou-se até os dentes com ajuda norte-americana, o apoio incondicional a Israel... Talvez os que comemoram hoje os ataques terroristas encontrem respaldo para esta insanidade em injustiças acumuladas por décadas. Eles estão certos? Não, não e não. Assim como não seremos justos ao apoiarmos uma retaliação que até o momento nem alvo definido tem.

Para concluir e enfatizar minha linha de raciocínio, vamos fazer um exercício de imaginação e supor que, como no atentado de Oklahoma, os responsáveis sejam cidadãos americanos. Seria apoiado com tanto imediatismo e naturalidade o bombardeio ao estado em que eles nasceram e foram criados?

10.9.01



Vou te contar...

Ando sem paciência para certas coisas mínimas porque toda a (pouca) tolerância que eu arianamente tenho tem sido desviada para determinados aspectos da minha vida.

Frescura é uma destas pequenas coisas. Geralmente levo na brincadeira até porque sou um depósito de pequenas frescuras, mas tenho tido ímpetos de jogar na lata: meu filho, vai capinar um quintal ou virar um concreto.

Ando muito a fim de proferir frases não muito elegantes que começam com "vai prá..."

Tenho me sentido tentada a cuspir em cima de uns e outros os sapos que estas criaturas, sempre com as intenções mais nobres (como não poderia deixar de ser) andam querendo me fazer engolir.

Começo a desconfiar que o modelão que eu adotava antes, aquele de não levar desaforo para casa, precisa ser revisitado. Às favas o equilíbrio e a sobriedade da maturidade. Estou pelas tampas com este povo manipulador.

Já estou montada: saia rodada, tamancão e mãos nas cadeiras. O próximo a investir, leva a primeira.

24.8.01

A SEMANA QUE NÃO EXISTIU

Deixa quieto.

Já são quatro e logo a noite chega. Vou dormir cedo e torcer para amanhecer um sábado daqueles que chutam a gente para fora da cama e de casa e vou cair nos braços de uma Lagoa ou uma Ipanema generosa e ensolarada que acena com cores e sorrisos.

Fui me deitar na noite do dia 17 e só vou acordar amanhã. Pronto! E mais: vou passar dois dias flutuando, espreguiçando, fazendo alongamento em calçadões e areias, molhando os pés em águas salgadas que lavarão qualquer resto do que quer que tenha sido esta última semana.

E A Maré Levou...

O garoto me olhou hoje com cara de cão que mijou no tapete. Tenho um instinto maternal atrapalhado com adolescentes do sexo masculino. Eles me parecem tão desprotegidos, querendo parecer machinhos e eficientes. Ele não tem culpa, claro. Ninguém tem culpa. Só senti vontade de abraçá-lo e dizer que tudo estava bem. Mas ele ia saber que eu estava mentindo. Sou uma péssima mentirosa. Então apenas sorri e as lágrimas que iam lavar suas sardas secaram. Ele entendeu, enfim.

Tudo porque eu estou no Moulin Rouge, lá no alto, num balanço coberto de flores. O mundo é vermelho e dourado e a música está alta demais, mas eu não ligo. Se alguém olhar para cima vai ver minha calcinha e minha boca escancarada. Estou com sede. Parar a brincadeira para beber alguma coisa não passa pela minha cabeça. Tenho vertigem. Aperto com força as cordas e tudo gira. Estou no carrossel. Vejo manchas onde devem estar as pessoas. O vulto dele, aquele outro, é inconfundível. Quando estou deitada aqui, sua silhueta fica ainda mais alta. E eu vou ficando cada vez mais leve. A balança confirma: eu posso voar.

É o nome de um anjo que me ronda a cabeça. Acabo falando em voz alta, mas ninguém ouve. Devem estar todos surdos. Eu piso na seda e ela vira algodão - algodão algodão, não algodão tecido. Você consegue imaginar infinitos degraus feitos de algodão bem branquinho? Então... A escada vai se apertando cada vez mais naquele espiral lá em cima e eu digo oi para o João. Ele está
voltando da casa do gigante todo carregado de ouro. Para que tanto ouro? Ouro não compra o que mais se quer.

Claro que esta ela também não ouviu. Há tempos não nos falamos. Seu telefone está sempre ocupado e eu ocupada demais para ir lá. Melhor assim. Não me lembro da última vez que nos entendemos. Falamos idiomas diferentes. Não, não é isso. Vivemos em eras diversas. Seria pior se eu ainda alimentasse ilusões.

Há um dirigível sobrevoando a costa e as ninfas aprisionaram pirilampos em caixinhas transparentes para iluminar a praia. Antes de sairmos, elas escovaram meus cabelos e aplicaram pequenas flores que não combinavam em nada comigo. Arrastei meu visual clown até as areias e lá encontrei o lord inglês. Ele me reconheceu de imediato. Nos abraçamos e choramos e rimos. Era tempo.

Só havia frutas para comer. Frutas de todos os tipos, tamanhos, cores e sabores. Frutas com gosto de infância, com cheiro doce, com nomes que não sei. Virgínia estava de pé ao meu lado e disse sim. Quando eu respondi que era cedo ainda, ela ficou triste e foi conversar com o mago, me olhando de vez em quando de soslaio. Ela gosta de jogar xadrez e eu quero brincar de pique. Um dia ela desfaz o bico e descobre que é sempre sem querer...

Manitoq fala sem parar de futebol. Agora sim tenho com quem trocar idéias interessantes. Só ele entende o que quero dizer quando passo batom na ponta do nariz. A sessão vai começar e eu perco muito tempo tentando me ajeitar na posição de lotus. Resolvo plantar bananeira e tudo começa a fazer sentido.

Amanhã...

14.8.01

Desisti de continuar falando sobre a viagem. Talvez, quando o tempo permitir, coloque umas fotos por aqui...

Mas quero mesmo ir falando do que vai acontecendo e do que deve acontecer logo. Tenho a sensação de início de ciclo, com algumas coisas importantes sendo concluídas e espaços sendo abertos para as pendências que se arrastam e muitas novidades.

Ontem chegou meu micro novo. Lindinho! Tudo fica mais fácil e rápido e é disso que preciso: lubrificação para que as coisas que já estão nos trilhos deslizem e cheguem aonde eu quero num intervalo menor e menos custoso. Também recebi o certificado de um curso que me ajudou muito, mas que já estava ficando longo demais. Vira página.

Estou reorganizando rotinas e disposições. Sacos e sacos de passado estão sendo jogados pela lixeira. Recebi um telefonema importante que talvez me ajude a recuperar ainda mais espaço.

As prioridades estão mudando. Outros relógios que se ajustem pelo meu. Acabou a fase barroca. Mas daí a me tornar parnasiana vai uma eternidade...

OS ANOS EM QUE VIVEMOS

Outro dia me peguei pensando em que década estamos.

A gente fala da música dos anos 90, do comportamento da década de 60, mas não consegui me lembrar de ninguém falando sobre a década atual. Como ela se chama?

Eu recebo diariamente um e-mail com uma palavra em inglês. É uma forma
prática e indolor de melhorar o vocabulário e, como tudo é muito bem desenvolvido, dar uma polida na cultura geral. Agora já sei a expressão proposta para batizar nossa década na língua da matriz:

aught \AWT or AHT\ (pronoun)
*1 : anything
2 : all, everything

Example sentence:
"It was too early for aught but a few dogs to notice us as we noticed birds." (Claire Gerber, _The Christian Science Monitor_, January 8, 1987)

Did you know?
"For aught I know, my lord, they do," answers the Duke of Aumerle to a question from his father in Shakespeare's _Richard II_. Shakespeare didn't coin the pronoun "aught," which has been a part of the English language since before the 12th century, but he did put it to frequent use. Plenty of other literary lights have found "aught" to be a useful term over the years, too. Writers living today may be less likely to employ "aught" than were their predecessors, but the pronoun does continue to turn up occasionally. "Aught" can also be a noun meaning "zero," and in recent years the phrase "the aughts" has been bandied about as a proposed label for the decade that began in the year 2000.


Quem surgirá com uma proposta para a nossa língua?




8.8.01

ALÔ GERAL

Neste período pré, durante e pós viagem, recebi algumas visitas por aqui que fizeram a gentileza de me mandar recadinhos carinhosos e ainda não tive tempo de fazer um agradecimento público. Vai agora: alô e obrigada, pessoal!

Eu fiquei curiosa para ver a "cara" deles, mas aconteceu o seguinte:

- A página do Marcus não abre
- A do William informa que está fora do ar para troca de servidores
- A Babi esqueceu de dar o endereço

Mas consegui conhecer os escritos do Thiago e adorei seu jeito informal, sensível e de cidadão do mundo de escrever.

É muito importante para mim ler o que as pessoas que passam por aqui têm a dizer, quem são... Mantenham contato, por favor. É um prazer.

CAPÍTULO I: NEW YORK

Demorei alguns dias, depois de voltar ao Brasil, para arrumar as coisas mais urgentes e poder escrever aqui neste meu cantinho.

É bom dar um giro por aí, mas a casa da gente é um lugar encantado.

Esta viagem pelas terras yankees foi uma verdadeira maratona: muitos lugares para conhecer, muitos amigos para reencontrar, tanto para fazer e o tempo pareceu insuficiente quando o referencial era o lá e infinito quando o referencial era o aqui, onde deixamos filho, amigos, família e cacarecos de estimação.

Foi minha primeira visita ao Tio Sam. Digo que é exatamente como eu pensava: Nova Iorque é hiperbólica, São Francisco é linda e Los Angeles é uma Barra da Tijuca multiplicada por cinqüenta em todos os aspectos.

Eric foi nos buscar no aeroporto e nos levou diretamente para sua casa de praia em Fire Island. O lugar é muito bonito e tranqüilo e Eric é uma das melhores companhias que posso pensar para estar em qualquer lugar do mundo. Lá conhecemos sua nova namorada brasileira, Geysa, um doce de menina, e seu amigo Jeffrey. A ilha é fina e comprida: de um lado a baía, de outro o oceano. À noite, na área do comércio, há um espírito meio Búzios e por lá comi um cachorro-quente (só pão e salsicha) e tomei uma coca-cola por US$6,60. Esta viagem vai ser uma ótima oportunidade para experimentar a dieta indiana, pensei, aquela que segue o método Gandhi de nutrição. Depois descobri que havia escolhido a lanchonete errada. Foi num destes passeios noturnos que cruzei na rua com aquele ator que fez o namorado da Rose em Titanic. Enquanto estávamos falando com minha sogra pelo telefone, três primos do Bambi invadiram o quintal.

- Temos três veados bem aqui na nossa frente.
- Mas vocês já estão em São Francisco!?

No domingo, depois de tanto ar puro, tanta calma e relaxamento, já estávamos loucos para mergulhar no caos novaiorquino.

Foi o tempo de largamos a bagagem, tomar um banho rápido e partimos para a primeira mordida na grande maçã. O apartamento de Eric fica numa área que já foi proletária e agora caracteriza-se por uma multidão alternativa, artística. Sentamos num bar de esquina onde servia-se comida colombiana, francesa, cubana e brasileira. Típico! A garçonete era a cara da Adriane Galisteu e sabia que para nos agradar o certo era obrigada e não gracias. Foi uma festa ficar ali, vendo a banda passar, a fauna humana sortida desfilando para nós... Depois meu amo e senhor e eu fomos andar a pé para sentir de perto o clima da cidade.

Os dias seguintes foram de muito turismo, conhecimento travado com espécimes de todas as partes do mundo, passagens por points descolados que somente um habitante local poderia indicar, alguns shows, alta gastronomia (e muito hot dog suspeito) e muito calor.

Um dia estávamos indo para um show de música colombiana. Tínhamos andado o dia inteiro e fomos encontrar com Eric no escritório. Começava a chover, era hora do rush e todos os táxis estavam ocupados. Nosso amigo, com seus dois metros e dez de altura foi para o meio da rua e começou a acenar. Parou uma limusine. Bicho, o cara tem um papo que deixa qualquer carioca parecendo ingênuo... Logo logo ele fazia sinal para entrarmos no enorme carro branco. Foi divertido andar pelas ruas naquela coisa cheia de luz neon, teto estrelado e espaço para uma festa inteira. Brega, mas muito divertido.

Foram tantas aventuras como essa que fica difícil contar tudo assim de uma vez. Depois conto mais...

20.7.01

Entao ta! Vou escrever sem acentos porque nao estou no meu micro. Alias, estou bem longe dele, de cara para o Atlantico Norte, em Fire Island, NY. Chegamos hoje pela manha e tudo correu bem. Ainda estamos descomprimindo. Me aguardem.

19.7.01

"O Tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada."

Então

"Start spreading the news
I'm leaving today
I want to be a part of it
New York, New York"


Lá vou eu...

15.7.01

Quem sabe ainda sou uma garotinha...
... que acha que música tem que ter tempero...

Eu adorei o show da Cássia Eller. Muito mais contida (nunca me importei com os exageros dela, pelo contrário), com uma voz a cada dia melhor, se isso é possível, a criatura domina o palco e audiência com uma precisão rara. A impressão que eu tive foi que ela estava se segurando o tempo todo, mas de repente não agüentava e fazia o que todo mundo estava esperando: coçou o saco imaginário, cuspiu no palco, balangou os peitos, simulou rapidamente uma siririca. E como canta a diaba! Eclética, completa, perfeita... Só não vou fazer como as mocinhas que gritavam sem parar coisas como "gostosa".

Corro desta história de "grandes cantoras lésbicas" como corro da história de "ator negro". O que me cativa não é a orientação sexual, a cor da pele, o credo ou qualquer coisa que mais do que abrir portas reforça pré-conceitos. E esta história de "cantora lésbica" já me dói.

Ontem fomos à Modern Sound para comprar alguns CD's encomendados e aproveitei para comprar o primeiro CD da Ana Carolina que eu ainda não tinha. O vendedor prontamente me ofereceu também o disco da Adriana Calcanhotto. Se eu aceitasse, provavelmente ele viria com Zélia Duncan. Não vejo muita coisa semelhante entre estas três artistas. Considero o trabalho da Calacanhotto interessante artisticamente e o respeito, mas para o meu paladar falta sal. Quanto a Zélia, nunca me despertou maior interesse, apesar de sua voz bonita. Agora a Ana Carolina... O que é aquilo, gente? A mulher tem uma vibração, uma pulsação que me ganhou desde o primeiro momento e minha admiração por ela cresce a cada dia, um vício que me faz querer mais sempre. O show dela me nocauteou de vez e virei fã, coisa que não sou de ninguém desde os primeiros tempos da Legião.

Aliás, voltando ao início da conversa, Cássia faz belíssimas interpretações de algumas canções desta banda como já fez antes com a obra do Cazuza. Pensando bem, o que é que cai ali que não ganha brilho novo, mais beleza e vida?

14.7.01

Please, repeat after me:

- Brazil is not Argentina.

Thank you.

13.7.01

Soltar as amarras
Içar velas
Começar a velejar num mar de umidades
Sentir o arrepio que o vento traz
O coração batendo mais forte
Prevendo a futura experiência
Transcender ao permitido
Invadir e conquistar, aos poucos
Territórios estrangeiros, misteriosos
Deixando uma saudade quente
Por onde sua presença foi sentida
Até que a viagem termine
E só reste a certeza
De estar aportado
Em plaga segura

12.7.01

E chove gostoso...
Aquele frio que pede edredon e meu bem...
Amo tanto o vento
A essência airada
Qual minh'alma ariana
Acendo um incenso
E desato pelo ar
Minha ária sacana
Arriscando que caia
Numa terra árida
Tão arisca é ela
Até quando pálida
Pousada entre pedras
Propagará a aura
Que dia destes lustrou
E a beleza animal
Poderia se dar mal
Mas o vento ajudou


Durante a madrugada soprou um vento louco. As portas batiam nos apartamentos vizinhos, objetos eram derrubados, as cortinas requebravam e as persianas cantavam. Levantei para fechar as janelas e tive que lidar com um som de todos os espíritos do além batendo para entrar. ("I see dead people.":-)) Já que toda hora um ou outro ruído me despertava com susto, comecei a me contar histórias e fiquei num estágio intermediário entre o sonho e a vigília por muito tempo.

Tenho um repertório básico de meia dúzia de historietas que revezo nestes casos. Vou mudando alguns detalhes aqui e ali, continuo alguns episódios... Esporadicamente, alguma se torna urgente ou termina, sem que eu encontre nada para acrescentar ou modificar e então escrevo. Duas delas estão chegando a este ponto. Outra era uma ficção científica tão maluca que acabei abandonando. O Jornal Nacional informou que está prestes a se tornar realidade pelas mãos dos cientistas. Meu queixo grudou no colo. Não sei porque mantive a ilusão de ser a única lunática autêntica sobre a face da Terra.

11.7.01

A gente se vira pelo avesso para atender às necessidades dos filhos. O difícil é saber onde termina a necessidade e começam os desejos.

Tania Zagury faz uma listinha básica de dicas em seu livro Limites Sem Trauma. Ela afirma que "necessidade é algo inevitável, algo que, se não atendido, pode levar o indivíduo a ter problemas sérios no seu desenvolvimento, seja físico, intelectual ou emocional", enquanto "desejo é a vontade de possuir algo, de realizar algo, que pode ou não ser importante para o desenvolvimento. Está mais vinculado ao prazer". As necessidades seriam (em ordem inversa de importância): auto-realização, reconhecimento e prestígio, amor e afeto, segurança (física, psicológica, social) e fisiológicas (ligadas à sobrevivência).

Mas, no dia-a-dia as coisas são diferentes e não esperam que a gente consulte um guia prático para saber se aquela vontade expressa é uma necessidade de auto-realizacão ou apenas mais um fogo de palha.

Meu filho é uma criança de muito espírito. É inteligente, divertido, curioso, criativo, esperto. Estou tentando não ser coruja, hein! Ele se interessa por tudo que está à sua volta. Pratica esportes e adora as artes. Está descobrindo o mundo das letras e se orgulha dos dois livros que já leu sozinho e dos três que elaborou e ilustrou. Aliás, desenhar é um de seus maiores interesses e acho que ele tem realmente um dom para a coisa. Então, penso em inscrevê-lo em um curso de desenho. A questão é: quanta atividade extra-curricular uma criança pode absorver? A escola dele é bastante voltada para a cultura. Ele precisa de natação que alivia seus problemas respiratórios. Continua no judô, sua paixão. E ainda deseja fazer capoeira e escolinha de futebol. Eu piso no freio. Digo que é demais.

Agora apareceu um amiguinho mais velho fazendo aulas de violão. Ele está encantado com a idéia. Desencavou um velho violão que juntava poeira sobre o armário e vive com o instrumento para cima e para baixo, tirando uns acordes de free jazz :-)

Devo assumir que tenho um gênio multimídia em casa? :-) Como é que se faz para descobrir o que pode realmente ser mais adequado para ele entre tantas opções e interesses? Chuto o balde e loto a agenda dele para ver o que cansa mais rapidamente? E daqui a pouco ainda vamos ter providenciar aulas de línguas. Ufa! Estou cansada por ele...

10.7.01

A Vick é sempre de uma delicadeza admirável quando me escreve. Seu blog é para ser curtido com calma e gula.
ZAPEANDO

Outro dia ouvi a Gal cantando Honey Baby com participação do Zeca Baleiro no rádio e os versos ficaram martelando na minha cabeça: "ando tão à flor da pele que até beijo de novela me faz chorar".

Não é de todo mal. Estou mais sensível, mas ando menos chorona. Talvez porque eu mais sinta do que verbalize. É batata! Se eu começo a fazer uma declaraçãozinha de nada a voz embarga e meu olho vira uma cachoeira. Tenho calado. Bobagem...

Recebi muito carinho nos últimos dias. É bom... Amor alimenta... O que eu posso fazer se meu filho me dá um saco de delicado ou se a fatia de bolo de chocolate que aceitei na casa da minha amiga se transformou em um prato cheio com calda quentinha por cima? Vai daí que amor não só alimenta como também faz o mundo girar: sobre pneus.

E por falar em mundo, lá vou eu ganhar mais um pedacinho dele.

Neste final de semana, tem Cássia Eller no Canecão. Sem barriga (porque fértil têm estado as cabeças dos colunistas de fofoca), mas com aquele talento todo que Deus lhe deu. Eu babo por CE!

Não vou falar sobre o mais novo evento André Gonçalves, mas sobre a cobertura da Globo. A princípio, nem uma nota (pelo menos em horário nobre). Depois, no rastro do movimento internacional dos profissionais de vôo para abolir passageiros problemáticos, acabou se falando rapidamente no Jornal Nacional, que mostrou uma das fotos por um intervalo de tempo quase subliminar. Somente após a publicação da matéria de duas páginas na Veja, o moço ganhou os microfones do Fantástico para desmentidos (ele não cuspiu, não quis beijar o Pelé na boca, não arrumou confusão em Portugal, não tem culpa de ser gostoso, não quis agredir ninguém, não sabia o que estava fazendo ao consumir vinho com tranquilizantes, etc..), solidária e simpaticamente. E eu que achei que ele só fosse aparecer no Vídeo Show daqui a umas duas semanas mostrando algo como sua criação de bromélias e, já no finzinho da "reportagem" a Cissa Guimarães fosse perguntar assim, como quem não quer nada: "E essa coisa de ser ator, namorador e baderneiro de avião? Como você lida com isso?" Não foi assim com a chipada Elba?

Um texto me chamou a atenção na semana passada. O colunista comentava a entrevista do Daniel Filho para Observatório da Imprensa. Eu vi um trecho da entrevista, mas não me senti particularmente atraída e parti para o controle remoto. Só depois fiquei sabendo que ele falou de coisas muito interessantes sobre a televisão brasileira e o que chamou a atenção do jornalista foi o comentário sobre o deputado americano que se suicidou em frente às câmeras em 1987. Lembrei imediatamente do episódio e do choque que me causou (e ao colunista) o corte no exato momento do corte da imagem, quando a bala atingiria a cabeça do infeliz. O brilhantismo do texto fica por conta da comparação que se fez entre a morte diante das câmeras ontem e hoje, da banalização atual, quando uma professora é assassinada na frente de milhões através de diversos ângulos e estas imagens são reproduzidas até tornarem-se vulgares.

Para não dizerem que só falo mal da televisão, quero deixar registrado meu contentamento com Os Normais. Parece que vai virar filme. Oba!