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26.11.01

Que raiva!

O reblogger apagou todos os comentários mais antigos. Este era um dos motivos que levava a minha preguiça/otimismo a manter o uso deste serviço. O outro motivo era a esperança de que a debandada fizesse com que os serviços melhorassem... Que nada! Agora mudei e espero que tudo fique bem. Vou testar...

Queria contar com a ajuda de todos que puderem. Porque agora quero ver isso aqui cheinho de comentários para espantar a tristeza que foi perder meus tesouros.

Agradecimento especial à Lu, por sua campanha e à Meg, bem, por tudo.

Não importa de onde venha o tema para debate. Se o assunto levantado é interessante, vamos a ele.

“Fico imaginando minha filha casada com um negro e meus netos sararazinhos, eu passando henê neles.”

“Não tenho preconceito. Agora vou ser bem sincera. Acho que ele entrou nessa de ingênuo. Ela seduziu o menino. Que chance ele teria de isso acontecer em outra situação? Quando é que uma menina bonita, loira, classe média, com uma bela casa com piscina na Barra da Tijuca ia se jogar em cima de um rapaz como ele? Em troca de quê?”

Para quem não sabe, ou porque mora fora do Brasil, ou porque não abriu qualquer jornal ou revista na última semana, essas declarações são de uma participante do programa No Limite, reality show apresentado na Rede Globo aos domingos.

Não vou discutir o programa, nem a fabricação de personagens bons e maus, nem porque outras declarações envolvendo judeus não causaram o mesmo alvoroço. Quero me deter única e exclusivamente nas declarações desta senhora e parte do que está envolvido aí.

Diversas instituições de defesa contra o preconceito estão se mobilizando para abrir processo. Vejo as duas declarações de formas distintas. A primeira denota somente ignorância, raciocínio raso, simplicidade de uma mente sem questionamento, que apenas reproduz o que lhe foi ensinado. Aí não existe a figura do Adulto, apenas do Pai, como diriam os aficionados por análise transacional. E seria muito fácil embarcar na onda dos conceitos pré-concebidos e afirmar que de uma dona de casa cuja atividade principal é exercitar-se numa academia não se poderia esperar algo mais elaborado. Contudo, não conheço esta pessoa e não vou cair na armadilha das facilidades simplistas.

A declaração que realmente preocupa, ou deveria, é a segunda, porque nela está implícita a idéia de que um negro não tem nada a oferecer num relacionamento. É idéia corrente que afro-descendentes devem pertencer sempre às classes menos favorecidas e já ouvi inúmeras vezes comentários relacionados à surpresa causada ao se conhecer um negro bem-sucedido financeiramente. Entretanto o comentário vai além. Não é apenas uma questão de assumir que talvez haja problemas financeiros. Não ter nada a oferecer num relacionamento implica em ausência de humanidade. Isso me faz lembrar das grandes reuniões de época remotíssimas quando se discutia se os índios teriam ou não alma.

A situação se agrava. A princípio, a participante se ressente de um suporto esquema escuso criado pela outra competidora, seduzindo um rapaz para conseguir manter seu lugar no programa. Seus argumentos para denunciar tal artimanha, todavia, não são direcionados ao fato de uma mulher seduzir um homem, mas de uma loira seduzir um negro. Seu inconformismo com a situação chega às raias do desespero. Ela sofre. E muito.

Está aí, penso eu, o problema da rapidez com que incorporamos idéias repetidas sem processamento. Compreendo que existam cabeças modestas, para as quais um conceito geral deva ser aplicado sem restrições a toda situação. Se assim não fosse, não encontraríamos médicos que diagnosticam apenas considerando os livros, não o paciente que está à sua frente; mães que pretendem educar todos os filhos da mesma forma, sem considerar suas personalidades; engenheiros que utilizam projetos aprovados no exterior sem considerar o calor tropical brasileiro... No entanto, há uma hora em que se chega ao inadmissível. É quando deixa-se de ser apenas estúpido para tornar-se execrável.


23.11.01


Verão


Minha alma azul-verde mar
Exala uma aura luminosa
Emprestada do sol
Que marca com sua cor
Fico mais escura
Fico mais brilhante
Assim, minha coluna
É uma estreita faixa de Atlântico
Entre minhas costas
Americana e africana
A areia quente dos olhos
Vai aprendendo no decorrer do dia
A queimar
Deixando que ondas de sedução
A amornem à noite
De acordo com a maré
Sob a lua
Guiada por ela
Meu coração de gaivota
Às vezes mergulha na praia
A procura de um peixe bom
Consegue ou não
Mas sempre sai livre
Para voar mais uma vez
Meu signo continua sendo o fogo
Regido pelo vermelho de Marte
O termômetro da rua
Denuncia uma febre de 40º

1987

Ô, DARCY!


O jogo terminou empatado. É uma notícia que normalmente me deixaria acabrunhada. Afinal, espera-se de uma rubro-negra que torça para que o Flamengo ganhe sempre. Entretanto, quando o jogo é no Maracanã em dia de semana e termina tarde, melhor mesmo que a saída do estádio seja morna e deixemos os buzinaços, gritos de comemoração e entoação de hinos para as alegres tardes de domingo.

Então estava já acomodada entre cobertas, travesseiros, braços e pernas. As janelas fechadas, a persiana e o aparelho de ar condicionado ajudavam a abafar o burburinho do êxodo. De repente, uma voz grita na noite um palavrão e seguro a vontade de rir para não acordar o colega de leito que já ensaiava as primeiras linhas de diálogo com Morfeu. Não que o palavrão fosse engraçado. Engraçada foi a entonação que me fez lembrar da minha mãe e seus, digamos, eufemismos.

É preciso explicar que minha mãe passou parte de sua infância em um internato com missionários europeu onde minha avó, já separada do meu avô, lecionava. Além da rigidez típica da instituição, ainda havia a responsabilidade de ser filha de uma das professora. (E disso eu entendo bem, porque ela também trabalhava nas escolas onde estudei.) Palavrão nem pensar. Desconfio até que ela só foi apresentada a eles bem depois disso. Contudo, um bom palavrão tem seu valor e empregado na hora de muita raiva ou, quem sabe, de muito amor deve ser devidamente degustado.

Mas não me lembro de Mamãe xingando durante minha infância. Criança caseira, também não posso dizer que fui introduzida a eles na rua. Meu grande mestre foi meu pai, tipo adoravelmente rude. Mamãe fazia caras para ele e ele nem ligava. Ela também não era enfática na repressão. Reconhecia a necessidade. Por isso usava de subterfúgios para driblar a polidez. Quando algo não lhe agradava bradava: Ô, Darcy! E enfatizava o ô exatamente como o torcedor fez sob minha janela neste início de madrugada. Diante da expressão de incredulidade do interlocutor, que ficava na dúvida se teria ouvido ou não um nome feio da boca da princesinha do subúrbio, ela dissimulava e dizia que não sabia porque tinha se lembrado da Darcy, amiga querida, de quem sentia muitas saudades, você conheceu?, tem notícias dela?... As reações eram sempre divertidas. E eu escorregava para longe porque, além de péssima mentirosa, que se entrega sempre, também deixo a desejar no quesito conter gargalhadas.

O repertório de minha progenitora era farto. Ela elaborava códigos para não dizer a palavra exata, mas, no contexto, suas intenções eram explícitas. "Lá vem aquela dezesseis que vive dando bola para seu pai". Tinha também os mais populares e conhecidos, como a ponte que partiu ou lerda.

Hoje ela já abandonou um pouco o posto de cria de missionários, professora e mãe de petizes. Diante de uma topada, por exemplo, é possível ouvi-la pronunciando um levezinho. Jamais será uma boca-suja completa, mas tem evoluído bastante neste sentido.

E bom mesmo é dormir ignorando o racionamento de energia, enroscada naquele exagero de homem e com este tipo de pensamento. O mundo? Ô, Darcy!

22.11.01

Recadinhos:

para Meg: o filme é Dirty Dancing.

para Joyce: também adorei te conhecer pessoalmente.

para Lu: obrigada pelo carinho de sempre

para Fer: agora que mudei a cor do fundo, você vai ler meu blog?

Hoje é dia do doador de sangue. Que tal não deixar o dia passar em branco, e, como sugere um colega de lista de doação, passar em "banco"?

20.11.01


Aproveitando o feriado do outro lado da poça








O Motivo do Feriado












16.11.01

É uma bobagem...

Assim como é bobagem tudo o que vai montando o quebra-cabeça de nossa história, formada de fragmentos...

Um dia de trabalho meio espremido entre feriado e final de semana com filho em casa, que quer atenção e não deixa os compromissos profissionais fluírem. Desisto e ligo a televisão já no final da tarde, a tempo de ver as últimas cenas daquele filme de que eu tanto gostava na adolescência. Não me deixo levar pelas perguntas racionais do tipo “Como eu já pude gostar disso?”. Prefiro me recostar no sofá e deixar as boas recordações virem.

A música romântica da trilha sonora embalava alguns de meus sonhos mais pueris. Queria aprender a dançar como eles. Na minha realidade virginal, achava aquela dança a coisa mais sexy do mundo. O apoteótico final ficou meio embaçado, já que não fiz nenhum esforço para conter as lágrimas, recordando do tempo em que o dia só valia a pena se à noite houvesse dança.

E descobri que, embora não seja mais aquela pessoa de quase vinte anos atrás, em algum cantinho, lá no fundo, ela ainda habita em mim.

12.11.01

Recado para quem gosta de mim através das palavras de um dos maiores da nossa música: Gonzaguinha.

Eu Apenas Queria que Você Soubesse

Eu apenas queria
que você soubesse
Que aquela alegria
ainda está comigo
E que a minha ternura
não ficou na estrada
não ficou no tempo
presa na poeira


Eu apenas queria
que você soubesse
Que esta menina
hoje é uma mulher
E que esta mulher
é uma menina
que colheu seu fruto
flor do seu carinho


Eu apenas queria dizer
a todo mundo que me gosta
que hoje eu me gosto muito mais
porque me entendo
muito mais também
E que a atitude
de recomeçar
É todo dia, toda hora
É se respeitar
na sua força e fé
Se olhar bem fundo
até o dedão do pé


Eu apenas queria
que você soubesse
Que essa criança
brinca nessa roda
E não tendo cortes
de novas feridas
pois tem a saúde
que aprendeu com a vida


Acho que todo mundo já sabe que corremos o risco de ver não apenas em liberdade, mas novamente com ficha limpa o bárbaro assassino Guilherme de Pádua que junto com sua então esposa pôs fim a vida da atriz Daniella Perez.

Coisas como esta nos deixam indignados, mas, mais do que simplesmente reclamar e abanar a cabeça, devemos mostrar nossa indignação e tentar, como cidadãos, reverter este quadro de impunidade e penas brandas para crimes hediondos.

Uma lista de discussão na Internet criou um abaixo-assinado contra o absurdo que representa o indulto a este homicida. A idéia é reunir assinaturas para pedir ao juiz mineiro Cássio Salomé de Souza que não conceda o indulto a Guilherme. Eles também planejam, quando a na lista houver um milhão de nomes, pedir no Congresso Nacional a proibição de indulto para autores de assassinato.

O neste site você pode deixar a sua assinatura.


A hipótese que está sendo considerada é que a queda do avião com mais de 200 pessoas a bordo no Queens tenha sido um acidente. Tomara...

Ontem o biógrafo oficial de Bin Laden apareceu no Fantástico e entre tudo o que ele falou uma coisa me chamou a atenção. Para entrevistar a besta, ele foi revistado, claro. Impressionante foi a exigência para que ele fosse submetido a uma ultrassonografia que garantisse que ele não havia engolido uma bomba.

Talvez a cada vez mais rigorosa revista em aeroportos seja inútil diante desta "criatividade" toda.

8.11.01

O projeto Paixão de Ler está acontecendo em diversos pontos da cidade. A escola do meu filho está participando no Shopping Tijuca.



BABY GARDEN NA PAIXÃO DE LER 2001
(no Shopping Tijuca - Praça de Eventos - 1º andar - das 12 às 19 h)

Programação diária

* mesas de leitura
* histórias em computador
* histórias em CDs

APRESENTAÇÕES

6ª feira - 09/11

13:00 Rodas de Leitura
15:00 Homenagem a Cecília
* Apresentação da vida e obra de Cecília Meireles
Alunos Baby Garden
17:30 Teatro de Bonecos "Joãozinho Cabeça de Piolho"
Com Fátima Café

Sábado - 10/11

14:00 Teatro: "A Bruxinha que era Boa" de Maria Clara Machado
com alunos do Baby Garden
15:00 Fazendo Teatro (oficina)
com o professor Paulo Serpa
17:30 Contadores de História
Daniela Chindler e Joaquim de Paula

Domingo - 11/11

14:00 Pianíssimo, a História de um Piano Encantado de Tim Rescala
uma história em CD
16:00 Ballet: Paz no Mundo
Apresentação de alunos do Baby Garden
17:30 Teatro: "Ou Isto ou Aquilo"
100 anos de Cecília Meireles
Grupo Hombu
Outro dia, Violinha falava sobre o piloto Alessandro Zanardi e seu comportamento na entrevista coletiva à saída do hospital. Um acidente levou suas duas pernas e ele aparentava tranqüilidade. Ela falava de felicidade e sua presença nas pessoas, independente das circunstâncias.

Pois nos dias em que tenho hidroginástica passo sempre por um acampamento de moradores de rua. Uma delas me lascou já da primeira vez que passei por ali um sonoro boa tarde que me desconcertou. Fiquei esperando um pedido que não veio e isso me valeu um sorriso. Todas as vezes ela sorri para mim, fala alguma coisa amável... Parece tão feliz na sua miséria. Venho observando de longe, enquanto me aproximo. Ela prepara a comida do grupo, anima os outros... Na semana passada encontrei com ela em outro canto do quarteirão. Era uma visita a outra turma. Veio saltitante e sorrindo conhecer o novo cachorrinho da "vizinha". Ontem ela estava especialmente radiante, de namorado. Olhava apaixonadamente para ele, enroscava seu pescoço, deixava os dedos brincarem entre as mãos dele.

Não é comovente encontrar alegria onde só se imagina tristeza? Que mágica produz isso?

Neste quase mês de contatos imediatos, só uma vez ela fez um pedido. Queria alho para temperar a carne que preparava. Quando contei para o meu marido, ele disse que ela era uma especialista intuitiva em marketing de relacionamento. Que seja! A verdade é que ela me despertou o desejo de ajudar, não por piedade ou apenas solidariedade humana, mas por carinho...

7.11.01

Idéia/pedido de Subrosa é ordem

A Viagem

Eu canto porque o instante existe
E a minha vida está completa
Não sou alegre nem sou triste
Sou poeta

Irmão das coisas fugidias
Não sinto gozo nem tormento
Atravesso noites e dias
No vento

Se desmorono ou se edifico
Se permaneço ou me desfaço
não sei, não sei. Não sei se fico
Ou passo

Sei que canto. E a canção é tudo
Tem sangue eterno a asa ritmada
E um dia sei que estarei mudo
mais nada

Cecília Meireles

Retirado daqui

arre!
Para abolir o uso de lupas, viu, Lu, aumentei o tamanho da letra. :-)

6.11.01

cansei!...
Aconteceu!

Meu filho e eu estávamos na portaria do prédio esperando o transporte escolar quando ele me deu um abraço bem apertado e um beijo estaladão.

- Pronto!
- Pronto o quê?
- Este é o beijo de despedida para quando o transporte chegar.
- ????
- É que eu tenho vergonha de ser beijado e abraçado na frente dos meus colegas.

A fase em que os beijos e abraços maternos viram mico não era para ser bem depois dos seis anos? Ai-ai! O tempo está voando...

3.11.01

Como se não fosse suficiente um presidente brasileiro ser aclamado em Paris ao dar uma puxada de orelha nos norte-americanos em função do comprometimento dos direitos individuais, estou passando frio em pleno novembro no bairro onde têm sido registradas as temperaturas máximas nos últimos verões cariocas.

Bizarro...

1.11.01



Eu no Bruxa de Blair


31.10.01


Nem fazia tanto tempo assim, mas retomar o ritmo de alguma atividade física regular me deixa moída nos primeiros dias. É assim que estou. Contudo é um cansaço bom.

Tenho tido preguiça de escrever muito. Deixo os assuntos passarem por mim e não estou morrendo por isso. Exercitando alguma flexibilidade em pontos estratégicos. Ainda preciso aprender que perco muito com a minha lógica. Por outro lado, tenho que deixar de ser coração mole. Vamos trabalhar o equilíbrio...

Deixar algumas coisas apenas em repouso na água morna. Mais tarde eu vejo como fica. Não dá para ser tudo para hoje, me lembra a Andréa. Vamos boiar um pouquinho para resguardar as forças para nadar até a praia.

Junta, estica, abre, fechar, em cima, embaixo, direita, esquerda, relaxa, contrai...

Às vezes a vida cansa. Na maior parte do tempo é só diversão.

30.10.01





Os seres de outros planetas têm os membros avantajados (estou falando de braços e pernas, hein!). Isto faz com que sejam bastante estabanados, vitimados constantemente por acidentes estúpidos. São comuns cortes nos dedos causados por normalmente inofensivas folhas de papel. É praticamente impensável uma passagem pela cozinha sem pelo menos uma pequena queimadura.

Outro dia, estava dando a preparação do almoço como encerrada. Estava contente, porque, excepcionalmente não havia me ferido. Neste instante o interfone tocou e o primeiro convidado chegava. Corri para o banho. ETs são vaidosos, não gostam de receber visitas com a aparência de quem passou a manhã inteira pilotando panelas.

Já em pleno processo de higienização, esta alien que vos fala percebeu que o frasco de shampoo estava no final. O banheiro estava tão arrumadinho que não quis molhar tudo para pegar outro no armário. Então, esquecida de que na Terra seus poderes mágicos não funcionam plenamente, espremi bastante o recipiente esperando que milagrosamente algum líquido saísse de lá. A mão ensaboada executado esta manobra fez com que o frasco escorregasse descrevendo um círculo perfeito no ar e caindo com a ponta de plástico duro naquele lugarzinho sensível entre a base do nariz e o olho. ETs sangram como terráqueos e recebem os visitantes com olho roxo.

Eletrodomésticos também podem representar grande risco potencial. Hoje prendi a unha sem perceber num vão da porta da máquina de lavar depois de, abaixada, colocar roupas em seu interior. Com a falta de jeito que me é peculiar, deixei-a ali enquanto me levantava de supetão e descobri da forma menos teórica possível porque a tortura de arrancar as unhas é uma prática abominável.






ET e ainda por cima míope e/ou analfabeta, que lê Gonçalves e entende Gonzales. Deve ser a vontade de que todos os meus queridos entrem no mundo blogueiro. :-) Valeu me-ni-nas!

29.10.01

Mais uma prova de que sou mesmo um ET.

Só mesmo uma estadia longa em outro planeta para não ter ainda percebido e aportado antes no blog da minha doce AninhaGon.

Dea me fez perceber que lá da galáxia de onde venho o dia tem mais de 24 horas.

27.10.01


PÉROLAS


Vocês são do tipo que lêem bulas ou qualquer outra coisa? Eu sou! De vez em quando a gente se depara com algumas pérolas como estas.

1 - Na contracapa de um DVD alugado na Blockbuster:

"Favor rebobinar após assistir."

2 - Na contracapa do LP de The Beach Boys (Surfin´U.S.A.)

"This monophonic microgroove recording is playable on monophonic and stereo phonographs. It cannot become obsolete. It will continue to be a source of outstanding sound reproduction, providing the finest monophonic performance from any phonograph."


26.10.01

Dando início aos trabalhos de mudanças por aqui...

25.10.01


Dor de cabeça...
Sem saco...
Não tô podendo...
E ainda tem festa infantil à noite...
SOCORRO!

24.10.01


Num curto passeio, alguns motivos para sorrir:

* O médico disse que minha saúde está perfeita. Prescreveu um remédio para o pequeno incômodo e me deu os parabéns.
* A estátua no meio da praça presta homenagem ao pioneiro da ginástica pelo rádio!
* A rua das flores.
* Encontrei aquele papel raro que estava procurando há tempos e ainda me diverti olhando as novidades da papelaria.
* Fiz matrícula na hidroginástica, agora em outra academia que tem mais a minha cara.
* A moradora de rua me desejou boa tarde e não pediu nada em troca.

23.10.01


Meu silêncio não significa aquiescência.
Chamando a atenção

Não sei se é uma questão de deslocamento espacial ou temporal. A verdade é que certas expressões comuns na minha infância raramente chegam aos meus ouvidos nos dias de hoje.

Vagando pela calçada, acompanhei a conversa de uma mulher que levava o filho pela mão e dirigia-se ao marido. Ela mesma parecia ter saído de um canto recôndito da minha memória. Usava um vestido colorido barato, tinha um pano amarrado à cabeça que merecia um tratado de cultura afro-brasileira, o corpo rijo das jovens lavadeiras, uma fala de veludo e a pele negra era homogênea e brilhante. Tudo nela exalava elegância popular. Era destas mulheres que quase já não vejo, criada com feijão, verduras e legumes da horta da mãe, ovos e galinha do quintal e frutas roubadas dos galhos que escapam pela cerca do vizinho.

Ela contava que havia chamado a atenção da filha. Onde ainda se chama a atenção de alguém? Hoje briga-se, dá-se esporro, no máximo uma chamada. Os metidos a intelectuais desancam. O malandro dá uma idéia, um toque... Minha avó chamava a atenção.

E este ato revela uma relação hierarquizada. Quem faz isto deve ter forte influência moral sobre o chamado. E carece de classe, não deve humilhar, precisa apontar seus argumentos e razões sem tornar-se agressivo. É necessário também deixar claro que ao chamar a atenção não há chance para questionamento ou debate. Fica implícito que tudo deve ser acatado ou passa-se então para a fase de punição.

Talvez exatamente por tudo isto a expressão tenha caído em desuso. Os que chamavam a atenção geralmente eram aqueles a quem pedíamos a bênção.

22.10.01


Eu sei, eu sei, a gente vive em gueto, cercada de pessoas que em algum ponto tocam nossa própria realidade.

Mas não posso deixar de observar que num encontro em que estavam presentes quatro casais, três (e nós éramos a exceção) formaram-se a partir da Internet.

Da série As Mais Terríveis Pervesões:

Continuar amando o mesmo homem depois de dez anos.


Galeria do amor


femmes
Femmes de Tahiti (Sur la Plage)
Gaugin


A primeira vez que meu amo e senhor foi a Paris, não pude acompanhá-lo. Ele trouxe para mim, de uma loja do Louvre um sarongue vermelho que reproduz o que aparece nesta pintura. Só uso em ocasiões especialíssimas.


beijo
O Beijo
Klint


Quando oficializamos nossa união, recebemos alguns amigos mais íntimos para comemorar. Os convites que seguiram por e-mail tinham esta ilustração, não apenas por refletir nosso gosto artístico, mas também porque eu, atacada de um romantismo exacerbado, achei o casal parecido com nós dois.
A chuva cai afastando a ameaça de um verão sem ar condicionado.

As gotas de chuva formam um pequeno rio nas canaletas que formam os trilhos por onde correm os portões de ferro da garagem do prédio. Há uma certa poesia nisto e demoro a identificar o que é. São memórias remotíssimas da casa da minha infância onde a criança quieta e tímida que fui passava muito tempo obrservando as brincadeiras da água que vinha do céu nas vidraças e depois nas esquadrias, passeando em trenzinhos líquidos.

Estas percepções minúsculas de coisas absurdas foi parte da minha vida íntima por muito tempo. Durante as viagens eu me entregava ao zumbido do carro em movimento, à massa verde que a vegetação ao lado da estrada criava com o movimento acelerado, as listras contínuas que apareciam no asfalto quando sua heterogeneidade era submetida à nossa velocidade. Este era meu mundo particular. Só eu via estas coisas, eu pensava então.

O filme foi muito comentado na época, mas o que mais me encantou foi perceber que alguém compartilhava desta minha visão um tanto alucinada. Rain man tem umas cenas vistas pelo olho do autista que reproduzem meu pequeno universo. Foi assim que descobri que não sou tão original quanto pensava. A vulgaridade assusta, mas é bom não se sentir tão só.

Foi mais ou menos a mesma sensação que tive ao descobrir que a drag queen que vive em mim tem a sua turma. Sou uma ploc enrustida [o JB online está com problemas, por isso não tem link para a revista de Domingo com matéria de capa sobre esta nova tribo urbana]. Um dia vou deixar de lado os escrúpulos e sair por aí com uma mochila com a cara de uma das Meninas Superpoderosas estampada. Ou, quando a poeira assentar e eu for de novo a Nova Iorque, gasto uma pequena fortuna na Ricky´s da Brodway, comprando fiapos de cabelos coloridos e outros apetrechos exóticos para usar quando for ao supermercado.

Minha sogra diz que velhos são os outros. Pois então. A turma da minha auto-imagem, que ainda está na casa dos vinte e pouquíssimos, é esta. Esta jovem senhora séria e respeitável não sou eu. O espelho está mentindo! Vou ignorar o que ele diz e apenas observar a chuva reinando no meu universo diminuto.


20.10.01


Da série As Mais Terríveis Perversões:

Sadomasô

- Bate!
- Não!

19.10.01

O Marcelo, me incluindo lá nas suas sinas, e a Andréa, estreando no mundo blogueiro, me deixaram com vontade não só de atualizar minha listinha dos mais mais como também de dar uma arejada por aqui. Vamos ver se vontade é coisa que dá e passa ou se no final de semana consigo fazer alguma coisinha.

Só agora sosseguei. Fiquei um tempão com minha irmã ao telefone tirando tooooooooodas as dúvidas sobre o antraz. Uma meleca isso de a gente achar que neguinho está escondendo informação. Porque ando com uma coisa rondando minha cabecinha. Ou o governo norte-americano está dando idéia para os terroristas ou estão sabendo das coisas com antecedência e não estão contando a história toda.

Sinceramente espero que a Letti esteja certa e que isso seja problema lá deles. Mas tenho a impressão de que um surto de varíola, por exemplo, chegaria facilmente por aqui. Esse é apenas um dos meus receios. E também não sei se é inadequado ocupar tantas páginas de jornal com o assunto (ainda).

18.10.01


Assinando embaixo III


Ensinando integridade
(Tania Zagury, O Globo, 02.07.2001)


Contou-me uma amiga que, outro dia, seu filho chegou em casa exultante.... Afinal, não é sempre que se tira dez em física. Ela percebeu, no entanto, que o professor havia se enganado na correção.

Qual não foi sua surpresa quando o menino lhe disse que não poderia, de forma alguma, apresentar o erro para revisão, porque "ninguém devolve nota". Foi preciso muita paciência para convencê-lo. Tinha medo das gozações dos colegas.

Às vezes é um fato corriqueiro que nos faz perceber quantos difíceis dilemas as crianças têm que resolver até que se tornem adultos
íntegros.

Não faz muito tempo, ser um bom menino significava, como dizia o palhaço Carequinha, não fazer pipi na cama nem fazer malcriação, concluir o trabalho de casa com capricho, deixar o quarto mais ou menos arrumado, não falar palavrão, dirigir-se respeitosamente aos mais velhos; tarefas, enfim, razoavelmente simples de serem aprendidas. Isso porque valores como
honestidade e integridade não estavam ainda em discussão.

Ser um "bom menino", hoje, significa não apenas saber o que é certo ou errado, mas também conseguir se opor a atitudes (bem freqüentes) que contrariam os princípios norteadores da sociedade - o que não é nada fácil nem para adultos, quanto mais para crianças e jovens.

Opor-se ao grupo e fazer escolhas adequadas demanda forte grau de segurança. Mais ainda: significa que nossos filhos têm que estar certos, em primeiro lugar, de que solidariedade, justiça e honestidade, por exemplo, não estão "fora de moda". Precisam, acima de tudo, acreditar que, mesmo quando parte dos homens não respeita esses princípios, não há a mínima condição de vivermos com segurança sem eles.

Como convencê-los, no entanto, se a TV, as novelas, as atitudes de muitos adultos, os jornais, alguns programas humorísticos e até certas músicas os bombardeiam com mensagens antiéticas? Como convencê-los, se parte dos colegas, com os quais convivem, quebra vidraças, desrespeita os mais velhos, picha muros, destrói o mobiliário das escolas, dirige sem carteira aos 16
anos ou falsifica documentos para poder entrar nas boates antes da idade permitida em lei, por vezes com a anuência dos responsáveis?

Criar adultos dignos depende basicamente de duas coisas: da maneira pela qual nós, pais, vivemos o dia-a-dia e da confiança que temos nos valores que guiam nossas ações. Ou seja, é necessário não só sermos íntegros, mas também não duvidarmos da força dos nossos princípios.

Quando crianças e jovens percebem nos seus mais fortes modelos (nós, seus pais!), segurança inabalável na retidão, na cooperação, na honra - independente do que estejam fazendo os vizinhos, parentes e amigos - eles muito provavelmente também acreditarão. Se, ao contrário, já que há tanta corrupção e impunidade, os próprios pais começam a afrouxar seus conceitos ou a repetir diariamente que "o Brasil não tem jeito", em que irão seus filhos acreditar? Por que e para que irão lutar?

O perigo maior para um jovem não são as drogas: é não crer no futuro e na sociedade em que vive. A falta de esperança, essa sim, é que pode levar à depressão, ao individualismo, ao consumismo exacerbado, ao suicídio, à marginalidade e às drogas. Em contrapartida, a convicção de um caminho produtivo a ser trilhado e o desejo de contribuir fazem com que os jovens progridam, criem, estudem e realizem. E para ter essa confiança, eles precisam conviver com pessoas que não apenas vivam de acordo com esse modelo, mas também que não se deixem abalar pelas notícias negativas que saem diariamente na mídia.

Existe, sim, gente desonesta, o que não significa que muitos outros - muitos mais - não sejam dignos, trabalhadores e corretos. Precisamos lutar vigorosamente para que nossos filhos percebam que quem leva o Brasil adiante é "a maioria silenciosa", aquela que é formada por pessoas honestas e trabalhadoras, e que, por isso mesmo, não constituem notícia, nem, portanto, aparecem nos jornais e na TV.

Os pais têm papel primordial na estruturação do caráter dos filhos. Resgatar a ética é hoje questão de sobrevivência. Que jovem poderá resistir às pressões negativas de uma sociedade em crise, se não aquele que tenha internalizado o respeito por si próprio e pelo outro?

Para isso é preciso, em primeiro lugar, que se reconheçam num modelo - isto é, que saibam quem são, que façam identificações adequadas. E para tanto precisam de modelos fortes e seguros, que não duvidem nem desanimem a cada notícia negativa nos jornais, ou a cada mau exemplo nas vizinhanças.

Muita gente acha que ensinar integridade é impossível nos tempos modernos. Talvez ignorem que isso se faz basicamente através de exemplos concretos de vida. Se os pais, "sem muito discurso", vivem de acordo com princípios, estarão encorajando os filhos a seguirem seus passos, mesmo sem perceber.

Quer dizer, não mentindo, não aceitando uma conta errada no restaurante, chegando à hora combinada aos encontros, respeitando a lei, não mudando ou querendo mudar as regras do jogo de acordo com as conveniências do momento, e, especialmente, não disseminando amargura e descrença, simplesmente porque nem todos agem de maneira honesta. Na grande maioria dos casos, essa forma de viver será suficiente para que seus filhos acreditem nos valores.

Afinal, não podem contestar - estão vendo! - que vocês vivem de acordo com o que defendem.

Por fim, é bom lembrar que, especialmente quando nossos filhos chegam à adolescência, quase com certeza irão opor alguma (ou bastante) resistência ao que defendemos. Não nos deixemos iludir pelas aparências - especialmente não desanimemos! Eles estão lutando para se independentizar, e isso pode significar ficar contra tudo (literalmente tudo, para nosso desespero) que
nós, pais, postulamos.

Ainda que seja difícil acreditar, nossas lições nunca são inúteis. Enquanto nossas atitudes forem coerentes com nosso discurso, estaremos provendo a base para a qual eles retornarão, quando a época da rebeldia terminar. E, mesmo na fase mais aguda de auto-afirmação, raramente se afastarão dos conceitos essenciais. Poderão até fazer algumas bobagens, mas nada que fira de forma irremediável a ética e os valores que aprenderam, por toda sua curta vida, a respeitar.

Mesmo quando parece que não nos ouvem nem vêem, é a nossa integridade que serve de fundamento para nossos filhos, hoje e sempre.

(Tânia Zagury é filósofa e mestre em educação)


Arsenal americano para bombardear o Afeganistão:


B1 e B2
B1 & B2
Em solidariedade à Andréa contra a ditadura da balança:


no body
I ain´t got no body

17.10.01

Assinando embaixo II


As Carícias e o Iluminado

Chega de viver entre o Medo e a Raiva. Se não aprendermos a viver de outro modo, poderemos acabar com nossa espécie. É preciso começar a trocar carícias, a proporcionar prazer, a fazer com o outro, todas as coisas boas que a gente tem vontade de fazer e não faz, porque "não fica bem" mostrar bons sentimentos! No nosso mundo negociante competitivo, mostrar amor é ... um mal negócio. O outro vai se aproveitar,explorar , cobrar... Chega de negociar com sentimentos e sensações. Negócio é de coisas e de dinheiro - e pronto! Bendito Skinner - apesar de tudo! Ele mostrou por A mais B que só são estáveis os condicionamentos
recompensados; aqueles baseados na dor precisam ser reforçados sempre, senão desaparecem. Vamos nos reforçar positivamente. É o jeito - o único jeito - de começar um novo tipo de convívio social, uma nova estrutura, um mundo melhor.

Freud ajudou a atrapalhar mostrando o quanto nós escondemos de ruim; mas é fácil ver que nós escondemos também tudo o que é bom em nós, a ternura, o encantamento, o agrado em ver, em acariciar, em cooperar, a gentileza, a alegria, o romantismo, a poesia, sobretudo o brincar - com o outro. Tudo tem que ser sério, respeitável, comedido - fúnebre, chato, restritivo, contido ...

Há mais pontos sensíveis em nosso corpo do que estrelas num céu invernal.

"Desejo", do latim de-sid-erio , provém da raiz "sid" , da língua Zenda, significando ESTRELA, como se vê em sideral - relativo às estrelas.

Seguir o desejo é seguir a estrela - estar orientado, saber para onde se vai, conhecer a direção...

"Gente é para brilhar", diz mestre Caetano.

Gente é demonstravelmente, a maior maravilha, o maior playground e a mais completa máquina neuromecânica do Universo conhecido. Diz o Psicanalista que todos nós sofremos de mania de grandeza, de onipotência.

A mim parece que sofremos de mania de pequenez.

Qual o homem que assume em toda a sua grandeza natural? "Quem sou eu, primo..." Em vez de admirar, nós invejamos - por não termos coragem de fazer o que nossa estrela determina.

O Medo - eis o inimigo.

O medo, principalmente do outro, que observa atentamente tudo o que fazemos - sempre pronto a criticar, a condenar, a pôr restrições - porque fazemos diferente deles.

Só por isso. Nossa diferença diz para ele que sua mesmice não é necessária. Que ele também pode tentar ser livre - seguindo sua estrela. Que sua prisão não tem paredes de pedra, nem correntes de ferro. Como a de Branca de Neve, sua prisão é de cristal - invisível. Só existe na sua cabeça. Mas sua cabeça contém - é preciso que se diga - todos os outros que, de dentro dele, o observam, criticam, comentam - às vezes até elogiam!

Por que vivemos fazendo isso uns com os outros vigiando-nos e obrigando-nos - todos contra todos - a ficar bonzinhos dentro das regrinhas do bem-comportado - pequenos, pequenos. Sofremos de megalomania porque no palco social obrigamo-nos a ser, todos, anões. Ai de quem se sobressai, fazendo de repente o que lhe deu na cabeça. Fogueira para ele! Ou você pensa que a fogueira só existiu na Idade Média?

Nós nos obrigamos a ser - todos - pequenos, insignificantes inaparentes, "normais" - normopatas diz melhor; oligopatas - apesar do grego - melhor ainda. Oligotímicos - sentimentos pequenos - é o ideal...

Quem é o iluminado?

No seu tempo, é sempre um louco delirante que faz tudo diferente de todos. Ele sofre, principalmente, de um alto senso de dignidade humana - o que o torna insuportável para todos os próximos, que são indignos.

Ele sofre, depois, de uma completa cegueira em relação à "realidade" (convencional), que ele não respeita nem um pouco. Ama desbragadamente - o sem vergonha. Comporta-se como se as pessoas merecessem confiança, como se todos fossem bons, como se toda criatura fosse amável, linda, admirável.

Assim ele vai deixando um rastro de luz por onde quer que passe.

Porque se encanta, porque se apaixona, porque abraça com calor e com amor, porque sorri e é feliz.

Como pode, esse louco?

Como pode estar - e viver! - sempre tão fora da realidade - que é sombria, ameaçadora; como ignorar que os outros - sempre os outros - são desconfiados, desonestos, mesquinhos, exploradores, prepotentes, fingidos, traiçoeiros, hipócritas...

Ah! Os outros...

( Fossem todos como eu, tão bem comportados, tão educados, tão finos de sentimentos...) O que não se compreende é que há tanta maldade num mundo feito somente de gente que se considera tão boa. Deveras, não se compreende.

Menos ainda se compreende que tantas famílias perfeitas - a família de cada um é sempre ótima - acabe acontecendo um mundo tão infernalmente péssimo.

Ah! Os outros... Se eles não fossem tão maus - como seria bom... Proponho um tema para meditação profunda; é a lição mais fundamental de toda a Psicologia Dinâmica:

Só sabemos fazer o que foi feito conosco.
Só conseguimos tratar bem os demais se fomos bem tratados.
Só sabemos nos tratar bem se fomos bem tratados.
Se só fomos ignorados, só sabemos ignorar.
Se fomos odiados, só sabemos odiar.
Se fomos maltratados, só sabemos maltratar.
Não há como fugir desta engrenagem de aço: ninguém é feliz sozinho.
Ou o mundo melhora para todos ou ele acaba.

Amar o próximo não é mais idealismo "místico" de alguns.
Ou aprendemos a nos acariciar ou liquidaremos com nossa espécie.
Ou aprendemos a nos tratar bem - a nos acariciar - ou nos destruiremos.
Carícias - a própria palavra é bonita.
Carícias - Mãos deslizando lentas e leves sobre a superfície macia e sensível da pele.
Carícias... Olhar de encantamento descobrindo a divindade do outro - meu espelho!
Carícias ... Envolvência ( quem não se envolve não se desenvolve), ondulações, admiração, felicidade, alegria em nós - eu-e-ele, eu-e-outros.
Energia poderosa na ação comum, na co-operação. Na co-munhão. Na co-moção.
Só a União faz a força - sinto muito, mas as verdades banais de todos os tempos são verdadeiras - e seria bom se a gente tentasse FAZER o que elas sugerem, em vez de, críticos e céticos e pessimistas, encolhermos os ombros e deixarmos que a espécie continue, cega, caminhando em velocidade uniformemente acelerada para o Buraco Negro da aniquilação.

Nunca se pôde dizer, como hoje: ou nos salvamos - todos juntos - ou nos danamos - todos juntos.

(J. A. Gaiarsa)

Assinando embaixo I

Mentes simples e complexas
por Affonso Romano de Sant`anna
(O Globo)



Essa guerra no Afeganistão está servindo para aclarar que vivemos o embate entre mentes simples e mentes complexas.A mente
simples é retilínea, plana.

A mente complexa é curva, elíptica.

A mente simples acredita que somando dois com dois vai chegar ao quatro.

A mente complexa sabe que somando dois com três pode chegar a vários resultados, até mesmo, eventualmente, ao quatro.

A mente simples afirma que a linha reta é a menor distância entre dois pontos.

A mente complexa sabe que o universo é curvo e que, portanto, a curva pode também ser a menor distância entre dois pontos.

A mente simples acredita que o que não é branco é preto.

A mente complexa sabe que existe um espectro de cores e é com essa palheta que se chega ao arco-íris.

A mente simples diz furiosa: olho por olho, dente por dente.

A mente complexa pondera com Gandhi, que dizendo olho por olho acabaremos todos cegos e desdentados.

Esta guerra, portanto, tem seu lado pedagógico para quem quiser aprender alguma coisa.

Lembram-se de quando dividíamos o mundo em esquerda e direita?

Era um topológico equívoco. Só porque durante a Revolução Francesa, na Assembléia Nacional, os que queriam mudanças
sentavam-se à esquerda e os que queriam conservar as coisas estavam à direita, passamos todos a pensar topicamente.

Mas logo, logo o sangue que escorria dos cadafalsos nos mostraram que ele fluía da direita, fluía da esquerda, fluía do
centro.

Hitler não era de direita nem Stalin de esquerda.

Hitler e Stalin eram mentes perversamente simples.

Isto que estamos assistindo em torno do Afeganistão não é um conflito entre o mundo islâmico e o mundo cristão.

É um conflito entre a mente simples e a mente complexa.

A mente simples não vê matizes.

É o bem contra o mal, o certo contra o errado, o Ocidente versus Oriente.

Por isto é possível detectar entre os ocidentais os que têm mentes simples e entre os orientais os que têm mentes complexas.

Por isto é possível, até mesmo entre aqueles que dizem que estão à esquerda e à direita, perceber os que têm mentes simples e os
que têm mentes complexas.

Vejo uma série de coisas expressas por escritores nesses dias. Espera-se que o artista e o intelectual estejam habilitados a lidar
com o simples e o complexo. Nem sempre. Se há intelectuais que estão tentando ver as nuances do conflito, há aqueles como
Oriana Fallaci e Salman Rushdie que ostentam uma retilínea reação verbal.

O terrorista tem uma mente terrivelmente simples.

O militarista, não necessariamente o militar, tem uma mente armadamente simples.

O pacifista, até o pacifista, pode ter uma mente desarmadamente simples.

A arte não é uma coisa simples, embora alguns a simplifiquem em receitas, objetos de consumo e marketing.
Bruneleschi e Alberti, que descobriram a perspectiva no Renascimento, não tinham uma mente simples. Goya não tinha
uma mente simples. Clarice não tinha uma mente simples. Nem Guimarães Rosa. Bach era simplesmente complexo.

A mente complexa é a que está sempre aberta para novas dimensões. Newton percebeu dimensões novas no universo.
Einstein agregou a quarta dimensão. E agora Stephen Hawking nos anuncia que há pelo menos 21 dimensões ou realidades
diferentes.

Olhemos a biologia: o ovo não é quadrado. O coração não é retangular. O DNA são espirais que se procuram a si mesmas num
interminável balé de curvas.

Olhemos as galáxias. E os ventos. E os vulcões. E as tempestades. Não são simples, não marcham em linha reta.

O amor, ah! o amor, não é, nunca foi uma coisa simples.

Grande noite!

A idéia era homenagear o patriarca César Faria e o que se viu foi um desfile de talento de três gerações mais convidados especialíssimos apresentados pela simpatia de Sérgio Cabral (o pai, evidentemente). Entre sambas e choros, foram relembrados Jacob do Bandolim e Pixinguinha e “causos” deliciosos saiam a toda hora da boca de Sérgio entre um e outro gole de cerveja.

Paulinho da Viola desfilou sua elegância de sempre e, como não poderia deixar de ser, no final o povo cantou junto Um Rio Que Passou em Minha Vida. O público lotou o Sesc Copacabana e participou ativamente do espetáculo que parecia um encontro musical na sala de visitas de alguém. Vaiaram quem esqueceu o celular ligado, fizeram perguntas ao jornalista que é um arquivo vivo da música brasileira, ovacionaram com vontade. Teve até quem cometesse a maior das heresias, pedindo que Paulinho homenageasse o Império Serrano.

O neto de “seu” César, João, segundo as certeiras palavras de Cabral, é de linhagem duplamente nobre: de um lado os Faria, de outro os Rabello (Paulinho é casado com a irmã de Rafael).

Outro objetivo do show era reviver uma famosa noite do Época de Ouro, no Teatro Lagoa, em 1974, considerada um marco do renascimento do choro. O espetáculo chamava-se Sarau, mesmo nome do primeiro grupo a se apresentar na noite de ontem. E, claro, o Época de Ouro se fez presente, com Bruno Rian (filho de Déo, que integrava o grupo naquele ano) substituindo Ronaldo do Bandolim.

Esses shows no Sesc têm sido maravilhosos. A qualidade musical é de primeiríssima, os convidados são a elite da elite e o espaço é calorosamente pequeno, permitindo à platéia sentir-se no palco. Dá para ouvir os músicos conversando entre os números e combinando surpresinhas.

E na próxima terça tem mais...

Melhor que isso só a companhia de uma amigo que veio de longe para, mais uma vez, aproveitar é deleitar-se com a cultura brasileira. Carne seca com farofa, feijão amigo e chope testemunharam uma conversa animada sobre música, cinema, trabalho, mercado e até uma triste visão interna do pesadelo.



Herbert


Porque também é preciso louvar os presentes da vida.

Mas, mas, mas...

... se não é contagioso, como é que um pai infectado por uma carta recebida no escritório passou antraz para o filho bebê em casa?

Não precisa explicar. Eu só queria entender.

16.10.01


Lettíssima comenta sobre seu espanto ao ver um jovem levantar-se para ceder lugar a uma senhora no metrô. Já acho que é uma atitude relativamente comum. Principalmente nos ônibus, onde impera a boa e velha educação suburbana. (Alguém ainda pede a bênção aos mais velhos da família?) Mas vou contar de dois episódios relacionados.

Minha irmã viu um velhinho em pé e resolveu ceder lugar. O homem ficou furioso e não se conformou porquye ela estava chamando ele de velho. Quase bateu nela, que teve que pedir desculpas. hahaha

Outro dia no metrô, entraram duas senhoras, nem tão velhas assim e estavam se aproximando de onde eu estava sentada. Instintivamente, já ia segurando o pimpolho que estava sentado do meu lado para liberar pelo menos um dos assentos, quando uma delas começou a gritar que ele tinha que se levantar porque não tinha o direito de estar ali. Aí não, bicho! Há lugar reservado para idosos no transporte e não estávamos neles. Meu filho pagou passagem como duvido que ela tenha feito. Ele ia levantar, mas não tem que... Infelizmente, bons modos e respeito ao próximo não tem a ver com idade. E eu gosto muito de obrigada, com licença e por favor para abrir espaço para este tipo de coisa estúpida.

O texto sobre o Lins saiu com um erro tenebroso: aparece um "a" onde era "há". Por favor, sejam generosos e leiam como se estivesse correto.

Gaby avisa sobre o Dia de Fazer a Diferença e me lembrei que dia 21 começa a campanha Natal sem Fome.



11.10.01

Demorou, mas finalmente chegou a resposta tão aguardada vinda da minha guru filosófica. E veio derramando cultura e generosidade. Com vocês, a Sub Rosa e seus comentários sobre a Alegoria da Caverna:

“O que acontece é que recebemos a grande maioria dos textos antigos através das traduções árabes de Avicena e Averróes principalmente. Só há um detalhe precioso: todos os helenistas (que se dedicaram a estudar a cultura grega (Atenas e Esparta) propriamente dita, e quando essas duas potências perderam a hegemonia para Filipe e Alexandre da Macedônia... que estenderam seus domínios para toda a Ásia e a isso se denomina processo de Helenização (A Grécia era conhecida como HELADE)) voltaram seu foco, para a *LINGUAGEM* e a linguagem grega cria conceitos apenas existentes no ocidente europeizado. Voltam-se para os pré-socráticos. Por exemplo a Maria Helena é uma helenista brilhante. Deve ter uns setenta e seis, mas é lúcida como um deus. Isso não mede o grau de *modernização* ou conservadorismo. Ela não é a melhor tradutora. Ela tem visões, angulações e estudos magníficos sobre a cultura e a civilização da polis grega. Mas até ela lhe dirá que jamais se saberá o que significa realmente arké, hypokeimenon... O brilhantismo de um tradutor não se encerra na *correção*, mas na capacidade de apreender a essência de um conceito. A propósito disso, Leminski tem um escrito que gostaria de postar na ÁRTEMIS, sobre como é quase impossível as línguas antigas serem vistas através de uma lógica universal, ou um universo fechado de significações. Por exemplo: jihad, karma, filosofia, axé, xodá, jazz, forma, natureza aí temos conceitos que são praticamente intraduzíveis... Não são palavras, Sissi... São conceitos, abstrações. O conceito sânscrito-hindu de *KARMA* por exemplo , é usado para pensar o mundo. Tal como temos conceitos puramente ocidentais quase ininteligíveis para nós mesmos. Há línguas como o hebraico, em que uma forma verbal representa ao mesmo tempo pretérito e futuro... Ou a palavra hebraica *dabar* que designa coisa e palavra ao mesmo tempo... E línguas como o chinês que, igualzinho ao nosso tupi, não possuem o verbo *SER*!!! Bem, é só para dizer que essa querelas das traduções é preciso ter cuidado para não cair no poço das discussões sem fundo, no bizantinismo ou nos *donos* do melhor isso, do melhor aquilo. Claro que devemos nos afastar o mais que pudermos dos manuais de vulgarização. Eles são ótimos como porta entreaberta, mas como passagem de entrada não.”

E tem mais!

“O sol que ilumina é também o mesmo que produz sombras.”

Só para lembrar, eu perguntei:

Você está me perguntando se a luz e toda a realidade que ela mostra seriam uma não sombra e uma não caverna?

E eu babo com a resposta:

“Não, de modo algum, o que quero dizer é que dependendo do tempo ou melhor, do apego a que as pessoas têm às suas certezas, suas crenças, suas opiniões, é temerário e muito duvidoso, que por si só, ela se desprenda da comodidade do que sempre julgou verdadeiro.
Mas se por acaso, ela se dispuser a reconhecer que o sol das idéias é que ilumina as coisas - o real (que vem do latim res, coisa); que a caverna (chamei de domicilio carcerário, porque Platão é claro: quem está na caverna está *AMARRADO* e só pode olhar numa direção, lembra?) é o mundo que deve ser abandonado pois é *projeção de luz * e não *a luz*, então - vamos ter que considerar que pra quem sai da escuridão compare com o cinema, a luz causa dor em sua visão, não é? Metáfora para o processo do conhecimento que é sempre doloroso.
E doloroso de várias formas... até porque quem busca esse saber é temido, ridicularizado, escarnecido, e ... muitas vezes violentamente neutralizado...

CC: Se estaríamos definindo o real pelo metro do já conhecido?

Meg: Não era minha intenção, mas você criou uma hipótese perfeitamente válida e absolutamente valiosa do ponto de vista dialético.

CC: E que isto não seria uma verdadeira revelação mas apenas um jogo de positivo e negativo? E que ainda haveria algo além? É isso? Se for isso, vou te contar que estou usando as linhas filosóficas que vou colocar no próximo post para brincar com várias possibilidades.
Repito: o número e qualidade das respostas é proporcional à quantidade de abordagens escolhidas.

Meg: São atitudes como essa que através dos tempo têm enriquecido a relação: aluno X professor, mestre X discípulo, no grego erastés e erasta (*ela colocou as duas palavras em grafia grega, mas infelizmente não consegui reproduzí-la aqui*)
Ou guia como você diz...(e que foi o que Dante Alighieri fez ao escolher Virgílio, na Divina Comédia -outra metáfora da caverna)
A unica coisa que lamento é que vc tenha procurado um livro de Filosofia da Educação.

Obrigada, querida! Está sendo ótimo aprender com você.


Com raras e louváveis exceções, se você perguntar a um morador de um bairro periférico onde ele mora, ele vai responder que mora no bairro núcleo da vizinhança. Assim, moradores do Engenho de Dentro, por exemplo, geralmente afirmam ter ser lar no Méier, algum milagre geográfico transforma Jacarepaguá em Barra da Tijuca e, se depender dos habitantes de Senador Camará esta localidade não existe, apenas seu vizinho Bangu.

Talvez isso se deva à estratégia montada pelas imobiliárias que tentam valorizar os imóveis que vendem ou alugam incluindo-os em um bairro adjacente mais bem cotados.

É verdade que existem espalhados pela cidade alguns pontos que eu chamo de limbo. Eu mesma já morei em um deles. É aquele lugarzinho que ninguém sabe afirmar ao certo a que bairro pertence. Meu antigo apartamento ficava ali na descida da Estrada Grajaú-Jacarepaguá, próximo ao antigo zoológico (para o qual, visando fortalecer a receita, o Barão de Drummont inventou o jogo do bicho). Lá eu recebia correspondência para o Grajaú, para Vila Isabel e para Engenho Novo. Era exatamente na convergência desses três bairros.

Lins é um desses bairros que teimam em ser outra coisa. Ele quer ser Méier. E, depois da inauguração da Linha Amarela, a área gosta de ser carinhosamente chamada de Baixo Barra.

Gosto da poesia dos subúrbios, mesmo maculada pela guerra nos morros próximos e pela ausência crescente de árvores. No Lins as ruas são ladeadas majoritariamente por casas romanticamente antigas. As que sobreviveram ao gosto duvidoso do revestimento de azulejos, transportam a gente para um tempo não muito distante de sossego e camaradagem.

Por lá os termômetros de rua marcavam hoje 37ºC. E pensar que a apenas dois dias eles não passavam de vinte... Levo minhas sandálias rasteiras para passear por estas calçadas, ignorando o sol estorricante e adiando quase indefinidamente para a próxima quadra a entrada em um transporte que me traria para casa. Observar as crianças indo e vindo da escola, as donas de casa puxando seus carrinhos de compras, os homens conversando na porta dos botequins, os velhos de olhos vagos... De repente, ao dobrar uma esquina, o caos da Dias da Cruz. Misturar-se à multidão, ver o colorido das lojas populares inundando o passeio, observar os rostos de quem corre ou de quem, por hábito, busca a rua nestas horas tediosas do início da tarde...

Há um enorme supermercado em torno do qual um pequeno aglomerado de pessoas pulula. Tem gente que vai ao supermercado todo dia. No meu dicionário isso é uma das definições para solidão. É um povo que se move lentamente no tempo. E é fácil identificá-los, observa a banca de alho. Algum dia, lá na década de 80, o alho esteve muito caro. Uma carestia relativa, mas presente. Era comum descascar-se alho antes de pagar para evitar acrescentar o peso da casca ao preço final. Faz tempo esta realidade mudou, mas ainda é comum ver aquelas caras e mãos enrugadas concentradas na demorada, árdua e mal-cheirosa tarefa de economizar algumas unidades de centavos. Deve ser triste ter tempo demais no dia e tempo de menos na vida...

Tempo... Preciso correr agora... Estou atrasada...

Houve uma metamorfose nos motoristas de táxi depois que ar condicionado nos carros tornou-se uma coisa ordinária. Estão, por via de regra, mais amáveis. Globo e Tupi AM são praticamente uma lembrança distante. Quase sempre o dial pára na MPB FM, na Nova Brasil FM ou na JB. Talvez também porque tenha mudado o perfil destes profissionais. Foi-se o tempo dos semi-alfabetizados e chegaram os ex-funcionários de bancos ou outras grandes empresas que não conseguem recolocação em suas próprias áreas. Ainda é possível encontrar velhos motoritas com assentos de bolinha de madeira e toalhinha encardida no ombro, mas eles vão escasseando como as casas de subúrbio e os moradores típicos do Lins.



10.10.01

TODA FORMA DE PODER
(Engenheiros do Hawaii)

Eu presto atenção no que eles dizem
Mas eles não dizem nada
Bush e Bin Laden(1) tiram sarro de você
Que não faz nada
Começo a achar normal que algum boçal
Atire bombas na embaixada
Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer tudo que eu vi
Toda forma de poder
É uma forma de morrer por nada
Toda forma de conduta
Se transforma numa luta armada
A história se repete
Mas a força deixa a estória mal contada
Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer tudo que eu vi
O fascismo é fascinante
Deixa a gente ignorante e fascinada
É tão fácil ir adiante
E esquecer que a coisa toda tá errada

(1) A letra original diz Fidel e Pinochet
Fotos dos acontecimentos do último mês retiradas do Terra


9.10.01


Hoje ele completaria 61 anos. O que ele, que nasceu na Inglaterra e escolheu os EUA para viver, diria de tudo isso?


pazamor


Amigo,
gostar a mim parece
gostar assim
como uma prece
silenciosa.
Sim, lendo ociosa
o cio nos olhos,
o cheiro no corpo,
o cinismo nos lábios.
Libido,
li brincando.
Longe, cá no fim do mundo,
me dou e nada mudou.
Mudo, um sorriso.
Só riso.
Um só.
Um sonho,
um sopro...

(1986)

8.10.01


Hoje ás 19:30, na Estação Botafogo 1, tem o documentário Timor Lorosae – O massacre que o mundo não viu de Lucélia Santos. O filme ilustra a inacreditável tragédia da ex-possessão portuguesa, um massacre (centenas de milhares de mortos) promovido pelos indonésios comparável ao Holocausto que levanta algumas questões interessantes e bastante atuais.

1 – Por que será que o mundo demorou tanto (25 anos) a se indignar com o que acontecia em Timor Leste?

2 – Por que Milosevic é julgado em Haia e Timor foi tratado como uma questão interna da Indonésia?

Parece bastante com “aquele” assunto, não é mesmo?

Fiquei olhando as imagens dos ataques dos aliados na TV e imaginando que nunca veremos a sofrimento estampado no rosto dos civis afegãos atingidos, que jamais assistiremos entrevistas com suas viúvas e órfãos, com seus amigos, que nenhum astro ou estrela cederá seu cachê para eles, que ninguém entrará em cadeia mundial para pedir doações para as famílias daqueles que arriscam a vida para salvar os inocentes.

Todo meu apoio a estas iniciativas que humanizam números e tentam minorar um sofrimento sem medidas. Só penso: por que elas são unilaterais? Por que a desgraça caucasiana e rica é pungente, real e personalizada e a miserável é verde e indefinida, com pipocos brilhantes e sem cara? E chego a infeliz e pouco original conclusão de que todos somos iguais, mas alguns são mais iguais que os outros.

Ainda bem que reservo esta palavra para poucas ocasiões: ódio. Odeio bin Laden por ter jogado o mundo nessa lama, por ter acendido o pior lado daqueles que agora se igualam a ele. Lamento tremendamente que o ocidente tenha mordido a isca. Infelizmente o demônio encarnado sabe o que faz e apontou seus canhões para aqueles que passaram quase todas as décadas do último século em alguma sorte de guerra. E se o que se quer é uma briga, há que se provocar um inimigo belicoso. Um analista reproduziu na televisão uma impressão que eu tinha: qualquer que seja o resultado dessa empreitada (a menos que prevaleça uma racionalidade da qual já quase desacredito e ele, capturado e julgado, seja condenado a prisão perpétua), a besta sairá vitoriosa. Se for preso, julgado e executado, ele será um mártir. Se for morto em combate, ele é o mártir. Se não for capturado, ele vira herói.


7.10.01

Eu me recuso a dizer mais do que "até o próximo encontro". É uma meleca... Este povo chega na nossa vida, enche o coração da gente de carinho e depois resolve ir morar do outro lado do Atlântico. Pode? O que é que eu faço? Torço para que tudo dê muito certo, porque aquela cidade é o má-xi-mo, o amor é lindo, você e ele são tudo de bom e merecem idem. E não consigo imaginar nada mais romântico do que largar tudo e ir com o amor da sua vida para .
Ontem, no tradicionalíssimo Nova Capela, depois de um magnífico cabrito com brócolis e muito alho e alguns chopes, ouvi:

"A empregada estava tendo uma crise brava de vômito e diarréia, verdinha, verdinha, molinha, molinha, depois de comer uma coxinha de galinha atrás da Central do Brasil. A gente estava se arrumando para levar a pobre para um hospital público.

Minha mãe disse:
_ Fica assim não. Podia ser pior.

Aí eu perguntei perguntei:
_ Como, mãe, como podia ser pior?

Minha mãe pensou um pouco e respondeu:
_ Ela podia ser a galinha."

5.10.01


Carinho é bom e eu gosto.

Obrigada, Violinha. Mas acerta aí na sua frase: ainda não conheço, ainda não sou amiga. Hoje é o marco zero da nossa amizade.

Um grande beijo para você.
Gostei da história que a Stella me contou:

Você me lembrou de uma história q aconteceu com minha irmã há uns 10 anos.

Certo dia, ela pediu às filhas Aninha, de 4 anos, e Clara, de 2, que juntassem os brinquedos que não gostavam mais, para serem doados. Aninha olhou bem nos olhos da mãe e disse: "Mãe, vamos dar Clara para os pobres"?

Não sei se era medo que a irmã mais nova (brinquedo vivo) fosse embora ou era o desejo de se livrar dela, mesmo...


hehehe Só os primogênitos sabem que sentimento é esse. O moleque aqui em casa passou um tempo insistindo para que eu e o pai déssemos um irmãozinho para ele. Quando viajamos, ele ficou na casa da minha mãe, que divide o quintal com minha irmã, meu cunhado e meu sobrinho. Na volta ele me confidenciou que havia desistido de ter um irmão: "Só com esse tempo com meu primo eu vi que criança pequena é muito chata." Fecha a fábrica e o pano.




4.10.01


Brincar faz parte do processo de desenvolvimento infantil.

Infelizmente, nem todas as crianças têm acesso aos brinquedos que temos oportunidade de prover aos nossos filhos. Já ouvi muita gente falando que não sabe o que fazer com brinquedos que lotam os quartos da classe média e com os quais nossas crianças não brincam mais, por isso resolvi divulgar uma iniciativa interessante.

Os laboratórios Bronstein (não, não tenho nenhum vínculo com eles), aqui do Rio, estão recebendo desde o dia 25 até o dia 6 de outubro brinquedos usados que serão distribuídos para crianças carentes. Eles podem ser depositados em qualquer das filiais abaixo. No dia 6/10 das 10:00 às 12:00 haverá uma recreação especial, comemorando o fim da Campanha Brinquedo Velho, Sorriso Novo.

Barra
Av. das Américas, 500 bl. 2/212
Av. Ayrton Senna 2150, bl. B/219

Bangu
Av. Cônego de Vasconcelos 523/lj. A

Bonsucesso
R. Cardoso de Morais 61/303

Botafogo (Matriz)
R. Marquês de Olinda 12

Cachambi
Rua Cachambi 337/Lj. A

Campo Grande
R. Augusto Vasconcelos, 177/lj. 105

Catete
Largo do Machado 54

Centro
Av. Rio Branco 257 sobreloja
R. do Ouvidor 161/505

Copacabana
Av. N. S. de Copacabana 1072/sobreloja
R. Barata Ribeiro 13 lj. B

Caxias
R. Pref. José Carlos Lacerda 1256/601

Icaraí
R. Cel. Moreira César 229/1015

Ilha
Estrada do Galeão 2751/lj. B

Ipanema
R. Garcia D’Avila 64/302

Leblon
R. Ataulfo de Paiva 566/204

Madureira
R. Carolina Machado 530/403

Méier
R. Dias da Cruz 215/sobreloja

Niterói
R. Dr. Borman 23/lj. 2

Penha
Av. Brás de Pina 688

Taquara
Av. Nelson Cardoso 1149/ sobrelojas 202 2 203

Teresópolis
Av. Lúcio Meira 670/506

Tijuca
R. Bom Pastor 295
Pç Saens Peña 45/320 e 326

Vila Isabel
R. Barão de São Francisco, 373/lj. J


BIBLIOTECAS CRESCEM NOS QUINTAIS DO RIO

O pedreiro Evandro dos Santos fez da garagem de sua casa, na Vila da Penha, uma biblioteca comunitária. Segundo ele, “não existem analfabetos, apenas intelectos não-lapidados.” Por lá encontra-se Proust, Ken Foller, Monteiro Lobato, As minas de Rei Salomão de R. Haggar na tradução de Eça de Queiroz, Agatha Christie e um livro de culinária em japonês além de outros 19 mil volumes que compõem seu acervo. A biblioteca abre na hora em que o leitor chega e fecha quando o último vai embora. Não há burocracia para consultar ou emprestar as obras. É tudo de graça, até as feijoadas e saraus literários promovidos pelo sergipano. A biblioteca foi batizada com o nome do poeta conterrâneo do visionário: Tobias Barreto de Menezes.

Evandro veio semi-alfabetizado para o Rio aos 18 anos. Foi um pastor de uma congregação batista quem terminou o trabalho usando a bíblia como cartilha. “O livro é vida. Sem ler, a gente vira robô” – diz aquele que chegou a ter uma coleção com 300 livretos de cordel antes mesmo de conseguir decifrar o que estava escrito ali. Ele ainda cita o faraó Ramsés II: “A biblioteca é o remédio do espírito”.

Em 1998, foi fazer uma obra numa loja e deparou-se com cercade50 livros que iriam para o lixo. Entre eles, havia a História do Brasil de Pedro Calmon e a coleção completa de Euclydes da Cunha. Evandro levou tudo para a casa. “As bibliotecas são túmulos. Não se pode falar. É uma burocracia danada para pegar um livro: tem que ter cadastro, foto, dinheiro”, enumera.

Começou a pedir doações em tudo quanto era canto. Milhares de livros foram buscados de ônibus, atravessando a cidade, pelo incansável Evandro. Dificuldade zero = sucesso instantâneo. Para idosos, gestantes e até preguiçosos Evandro pega um ônibus e leva a obra solicitada.

Entre as obras há raridades: um compêndio de medicina editado em 1900, uma Bíblia em latim de 1852 e talvez a única edição conhecida da História dos Mártires Evangélicos, de 1817.

Evandro agora sonha em construir uma sede para a biblioteca ou comprar um carro para pegar mais livros. Tem também o projeto de criar ali um centro de alfabetização de adultos, uma escola de línguas, uma oficina literária...


Vamos colaborar?

Biblioteca Comunitária Tobias Barreto de Menezes
Rua Engenheiro Augusto Bernachi, 130
Largo do Bicão - Vila da Penha
Rio de Janeiro – RJ
CEP 21235-720
Tel.: (21) 2481-5336


(Baseado em artigo publicado em 3/10/2001 no JB)

OUTRAS INICIATIVAS

Uma rede de bibliotecas comunitárias, sem apoio da iniciativa privada, governos ou organizações não-governamentais, está crescendo nos subúrbios do Rio e na Baixada.

O professor Marcelo Sanuto inspirou-se no exemplo do pedreiro Evandro para abrir em 1999, uma biblioteca numa área de 50 metros quadrados nos fundos de sua casa, no centro de Duque de Caxias. O acervo conta hoje com 10 mil volumes. A biblioteca está aberta em horário alternativo, das 18 às 21 horas.

Biblioteca Comunitária Paulo Freire
Tel.: (21) 2771-2502


O pastor Nivaldino Bastos montou sua versão na Igreja Batista do Irajá. Ela funciona desde maio com duas salas com livros didáticos e uma de enciclopédias. São 9 mil exemplares.

Biblioteca Comunitária Lima Barreto
(21)2471-5289


O corretor Flávio Rezende quer tirar a garotada da rua e mostrar Monteiro Lobato para eles. No porão de sua casa já se acumulam 2 mil livros que estarão disponíveis quando for inaugurada em Neves, distrito de São Gonçalo a:

Biblioteca Comunitária Machado de Assis
(faltam as estantes para dispor os livros)
Tel.: (21) 3707-1485


Há mais uma destas bibliotecas em Caxias, outra em Belford Roxo, uma em São João de Meriti e em Valença, na região sul do estado.

(baseado em artigo de 4/10/2001 do JB)

3.10.01

Mais recados:

Para Meg: Já entrei em contato com o reblogger para verificar se exite limite para o tamanho do post. Assim que tiver uma resposta, falo com você.

Recadinhos:

Para Jesse, que me pergunta se sou escritora: Acho que sou ainda escrevinhadora. Vivo cultivando o hábito de escrever, que me dá um prazer danado. De vez em quando alguém se interessa, gosta... Quem sabe um dia, né? :-)

Para Fer e Lettíssima: Valeu o toque!
1 - Metafísica idealista: A realidade suprema é de natureza mais espiritual do que física, mais mental do que material. “O que não pode ser pensado não pode ser real” (Parmênides). “O mundo é minha idéia” (Schopenhauer). O idealista não nega a existência do mundo à nossa volta, mas mesmo sendo essa coisas reais, elas não o são de forma derradeira. Para o idealista cristão, a realidade suprema é o Deus da Trindade. Platão considerou o espírito do homem uma “alma” que emana de um empíreo de “idéias” perfeitas e externas.Berkley assume a posição cristã ortodoxa de que a alma é imortal, tendo sido criada por Deus para desfrutar a vida eterna com Ele, após suas provações na Terra. Para Kant, o homem é livre (é um espírito) e determinado ( ser físico, sujeito à lei natural). O idealista hegeliano considera o homem uma parte vital do Absoluto (centelha do Espírito Eterno em que será reabsorvido na morte).

[O “EC”, nesse caso, preside ao nascimento de idéias, tratadas como possibilidades intrínsecas que necessitam ser desenvolvidas dentro do “encarcerado”. O conhecimento é mais “espremido” para fora do que “despejado”. É primordialmente a matéria aprovada aquela que deve ser “espremida” e não, usualmente, a que um estudante escolhe por si mesmo.]

2 – Metafísica realista: A matéria é a realidade suprema, não é simplesmente uma idéia na mente de indivíduos observadores ou mesmo na mente de um Observador Eterno. Ela existe em si e por si mesma, independente de nossas mentes.

2.1 – Realismo Racional: O mundo material é real e existe fora da mente daqueles que o observam.

2.1.1- Realismo Clássico: Aristóteles [O “EC” habilita o equilíbrio intelectual e não o ajuste ao ambiente físico e social. A espontaneidade e a criatividade são apreciadas]

2.1.2- Religioso ou Tomismo (Aristóteles visto pela lente de São Tomás de Aquino): Tanto a matéria como o espírito foram criados por Deus, que construiu um universo ordenado e racional a partir de Sua sabedoria e bondade supremas. Embora não seja exatamente mais real do que a matéria, o espírito é, contudo, mais importante. O homem é uma fusão do material com o espiritual, corpo e alma formando uma só natureza. Somos livres e responsáveis por nossas ações; mas também somos imortais, tendo sido colocados na Terra para amar e honrar nosso Criador, e assim merecermos a felicidade eterna. [ O “EC” deve levar à natureza como obra saída da mão de Deus, já que a ordem e a harmonia do universo são o fruto da criação divina]

2.2- Realismo Natural e Científico: Cético e experimental. Não há um domínio espiritual ou sua existência não pode ser provada. O homem é um organismo biológico dotado de um sistema nervoso altamente desenvolvido e uma disposição inerentemente social. Aquilo que chamamos “pensamento” consiste, realmente, numa função altamente complexa do organismo que o relaciona com seu meio ambiente, semelhante a outras funções orgânicas. Não há livre arbítrio. O indivíduo está determinado pelo impacto do meio físico e social sobre sua estrutura genética.

[Para a concepção realista, o “EC” deve então transmitir um núcleo central de matérias que familiarize o "cativo" com o mundo à sua volta]

3 – Metafísica Pragmática: Só podemos conhecer aquilo que nossos sentidos experimentam. Aborda a realidade da transformação, a natureza essencialmente social e biológica do homem, a relatividade dos valores e o uso da inteligência crítica. O mundo não é dependente nem independente da idéia que o homem faz dele. A realidade equivale à “interação” do ser humano com seu meio ambiente – é a soma total do que “experimentamos”. O mundo só é significativo na medida em que o homem lhe atribui significado. Se o universo possui alguma finalidade mais profunda, ela está oculta do homem; e o que o homem não pode experimentar não pode ser real para ele. A mudança é a essência da realidade e devemos estar sempre preparados para alterar o modo como fazemos as coisas. A realidade é criada pela interação de uma pessoa com seu meio ambiente. A natureza humana é fundamentalmente plástica e variável. O ser humano é um organismo vivo, continuamente empenhado em reconstruir e interpretar suas próprias experiências. [O “EC” é fim e meio, visando melhorar e aperfeiçoar o “prisioneiro” e é o método para fazer isso. Não deve geralmente opor-se aos interesses do “prisioneiro”, mas deve ser uma decorrência natural desses interesses. A função do “EC” é vida e não uma preparação para ela.]

(Resumo do primeiro capítulo do livro Introdução à Filosofia da Educação de George F. Kneller)
Uau! Que felicidade! Finalmente tenho a sensação de não estar falando sozinha. Como é bom sentir isso! Adorei ver comentários aqui mesmo, na minha casa, e saber que o que andei postando aqui gerou assunto na vizinhança.

A Letti colocou um link na página dela falando do Mito da Caverna. E através dele chegou por aqui o Tirupi, que comentou o fato em seu blog. A Juliana mandou por ali mesmo seu recado, comentado depois pela Zel. Não é o máximo para quem andava se queixando?

Eu não coloquei os meus comentários então, mas depois da avalanche de questionamentos da minha mais nova queridona deste mundo virtual, a Meg, achei que fiquei mesmo devendo uma justificativa para o texto ter parado ali.

Ela pergunta: “De qual fonte vc retirou a alegoria (e não mito, como infelizmente vários tradutores antigos chamam) da Caverna. Faça o devido estorno/desconto, em relação aos mitos já classificados por Barthes (esses são modernos, performáticos).”

Respondo: Tudo começou quando fui visitar o site da Helô. Encontrei por lá uma citação do Saramago que achei interessante e fui pesquisar para encontrar na íntegra. Descobri que ele estava falando de seu livro “A Caverna” que usa esta alegoria (não é chic ter uma amiga que ensina um monte de coisas interessantes para a gente?). Claro que este título já entrou na minha lista de aquisições inadiáveis. Então fui atrás da alegoria propriamente dita. E foi bonito porque quando li todo o texto lembrei exatamente da aula em que eu o estudei, lá na época do Curso de Formação de Professores. Sim, Meg querida, eu já fui normalista! A alegoria tal como se apresenta aqui foi retirada de um site sobre pedagogia, cujo endereço posso tentar recuperar para você.

Não chego à unha de seu menor dedo do pé quando o assunto é filosofia e realmente não tenho como saber, como falou a Juliana, se esta é a tradução correta, se esta abordagem carrega uma visão modernosa do discurso. Olho esta discussão mais acadêmica apenas da arquibancada, babando com a erudição de vocês. Ele está aqui porque me deu o que pensar. E eu acho que isso é bom.

Meg: “Vc tem um destinatário específico que re-presente os papéis de Platão (que é quem realmente fala, pela boca de Sócrates) e para nós representados pelos ouvintes/leitores do diálogo platônico?”

CC: Será que consegui responder a isto a seguir?

Meg: No post que você colocou, alguém entenderá como e por quê através de quem? Se dará o insight de que vivemos num mundo de sobras? De cópias, de projeções na parede da caverna? Como alguém que vive no mesmo mundo que nós, afeito (de afecção) a todas as mesmíssimas características da condição descrita por Platão/Sócrates, pode trazer-nos essa mensagem, de que há um mundo mais real (repare não real, mas mais real) que é o originado pela fogueira (má tradução para fogo) no domínio carcerário? Seria um soi-disant EC (extra-caverna) como ET (extra-terrestre)?

CC: O mundo não é de sombras. Também delas, mas não só. Estamos vendo apenas uma pequena parte do mundo (as sombras) e é disso que se trata. Foi assim que eu entendi, numa leitura inicial. Na verdade, essa alegoria me cativou porque pode ser lida através dos olhos da pedagogia, da comunicação social, da religião, da ufologia... Segundo o prisma educacional, a caverna seria a ignorância; para a comunicação social, a manipulação da mídia; para religião, talvez o ateísmo, a condição do espírito encarnado ou as ilusões; para a ufologia, o próprio planeta Terra. E, para cada uma das abordagens, a resposta para o através de quem é diferente. Para que o insight fosse a única solução, seria necessário que não houvesse outras pessoas fora do cárcere. O EC poderia ser o messias, o professor, a mídia independente, o ET... Minha resposta favorita seria: o EC mora em nós e ele sempre entoa, mesmo do fundo da caverna mais profunda e escura, as mesmas questões. E são estas questões humanas que dão força ao prisioneiro para arrebentar as próprias amarras e caminhar com os próprios pés para fora da caverna. Felizes são aqueles que encontram um guia no limiar da caverna. Mas soltar a primeira corrente e olhar em volta é um exercício solitário e muito doloroso, geralmente executado por quem já não suporta questões sem respostas.

Meg: “E daí que a compreensão do real a partir das sombras pode ser também da mesma qualidade das sombras. O que você acha?

CC: Deixa eu ver se entendi a sua pergunta. Você está me perguntando se a luz e toda a realidade que ela mostra seriam uma não sombra e uma não caverna? Se estaríamos definindo o real pelo metro do já conhecido? E que isto não seria uma verdadeira revelação mas apenas um jogo de positivo e negativo? E que ainda haveria algo além? É isso? Se for isso, vou te contar que estou usando as linhas filosóficas que vou colocar no próximo post para brincar com várias possibilidades. Repito: o número e qualidade das respostas é proporcional à quantidade de abordagens escolhidas.

2.10.01


O que você pensaria de uma mulher que largou um emprego no McDonald's para se inscrever num concurso de miss onde foi consagrada a mais bonita de seu estado naquele ano? E que foi nesta época que ela disse a amigos que seria Marilyn Monroe? E se eu dissesse que esta mulher foi contratada como modelo da Ford e que este foi o trampolim para sua carreira de atriz? E se eu falasse que ela já foi eleita a mulher mais linda e/ou mais sexy por várias publicações mundo afora e que deixou muito marmanjo babando com um gesto que durou no máximo dois segundos? O que você diria de uma beleza que a idade só realça?

E se eu contasse que ela estreou nas telas num filme de Woody Allen e que o emprego na lanchonete era para judar com as despesas da faculdade onde ela ingressou com 16 anos? E se eu dissesse que ela tem um QI tão alto que permitiu seu ingresso num clube de gênios e que por cada trabalho leva para casa 12 milhões de dólares? E que tal um envolvimento em diversas causas humanitárias?

Esta história de linda, rica, inteligente e famosa, mas - coitada - vítima de uma tragédia é um prato cheio. Eu ainda me lembro do alvoroço que foi quando Lady Di morreu. Causa tanta comoção porque tem gente raciocina assim (ainda que não reconheça nem para seu travesseiro): eu não tenho nada do que esta criatura tem, mas pelo menos a) estou viva; b) não estou num leito de hospital. Desgraça envolvendo celebridade sempre rende.

Eu fico torcendo para que Sharon Stone se recupere logo desta hemorragia cerebral e volte a emprestar sua beleza e talento de sempre às nossas telas e aos nosso vídeos.

Pode parecer maluquice, mas eu realmente gosto de andar de ônibus. Lógico que fora da obrigação cotidiana, dos horários em que é impossível caber mais uma mosca e sem grandes obrigações de horários. Gosto de estar perto de gente, de gente de verdade, daquelas que fazem números largos em estatísticas.

No meio da tarde, é possível sentar-se e, no conforto relativo que este tipo de transporte pode proporcionar, observar as mudanças na paisagem e da fauna humana que entra e sai à medida que o carro avança pelos bairros. Vejo em cada pedacinho da cidade um caráter próprio, expresso também na alma e na cultura peculiar de seus habitantes. Observo o homem caladão sentado ao meu lado. Perdido em seus pensamentos durante a viagem e sem me dirigir palavra, ele me conta sua história.

Ele é aposentado. Usa um chinelo estilo franciscano, uma calça que a sua senhora transformou em bermuda e uma camisa social com estampa antiga. A patroa também imprimiu sua marca ali, virando a gola puída para aumentar sua vida útil.

Não se queixa. O dinheiro da aposentadoria é pouco, mas pelo menos conseguiu, ao longo da vida comprar um terreninho e lá construir sua casa. Muitos de seus ex-colegas estão em maus lençóis. Aqueles que escolheram morar em apartamentos ainda penam com prestações intermináveis e taxas de condomínios extorsivas. É uma pena que aquele seu bairro, que antes era apenas simples e distante, agora tenha sido cercado por favelas onde traficantes impõem sua rotina de terror. A mulher já pensa em mudar de lá, mas a casa é boa e se fossem vender iam conseguir um preço muito baixo e ter se conformar em viver em um cubículo qualquer ou em morar com um dos filhos. Isso ele não quer de jeito nenhum. Não consegue se imaginar morando num lugar onde é preciso dirigir até para comprar pão. Ele sabe das suas manias. Em pouco tempo ele e a mulher se iam se transformar num estorvo. E o que seria dos dois sem os cachorros, o quintal, as coisas arrumadas do jeito deles e as amizades que cultivaram durante décadas com a vizinhança?

Os filhos ajudam muito e por isso as coisas não são mais difíceis ainda. O mais velho faz questão de cuidar de todas as receitas médicas. Ele e a patroa tem todos os medicamentos ao tempo e à hora. O outro contribui quando alguma coisa grande e urgente aparece. Foi ele quem pagou todo o material e mão-de-obra quando foi preciso consertar aquele vazamento no banheiro. A filha caçula está sempre por ali, ajudando a mãe, fazendo as vezes de motorista quando precisa.

Ele já teve carro. Um corcel, alguns fuscas e até um chevette. Hoje em dia não pode mais manter este luxo. Andar de carro só com os filhos. No resto do tempo, ele vai mesmo de ônibus. Aos poucos vai descobrindo as vantagens por ter vivido tanto. Não são muitas, mas não pagar passagem é uma delas.

As crianças – não adianta, ele continua chamando os filhos de “as crianças” – são de ouro. Aproveitaram bem o sacrifício que ele e a mãe fizeram para que tivessem uma boa educação. Colhem hoje os frutos de uma juventude mergulhada em livros, sem muita diversão, que o dinheiro era contado. Não gosta que eles todos tenham decidido ir morar lá para as bandas da Barra. Preferia ter a turma mais perto dele, ver os netos com mais freqüência, mas tudo bem. Ele tem muito orgulho dos meninos.

A única que deu algum trabalho foi a garota. Sempre foi agitada, meio rebelde. Dos três é a única que não tem um diploma. Mas agora que o filho está maiorzinho, está pensando em voltar a estudar. O neto é uma alegria na vida dele, mas ela podia ter tido um pouco mais de juízo e deixado que ele viesse quando a vida dela estivesse mais organizada. A gente não escolhe o caminho dos filhos. Depois de determinado ponto, só o que se pode fazer é torcer para que eles escolham a retidão. A gente também vai aprendendo que a vida devagar vai entrando nos trilhos, mesmo depois dos maiores sustos. Ele ainda lembra da cara da mulher e da decepção que ele mesmo sentiu quando a filha contou que estava de barriga. Ora, sim senhor! Foi um soco no estômago. O pai do menino fez tudo como manda o figurino e só não se casaram no papel porque queriam que quando acontecesse, fosse como nos sonhos dela, na igreja, com vestido... E ele estava começando a vida, andava desprevenido e ainda tinha toda a despesa com a vinda do bebê. A filha largou os estudos e só pôde começar a trabalhar depois que o bebê desmamou. Foi dureza. A família toda colaborou para construir uma casinha num cantinho que estava esquecido lá no quintal (os terrenos de antigamente é que eram terrenos de verdade), onde eles moraram até firmarem as pernas. Depois que eles mudaram para Jacarepaguá, o aluguel desta casinha passou a ajudar bastante.

No ano passado conseguiram fazer a cerimônia com tudo o que tinham direito. A alegria do pai que conduz a filha até o altar apaga qualquer coisa tristeza. Dona Encrenca chorou que nem bebê com o neto no colo. Êta mulher danada! Ele sabe que jamais vai conseguir dizer a ela o quanto ela estava bonita naquele dia e como ele ainda é apaixonado pela mãe de seus filhos. As roupas dos dois foram compradas pela filha, que queria todo mundo nos trinques. Ela vive insistindo para ele ir com ela numa destas lojas de shopping para escolher umas coisinhas novas para vestir. Pra quê? Ele não gosta de gastar dinheiro com bobagens.

Neste momento, ele está indo visitar uma irmã doente no Hospital do Andaraí. Olha o ponto chegando!

Despeço-me e agradeço em silêncio sua companhia muda.

No lugar que ele deixou vago, senta-se uma negra gorda...

1.10.01


Não esquecer de falar sobre:

- ônibus
- chinelo franciscano
- material de construção

Deixa eu ir, que estána hora do moleque voltar da escola.


É, meu camarada...

Tô vendo que o negócio é mesmo como dizia o filósofo: "quem não chora não mama".

Depois de chiar que ninguém me dava bola, três almas caridosas resolveram dar um alô por aqui: BellaTrix, Vicky e Violinha. Valeu, meninas!

Como em time que está ganhando não se mexe, talvez eu consiga pelo menos um comentário para cada post continuando minha trip de chantagem emocional.

30.9.01


Kitty
Domingo de sol no Rio de Janeiro!? Se algum membro da família tem alguma coisa para fazer na rua, mesmo que seja buscar uma papelada na casa de um colega de trabalho, todo mundo entra correndo no carro, porque sabe que no caminho vai cruzar com festa para todo lado.

Antes de dobrarmos a primeira esquina, já fomos cercado pelo fervilhar do Maracanã, numa manhã ordinariamente dominical em que os pais esperam filhos que foram prestar um exame qualquer. Feliz coincidência: no rádio os Novos Baianos cantam “Besta É Tu” falando do estádio num destes dia da semana.

Passamos na esquina da Rua Radialista Waldir Amaral, cruzamos o Espaço Jamelão na avenida do samba. O Cristo estava lá em cima, com seus braços eternamente abertos. O que há demais em um túnel? Uma linda imagem de Santa Bárbara que ficou escondida durante muito tempo e finalmente está em lugar de destaque.

As pessoas e os carros tomam as ruas. A frente da igreja está cheia de fiéis. A praça repleta de manifestantes de branco orando e discursando. Na frente da maternidade colorida de flores, pessoas celebram a chegada de novos membros às suas famílias. O prédio me traz uma história triste à lembrança e ela derrete ao sol. Ali ao lado mora uma amiga que não vejo há tempos. Saudades de seu sorriso largo...

Largo do Boticário. Piso em suas pedras elegantes. Espio o rio que emprestou seu nome aos nascidos ou simplesmente apaixonados pela cidade. Em suas águas os tamoios acreditavam conferir beleza às mulheres e virilidade aos homens. Por ali morou um grande artista que apaixonou-se pelo rosto de uma amiga minha. As casas parecem mais velhas do que realmente são, usando material retirado das demolições das edificações que ficavam onde hoje está a Avenida Presidente Vargas.

É hora do almoço? Petisco da Vila, claro! O garçom parece a Lúcia Helena daquela propaganda do Unibanco, mimando o guri que ele conhece desde o tempo em que ainda morava dentro da minha barriga.

Definitivamente deveria haver alguma lei que proibisse que os dias do final de semana fossem cinzentos como ontem. Sábado carrancudo no Rio é um absurdo! Passei o dia todo madorrenta. Os meus meninos foram ver a exposição surrealista, mas museu lotado não é realmente um antídoto anti-tédio para mim. O dia só não foi totalmente perdido porque na volta para casa meu amo e senhor teve a brilhante idéia de passar na videolocadora.

Um filme para mim e outro para ele, teoricamente. Eu gostei dos dois, de formas diferentes. Eternamente Lulu é divertido, mesmo tratando de uma situação dramática, afinal saias justas são geralmente assim: pateticamente engraçadas. O diálogo no avião, o lobby, o corredor e os quartos do hotel, a visita à família de um filho que a vida extraviou... Cenas que poderiam acontecer com quase todo mundo... Roteiro tão bom que a gente consegue abstrair os intérpretes dos protagonistas: Senhora Banderas e Patrick Swayze.

Vivendo no Limite é um filme estranho que eu deliberadamente evitei quando passou nos cinemas. Mas é um bom filme, embora eu tenha saído da sala numa cena mais brava. Como naquela mensagem que roda pela Internet exortando todos a agradecerem por não trabalharem numa fábrica de supositórios que garante que seus produtos são previamente testados, depois de assistir a este filme também nos sentimos compelidos a dar graças por nosso próprio trabalho. Já pensou trabalhar como paramédico de madrugada num bairro marginal de uma grande cidade? E Nicolas Cage é simplesmente o máximo! É angustiante. É um filmaço.

E ainda faltam meia tarde, uma noite e uma madrugada para acabar o final de semana.