* Não importa se somos ricos ou pobres, instruídos ou não, dessa ou daquela raça, sexo ou religião, o que realmente todos nós desejamos é ser feliz e não sofrer.
* Mas, ao contrário dos sofrimentos da doença, da velhice e da morte, esses problemas [assassinatos, estrupos, exploração e abuso nos relacionamentos familiares e, em esferas mais amplas, o número crescente de jovens viciados em drogas e a forma como muitos maus casamentos afetam as crianças] não são por natureza inevitáveis.
* Uma revolução se faz necessária, e é uma revolução espiritual. Não importa se uma pessoa tem ou não uma crença religiosa. Mais importante é que seja boa.
* (...) amor, compaixão, paciência, tolerância, contentamento, noção de responsabilidade e de harmonia (...)
* [citando o erudito e médico Shantideva] Não há esperança de encontrarmos uma quantidade suficiente de couro que cubra toda a terra para que nunca espetemos nossos pés em espinhos. Mas basta um pedaço para cobrirmos as solas de nossos pés. Em outras palavras: nem sempre podemos mudar a nosso gosto a situação externa, mas podemos mudar nossa atitude.
* A base é a nossa capacidade para a empatia. À medida que transformamos essa capacidade em amor e compaixão, nossa prática da ética se desenvolve. E todos ganham em qualidade de vida e em felicidade - os outros e nós.
* [novamente citando Shantideva] É essencial quando se enfrentam dificuldades de qualquer espécie, não se deixar paralisar - ou corremos o risco de ser esmagados por elas. Em vez disso, utilizando nossas faculdades críticas, devemos examinar a natureza do problema. Se descobrimos que existe possibilidade de resolvê-lo por algum meio, a ansiedade é desnecessária. A atitude racional, então, é dedicar toda a energia para buscar esse meio e em seguida agir. Se, ao contrário, a natureza do problema não admite
solução, não há por que se preocupar. Se nada pode mudar a situação, preocupar-se só
piora as coisas.
* Os acontecimentos infelizes, apesar de serem potencialmente uma fonte de raiva e desespero, podem da mesma forma transformar-se em fonte de crescimento espiritual. O resultado vai depender de nossa forma de agir.
* Exercer nossa faculdade de julgamento no domínio da ética, por fim, implica assumir responsabilidades tanto por nossos atos quanto por aquilo que nos motiva a agir desta ou daquela maneira. Cada um de nossos atos afeta não só as pessoas mais próximas, como também reflete em nossos colegas de trabalho, nos amigos, na comunidade e, em última análise, no mundo em que todos vivemos.
* Mas não acredito que todos possam ou devam ser como Mahatma Gandhi e passem a viver como camponeses pobres. Uma dedicação assim é maravilhosa e deve ser admirada. Mas o lema é: "Tanto quanto pudermos" - sem chegar a extremos.
* Quando os meios de comunicação se concentram demais nos aspectos negativos da natureza humana, há o perigo de nos persuadirem de que a violência e a agressividade são as principais características do homem. Essa conclusão é um equívoco. Num determinado momento há milhões de atos de bondade acontecendo no mundo. Há muitos atos de violência sendo cometidos ao mesmo tempo, mas em número menor. Se a mídia quiser ser eticamente responsável, deve refletir sobre esse simples fato.
* O desafio do novo milênio é encontrar meios de obter uma cooperação internacional - ou melhor, intercomunitária - na qual a diversidade humana seja reconhecida e os direitos de todos sejam respeitados.
(trechos do livro Uma Ética para o Novo Milênio - Dalai Lama)
24.5.02
22.5.02
Li hoje no jornal e me lembrei, por motivos diferentes, da Meg e da Cláudia:
"(...)Afinal, um outro verso é conferido, ora a Caetano Veloso, ora a Fernando Pessoa, mas não pertence por direito a nenhum dos dois.
Trata-se de um verso de Os Argonautas, 'navegar é preciso, viver não é preciso', frase com que o general romano Pompeu tentou convencer seus soldados a embarcarem em mar proceloso levando trigo para Roma, então ameaçada por fome iminente. O romano recolheu o dito do grego, traduzindo-o para o latim desjeitoso que em tudo diferia do estilo elegante de César: 'navigare necesse est, vivere non necesse'."
"(...)Afinal, um outro verso é conferido, ora a Caetano Veloso, ora a Fernando Pessoa, mas não pertence por direito a nenhum dos dois.
Trata-se de um verso de Os Argonautas, 'navegar é preciso, viver não é preciso', frase com que o general romano Pompeu tentou convencer seus soldados a embarcarem em mar proceloso levando trigo para Roma, então ameaçada por fome iminente. O romano recolheu o dito do grego, traduzindo-o para o latim desjeitoso que em tudo diferia do estilo elegante de César: 'navigare necesse est, vivere non necesse'."
No mesmo dia em que peguei os discos na casa da minha mãe, acho que descobri porque nunca vesti a carapuça de que "toda mulher, no fundo, quer casar na igreja, vestida de noiva".
No meu do álbum de família, entre fotos com valor histórico, estava eu, lindona e banguela, aos 7 anos vestida caprichadamente de noiva para uma festa junina. Isso foi no tempo em que eu morava em 'Berlândia, do ladinho de 'Beraba, um pouco prá lá de Belzonte.
Foi aí que matei toda e qualquer vontade que pudesse aflorar no futuro.
Mas o que eu quero dizer de verdade é: Eu quero um scanner!!!
No meu do álbum de família, entre fotos com valor histórico, estava eu, lindona e banguela, aos 7 anos vestida caprichadamente de noiva para uma festa junina. Isso foi no tempo em que eu morava em 'Berlândia, do ladinho de 'Beraba, um pouco prá lá de Belzonte.
Foi aí que matei toda e qualquer vontade que pudesse aflorar no futuro.
Mas o que eu quero dizer de verdade é: Eu quero um scanner!!!
Fabrício é o nome do filho da minha irmã caçula. Seria o nome dela, caso não tivesse nascido rachada. Quando minha mãe engravidou dela, eu tinha uns três anos e ainda me lembro da sua barriga e de muita coisa que envolveu a gravidez e o nascimento. Eu fiquei fascinada porque a minha mãe tinha um bebê na barriga e queria um também. Então vivia o tempo todo com um travesseiro embolado por dentro da roupa. Assim travesseiro, na minha cabeça infantil, virou sinônimo de Fabrício.
Meu marido tem um afilhada, filha de um amigo dos tempos de colégio. Nossas duas famílias são amigas, embora nos vejamos com menos freqüência do que pede a vontade. Toda vez que íamos lá, tínhamos que explicar ao meu filho que era à casa da afilhada. E começava uma série de perguntas sobre grau de parentesco, sobre ser ou não primo... Até que uma vez resolvemos deixar barato e dizer que eles eram uma espécie de família escolhida, do coração. Foi natural, então, ver o garoto começar a referir-se àquela turma como "a familiada" (família de consideração + afilhada).
Só que, de repente, ele começou a comportar-se de forma estranha em relação ao compadre e à comadre e à prole. Ele não queria fazer mais as visitas nas quais sempre se divertiu muito com as crianças. Quando eles chegavam ou nos encontrávamos ao sabor do acaso, ele se escondia ou corria para longe. Ia além daquelas coisas desagradáveis que as crianças fazem e que deixam os pais querendo que o chão se abra (oh, yeah, mico não é exclusividade de pais). Parecia medo. E não havia Cristo que explicasse o porquê da mudança.
Até que um dia eu estava na cozinha e o moleque me chamou da sala porque ia começar o desenho do meu tempo (ahã, tem disso também) que eu adorava. Eu perguntei qual, um pouco para ganhar tempo, um pouco para puxar assunto e ver a quantas andava o conhecimento dele por minhas preferências. Ele respondeu que era aquele dos monstrinhos, da "familiada".
Quando cheguei na sala para ver do que ele estava falando foi que a ficha caiu. Da mesma forma que eu confundia travesseiro com Fabrício, ele associava "familiada" com Família Adams.
Meu marido tem um afilhada, filha de um amigo dos tempos de colégio. Nossas duas famílias são amigas, embora nos vejamos com menos freqüência do que pede a vontade. Toda vez que íamos lá, tínhamos que explicar ao meu filho que era à casa da afilhada. E começava uma série de perguntas sobre grau de parentesco, sobre ser ou não primo... Até que uma vez resolvemos deixar barato e dizer que eles eram uma espécie de família escolhida, do coração. Foi natural, então, ver o garoto começar a referir-se àquela turma como "a familiada" (família de consideração + afilhada).
Só que, de repente, ele começou a comportar-se de forma estranha em relação ao compadre e à comadre e à prole. Ele não queria fazer mais as visitas nas quais sempre se divertiu muito com as crianças. Quando eles chegavam ou nos encontrávamos ao sabor do acaso, ele se escondia ou corria para longe. Ia além daquelas coisas desagradáveis que as crianças fazem e que deixam os pais querendo que o chão se abra (oh, yeah, mico não é exclusividade de pais). Parecia medo. E não havia Cristo que explicasse o porquê da mudança.
Até que um dia eu estava na cozinha e o moleque me chamou da sala porque ia começar o desenho do meu tempo (ahã, tem disso também) que eu adorava. Eu perguntei qual, um pouco para ganhar tempo, um pouco para puxar assunto e ver a quantas andava o conhecimento dele por minhas preferências. Ele respondeu que era aquele dos monstrinhos, da "familiada".
Quando cheguei na sala para ver do que ele estava falando foi que a ficha caiu. Da mesma forma que eu confundia travesseiro com Fabrício, ele associava "familiada" com Família Adams.
21.5.02
Trouxe da casa da minha mãe todos os LP's que ainda havia por lá. Ela queria se livrar deles e acho que somos os únicos da família que ainda temos toca-discos.
Durante um tempinho eles ficaram largados em um canto qualquer, porque eu estava sem condições de mexer em qualquer coisa que remotamente lembrasse cheiro de guardado e poeira. Pois avançamos na investida no último fim de semana.
Algumas preciosidades, muita bobagem, recordações de infância e adolescência, os sons que lembravam meu pai... Muito mais que uma seleção do que manteríamos e do que descartaríamos, uma atividade lúdica...
E misturado com aquele disco que sempre amei do Martinho ou da Gal ou do Chico e Caetano juntos ou da Clara Nunes, uns discos engraçados, com capas muito pitorescas. Acho que era uma fórmula comum nos anos 70: músicas que estavam fazendo sucesso no rádio regravadas por anônimos e agrupadas em 3 ou 4 numa mesma faixa. Na capa uma mulher bonita.
Daí, me deparei com o passado de O Clone.
A primeira beldade é de reconhecimento imediato.
A segunda só reconheci porque sabia de sua trajetória.
E você? Sabe quem é ela?
Durante um tempinho eles ficaram largados em um canto qualquer, porque eu estava sem condições de mexer em qualquer coisa que remotamente lembrasse cheiro de guardado e poeira. Pois avançamos na investida no último fim de semana.
Algumas preciosidades, muita bobagem, recordações de infância e adolescência, os sons que lembravam meu pai... Muito mais que uma seleção do que manteríamos e do que descartaríamos, uma atividade lúdica...
E misturado com aquele disco que sempre amei do Martinho ou da Gal ou do Chico e Caetano juntos ou da Clara Nunes, uns discos engraçados, com capas muito pitorescas. Acho que era uma fórmula comum nos anos 70: músicas que estavam fazendo sucesso no rádio regravadas por anônimos e agrupadas em 3 ou 4 numa mesma faixa. Na capa uma mulher bonita.
Daí, me deparei com o passado de O Clone.
A primeira beldade é de reconhecimento imediato.
A segunda só reconheci porque sabia de sua trajetória.
E você? Sabe quem é ela?
20.5.02
Todo mundo repete sobre o caminho do meio, mas nem sempre é fácil encontrá-lo.
Glória na recepção da academia. Sempre eficiente e simpática. Um tantinho mais atenciosa do que a exigência profissional, naquele ponto que tranforma um bom dia burocrático num desejo sincero de um dia agradável, uma providência a ser tomada num real desejo de ajudar.
Um dia, Glória de lenço na cabeça e sem sobrancelhas. O sorriso gentil de sempre. Meu bom dia caprichado. Eu sei. Ela sabe que eu sei.
Puxo assunto? Ofereço apoio? Intromissão? Omissão?
Não tem mais importância agora...
Glória na recepção da academia. Sempre eficiente e simpática. Um tantinho mais atenciosa do que a exigência profissional, naquele ponto que tranforma um bom dia burocrático num desejo sincero de um dia agradável, uma providência a ser tomada num real desejo de ajudar.
Um dia, Glória de lenço na cabeça e sem sobrancelhas. O sorriso gentil de sempre. Meu bom dia caprichado. Eu sei. Ela sabe que eu sei.
Puxo assunto? Ofereço apoio? Intromissão? Omissão?
Não tem mais importância agora...
Só dou ouvidos a ditos populares quando me convêm. E hoje a situação foi extremamente conveniente.
O ditado: "Criança não mente."
A situação: "Mamãe, você com esta roupa está tão... tão... tão... Como é mesmo a palavra? Ah! Sexy!"
Nada mais adequado para se ouvir quando a roupa fica arrochada graças a uma retenção de líquidos típica da época do mês. Sim, estou falando daqueles dias em a percepção é alterada contra você e faz com que você se sinta a maior das barangas e tudo o que você quer é que seus esforços para melhorar a situação resultem em algum elogio espontâneo (e que pelo menos soe sincero). Para você, principalmente neste período do mês, e somente para você (jamais para a filha adolescente da sua amiga) deverão ser guardados adjetivos como avião.
Mulheres, eduquem seus filhos homens para reconhecer e dar a devida atenção a uma mulher com TPM. Ensinem a eles a esquecerem completamente as piadinhas de mau gosto, os risinhos mal-disfarçados, os ah-eu-sabia. Digam assim para eles: respeito é bom e a gente fêmea, especialmente às vésperas do sangue, gosta muito.
Por mais incompreensível que possa parecer ao raciocínio linear masculino, esclareçam por favor, companheiras, perdemos a concentração intelectual, reduzimos a produtividade, sentimos compulsão alimentar por doces e chocolate, alteramos o comportamtno sexual, sentimos náuseas, vomitamos, sentimos dores musculares e articulares, cefaléia, irritabilidade, raiva, ansiedade, depressão, cansaço, vemos aumentar as mamas e sentimos dores aí, sofremos distensão abdominal e somos infladas por gases não por gosto ou deliberado faniquito.
E também não somos uma raça mutante. É que antigamente, menstruava-se pela primeira vez aos 17 anos. Paria-se quase anualmente , amamentava-se muito. A bisa deve ter menstruado por três anos seguidos, no máximo. Nós, no século XXI, 25 anos a mais que isso.
Mães do meu Brasil, invistam na sensibilização dos machos das novas gerações. Expliquem que a cara de poucos amigos não quer dizer que algo grave aconteceu e que não é hora de puxar aquele papo sério que vem sendo adiado por tanto tempo. Colegas de sexo, deixem claro para seus filhos varões qual as conseqüências de não respeitar o silêncio amuado de uma mulher nos dias que antecedem sua menstruação.
Mas enquanto não chega a fase deles lidarem com suas próprias companheiras, Deus abençoe os filhos em fase edipiana!
O ditado: "Criança não mente."
A situação: "Mamãe, você com esta roupa está tão... tão... tão... Como é mesmo a palavra? Ah! Sexy!"
Nada mais adequado para se ouvir quando a roupa fica arrochada graças a uma retenção de líquidos típica da época do mês. Sim, estou falando daqueles dias em a percepção é alterada contra você e faz com que você se sinta a maior das barangas e tudo o que você quer é que seus esforços para melhorar a situação resultem em algum elogio espontâneo (e que pelo menos soe sincero). Para você, principalmente neste período do mês, e somente para você (jamais para a filha adolescente da sua amiga) deverão ser guardados adjetivos como avião.
Mulheres, eduquem seus filhos homens para reconhecer e dar a devida atenção a uma mulher com TPM. Ensinem a eles a esquecerem completamente as piadinhas de mau gosto, os risinhos mal-disfarçados, os ah-eu-sabia. Digam assim para eles: respeito é bom e a gente fêmea, especialmente às vésperas do sangue, gosta muito.
Por mais incompreensível que possa parecer ao raciocínio linear masculino, esclareçam por favor, companheiras, perdemos a concentração intelectual, reduzimos a produtividade, sentimos compulsão alimentar por doces e chocolate, alteramos o comportamtno sexual, sentimos náuseas, vomitamos, sentimos dores musculares e articulares, cefaléia, irritabilidade, raiva, ansiedade, depressão, cansaço, vemos aumentar as mamas e sentimos dores aí, sofremos distensão abdominal e somos infladas por gases não por gosto ou deliberado faniquito.
E também não somos uma raça mutante. É que antigamente, menstruava-se pela primeira vez aos 17 anos. Paria-se quase anualmente , amamentava-se muito. A bisa deve ter menstruado por três anos seguidos, no máximo. Nós, no século XXI, 25 anos a mais que isso.
Mães do meu Brasil, invistam na sensibilização dos machos das novas gerações. Expliquem que a cara de poucos amigos não quer dizer que algo grave aconteceu e que não é hora de puxar aquele papo sério que vem sendo adiado por tanto tempo. Colegas de sexo, deixem claro para seus filhos varões qual as conseqüências de não respeitar o silêncio amuado de uma mulher nos dias que antecedem sua menstruação.
Mas enquanto não chega a fase deles lidarem com suas próprias companheiras, Deus abençoe os filhos em fase edipiana!
19.5.02
A semana que passou não foi fácil.
A gripe que me deixou fora do ar teve que cantar para subir rapidinho porque uma montoeira de trabalho urgente apareceu. Entre mortos e feridos salvaram-se todos. Infelizmente tive que deixar este espaço para depois. Estou com várias coisas para responder e comentar. Tenho esperanças de conseguir fazer isso em breve.
Ontem, depois de entregar o tal trabalho, fui enxotar de vez a cara abatida com uma passada básica para revisão num salão. Uma tarde inteira de paparicos e embelezamento levantam até defunta. Nada como uma pele lisinha, unhas feitas e cabelos arrumados... Fiquei até me sentindo gente de novo. Não agüentava mais olhar no espelho e ver aquela figura desgrenhada, cheia de olheiras e meio verde.
Mas de nada adianta ficar toda linda dentro de casa. O mundo precisa ver! Fomos comemorar o aniversário de um amigo.
Ando com uma sensação estranha. Algumas vezes sinto falta do tipo de programa que eu fazia antes de ter filho. Aí, como ontem, vou a um lugar com o mesmo tipo de astral que me fazia falta e me sinto um peixe fora d'água. As pessoas sentadas conosco eram muito agradáveis, a música era boa, a cerveja estava gelada, o chope razoavelmente bem tirado e os petiscos OK. Mas era um point de azaração para adultos. Então o melhor foi abstrair o ambiente e curtir a nossa mesa apenas, porque aquilo de que eu sentia falta já não é mais para mim.
A gripe que me deixou fora do ar teve que cantar para subir rapidinho porque uma montoeira de trabalho urgente apareceu. Entre mortos e feridos salvaram-se todos. Infelizmente tive que deixar este espaço para depois. Estou com várias coisas para responder e comentar. Tenho esperanças de conseguir fazer isso em breve.
Ontem, depois de entregar o tal trabalho, fui enxotar de vez a cara abatida com uma passada básica para revisão num salão. Uma tarde inteira de paparicos e embelezamento levantam até defunta. Nada como uma pele lisinha, unhas feitas e cabelos arrumados... Fiquei até me sentindo gente de novo. Não agüentava mais olhar no espelho e ver aquela figura desgrenhada, cheia de olheiras e meio verde.
Mas de nada adianta ficar toda linda dentro de casa. O mundo precisa ver! Fomos comemorar o aniversário de um amigo.
Ando com uma sensação estranha. Algumas vezes sinto falta do tipo de programa que eu fazia antes de ter filho. Aí, como ontem, vou a um lugar com o mesmo tipo de astral que me fazia falta e me sinto um peixe fora d'água. As pessoas sentadas conosco eram muito agradáveis, a música era boa, a cerveja estava gelada, o chope razoavelmente bem tirado e os petiscos OK. Mas era um point de azaração para adultos. Então o melhor foi abstrair o ambiente e curtir a nossa mesa apenas, porque aquilo de que eu sentia falta já não é mais para mim.
16.5.02
14.5.02
11.5.02
10.5.02
Se você apresenta alguns dos sintomas abaixo, é sinal de que também sofre de angústia da informação:
* Por mais esforço que faça, não consegue sentir-se atualizado com o mundo a sua volta
* Sente-se culpado cada vez que olha a pilha de jornais e revistas e o volume de e-mails recebidos que não conseguiu ler
* Fica abatido quando uma pesquisa na internet resulta num documento de dezenas de páginas, pois acredita que, se não ler todas eles, não saberá tudo o que deve sobre o assunto
* Acena afirmativamente, sem convicção, sempre que alguém menciona um livro, um filme ou uma notícia de que você, na verdade, nunca ouviu falar
* Acha que o problema é seu e não do fabricante quando percebe que não consegue seguir as instruções para montar um aparelho que comprou
* Cerca-se de aparelhos digitais na esperança de que a simples presença deles a sua volta ajude a torná-lo uma pessoa mais adaptada à alta tecnologia
* Sente-se envergonhado quando tem de dizer "Não sei" mesmo que a pergunta se refira à sucessão no Nepal ou ao programa de correio eletrônico da Microsoft
(Revista Veja, 5 de setembro de 2001)
Recortei a matéria que me pareceu interessante para ler com calma e só hoje peguei nisso de novo.
Olha a carapuça entrando com tudo na minha pobre e sobrecarregada cabecinha!
De outros cantos: Blowg
(também resolvi fazer minha listinha)
Já dormi na fila da barca para a Ilha Grande
Já tirei foto com a Anjelica Houston
Nunca passei fome
Já namorei um paraguaio
Já neguei dinheiro para um ex-namorado viciado
Já contei estrelas cadentes
Já comi jabuticaba direto do pé
Já fui corneada
Já corneei
Já corri atrás de um cara que bateu minha carteira e a recuperei
Já arranquei, a dentadas numa briga, uma lasca do braço de um cara insuportável
Já saí de casa sem batom e sem pentear o cabelo
Nunca fui à África ou à Ásia
Já casei duas vezes
Já passei muito atestado de otária
Já pensei em largar tudo e começar de novo em outro lugar
Já dormi em um ônibus porque não tinha dinheiro para hotel
Já explodi muitas pontes
Já defenestrei muita gente da minha vida
Já pedi desculpas
Nunca aprendi a hora certa de calar a boca
(também resolvi fazer minha listinha)
Já dormi na fila da barca para a Ilha Grande
Já tirei foto com a Anjelica Houston
Nunca passei fome
Já namorei um paraguaio
Já neguei dinheiro para um ex-namorado viciado
Já contei estrelas cadentes
Já comi jabuticaba direto do pé
Já fui corneada
Já corneei
Já corri atrás de um cara que bateu minha carteira e a recuperei
Já arranquei, a dentadas numa briga, uma lasca do braço de um cara insuportável
Já saí de casa sem batom e sem pentear o cabelo
Nunca fui à África ou à Ásia
Já casei duas vezes
Já passei muito atestado de otária
Já pensei em largar tudo e começar de novo em outro lugar
Já dormi em um ônibus porque não tinha dinheiro para hotel
Já explodi muitas pontes
Já defenestrei muita gente da minha vida
Já pedi desculpas
Nunca aprendi a hora certa de calar a boca
De outros cantos: Crônica do Dia
"Quantas vezes defendemos um amigo que é grosseiro ou espaçoso, só porque ele se fez presente em um momento delicado da nossa vida? Ficamos saldando uma dívida eterna..." (Cláudia Letti)
Favor conceituar grosseiro e espaçoso. :-)
A crônica de hoje está maravilhosa, mas isso não é novidade.
"Quantas vezes defendemos um amigo que é grosseiro ou espaçoso, só porque ele se fez presente em um momento delicado da nossa vida? Ficamos saldando uma dívida eterna..." (Cláudia Letti)
Favor conceituar grosseiro e espaçoso. :-)
A crônica de hoje está maravilhosa, mas isso não é novidade.
9.5.02
Com uma amiga, a gente aprende até quando ela pensa que só está jogando conversa fora.
Sobre meu chope e sua coca light, tarde/noite dessas, ouvi uma dica preciosa que estou colocando em prática.
Não é ótimo quando uma pessoa para ser genial só precisa ser ela mesma?
Sobre meu chope e sua coca light, tarde/noite dessas, ouvi uma dica preciosa que estou colocando em prática.
Não é ótimo quando uma pessoa para ser genial só precisa ser ela mesma?
Homenagem ao blog Mundo Perfeito:
Observando o número crescente de cornetas pelo país dada a proximidade da Copa do Mundo, o Congresso Nacional resolveu votar em regime de urgência urgentíssima as novas normas para fabricação de cornetas.
A nova regulamentação, aprovada ontem à tarde por unanimidade, prevê que todos os bocais de cornetas deverão ter pequenas agulhas previamente banhadas em curare. Esta substânica, usada pelos caçadores amazônicos em suas zarabatanas, aplicada sob a pele, paralisa os músculos, podendo ser fatal dependendo da dosagem.
Com essa medida visa-se diminuir o número de babacas entre a população brasileira.
CONGRESSO APROVA NOVAS NORMAS PARA FABRICAÇÃO DE CORNETAS
Observando o número crescente de cornetas pelo país dada a proximidade da Copa do Mundo, o Congresso Nacional resolveu votar em regime de urgência urgentíssima as novas normas para fabricação de cornetas.
A nova regulamentação, aprovada ontem à tarde por unanimidade, prevê que todos os bocais de cornetas deverão ter pequenas agulhas previamente banhadas em curare. Esta substânica, usada pelos caçadores amazônicos em suas zarabatanas, aplicada sob a pele, paralisa os músculos, podendo ser fatal dependendo da dosagem.
Com essa medida visa-se diminuir o número de babacas entre a população brasileira.
Ainda sobre intervenções macabras:
Lembro que há alguns anos uns garotões resolveram fazer uma brincadeira pelas ruas de Copacabana. Penduraram um braço de plástico em tamanho real para fora do porta-malas de um carro e salpicaram umas gotas de tinta vermelha. A idéia era fazer parecer que havia um cadáver escondido ali e que seu braço pendia para fora do carro por descuido dos "assassinos". Começaram a circular pelas ruas da Princesinha do Mar observando a reação apavorada dos passantes.
Foi uma comoção. A polícia foi mobilizada, todas as saídas do bairro fechadas, o trânsito já caótico deu um nó total... Finalmente os rapazes foram localizados e tiveram que dar umas explicações na DP do bairro. Segundo a lógica atual, uma tremenda injustiça, já que deveriam ser considerados artistas plásticos.
Lembro que há alguns anos uns garotões resolveram fazer uma brincadeira pelas ruas de Copacabana. Penduraram um braço de plástico em tamanho real para fora do porta-malas de um carro e salpicaram umas gotas de tinta vermelha. A idéia era fazer parecer que havia um cadáver escondido ali e que seu braço pendia para fora do carro por descuido dos "assassinos". Começaram a circular pelas ruas da Princesinha do Mar observando a reação apavorada dos passantes.
Foi uma comoção. A polícia foi mobilizada, todas as saídas do bairro fechadas, o trânsito já caótico deu um nó total... Finalmente os rapazes foram localizados e tiveram que dar umas explicações na DP do bairro. Segundo a lógica atual, uma tremenda injustiça, já que deveriam ser considerados artistas plásticos.
Membros da família Scolari:
Edmilson
Emerson
Kleberson
Edilson
Denilson
Anderson
Nelson (Dida)
Jenilson (Júnior)
Zecson (Kaka)
(grande sacada do Joaquim Ferreira dos Santos)
Tomara que não tenhamos que usar em breve aquela expressão de baixo calão que fala de filho.
"A vitória será sua. A derrota também..."
(ministro dos Esportes, Caio Luiz de Carvalho para Felipão, assim que soube os nomes escolhidos para ir à Copa)
Edmilson
Emerson
Kleberson
Edilson
Denilson
Anderson
Nelson (Dida)
Jenilson (Júnior)
Zecson (Kaka)
(grande sacada do Joaquim Ferreira dos Santos)
Tomara que não tenhamos que usar em breve aquela expressão de baixo calão que fala de filho.
*********************
"A vitória será sua. A derrota também..."
(ministro dos Esportes, Caio Luiz de Carvalho para Felipão, assim que soube os nomes escolhidos para ir à Copa)
Quem já me conhece há algum tempo sabe que tenho sérias dúvidas quanto à arte contemporânea. Tenho questões sérias principalmente no tocante ao uso de cobertores.
Peço desculpas aos amigos de longa data, mas quero contextualizar o comentário que farei a seguir e a menção aos cobertores. Visitando um museu famoso, eu me senti vendo uma exposição sobre a roupa nova do rei ao me deparar com um cobertor azul jogado sobre uma espécie de bolsa que inflava e esvaziava simulando alguém dormindo no chão. Tive um acesso de rebeldia e me recusei a continuar a visita.
Hoje, lendo o jornal, vejo a confusão armada por um auto-aclamado artista plástico que montou uma intervenção nos pilotis do MEC (centro do Rio) ontem. Eram blocos de gelo tingidos de vermelho e esculpidos na forma de corpos de crianças e cobertos por cobertores baratos. À medida que o gelo derretia, escorria para fora dos cobertores o líquido vermelho que lembrava sangue. Quem passava por ali levava o maior susto, enquanto o "artista" observava a reação das pessoas. A polícia apareceu duas horas depois, informada que havia corpos na rua. A intervenção A sangue frio era para ser uma metáfora da violência e acabou devidamente faxinada.
Sou uma ignorante e como tal carrego a prerrogativa de poder perguntar: isso é arte?
Peço desculpas aos amigos de longa data, mas quero contextualizar o comentário que farei a seguir e a menção aos cobertores. Visitando um museu famoso, eu me senti vendo uma exposição sobre a roupa nova do rei ao me deparar com um cobertor azul jogado sobre uma espécie de bolsa que inflava e esvaziava simulando alguém dormindo no chão. Tive um acesso de rebeldia e me recusei a continuar a visita.
Hoje, lendo o jornal, vejo a confusão armada por um auto-aclamado artista plástico que montou uma intervenção nos pilotis do MEC (centro do Rio) ontem. Eram blocos de gelo tingidos de vermelho e esculpidos na forma de corpos de crianças e cobertos por cobertores baratos. À medida que o gelo derretia, escorria para fora dos cobertores o líquido vermelho que lembrava sangue. Quem passava por ali levava o maior susto, enquanto o "artista" observava a reação das pessoas. A polícia apareceu duas horas depois, informada que havia corpos na rua. A intervenção A sangue frio era para ser uma metáfora da violência e acabou devidamente faxinada.
Sou uma ignorante e como tal carrego a prerrogativa de poder perguntar: isso é arte?
8.5.02
OS SETE PRINCÍPIOS BÁSICOS DO CONHECIMENTO
(Leis Herméticas)
(Leis Herméticas)
Primeiro: a mente é tudo. O universo é mental. Por baixo de tudo aquilo que
conhecemos há o plano de um Espírito que não podemos conhecer. Ele é a lei.
Segundo: como é em cima, é embaixo; como é embaixo, é em cima. Tudo se
corresponde. As mesmas leis que atuam sobre o homem atuam sobre uma lagarta
ou uma estrela.
Terceiro: nada descansa, tudo se move. Nada desaparece, tudo se transforma.
Quarto: tudo é dual. Tudo tem dois pólos. Os opostos são idênticos, da mesma
natureza, porém em diferentes graus. Os extremos se tocam.
Quinto: tudo flui, fora e dentro. Tudo tem suas subidas e descidas. O ritmo
compensa e mantém o equilíbrio.
Sexto: qualquer causa tem seu efeito. Qualquer efeito tem sua causa. Tudo
acontece de acordo com a Lei. Nada escapa dela.
Sétimo: tudo tem seu princípio masculino e feminino. O gênero se manifesta
em todos os níveis da existência.
(O Mestre de Quéops - Albert Salvadó - Ediouro)
Depois de driblar alguns assaltantes com o filho pela mão, sentei numa sala de espera lendo um conto que me fez lembrar da Lu a cada linha (Linda, uma história terrível, do Caio Fernando Abreu, que cita Cazuza e Ana Cristina Cesar), enquanto deixava de ser almodovariana (carne trêmula).
Ganhando a rua novamente, achei que seria uma boa idéia me lambuzar de Chicabom. Alguém sabe se alteraram a receita do meu picolé favorito? Ou é aquela história de retornar à velha casa da infância para descobrir que os cômodos enormes não passavam de cubículos? Ou será que o gosto só é completo quando misturado com maresia e areia?
Hoje eu só queria um Chicabom com gosto de Chicabom da minha memória...
Ganhando a rua novamente, achei que seria uma boa idéia me lambuzar de Chicabom. Alguém sabe se alteraram a receita do meu picolé favorito? Ou é aquela história de retornar à velha casa da infância para descobrir que os cômodos enormes não passavam de cubículos? Ou será que o gosto só é completo quando misturado com maresia e areia?
Hoje eu só queria um Chicabom com gosto de Chicabom da minha memória...
Repetir enquanto o número de linhas for menor ou igual a 979
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Paradinha estratégica para colocar para tocar Raio X, da Fernandinha Abreu, que tem Jorge da Capadócia, o que me faz lembrar que não tenho tempo a perder e que devo voltar rapidinho à ralação.
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Paradinha estratégica para colocar para tocar Raio X, da Fernandinha Abreu, que tem Jorge da Capadócia, o que me faz lembrar que não tenho tempo a perder e que devo voltar rapidinho à ralação.
7.5.02
Um dia você vai entender
Porque para você
Eu sou de fácil acesso
Você vai descobrir o que não escondo
Você vai compreender tudo.
Mas quando?
Porque, prá mim, você já é um sucesso
Porque meus olhos te convidam
Para me inundar com seu cálice
Talvez a mensagem seja mais clara assim
Do que se eu falasse
Porque brindo ao embaçado
Da minha embriagez com sua taça
Não sei o que mais
Você quer que eu faça
Porque quando você me olha
Meu sangue vira vinho
E eu fico tonta
Dentro do meu próprio corpo
Não preciso, para esse veneno,
Nem de copo
E suas intenções maliciosas eu adivinho
Se você quiser uma dose desta bebida
É cortesia da casa
Porque a chama deste cigarro
Já está acesa
E eu fecho as portas do bar
Para esta festa
E quando elas voltarem a se abrir
Nas prateleiras nada mais resta
A não ser o gosto amargo
Da ressaca
E o cheiro forte do cigarro
Que se apaga
Porque para você
Eu sou de fácil acesso
Você vai descobrir o que não escondo
Você vai compreender tudo.
Mas quando?
Porque, prá mim, você já é um sucesso
Porque meus olhos te convidam
Para me inundar com seu cálice
Talvez a mensagem seja mais clara assim
Do que se eu falasse
Porque brindo ao embaçado
Da minha embriagez com sua taça
Não sei o que mais
Você quer que eu faça
Porque quando você me olha
Meu sangue vira vinho
E eu fico tonta
Dentro do meu próprio corpo
Não preciso, para esse veneno,
Nem de copo
E suas intenções maliciosas eu adivinho
Se você quiser uma dose desta bebida
É cortesia da casa
Porque a chama deste cigarro
Já está acesa
E eu fecho as portas do bar
Para esta festa
E quando elas voltarem a se abrir
Nas prateleiras nada mais resta
A não ser o gosto amargo
Da ressaca
E o cheiro forte do cigarro
Que se apaga
6.5.02
(ROOTS - Alex Haley - 1925-1992)
Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Philosophicamente.
Unica lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os colectivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.
(MANIFESTO ANTROPOFÁGICO - Oswald de Andrade
Anno 374 da Degustação do Bispo Sardinha.)
Veja, ilustre passageiro,
O belo tipo faceiro
Que o senhor tem a seu lado
No entanto, acredite,
Quase morreu de bronquite
Salvou-o Rhum Creosotado
(slogan histórico, que vivia pregado nas janelas dos bondes)
eu quero esse homem de cor
um Deus Negro do Congo ou daqui
(BLACK IS BEAUTIFUL - Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle)
O tipo garboso que ora ilustra este blog não é outro senão meu bisavô, o "afamado propagandista", J. A. Roger da Costa.
O novo layout é uma brincadeira de recorte e colagem com um cartaz onde ele anunciava um dos produtos que comercializava.
Além de eu achar o cartaz muito interessante pessoal e historicamente, também é uma oportunidade de mostrar que o estilo sissi de ser (não no sentido norte americano, mas no baiano/hype e meguiano) está na quarta geração, pelo menos.
Um dos motivos para o sobrenome dele ser diferente do meu é o fato de ele ter sido pai da minha avó materna. Mas uma ala da família assina como ele. Não o conheci, mas algumas de suas história me foram transmitidas. Como sempre tive muita curiosidade sobre sua figura, minha tia-avó, sua nora, era quem me saciava. Era a única remanescente dos que o conheceram, mas se foi no ano passado.
Sua bênção, Biso.
5.5.02
Cariocas costumam falar alto. Alguém que goste de explicações poderia lembrar que a amplidão da praia e o barulho das ondas faz com que se eleve o tom da voz. Bobagem...
Mas o problema se agrava porque uma praga assola os locais públicos ultimamente. A TV é onipresente em bares, salas de espera de consultórios médicos, restaurantes... Ela fica ligada em um volume tal que nem é possível abstrair seu som nem distingüir o que está sendo dito. Para acompanhá-la um rádio toca, sintonizado geralmente em uma estação que você detesta. E todo mundo coloca um auto-falante na garganta para conseguir ser ouvido no meio do burburinho.
É, acho que estou ficando velha...
Mas o problema se agrava porque uma praga assola os locais públicos ultimamente. A TV é onipresente em bares, salas de espera de consultórios médicos, restaurantes... Ela fica ligada em um volume tal que nem é possível abstrair seu som nem distingüir o que está sendo dito. Para acompanhá-la um rádio toca, sintonizado geralmente em uma estação que você detesta. E todo mundo coloca um auto-falante na garganta para conseguir ser ouvido no meio do burburinho.
É, acho que estou ficando velha...
"Afakakikorta da kortissendô"
Eu adorava os fonemas sonoros que tinham um sabor ancestral. Lógico que eu não tinha ainda a menor noção do que fossem fonemas ou ancestral. Tampouco imprimia sentido nas palavras da canção de ninar. Só bem mais tarde é que descobri, como uma revelação, que os versos diziam "a faca que corta dá corte sem dor".
Lembrei disso cantando para meu filho dormir. E, seguindo um fio de recordações e associações bem peculiar, fui viajando. Guardo memórias bem antigas. Ainda tenho a imagem, o cheiro e o toque de minha avó materna bem armazenados. Talvez sejam apenas lembranças das lembranças que cultivei durante estas três décadas e meia, já que me parece impossível realmente recordar de alguém que se foi pouco antes de eu completar quatro anos. E naquela noite em que cantava para meu filho dormir, me lembrei dela cantando para mim quando minha mãe perdia a paciência, do meu choro baixinho e soluçado, das figuras que imaginava na parede não emassada no canto da cama enquanto tentava me concentrar para pegar no sono antes que ela também desistisse de me embalar. Ela era minha segurança.
A sensação mais forte que tenho é daquele dia na cadeira de balanço. Tive um furúnculo na parte interna da orelha e um primo e um tio me seguraram com firmeza, enquanto minha mãe tratava de espremê-lo. Eu tremia de raiva, impotência e dor. E foi lá, no seu colo negro, gordo e quente que encontrei conforto balançando, balançando, balançando...
Minha avó supriu aquela carência que toda crinaça sente à chegada de um novo bebê na casa. Penso nisso só agora. Ela está forte dentro de mim porque eu passava muito tempo com ela. Imagino que minha mãe passava muito tempo então cuidando de minhas irmãs mais novas. Vovó era muito doente e sabia que tinha pouco tempo conosco. Éramos muito cúmplices e ela sabia que eu sofreria muito com sua partida, então tratou de me preparar. No dia em que foi sepultada, fiquei sozinha em casa com a empregada. Os adultos no cemitério e não sei onde estavam minhas irmãs. A mocinha me perguntou porque eu, tão agarrada com minha avó, não estava chorando (ela mesma estava escondendo mal suas lágrimas). Respondi que minha avó tinha pedido para que eu não chorasse quando ela se fosse, que eu ia viver muito, ter uma vida muito bonita e quando eu fosse bem velhinha como ela (mentira, ela não era tão velha assim) e também morresse, a gente ia se encontrar no céu, porque é isso o que acontece com as pessoas que se amam muito.
Estou vivendo a minha vida muito bonita. Tenho em mim a marca dos primogênitos. Sim, os primogênitos são diferetes dos caçulas e dos filhos do meio. Já repararam? Os primogênitos são sempre os mais sisudos e mais esforçados. Os caçulas são os carismáticos e os do meio, quando os há, ou são os mais livres dos papéis familiares pré-estabelecidos ou são os porras-loucas, as ovelhas negras.
É através do mais puro empirismo que afirmo que os casais mais harmoniosos são formados por primogênito-primogênito, caçula-caçula, do meio-do meio. Os filhos únicos ou permanecem solteiros ou casam-se com alguém com vocação para a servidão e para os bastidores. Observe: o filho único vai estar espalhado pelo sofá enquanto seu parceiro se espreme num cantinho; ele vai dominar a conversa enquanto o outro apenas abana com a cabeça, chamado a opinar apenas para confirmar o que o outro disse.
Meu lindinho dormiu e eu fui tomar meu banho para nanar também. E enquanto a água caia morna sobre o corpo, pensei que o "fator filho único disfarçado" pode ser o causador de algumas rusgas por aqui.
Eu adorava os fonemas sonoros que tinham um sabor ancestral. Lógico que eu não tinha ainda a menor noção do que fossem fonemas ou ancestral. Tampouco imprimia sentido nas palavras da canção de ninar. Só bem mais tarde é que descobri, como uma revelação, que os versos diziam "a faca que corta dá corte sem dor".
Lembrei disso cantando para meu filho dormir. E, seguindo um fio de recordações e associações bem peculiar, fui viajando. Guardo memórias bem antigas. Ainda tenho a imagem, o cheiro e o toque de minha avó materna bem armazenados. Talvez sejam apenas lembranças das lembranças que cultivei durante estas três décadas e meia, já que me parece impossível realmente recordar de alguém que se foi pouco antes de eu completar quatro anos. E naquela noite em que cantava para meu filho dormir, me lembrei dela cantando para mim quando minha mãe perdia a paciência, do meu choro baixinho e soluçado, das figuras que imaginava na parede não emassada no canto da cama enquanto tentava me concentrar para pegar no sono antes que ela também desistisse de me embalar. Ela era minha segurança.
A sensação mais forte que tenho é daquele dia na cadeira de balanço. Tive um furúnculo na parte interna da orelha e um primo e um tio me seguraram com firmeza, enquanto minha mãe tratava de espremê-lo. Eu tremia de raiva, impotência e dor. E foi lá, no seu colo negro, gordo e quente que encontrei conforto balançando, balançando, balançando...
Minha avó supriu aquela carência que toda crinaça sente à chegada de um novo bebê na casa. Penso nisso só agora. Ela está forte dentro de mim porque eu passava muito tempo com ela. Imagino que minha mãe passava muito tempo então cuidando de minhas irmãs mais novas. Vovó era muito doente e sabia que tinha pouco tempo conosco. Éramos muito cúmplices e ela sabia que eu sofreria muito com sua partida, então tratou de me preparar. No dia em que foi sepultada, fiquei sozinha em casa com a empregada. Os adultos no cemitério e não sei onde estavam minhas irmãs. A mocinha me perguntou porque eu, tão agarrada com minha avó, não estava chorando (ela mesma estava escondendo mal suas lágrimas). Respondi que minha avó tinha pedido para que eu não chorasse quando ela se fosse, que eu ia viver muito, ter uma vida muito bonita e quando eu fosse bem velhinha como ela (mentira, ela não era tão velha assim) e também morresse, a gente ia se encontrar no céu, porque é isso o que acontece com as pessoas que se amam muito.
Estou vivendo a minha vida muito bonita. Tenho em mim a marca dos primogênitos. Sim, os primogênitos são diferetes dos caçulas e dos filhos do meio. Já repararam? Os primogênitos são sempre os mais sisudos e mais esforçados. Os caçulas são os carismáticos e os do meio, quando os há, ou são os mais livres dos papéis familiares pré-estabelecidos ou são os porras-loucas, as ovelhas negras.
É através do mais puro empirismo que afirmo que os casais mais harmoniosos são formados por primogênito-primogênito, caçula-caçula, do meio-do meio. Os filhos únicos ou permanecem solteiros ou casam-se com alguém com vocação para a servidão e para os bastidores. Observe: o filho único vai estar espalhado pelo sofá enquanto seu parceiro se espreme num cantinho; ele vai dominar a conversa enquanto o outro apenas abana com a cabeça, chamado a opinar apenas para confirmar o que o outro disse.
Meu lindinho dormiu e eu fui tomar meu banho para nanar também. E enquanto a água caia morna sobre o corpo, pensei que o "fator filho único disfarçado" pode ser o causador de algumas rusgas por aqui.
3.5.02
30.4.02
Ontem chegou até nós uma caixa enorme enviada por um amigo dos EUA para nosso filho. Era uma montanha russa em miniatura do Mickey. Bem, miniatura se comparada com a original (se é que ela existe), porque ocupa agora uma boa parte da sala.
A montagem me consumiu das 18 às 23:30 de ontem. Era zilhões de trilhos, suportes, apoios, estrelinhas, conectores e nem sei mais o quê. Meu polegar direito, já carcomido por uma alergia desencadeada por qualquer coisa, desde tensão até detergente, tem agora um calo colossal.
Geralmente montagem de brinquedos e afins ficam a cargo da outra parte do casal. Sim, há um regimento não escrito por aqui. Nada muito rígido, mas geralmente sou eu que cozinho e ele que lava a louça. Eu leio histórias e ajudo em trabalhos manuais e deveres de casa e ele leva ao parquinho, joga bola, monta brinquedos.
Entretanto, depois da cirurgia no olho, meu amo e senhor ainda se recupera e tem tido dificuldades para enxergar de perto, o que inclui leitura de manuais e peças pentelhosamente pequenas.
Montado o brinquedo é realmente lindo. Sabe aqueles capacetes de mineiros com uma lanterna na altura da testa? Eu queria um daqueles com uma filmadora ou máquina fotográfica para instantes como o de hoje quando meu filho acordou e viu a parafernália montada na sala. Aí eu poderia mandar uma cópia para o Bruce agradecendo o presente. Ah, sim, junto iria uma foto do meu doloridíssimo calo.
É uma tremenda veleidade valorizar tanto um calo quando falo do nosso amigo que recentemente sofreu um grave acidente.
Oh, Senhor, me ajude a parar de adiar os telefonemas que preciso fazer!
A montagem me consumiu das 18 às 23:30 de ontem. Era zilhões de trilhos, suportes, apoios, estrelinhas, conectores e nem sei mais o quê. Meu polegar direito, já carcomido por uma alergia desencadeada por qualquer coisa, desde tensão até detergente, tem agora um calo colossal.
Geralmente montagem de brinquedos e afins ficam a cargo da outra parte do casal. Sim, há um regimento não escrito por aqui. Nada muito rígido, mas geralmente sou eu que cozinho e ele que lava a louça. Eu leio histórias e ajudo em trabalhos manuais e deveres de casa e ele leva ao parquinho, joga bola, monta brinquedos.
Entretanto, depois da cirurgia no olho, meu amo e senhor ainda se recupera e tem tido dificuldades para enxergar de perto, o que inclui leitura de manuais e peças pentelhosamente pequenas.
Montado o brinquedo é realmente lindo. Sabe aqueles capacetes de mineiros com uma lanterna na altura da testa? Eu queria um daqueles com uma filmadora ou máquina fotográfica para instantes como o de hoje quando meu filho acordou e viu a parafernália montada na sala. Aí eu poderia mandar uma cópia para o Bruce agradecendo o presente. Ah, sim, junto iria uma foto do meu doloridíssimo calo.
É uma tremenda veleidade valorizar tanto um calo quando falo do nosso amigo que recentemente sofreu um grave acidente.
Oh, Senhor, me ajude a parar de adiar os telefonemas que preciso fazer!
Tudo começou com a compra da mesa-estante de computador. Ela ficou linda. E fez sobressair a inadequação de uma estante de livros que estava do outro lado do quarto.
Devo dizer que a tal estante já me incomodava há tempos. Ela estava pendurada acima da cabeceira da cama e os livros e aquelas coisas que a gente nunca sabe direito onde colocar iam se acumulando sobre ela. Além disso, o apartamento é antigo e em alguns pontos o emboço é frágil. Uma vez acordamos de madrugada com um barulho que custamos a identificar na escuridão. O giro-visão tinha despencado junto com TV e vídeo. Então era comum eu sonhar que morria sob uma pilha de jacarandá, reboco e livros.
Resolvi aproveitar um espaço morto do corredor para instalar algumas prateleiras e abolir o motivo dos meus pesadelos. E o conselho familiar arbitrou que a estante de jacarandá iria para o lugar de outras duas bem velhas que também não me agradavam e que ficavam atrapalhando a circulação. Só que o que estava nas estantes que seriam descartadas não cabiam na que entraria em seu lugar. E começou a ciranda de mexe e arruma que já dura umas duas semanas.
Resumindo a história, praticamente todos os armários, gavetas e estantes da casa foram visitados e reorganizados. A novela ainda não acabou, mas tudo está ficando mais bonito que antes. E muito mais racional também.
A verdade é que havia coisas guardadas em caixas desde que me mudei para cá. Muito foi para o lixo ou reencaminhado. A disposição de alguns móveis ainda refletia aquele momento de correria e improviso de condensar duas casas em uma, daquele instante de susto que acontece quando você decide morar com alguém, mas sente muita necessidade de agarrar-se a seus objetos pessoais para, de alguma forma, manter ainda o pé fincado na sua individualidade. Insegurança, acho.
Outro dia meu amo e senhor leu um texto que escrevi e disse que tinha muitas das idéias dele ali. Ele estava certo. Fiquei calada, mas lembrei de uma cena de novela. Uma mulher falava que seu sonho era viver uma história como a de um casal que ela conhecia, juntos há décadas. A esposa contava um sonho para um casal amigo. Ao terminar o esposo observou que era ele quem tinha sonhado aquilo. A mulher que contava a história observava que este era o verdadeiro amor, a perfeita comunhão, quando até os sonhos se misturavam.
Nossas coisas estão sendo arrumadas. Nossa casa tem mais a nossa cara.
OK, OK... Seus discos são intocáveis e meu candidato continua sendo o Lula.
Devo dizer que a tal estante já me incomodava há tempos. Ela estava pendurada acima da cabeceira da cama e os livros e aquelas coisas que a gente nunca sabe direito onde colocar iam se acumulando sobre ela. Além disso, o apartamento é antigo e em alguns pontos o emboço é frágil. Uma vez acordamos de madrugada com um barulho que custamos a identificar na escuridão. O giro-visão tinha despencado junto com TV e vídeo. Então era comum eu sonhar que morria sob uma pilha de jacarandá, reboco e livros.
Resolvi aproveitar um espaço morto do corredor para instalar algumas prateleiras e abolir o motivo dos meus pesadelos. E o conselho familiar arbitrou que a estante de jacarandá iria para o lugar de outras duas bem velhas que também não me agradavam e que ficavam atrapalhando a circulação. Só que o que estava nas estantes que seriam descartadas não cabiam na que entraria em seu lugar. E começou a ciranda de mexe e arruma que já dura umas duas semanas.
Resumindo a história, praticamente todos os armários, gavetas e estantes da casa foram visitados e reorganizados. A novela ainda não acabou, mas tudo está ficando mais bonito que antes. E muito mais racional também.
A verdade é que havia coisas guardadas em caixas desde que me mudei para cá. Muito foi para o lixo ou reencaminhado. A disposição de alguns móveis ainda refletia aquele momento de correria e improviso de condensar duas casas em uma, daquele instante de susto que acontece quando você decide morar com alguém, mas sente muita necessidade de agarrar-se a seus objetos pessoais para, de alguma forma, manter ainda o pé fincado na sua individualidade. Insegurança, acho.
Outro dia meu amo e senhor leu um texto que escrevi e disse que tinha muitas das idéias dele ali. Ele estava certo. Fiquei calada, mas lembrei de uma cena de novela. Uma mulher falava que seu sonho era viver uma história como a de um casal que ela conhecia, juntos há décadas. A esposa contava um sonho para um casal amigo. Ao terminar o esposo observou que era ele quem tinha sonhado aquilo. A mulher que contava a história observava que este era o verdadeiro amor, a perfeita comunhão, quando até os sonhos se misturavam.
Nossas coisas estão sendo arrumadas. Nossa casa tem mais a nossa cara.
OK, OK... Seus discos são intocáveis e meu candidato continua sendo o Lula.
29.4.02
Um porta-retrato com a foto do artesão que o fez; um cesto de papelzinho para rascunho e post-it com uma menina super-poderosa; um calendário 2002 com fotos dos EUA sacadas por meu amo e senhor na viagem do ano passado; uma caixinha redonda ilustrada com um anjinho sentado nas costas de um leão; um porta-incenso com motivos africanos; um conjunto de caixas de som que devo instalar ainda hoje; brindes do kinder ovo: um guerreiro zulu, um tubarão roxo articulado, uma árvore onde está pousada uma cacatua, um fantasminha fosforescente, uma jumenta que se desmonta e tem um jumentinho na barriga; um monstrinho verde transparente da Coca-Cola; uma caixinha minúscula de madeira que ao ser aberta mostra uma joaninha e a frase "I Love You"; muitos livros CDs e cadernos; um cinzeiro; outro calendário; uma máquina fotográfica digital abandonada; um vidro com um boneco de fofíssimo de tecido cheio de frases esquisitas como "Eu não faço nada sozinho. Dependo do meu Criador"; outro porta-incenso; pastas com documentos já organizados; documentos não organizados; folhas, cartões, etiquetas para impressão...
E, no meio de tudo isso, computador e impressora...
E, no meio de tudo isso, computador e impressora...
28.4.02
DERIVA
[Do fr. dérive.]
S. f.
1. Desvio que um instrumento sofre com o tempo, a partir do ponto de repouso, quando a variável medida e as condições ambientes permanecem constantes.
2. Cronol. Variação progressiva de marcha de um relógio.
3. E. Ling. Na evolução de uma língua, a direção para a qual parecem apontar diversas mudanças não relacionadas; conspiração. [A partir do séc. XVI, p. ex., diferentes modificações no português, como a ditongação (mã-o > mão) e a contração de vogais (que-ente > quente), tiveram como resultado a eliminação dos muitos hiatos do galego-português.]
* Deriva dos continentes. Geofís.
1. Fenômeno pelo qual os continentes se deslocam sobre a superfície terrestre, como que flutuando sobre o magma.
* À deriva.
1. Sem rumo; solto, perdido; arrastado, levado
(Retirado do meu pai, o dos burros, o Aurélio)
Ódio é aquilo que você sente quando se percebe numa situação desfavorável e sabe que não há ninguém para culpar além de si mesma.
Meu pai tinha uma frase ótima para a posição em que me encontro, mas ela é impublicável. Bem, acho que dá para entender se eu disser que terminava assim: "... e ainda pedir desculpas por estar de costas".
Meu pai tinha uma frase ótima para a posição em que me encontro, mas ela é impublicável. Bem, acho que dá para entender se eu disser que terminava assim: "... e ainda pedir desculpas por estar de costas".
27.4.02
NON
Ontem fiquei um tempão com um amigo francês ao telefone.
Gosto sempre de ouvir a versão interna para os fatos, deixando o que leio nos jornais apenas como complemento.
Ele falava de susto, de decepção, da sensação de abalo no que se acreditava certo, da acomodação que levou às pessoas a preferir curtir um dia de sol a cumprir o dever cívico e que resultou na chegada de Le Pen ao segundo turno das eleições francesas.
Tive a impressão de que ele estava bastante emocionado do outro lado da linha ao falar do risco que corre seu país de eleger um político de posições fascistas. Ele tem medo de que as inúmeras manifestações que pipocam por todo país (a maior deve ser no 1º de maio) descambem para a violência e que isso ratifique os temores dos que apoiam aquele que crê que o holocausto não passa de ficção. Porque em todo lugar do mundo as pessoas simples acreditam em propostas imediatistas, em políticos que prometam resolver seus problemas já, não importando o preço a ser pago. Porque em qualquer lugar do mundo, é sempre mais fácil jogar a culpa no outro, no diferente, nos estrangeiros...
Entendo as preocupações do meu amigo, mas acho que tudo vai terminar bem ou, pelo menos, retirado o melhor candidato da disputa, o pior não conseguirá eleger-se. O susto serviu para sacudir quem estava acomodado e agora, com tanta gente consciente da importância do comparecimento às urnas, a França vai conseguir livrar-se deste pesadelo.
Ser mãe é:
Além de comprar (e ter que ouvir à exaustão) o CD, procurar letras das música do Gorillaz na Internet.
Além de comprar (e ter que ouvir à exaustão) o CD, procurar letras das música do Gorillaz na Internet.
26.4.02
Quem tem alma de roqueiro é rebelde até quando está recém-operado.
Está sendo duro manter meu amo e senhor longe do mundo das letras depois da cirurgia para correção da miopia. Realmente ficar em casa sem poder ler jornais, revistas, livros, sem poder ficar diante do computador, com restrições à televisão e à cerveja, sem poder praticar nada que inclua contato físico muito próximo é um saco...
Mas que ele está lindinho sem óculos, está...
Está sendo duro manter meu amo e senhor longe do mundo das letras depois da cirurgia para correção da miopia. Realmente ficar em casa sem poder ler jornais, revistas, livros, sem poder ficar diante do computador, com restrições à televisão e à cerveja, sem poder praticar nada que inclua contato físico muito próximo é um saco...
Mas que ele está lindinho sem óculos, está...
...pequeno, médio, grande, com aba, sem aba, com aplicador, sem aplicador, noturno, diurno, com floc gel, 100% algodão, extra fino, nova embalagem, leve 12 e pague 10, diário, formato anatômico, aderente, com perfume, neutro, próprio para fio dental...
E você demora um tempão em frente à gôndola do supermercado ou da farmácia para fazer essa escolha em plena TPM. Alguém poderia sugerir uma simplificação, não?
E você demora um tempão em frente à gôndola do supermercado ou da farmácia para fazer essa escolha em plena TPM. Alguém poderia sugerir uma simplificação, não?
24.4.02
Eu tinha uns onze anos quando o primeiro do tipo ancorou na minha vida. O processo é sempre o mesmo e já sinto arrepios quando vejo alguém semelhante. Aí respiro, conto até dez, faço uma força sobre-humana para engolir julgamentos precipitados e fico ali, esperando que minha primeira impressão seja desfeita e que eu tenha motivos para abolir os receios.
Mas não adianta. A história se repete.
H. mudou-se para a minha rua com seus pais e irmãos. Incluíram-se na turma com facilidade. A rua onde eu morava tinha poucas casas na época, o bairro apenas deixara de ser considerado Zona Rural. Conhecia todo mundo desde que nascera. Era raro a construção de uma casa nova. Mais rara ainda era a chegada de novos vizinhos.
Depois do jantar, a gente se reunia à frente de algum dos portões. Conversávamos, alguém tocava violão e cantávamos. Era uma idade em que era divertido tanto jogar queimado quanto emular uma paquera. Éramos uns vinte púberes divididos em sub-grupos, com freqüência e permanência variável na confraria.
H. sempre dava um jeito de sentar perto de mim. Puxava assunto. Quando pegava na bola, era sempre para mim que jogava. Suas histórias e piadas sempre tinham algum pretexto para segurar minha mão ou me tocar. Eu sempre escorregando para longe dele. Nunca apreciei suas atenções e nunca tive espírito de cultivar paixonites apenas para ter um grande séquito me acompanhando como via e ainda vejo algumas meninas (e mulheres) fazendo.
Ele começou a ficar mais agressivo em suas investidas e as pessoas começaram a notar. Claro que era prato cheio para brincadeiras de gosto duvidoso entre a garotada do lugar.
Dei uma sumida. Evitava aparecer na rua naquele período entre o jantar e o sono. Ele observava meus horários e sempre aparecia no portão para uma conversa boba quando eu estava voltando da escola ou no ponto de ônibus na hora que eu ia para o curso de inglês. Até então ele era apenas chato, um daqueles sujeitos difícil de despachar, principalmente quando eles não fazem nada realmente grave e são tão bonzinhos. Eu procurava não dar corda, inventava mil desculpas para me desvencilhar, mas meu repertório de escape naquela idade era realmente pífio e, creio, pouco efetivo.
Aí, veio a carta. Cheia de declarações titubeantes e propostas vagas. Pelo menos eu tinha algo concreto sobre o qual conversar e esclarecer a minha posição. Pensei na forma menos dolorosa e ainda assim definitiva de dizer não. Parece que falhei, porque ele apertou o cerco e tomou a resposta como um talvez.
Eu não desgostava dele. Apenas me sentia muito incomodada com uma corte não desejada. E decidi que a única forma de terminar com aquilo seria fazendo o que eu estava evitando fazer para que ele não se magoasse. Fingia não vê-lo ou ouví-lo sempre que possível. Dava a volta no quarteirão para não passar em frente a sua casa. Passei a tomar o ônibus em outro ponto. Mudava os caminhos com freqüência.
E criei um monstro.
Toda hora chegavam aos meus ouvidos coisas horríveis que ele dizia a meu respeito. Ele aprontava de tudo. Acho até que foi ele que andou escrevendo umas coisas estranhas no muro lá de casa.
Uma amiga me convenceu a voltar a freqüentar a rua algum tempo depois. Eu ficava em um canto e ele em outro. De vez em quando eu flagrava seu olhar.
Um dia ele veio andando direto em minha direção, interrompeu a conversa que eu estava tendo e do nada disse que me odiava, que tinha vontade de me picar em pedacinhos. Eu realmente senti medo.
Sumi de novo.
Por sorte, pouco depois a família dele foi embora da rua e eu pude voltar a respirar em paz.
Depois disso, outros vieram e foram. Algumas vezes a questão nem era amorosa ou sexual. Mas são todos muito parecidos na forma de olhar, no cheiro que emanam do corpo, nas palavras...
Um deles me ronda agora mesmo...
Mas não adianta. A história se repete.
H. mudou-se para a minha rua com seus pais e irmãos. Incluíram-se na turma com facilidade. A rua onde eu morava tinha poucas casas na época, o bairro apenas deixara de ser considerado Zona Rural. Conhecia todo mundo desde que nascera. Era raro a construção de uma casa nova. Mais rara ainda era a chegada de novos vizinhos.
Depois do jantar, a gente se reunia à frente de algum dos portões. Conversávamos, alguém tocava violão e cantávamos. Era uma idade em que era divertido tanto jogar queimado quanto emular uma paquera. Éramos uns vinte púberes divididos em sub-grupos, com freqüência e permanência variável na confraria.
H. sempre dava um jeito de sentar perto de mim. Puxava assunto. Quando pegava na bola, era sempre para mim que jogava. Suas histórias e piadas sempre tinham algum pretexto para segurar minha mão ou me tocar. Eu sempre escorregando para longe dele. Nunca apreciei suas atenções e nunca tive espírito de cultivar paixonites apenas para ter um grande séquito me acompanhando como via e ainda vejo algumas meninas (e mulheres) fazendo.
Ele começou a ficar mais agressivo em suas investidas e as pessoas começaram a notar. Claro que era prato cheio para brincadeiras de gosto duvidoso entre a garotada do lugar.
Dei uma sumida. Evitava aparecer na rua naquele período entre o jantar e o sono. Ele observava meus horários e sempre aparecia no portão para uma conversa boba quando eu estava voltando da escola ou no ponto de ônibus na hora que eu ia para o curso de inglês. Até então ele era apenas chato, um daqueles sujeitos difícil de despachar, principalmente quando eles não fazem nada realmente grave e são tão bonzinhos. Eu procurava não dar corda, inventava mil desculpas para me desvencilhar, mas meu repertório de escape naquela idade era realmente pífio e, creio, pouco efetivo.
Aí, veio a carta. Cheia de declarações titubeantes e propostas vagas. Pelo menos eu tinha algo concreto sobre o qual conversar e esclarecer a minha posição. Pensei na forma menos dolorosa e ainda assim definitiva de dizer não. Parece que falhei, porque ele apertou o cerco e tomou a resposta como um talvez.
Eu não desgostava dele. Apenas me sentia muito incomodada com uma corte não desejada. E decidi que a única forma de terminar com aquilo seria fazendo o que eu estava evitando fazer para que ele não se magoasse. Fingia não vê-lo ou ouví-lo sempre que possível. Dava a volta no quarteirão para não passar em frente a sua casa. Passei a tomar o ônibus em outro ponto. Mudava os caminhos com freqüência.
E criei um monstro.
Toda hora chegavam aos meus ouvidos coisas horríveis que ele dizia a meu respeito. Ele aprontava de tudo. Acho até que foi ele que andou escrevendo umas coisas estranhas no muro lá de casa.
Uma amiga me convenceu a voltar a freqüentar a rua algum tempo depois. Eu ficava em um canto e ele em outro. De vez em quando eu flagrava seu olhar.
Um dia ele veio andando direto em minha direção, interrompeu a conversa que eu estava tendo e do nada disse que me odiava, que tinha vontade de me picar em pedacinhos. Eu realmente senti medo.
Sumi de novo.
Por sorte, pouco depois a família dele foi embora da rua e eu pude voltar a respirar em paz.
Depois disso, outros vieram e foram. Algumas vezes a questão nem era amorosa ou sexual. Mas são todos muito parecidos na forma de olhar, no cheiro que emanam do corpo, nas palavras...
Um deles me ronda agora mesmo...
23.4.02
JORGE DA CAPADÓCIA
Jorge Ben
Jorge sentou praça
na cavalaria
E eu estou feliz porque eu também
sou da sua companhia
Eu estou vestido com as roupas
e as armas de Jorge.
Para que meus inimigos tenham pés
e não me alcancem.
Para que meus inimigos tenham mãos
e não me toquem.
Para que meus inimigos tenham olhos
e não me vejam.
E nem mesmo um pensamento
eles possam ter para me fazerem mal
Armas de fogo
meu corpo não alcançarão
Facas e espadas se quebrem
sem o meu corpo tocar.
Cordas e correntes arrebentem
sem o meu corpo amarrar.
Pois eu estou vestido
com as roupas e as armas de Jorge
Jorge é de Capadócia
Salve Jorge!
Salve Jorge!
Jorge é de Capadócia
Salve Jorge!
Salve Jorge!
Jorge Ben
Jorge sentou praça
na cavalaria
E eu estou feliz porque eu também
sou da sua companhia
Eu estou vestido com as roupas
e as armas de Jorge.
Para que meus inimigos tenham pés
e não me alcancem.
Para que meus inimigos tenham mãos
e não me toquem.
Para que meus inimigos tenham olhos
e não me vejam.
E nem mesmo um pensamento
eles possam ter para me fazerem mal
Armas de fogo
meu corpo não alcançarão
Facas e espadas se quebrem
sem o meu corpo tocar.
Cordas e correntes arrebentem
sem o meu corpo amarrar.
Pois eu estou vestido
com as roupas e as armas de Jorge
Jorge é de Capadócia
Salve Jorge!
Salve Jorge!
Jorge é de Capadócia
Salve Jorge!
Salve Jorge!
22.4.02
DUAS
Os móveis escuros e tapetes, revestimentos, cortinas e almofadas surrados emprestavam um ar melancólico àquela casa. Tudo ficara do mesmo jeito que a mãe deixara. Talvez por isso, quando não saía, ela passasse tanto tempo à janela.
Dali, a uma altura pouco acima da cabeça de quem transitava pela calçada, ela via todo o largo. Mesmo quando nada parecia acontecer por ali, quando as crianças estavam na escola, os adultos nos escritórios ou cuidando de assuntos domésticos, os velhos recolhidos para a sesta, ela permanecia debruçada sobre o batente. Observava o calor da tarde incidindo preguiçoso sobre o triângulo que ela conhecia tão bem. Olhava o chafariz brincando de fazer-se arco-íris. Aspirava o odor das flores que ela ajudara a plantar. Sempre havia com o que ocupar os sentidos apenas jazendo ali.
A vizinha passou e perguntou se ela queria alguma coisa do comércio. Nada estava faltando, mas uma encomenda qualquer seria um pretexto para que a outra subisse para um café e, quem sabe, alguma conversa na volta. Coco! Assim poderia fazer um doce e mais tarde teria motivos para uma visita, para levar um naco para a amiga. Desses pequenos subterfúgios sobrevivia sua pacata vida social.
Retornando, Juju acomodou-se na poltrona coberta por uma manta quase tão rota quanto o forro que pretendia disfarçar. Estava ligeiramente suada, o batom escorrera um pouco pelos sulcos em torno da boca e alguns fios mais rebeldes haviam se soltado do penteado na altura das têmporas. Entretanto percebia-se estar diante de uma mulher que se vestia e perfumava com apuro, mesmo que isso pesasse sobre seu orçamento apertado. Ela mantinha-se apresentável mesmo após caminhar por um par de horas pelas ruas do comércio. Seu rosto estava levemente afogueado e ela, como de costume, trazia algumas novidades para contar.
Lena gostava dela imensamente. Sempre foram amigas e a diferença de idade nunca incomodou. Quando Lena nasceu, Juju já era moça feita. O parto fora complicado e D. Amância permaneceu quase inválida durante o resguardo. Juju, que virava, mexia, arrumava pretexto para aparecer, surgira definitiva e imprescindível, para ajudar no que fosse necessário. Cuidou da cozinha, da neném, da casa toda. D. Amância a tratava como criada e ela parecia não perceber. Tudo estava bem. Ela estava ali. Afeiçoou-se sincera e profundamente a Lena desde seus primeiros instantes de vida. Mas não durou por muito tempo o salvo-conduto de Juju naquela casa.
O pai de Lena elogiava o tempero da vizinha. O corte perfeito dos vestidos que ela mesmo confeccionava. Ria, brincando com ela e a filha na sala. Juju começou a sentir os olhares e palavras ferozes sobre si. Sabia que tinha algo a ver com o homem da casa e, assim que D. Amância pôs-se finalmente de pé, começou a evitar estar lá nos mesmos horários que ele.
Alguns perguntavam se ela não se incomodava com os insultos que saiam da boca de D. Amância e vazavam para os ouvidos dos vizinhos pelas janelas. Ela, verdadeiramente ou não, dizia que não estava certa se realmente sabia do que estavam falando.
Juju sempre fora para Lena um exemplo de feminilidade. A mãe pesadona e marcial, parecia ocupada demais cuidando da dinâmica rígida da casa e esquecendo-se de si. Juju orbitava sua vida e Lena jamais estranhara. Era mesmo assim desde começara a ter consciência de si. Juju permanecia solteira e Lena achava natural que a amiga preferisse estar em sua casa, apesar do humor terrível de sua mãe e das diversas restrições que impunha à presença da vizinha, a permanecer sozinha a dois portões dali. Não passou por sua cabeça perguntar exatamente por que a amiga jamais se casara. Sua natureza não era questionadora.
O pai de Lena falecera quando ela tinha doze anos. Juju tentava consolar a menina, mas acabava chorando junto. Intensificara a freqüência e duração de suas visitas. As duas tiveram que engolir a tristeza e descobrir a leveza para lidar com a dureza de D. Amância.
A viúva tornara-se ainda mais irascível. Exigia nada menos que perfeição em tudo. E demandava atenção especial e total ao adoecer grave e longamente alguns anos depois. Tiranizava a filha e a dedicada vizinha. Não deixava a filha sair para canto algum. Estudo demais e rua não eram coisas que uma mulher direita desejasse. De que adiantara tanto estudo para Juju? Um dia, um homem decente iria buscá-la dentro de casa, isso sim. Mulher sabida demais ficava cuidando dos filhos dos outros.
A amiga, então, contrabandeava livros que Lena lia escondido. Juju trazia novas receitas e especiarias para experimentarem, mudas e sementes para plantarem no largo em frente quando D. Amância se distraia ou caia no sono, ensinava novos pontos de crochê e bordado, ouvia rádio bem alto quando estava em sua casa para Lena também pudesse escutar da janela, já que a mãe não permitia música. Assim, numa rebeldia sutil, sobreviviam às torturas psicológicas a que eram submetidas. Lena, compulsoriamente; Juju, voluntária e solidariamente.
Lena pensava no pai e no que como criança não percebera. Desconfiava que ao pobre havia sido dedicado tratamento semelhante, sob a austeridade e formalidade que lhe impunha a mulher para mascarar um casamento infeliz e apático. Ela lembrava de lampejos de brilho no pai. Ele ternamente sorria para ela e para Juju sempre que D. Amância não estava por perto. Lena tinha um pensamento recorrente que afastava assim que ele começava a tomar forma: D. Amância, ditadora inata, abafara tanto a vida dentro daquele homem que abreviou seus dias. E quiçá tenha mesmo sufocado-se em rigidez, também morrendo cedo demais.
No dia em que D. Amância se foi, Juju segurava sua mão e a da filha. Depois do período regulamentar de luto, Lena começou a experimentar a vida além das fronteiras do seu largo. As amigas iam juntas ao cinema, ao comércio, envolviam-se em alguns projetos sociais e, sobretudo, freqüentavam a casa uma da outra.
Porque era assim, sentadas diante uma da outra, a mulher madura e a cinqüentona sacudida, que compartilhavam a solterice e uma solidão sublimada. Fazia dez anos que Lena e Juju só tinham uma a outra, dividindo o tempo que passava lento. Sem filhos ou netos, maridos ou pais idosos para cuidar, mantinham um ritual cerimonioso de cafés e chás, alguns passeios e uma espécie de dependência silenciosa. Conviviam sem jamais tocarem em assuntos pessoais demais.
Lena, aos trinta e oito anos, cultivava secretamente a esperança de encontrar ainda um grande amor. Dos sonhos românticos de Juju não sabia, mas desconfiava que um amor impossível, inconfessável e eterno a impedira de casar-se com qualquer outro.
A moça da janela era uma vitoriosa passiva. Conseguira, de alguma forma, manter uma improvável alegria de viver. Tirava prazer das coisas mais singelas. Era mansa, era doce, e, não se permitindo pensar demais, era feliz. E sabia que à sua frente estava aquela que ajudara na sua sobrevivência através de uma vida insípida e pálida. Ali estava a amiga, que agora, mais uma vez, perdia os olhos na mesinha repleta de porta-retratos que emolduravam os mortos da casa e erguia, distraidamente, a xícara de café em direção a um sorriso misterioso.
19.4.02
Para rebater:
Você Não Entende Nada
(Caetano Veloso)
Quando eu chego em casa nada me consola
Você está sempre aflita
Lágrimas nos olhos, de cortar cebola
Você está tão bonita
Você traz a coca-cola eu tomo
Você bota a mesa, eu como, eu como
Eu como, eu como, eu como
Você não está entendendo
Quase nada do que eu digo
Eu quero ir-me embora
Eu quero é dar o fora
E quero que você venha comigo
E quero que você venha comigo
Eu me sento, eu fumo, eu como, eu não aguento
Você está tão curtida
Eu quero tocar fogo nesse apartamento
Você não acredita
Traz meu café com suita eu tomo
Bota a sobremesa, eu como, eu como
Eu como, eu como, eu como
Você
Tem que saber que eu quero correr mundo
Correr perigo
Eu quero ir-me embora
Eu quero dar o fora
E quero que você venha comigo
(Caetano Veloso)
Quando eu chego em casa nada me consola
Você está sempre aflita
Lágrimas nos olhos, de cortar cebola
Você está tão bonita
Você traz a coca-cola eu tomo
Você bota a mesa, eu como, eu como
Eu como, eu como, eu como
Você não está entendendo
Quase nada do que eu digo
Eu quero ir-me embora
Eu quero é dar o fora
E quero que você venha comigo
E quero que você venha comigo
Eu me sento, eu fumo, eu como, eu não aguento
Você está tão curtida
Eu quero tocar fogo nesse apartamento
Você não acredita
Traz meu café com suita eu tomo
Bota a sobremesa, eu como, eu como
Eu como, eu como, eu como
Você
Tem que saber que eu quero correr mundo
Correr perigo
Eu quero ir-me embora
Eu quero dar o fora
E quero que você venha comigo
Ouro de Tolo
(Raul Seixas)
Eu devia estar contente
Por que eu tenho um emprego
Sou um dito cidadao respeitavel
E ganho quatro mil cruzeiros por mes
Eu devia agradecer ao senhor por ter tido
sucesso na vida como artista
Eu devia estar feliz por que eu consegui
Comprar um corcel 73
Eu devia estar alegre e satisfeito por morar em
Ipanema depois de ter passado fome por dois anos
Aqui na cidade maravilhosa
Ah| Eu devia estar sozinho e orgulhoso por ter
Finalmente vencido na vida mas eu acho isto uma
Grande piada e um tanto quanto perigosa
Eu devia estar contente por ter conseguido tudo
O que eu quis mas confesso abestalhado que eu estou decepcionado
Por que foi tao facil conseguir e agora eu me pergunto, e dai?
Eu tenho uma porcao de coisas grandes pra conquistar,e eu nao
Posso ficar ai parado
Eu devia estar feliz pelo senhor ter me concedido o domingo
Pra ir com a familia no jardim zoologico dar pipoca aos macacos
Ah| Mas que sujeito chato sou eu que nao acha nada engracado
Macaco, praia, carro, jornal, toboga eu acho tudo isso um saco
E' voce olhar no espelho se sentir um grandessissimo idiota
Saber que e' humano, ridiculo, limitado que so usa
Dez por cento de sua cabeca animal
E voce ainda acredita que e' um doutor padre ou policial
Que esta contribuindo com sua parte para nosso belo quadro social
Eu e' que nao me sento no trono de um apartamento com a boca
Escancarada cheia de dentes, esperando a morte chegar
Porque longe das cercas embandeiradas que separam quintais
No cume calmo do meu olho que ve
Assenta a sombra sonora de um disco voador
(Raul Seixas)
Eu devia estar contente
Por que eu tenho um emprego
Sou um dito cidadao respeitavel
E ganho quatro mil cruzeiros por mes
Eu devia agradecer ao senhor por ter tido
sucesso na vida como artista
Eu devia estar feliz por que eu consegui
Comprar um corcel 73
Eu devia estar alegre e satisfeito por morar em
Ipanema depois de ter passado fome por dois anos
Aqui na cidade maravilhosa
Ah| Eu devia estar sozinho e orgulhoso por ter
Finalmente vencido na vida mas eu acho isto uma
Grande piada e um tanto quanto perigosa
Eu devia estar contente por ter conseguido tudo
O que eu quis mas confesso abestalhado que eu estou decepcionado
Por que foi tao facil conseguir e agora eu me pergunto, e dai?
Eu tenho uma porcao de coisas grandes pra conquistar,e eu nao
Posso ficar ai parado
Eu devia estar feliz pelo senhor ter me concedido o domingo
Pra ir com a familia no jardim zoologico dar pipoca aos macacos
Ah| Mas que sujeito chato sou eu que nao acha nada engracado
Macaco, praia, carro, jornal, toboga eu acho tudo isso um saco
E' voce olhar no espelho se sentir um grandessissimo idiota
Saber que e' humano, ridiculo, limitado que so usa
Dez por cento de sua cabeca animal
E voce ainda acredita que e' um doutor padre ou policial
Que esta contribuindo com sua parte para nosso belo quadro social
Eu e' que nao me sento no trono de um apartamento com a boca
Escancarada cheia de dentes, esperando a morte chegar
Porque longe das cercas embandeiradas que separam quintais
No cume calmo do meu olho que ve
Assenta a sombra sonora de um disco voador
18.4.02
15.4.02
Fui ver e gostei, portanto, recomendo para quem tem criança em casa e está em busca de programas que sejam divertidos para elas sem se transformarem em suplício para os adultos:
Até 04 de agosto de 2002, a Casa da Ciência entra num movimento diferente. Para fazer girar a cabeça e suar a camisa, a exposição FORÇA E MOVIMENTO apresenta 36 experimentos onde você poderá brincar com esses conceitos físicos experimentando cada um deles com o próprio corpo.
Exposição
Terça a sexta - 9:00 às 20:00
Sábados, domingos e feriados - 10:00 às 20:00
Visitas em grupo deverão ser agendadas com antecedência
Oficinas de minikits de física
Sábados e domingos
Distribuição de senhas meia hora antes das Oficianas
15:00 - Projeto Pica-Pau
16:00 - Descobrindo e Inventando com Galileo Galilei
17:00 - Apostando na Corrida
18:00 - Descobrindo Inventando com Isaac Newton
Atividades Especiais para Professores
Informações pelo telefone (21)2542-7494
Peças de cunho educativo e cultural de alta qualidade, em parceria c o Centro de Teatro para Infância e Juventude.
É terça-feira de Carnaval, em Olinda. Maria deixa seu gatinho aos cuidados do amigo Patativa para dançar o frevo. Patativa também quer cair no frevo e pede ao Palhaço que fique com o gato. O Palhaço também deixa o bichano com outro amigo. Quando Maria quer seu gatinho de volta, onde ele está?
Dias e Horários: 20, 21, 27 e 28/04, 17h
Local: Teatro I, Sesc Tijuca
Ingresso: R$5,00 (comerciários e dependentes) e R$10,00 (comunidade)
FORÇA E MOVIMENTO
Até 04 de agosto de 2002, a Casa da Ciência entra num movimento diferente. Para fazer girar a cabeça e suar a camisa, a exposição FORÇA E MOVIMENTO apresenta 36 experimentos onde você poderá brincar com esses conceitos físicos experimentando cada um deles com o próprio corpo.
Exposição
Terça a sexta - 9:00 às 20:00
Sábados, domingos e feriados - 10:00 às 20:00
Visitas em grupo deverão ser agendadas com antecedência
Oficinas de minikits de física
Sábados e domingos
Distribuição de senhas meia hora antes das Oficianas
15:00 - Projeto Pica-Pau
16:00 - Descobrindo e Inventando com Galileo Galilei
17:00 - Apostando na Corrida
18:00 - Descobrindo Inventando com Isaac Newton
Atividades Especiais para Professores
Informações pelo telefone (21)2542-7494
Centro Cultural e Tecnolofia / UFRJ
Rua Lauro Muller, 3 - Botafogo - Rio
(21)2542-7494
www.casadaciencia.ufrj.br
Rua Lauro Muller, 3 - Botafogo - Rio
(21)2542-7494
www.casadaciencia.ufrj.br
CBTIJ - MOSTRA DE TEATRO PARA CRIANÇAS
Peças de cunho educativo e cultural de alta qualidade, em parceria c o Centro de Teatro para Infância e Juventude.
A MENINA QUE PERDEU O GATO ENQUANTO DANÇAVA
O FREVO NA TERÇA-FEIRA DE CARNAVAL
O FREVO NA TERÇA-FEIRA DE CARNAVAL
É terça-feira de Carnaval, em Olinda. Maria deixa seu gatinho aos cuidados do amigo Patativa para dançar o frevo. Patativa também quer cair no frevo e pede ao Palhaço que fique com o gato. O Palhaço também deixa o bichano com outro amigo. Quando Maria quer seu gatinho de volta, onde ele está?
Dias e Horários: 20, 21, 27 e 28/04, 17h
Local: Teatro I, Sesc Tijuca
Ingresso: R$5,00 (comerciários e dependentes) e R$10,00 (comunidade)
Sesc Tijuca
Rua Barão de Mesquita, 539 - Tijuca
Tel.: 2238-4566
sesctijuca@sescrj.com.br
Rua Barão de Mesquita, 539 - Tijuca
Tel.: 2238-4566
sesctijuca@sescrj.com.br
11.4.02
10.4.02
Tinha uma vinheta no Cartoon Network (não sei se ainda passa) com a família Jetson. Era um festival de enguiços daquelas parafernálias que eles usam e, no final, a frase filosófica: "Tecnologia é bom... quando funciona".
Ontem alguma coisa aconteceu por aqui. A linha telefônica funcionava para as ligações, mas não para conectar à Internet. Um dia inteiro desconectada! Sabe lá o que é isso?
Alguém fez aniversário. Liguei para sua casa ontem. Até consegui falar com a ajudante para assuntos doméstico numa das vezes, mas tem uma secretária eletrônica da Telemar que definitivamente não vai com a minha cara. Pelo menos a família foi representada nos desejos de felicidades. Parabéns!
Também não pude registrar a minha alegria ao ver que nossa musa está voltando. Devagar, é verdade, mas a gente espera loguinho ver suas letrinhas por lá.
E ainda tinha que falar que nosso amigo Rocha anda fazendo sucesso com seus escritos. Isso me deixa muito feliz. O cara escreve muito bem e todo mundo merece conhecer seu trabalho. Um texto brilhante dele sobre esta loucura entre israelenses e palestinos está aqui e deve aparecer em breve aqui.
Ontem alguma coisa aconteceu por aqui. A linha telefônica funcionava para as ligações, mas não para conectar à Internet. Um dia inteiro desconectada! Sabe lá o que é isso?
Alguém fez aniversário. Liguei para sua casa ontem. Até consegui falar com a ajudante para assuntos doméstico numa das vezes, mas tem uma secretária eletrônica da Telemar que definitivamente não vai com a minha cara. Pelo menos a família foi representada nos desejos de felicidades. Parabéns!
Também não pude registrar a minha alegria ao ver que nossa musa está voltando. Devagar, é verdade, mas a gente espera loguinho ver suas letrinhas por lá.
E ainda tinha que falar que nosso amigo Rocha anda fazendo sucesso com seus escritos. Isso me deixa muito feliz. O cara escreve muito bem e todo mundo merece conhecer seu trabalho. Um texto brilhante dele sobre esta loucura entre israelenses e palestinos está aqui e deve aparecer em breve aqui.
8.4.02
Este texto é um exercício de teimosia.
Ontem fomos assistir a Cine Majestic e me emocionei. Ricardo sorriu daquele jeito que me irrita profundamente (e torna nossas discussões adoravelmente enriquecedoras) e disse que no fundo sou um entusiasta dos valores básicos norte-americanos. Respondi que o que me emocionou não tinha sido a batalha da constituição (alma) norte-americana contra o macarthismo, mas uma história sobre valores legítimos, quaisquer que sejam eles, aceitação e amor verdadeiros, em contraposição ao mundo das aparências e das ilusões. No meu jeito insuportável de ser, afirmei que a história poderia acontecer em outro ambiente, em outro tempo, com outro povo, em outro contexto e ainda assim seria basicamente a mesma história.
O texto, escrito sem tempo e sem talento, não é recomendado para quem ainda não assistiu ao filme e ainda pretende ir ver (aliás, recomendo). A idéia era apenas provar minha teoria. Será que consegui?
Ontem fomos assistir a Cine Majestic e me emocionei. Ricardo sorriu daquele jeito que me irrita profundamente (e torna nossas discussões adoravelmente enriquecedoras) e disse que no fundo sou um entusiasta dos valores básicos norte-americanos. Respondi que o que me emocionou não tinha sido a batalha da constituição (alma) norte-americana contra o macarthismo, mas uma história sobre valores legítimos, quaisquer que sejam eles, aceitação e amor verdadeiros, em contraposição ao mundo das aparências e das ilusões. No meu jeito insuportável de ser, afirmei que a história poderia acontecer em outro ambiente, em outro tempo, com outro povo, em outro contexto e ainda assim seria basicamente a mesma história.
O texto, escrito sem tempo e sem talento, não é recomendado para quem ainda não assistiu ao filme e ainda pretende ir ver (aliás, recomendo). A idéia era apenas provar minha teoria. Será que consegui?
O fim de semana foi tão bom que acabamos por esticá-lo até as primeiríssimas horas desta segunda-feira. O problema - e quem dera todos os problemas do mundo fossem como este - é que meu amo e senhor acorda com as galinhas e, como mudamos um pouco a disposição dos móveis do quarto para acomodar a nova mesa/estante do computador, ele tropeçou umas vinte vezes na cama, e conseqüentemente em mim que tentava me manter adormecida, enquanto se arrumava para trabalhar. Então o sono da tarde hoje está violento.
Mas estou meio aérea desde cedo. Talvez por isso não tenha tido uma crise nervosa quando quase fui morta hoje pela manhã. É... Foi por pouco que você que me lê agora não ficou sem uma atualização neste blog e sem a minha adorável e modesta presença.
Vinha caminhando pela rua, curtindo o frescor da manhã, o corpo ainda vibrando com a ducha fria depois da água morna da piscina, aproveitando o céu azul que aparecia logo depois do final da nuvem que respingava chuva em mim, o corpo molhado dentro do maiô e da saia envelope... De repente, um caminhão passou na rua e exatamente ao meu lado, houve um estrondo provocado por ele. Demorei alguns instantes para perceber o que havia acontecido. Uma mulher do outro lado da rua me olhava arregalada, a boca aberta num grito que não saiu, enquanto me afastava do fio de alta tensão que o caminhão arrebentou e que bailava ameaçadoramente me convidando para um pas-de-deux fatal.
Estou tranqüila. Agora a chuva cai pesadamente escurecendo a tarde. A cama me olha lânguida. Lembro de um pesadelo pavoroso que tive. O edredon e as almofadas fazem psiu. Mas vou trabalhar e escrever o texto que prometi ao meu amor. Porque estou viva e minha doce sobrinha deve chegar a este mundo a qualquer momento.
Mas estou meio aérea desde cedo. Talvez por isso não tenha tido uma crise nervosa quando quase fui morta hoje pela manhã. É... Foi por pouco que você que me lê agora não ficou sem uma atualização neste blog e sem a minha adorável e modesta presença.
Vinha caminhando pela rua, curtindo o frescor da manhã, o corpo ainda vibrando com a ducha fria depois da água morna da piscina, aproveitando o céu azul que aparecia logo depois do final da nuvem que respingava chuva em mim, o corpo molhado dentro do maiô e da saia envelope... De repente, um caminhão passou na rua e exatamente ao meu lado, houve um estrondo provocado por ele. Demorei alguns instantes para perceber o que havia acontecido. Uma mulher do outro lado da rua me olhava arregalada, a boca aberta num grito que não saiu, enquanto me afastava do fio de alta tensão que o caminhão arrebentou e que bailava ameaçadoramente me convidando para um pas-de-deux fatal.
Estou tranqüila. Agora a chuva cai pesadamente escurecendo a tarde. A cama me olha lânguida. Lembro de um pesadelo pavoroso que tive. O edredon e as almofadas fazem psiu. Mas vou trabalhar e escrever o texto que prometi ao meu amor. Porque estou viva e minha doce sobrinha deve chegar a este mundo a qualquer momento.
7.4.02
Descrição de um dia perfeito
Manhã infaltil, com direito filme estrelado por gente que vai ser notícia e gente que aprendeu que um mico básico é o elixir da felicidade. Incluído no pacote como brinde: jogar queimado na Quinta da Boa Vista.
Tarde adulta, oscilando entre o romântico e o sacana.
Noite preguiçosa, com Cássia Eller e De Niro.
Variante
Manhã curta e preguiçosa, lendo todo o jornal de domingo, a Veja e tudo mais o que aparecer diante dos olhos.
Almoço em local escolhido em cima da hora.
Tarde cinematográfica com Jim Carey.
Pizza e todo o restante dos ovos de Páscoa.
LULA CONCORDA COMIGO
Depois de expressar o mesmo tipo de reação que eu diante da invasão do MST à fazenda do presidente, o candidato à presidência da República pelo PT parece concordar comigo também em outros assuntos.
Logo depois de escrever aqui sobre a novela O Clone, li a seguinte frase do ex-metalúrgico nas páginas da Veja:
"Nunca vi uma discussão tão séria na TV brasileira sobre o problema das drogas."
Afinidade pouca é bobagem.
6.4.02
A história romântica condutora de O Clone é um pé no saco, ninguém há de negar. Entretanto Glória Perez acertou no timing duplamente ao abordar a cultura muçulmana no exato momento em que a curiosidade sobre ela era imensa e ao falar da clonagem humana no instante em que ela parece deixar de ser ficção científica.
Lembro perfeitamente que foi um drama escalar o elenco do que viria a ser uma das novelas das oito (!?) de maior sucesso dos últimos tempos. Muitos acharam que seria um tiro n'água e ouviu-se todo tipo de desculpa esfarrapada dos atores do primeiro escalão global. Há poucos dias da estréia, o incidente nos EUA fez com que houvesse certa apreensão em relação aos personagens islâmicos. Mas mostrar seus costumes deu tão certo e conquistou tantas simpatias (vide a unanimidade da fantasia de Jade no Carnaval) que a aparição do clone que dá nome a história foi adiada. E esse adiamento foi mais uma sorte, porque quando a cópia finalmente surgiu (infelizmente emoldurado por uma propaganda a favor do estado do Maranhão, claramente pró candidatura de Roseana Sarney) foi anunciado que já estava disponível a tecnologia para a clonagem humana. E agora que os dramas relacionados a ela se desenlaçam, o Dr. Severino Frankstein Antinori anuncia que uma mulher leva no ventre uma gravidez de dois meses de um ser humano clonado.
A autora do folhetim sempre aborda em suas obras uma cultura "exótica", um tema de discussão atual e outro de denúncia. Cito de memória aquela novela cujo nome esqueci com a história dos ciganos (quem pode esquecer o cigano Igor?) que também chamava a atenção para as crianças desaparecidas. Ela também já falou sobre transplantes de órgãos, mães de aluguel e o sub-mundo das boates cariocas (bem de leve, claro).
Entretanto nada que eu vi na televisão brasileira, seja em ficção ou em campanha institucional, chega perto da beleza de trabalho que está sendo feito em O Clone no tocante ao uso de drogas. Sempre olhei com estranheza para campanhas muito bem intencionadas mas pouco efetivas, como aquela que encheu a cidade com as letras do Ziraldo afirmando que "droga é uma merda". Alguém precisava ter a coragem de dizer que droga é muito bom e é por isso que vicia. Faltava que alguém dissesse que o problema é a roleta russa que é entrar neste mundo sem se saber se há a tendência para o vício. Felizmente em horário nobre alguém levanta a lebre que há muito usar drogas deixou de ser um ato de rebeldia para se tornar uma inclusão total no sistema e que o seu barato fomenta o tráfico e a violência que todos repudiamos e tememos.
Tenho achado muito interessante as cenas em que um dependente crônico conversa com seu analista enquanto as imagens de uma jovem que envereda por este caminho passa pelas mesmas experiências que ele viveu. Acho dispensável os depoimentos verídicos, mas faz parte do estilo da autora (que já levou as mães lacrimosas da Cinelândia para a tela da Globo e ajudou a encontrar algumas crianças desaparecidas). Tenho que deixar registrada a admiração pela abordagem do desespero dos pais, que ficam sem saber como se comportar diante da descoberta do uso de drogas pelos filhos e a mensagem de que isso não acontece só com os filhos dos outros, por causa das más companhias. Quebrou-se o tabu de o drogado ter que ser o vilão da história, como há uma tendência para que os homossexuais parem de aparecer como bichas afetadíssimas e os negros como serviçais domésticos. Os dependentes podem ser pessoas como as que eu e você conhecemos e gostamos, nesta história e na vida real.
É lógico que uma novela não tem o poder de mudar uma situação tão complicada. Mas abre espaço para uma discussão ampla sobre o tema e a possibilidade de se falar com mais sinceridade e realismo de um problema sério e preocupante.
PS1: Sou a favor da legalização. Acredito que muito mais se matou ou morreu com a proibição do que com vício propriamente dito. Deve haver tratamento e conscientização sobre os prejuízos causados pelo uso de drogas, mas o Estado não deve ser responsável pelas escolhas do cidadão.
PS2: Odeio a palavra adicção e seus derivados.
Lembro perfeitamente que foi um drama escalar o elenco do que viria a ser uma das novelas das oito (!?) de maior sucesso dos últimos tempos. Muitos acharam que seria um tiro n'água e ouviu-se todo tipo de desculpa esfarrapada dos atores do primeiro escalão global. Há poucos dias da estréia, o incidente nos EUA fez com que houvesse certa apreensão em relação aos personagens islâmicos. Mas mostrar seus costumes deu tão certo e conquistou tantas simpatias (vide a unanimidade da fantasia de Jade no Carnaval) que a aparição do clone que dá nome a história foi adiada. E esse adiamento foi mais uma sorte, porque quando a cópia finalmente surgiu (infelizmente emoldurado por uma propaganda a favor do estado do Maranhão, claramente pró candidatura de Roseana Sarney) foi anunciado que já estava disponível a tecnologia para a clonagem humana. E agora que os dramas relacionados a ela se desenlaçam, o Dr. Severino Frankstein Antinori anuncia que uma mulher leva no ventre uma gravidez de dois meses de um ser humano clonado.
A autora do folhetim sempre aborda em suas obras uma cultura "exótica", um tema de discussão atual e outro de denúncia. Cito de memória aquela novela cujo nome esqueci com a história dos ciganos (quem pode esquecer o cigano Igor?) que também chamava a atenção para as crianças desaparecidas. Ela também já falou sobre transplantes de órgãos, mães de aluguel e o sub-mundo das boates cariocas (bem de leve, claro).
Entretanto nada que eu vi na televisão brasileira, seja em ficção ou em campanha institucional, chega perto da beleza de trabalho que está sendo feito em O Clone no tocante ao uso de drogas. Sempre olhei com estranheza para campanhas muito bem intencionadas mas pouco efetivas, como aquela que encheu a cidade com as letras do Ziraldo afirmando que "droga é uma merda". Alguém precisava ter a coragem de dizer que droga é muito bom e é por isso que vicia. Faltava que alguém dissesse que o problema é a roleta russa que é entrar neste mundo sem se saber se há a tendência para o vício. Felizmente em horário nobre alguém levanta a lebre que há muito usar drogas deixou de ser um ato de rebeldia para se tornar uma inclusão total no sistema e que o seu barato fomenta o tráfico e a violência que todos repudiamos e tememos.
Tenho achado muito interessante as cenas em que um dependente crônico conversa com seu analista enquanto as imagens de uma jovem que envereda por este caminho passa pelas mesmas experiências que ele viveu. Acho dispensável os depoimentos verídicos, mas faz parte do estilo da autora (que já levou as mães lacrimosas da Cinelândia para a tela da Globo e ajudou a encontrar algumas crianças desaparecidas). Tenho que deixar registrada a admiração pela abordagem do desespero dos pais, que ficam sem saber como se comportar diante da descoberta do uso de drogas pelos filhos e a mensagem de que isso não acontece só com os filhos dos outros, por causa das más companhias. Quebrou-se o tabu de o drogado ter que ser o vilão da história, como há uma tendência para que os homossexuais parem de aparecer como bichas afetadíssimas e os negros como serviçais domésticos. Os dependentes podem ser pessoas como as que eu e você conhecemos e gostamos, nesta história e na vida real.
É lógico que uma novela não tem o poder de mudar uma situação tão complicada. Mas abre espaço para uma discussão ampla sobre o tema e a possibilidade de se falar com mais sinceridade e realismo de um problema sério e preocupante.
PS1: Sou a favor da legalização. Acredito que muito mais se matou ou morreu com a proibição do que com vício propriamente dito. Deve haver tratamento e conscientização sobre os prejuízos causados pelo uso de drogas, mas o Estado não deve ser responsável pelas escolhas do cidadão.
PS2: Odeio a palavra adicção e seus derivados.
É adorável descobrir novos cantinhos preciosos na cidade. Ontem fomos a uma festa de aniversário infantil no Museu do Primeiro Reinado (Casa da Marquesa de Santos). Apesar de ficar a um espirro de casa nunca tinha ido lá. Devo voltar em breve para conhecer o acervo. Ficamos apenas ao ar livre aproveitando a delícia da primeira noite fresca em muito tempo (a chuva desabou logo depois que chagamos em casa). O Domitila Café é muito simpático, a fonte empresta ao lugar um charme especial, estacionamento farto e seguro e tem espaço para deixar os moleques correrem (e ralarem os joelhos e cotovelos) à vontade.
Para quem não conhece e gostaria de conhecer, fica ali em São Cristóvão, na avenida Pedro II, a um túnel subterrâneo e adulteramente clandestino de distância da Quinta da Boa Vista.
Só não consegui descobri, no meio daquela algazarra infantil, como se faz para contratar festas ali. Mas achei ótimo que às nove a função seja obrigatoriamente encerrada.
Para quem não conhece e gostaria de conhecer, fica ali em São Cristóvão, na avenida Pedro II, a um túnel subterrâneo e adulteramente clandestino de distância da Quinta da Boa Vista.
Só não consegui descobri, no meio daquela algazarra infantil, como se faz para contratar festas ali. Mas achei ótimo que às nove a função seja obrigatoriamente encerrada.
4.4.02
COMO PERDER UM CLIENTE
Movida pela inércia que normalmente guia os hábitos de consumo, fui a uma loja aqui perto que tem bons preços para cópias reprográficas em grande volume. Durante muito tempo (daí o hábito) foi a única com este diferencial num raio de uns bons quarteirões.
Chegando lá, além do bafo quente que emanava da loja, recebi na cara uma careta do rapazinho que atende e um "tá quebrado, vai demorar" por entre os dentes. Pensei em deixar o serviço para pegar no dia seguinte, o que deveria ter sido sugerido por ele, acompanhado de um pedido de desculpas e um sorriso, mas lembrei que havia sido inaugurada uma loja semelhante a poucos passos de distância, dobrando a esquina.
A nova loja estava lotada de estudantes que freqüentam as enormes escolas da vizinhança, mas isso não chegou a ser um problema. O ar condicionado estava funcionando perfeitamente, bem como as muitas máquinas. A fila organizadíssima andava rápido. Na ponta dela, mocinhas sorridentes revezavam-se no atendimento. Uma delas pegou a minha encomenda e iniciou o trabalho imediatamente. Como tudo é feito diante dos olhos do cliente, pude ver que ela não parou um segundo sequer e que a virtual demora aconteceu porque eram realmente muitas cópias. Ainda assim, a atendente, jovem e bonitinha, que, imagino, deve atrair os rapazes espinhentos que circulam por lá, desculpou-se ao me entregar o trabalho concluído. Na hora de pagar, mais uma surpresa agradável: eles cobram menos que a concorrência.
Alguém duvida que eu jamais pisarei novamente na primeira loja?
2.4.02
Gosto de brincar com expressões que quase não ouço mais. Uma delas é vivo, no sentido de esperto, atento, em alerta. E gosto particularmente desta expressão porque embute uma certa filosofia. Estar vivo é muito mais que arrastar-se pela existência. Para viver realmente é necessário estar vigilante para pescar as preciosidades onde parece reinar o caos.
Assim, dobro e abandono o jornal respingado de sangue do mundo inteiro a abro os ouvidos para o que se passava sob a minha janela. E lá está ele, o rato que ruge.
Todos os dias, em horários pré-determinados passam por aqui caminhões e vans anunciando em seus auto-falantes os mais variados produtos. Olha o carro do pão! Pamonha, pamonha fresquinha! Dois abacaxi por um real!...
Um belo dia surgiu um novo pregão. Era um som mais potente que os outros. Ao invés da voz monótona e entediada, um jingle até que bem gravado, animadinho. Anunciava sorvete e o nome da marca era um deboche: Kyopa.
Por algum tempo, eu apenas ouvia e imaginava um enorme veículo cheio de picolés e casquinhas. Imagina o tamanho do meu espanto quando, ao sair um dia do prédio e ouvir a tal música, comecei a procurar pelo emissor até deparar-me com uma carrocinha mínima de sorvete, ainda menor que as dos concorrentes que seu nome plagia.
Assim, toda vez que escuto o rato que ruge anunciando aos berros a partir de seu minúsculo estabelecimento comercial ambulante, um sorriso me vem aos lábios.
Ouvidos e olhos vivos para capturar a vida das pequenas graças e os pequenos sorrisos, que a morte não precisa de parabólicas: ela explode ruidosamente na imprensa.
Assim, dobro e abandono o jornal respingado de sangue do mundo inteiro a abro os ouvidos para o que se passava sob a minha janela. E lá está ele, o rato que ruge.
Todos os dias, em horários pré-determinados passam por aqui caminhões e vans anunciando em seus auto-falantes os mais variados produtos. Olha o carro do pão! Pamonha, pamonha fresquinha! Dois abacaxi por um real!...
Um belo dia surgiu um novo pregão. Era um som mais potente que os outros. Ao invés da voz monótona e entediada, um jingle até que bem gravado, animadinho. Anunciava sorvete e o nome da marca era um deboche: Kyopa.
Por algum tempo, eu apenas ouvia e imaginava um enorme veículo cheio de picolés e casquinhas. Imagina o tamanho do meu espanto quando, ao sair um dia do prédio e ouvir a tal música, comecei a procurar pelo emissor até deparar-me com uma carrocinha mínima de sorvete, ainda menor que as dos concorrentes que seu nome plagia.
Assim, toda vez que escuto o rato que ruge anunciando aos berros a partir de seu minúsculo estabelecimento comercial ambulante, um sorriso me vem aos lábios.
Ouvidos e olhos vivos para capturar a vida das pequenas graças e os pequenos sorrisos, que a morte não precisa de parabólicas: ela explode ruidosamente na imprensa.
1.4.02
Uma das piores coisas da enxaqueca é o remédio. Só tomo quando vejo que respiração e auto-controle não vão funcionar de jeito nenhum. Aí, já sei o resultado: fico completamente zureta, lesa, tantã...
Além de uma moleza que me faz absolutamente improdutiva, acho que pioro porque fico tentando me manter atenta para não fazer nenhuma besteira muito grande, não relaxo e não consigo melhorar.
Tenho zilhões de coisas para fazer e simplesmente não consigo me concentrar.
E já estava no meio do caminho ao levar meu filho para a escola quando descobri que a pasta com todo o seu material escolar tinha ficado em casa.
Sou um perigo neste estado...
Além de uma moleza que me faz absolutamente improdutiva, acho que pioro porque fico tentando me manter atenta para não fazer nenhuma besteira muito grande, não relaxo e não consigo melhorar.
Tenho zilhões de coisas para fazer e simplesmente não consigo me concentrar.
E já estava no meio do caminho ao levar meu filho para a escola quando descobri que a pasta com todo o seu material escolar tinha ficado em casa.
Sou um perigo neste estado...
31.3.02
Sábado de Aleluia
Ontem, antes de um almoço antecipado de Páscoa na casa da minha sogra gourmet, fizemos uma excursão pelo subúrbio e pela Zona Norte.
Barbeiro para maridão e filhote em Água Santa/Engenho de Dentro; fim da novela da mesa nova para o computador (ueba!) na Rua Honório, no Cachambi; novos controles remotos (finalmente os bichinhos sucumbiram de vez na mão assassina de uma criança depois de brava resistência por anos a fio) em São Cristóvão; visitas a pet shops na Tijuca...
Por todo canto vimos judas pendurados em postes e marquizes. É bom ver que a tradição se mantém, no seio da cidade.
*******
Feliz Páscoa!
Por que a flor do maracujá é relacionada à história da "Paixão de Cristo"? Qual o significado de cada parte da flor?
Resposta: Os maracujás ou flores-da-paixão - seus frutos e suas flores - já eram muito conhecidos e utilizados na América antes da chegada dos primeiros europeus que, desde cedo, encantaram-se com a sua exuberância. Em seu afã religioso da conquista, os missionários estrangeiros viram nessas flores e frutos muito mais do que beleza e perfume. Os religiosos viram naquela formação complexa e admirável, um verdadeiro presente de Deus para iluminar seu trabalho de catequese, encontrando em suas formas e cores exóticas, a metáfora perfeita para explicar aos infiéis indígenas a "truculenta história da Paixão de Cristo". Assim, em primeiro lugar, associaram-se às cores com que a natureza premiou as belas flores do maracujá, aos vermelhos e aos roxos utilizados nos rituais cristãos da Semana Santa. Além das cores, a coroa floral completamente filigrada, transformou-se na própria imagem da coroa de espinhos com que Cristo foi crucificado; os três estigmas da flor passaram a ser os três cravos que o prenderam na cruz; suas cinco anteras estariam representando as cinco chagas de Cristo; as gavinhas eram vistas como os açoites que o martirizaram; e o fruto redondo era a representação do mundo que o Cristo veio redimir. Desde então, as flores dos maracujazeiros começaram a ser chamadas de "as flores-da-paixão", da Paixão de Cristo.
Retirado daqui
******
A FLOR DO MARACUJÁ
(Catulo da Paixão Cearense)
Encontrando-me com um sertanejo
Perto de um pé de maracujá
Eu lhe perguntei:
Diga-me caro sertanejo
Porque razão nasce roxa
A flor do maracujá?
Ah, pois então eu lhi conto
A estória que ouvi contá
A razão pro que nasci roxa
A flor do maracujá
Maracujá já foi branco
Eu posso inté lhe ajurá
Mais branco qui caridadi
Mais brando do que o luá
Quando a flor brotava nele
Lá pros cunfim do sertão
Maracujá parecia
Um ninho de argodão
Mais um dia, há muito tempo
Num meis que inté num mi alembro
Si foi maio, si foi junho
Si foi janero ou dezembro
Nosso sinhô Jesus Cristo
Foi condenado a morrer
Numa cruis crucificado
Longe daqui como o quê
Pregaro cristo a martelo
E ao vê tamanha crueza
A natureza inteirinha
Pois-se a chorá di tristeza
Chorava us campu
As foia, as ribera
Sabiá também chorava
Nos gaio a laranjera
E havia junto da cruis
Um pé de maracujá
Carregadinho de flor
Aos pé de nosso sinhô
I o sangue de Jesus Cristo
Sangui pisado de dô
Nus pé du maracujá
Tingia todas as flor
Eis aqui seu moço
A estoria que eu vi contá
A razão proque nasce roxa
A flor do maracujá.
(Catulo da Paixão Cearense)
Encontrando-me com um sertanejo
Perto de um pé de maracujá
Eu lhe perguntei:
Diga-me caro sertanejo
Porque razão nasce roxa
A flor do maracujá?
Ah, pois então eu lhi conto
A estória que ouvi contá
A razão pro que nasci roxa
A flor do maracujá
Maracujá já foi branco
Eu posso inté lhe ajurá
Mais branco qui caridadi
Mais brando do que o luá
Quando a flor brotava nele
Lá pros cunfim do sertão
Maracujá parecia
Um ninho de argodão
Mais um dia, há muito tempo
Num meis que inté num mi alembro
Si foi maio, si foi junho
Si foi janero ou dezembro
Nosso sinhô Jesus Cristo
Foi condenado a morrer
Numa cruis crucificado
Longe daqui como o quê
Pregaro cristo a martelo
E ao vê tamanha crueza
A natureza inteirinha
Pois-se a chorá di tristeza
Chorava us campu
As foia, as ribera
Sabiá também chorava
Nos gaio a laranjera
E havia junto da cruis
Um pé de maracujá
Carregadinho de flor
Aos pé de nosso sinhô
I o sangue de Jesus Cristo
Sangui pisado de dô
Nus pé du maracujá
Tingia todas as flor
Eis aqui seu moço
A estoria que eu vi contá
A razão proque nasce roxa
A flor do maracujá.
Retirado daqui
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Maracujá
Nome científico: Passiflora edulis Sims
Família: Passifloraceae
Nomes populares: Maracujá, maracujá-mirim, maracujá-suspiro, maracujá-peroba, maracujá-pequeno, flor-da-paixão
Nome em inglês: Passion fruit
Origem: Provavelmente Brasil
Conta-se que o papa Paulo V ajoelhou-se reverentemente diante da flor que "representava uma revelação divina": a flor do maracujá. Ela recordaria a paixão de Cristo. Frei Vicente do Salvador descreveu-a nessa função religiosa: "além de formosa, misteriosa - possui estigmas semelhantes aos cravos que Cristo foi pregrado à cruz... cinco pétalas, rodeadas de coroa rouxa, simbolizavam as cinco chagas e a coroa de espinhos". A flor da família das Passifloráceas ganhou nome adequado (passio = paixão; flore = flor): Flor da paixão.
O indígena que admirou a flor mas preferiu o fruto, atento aos cuidados com que a natureza lhe entregara aquele presente, chamou-o de maracujá. Expressão que, pragmaticamente, quer dizer: a comida que já vem na cuia.
É mesmo na cuia, isto é, na própria casca, que o maracujá recebe total apreciação de norte a sul do país. Tanto que o Brasil conhece o recorde de mais de 150 variedades da fruta. Das quais são deliciosamente comestíveis o maracujá-amarelo, o maracujá-roxo e o avermelhado, bastante comuns nas regiões Sudeste e Sul.
A maneira de comer na cuia, debaixo da latada, quem a registrou com garbo e inspiração, pela primeira vez, foi o poeta de As Frutas e Os Legumes, Manoel Botelho de Oliveira. Leiam-no: "O maracujá também gostoso e frio/Entre as frutas merece nome e brio;/Tem nas pevides mais gostoso agrado,/Do que açúcar rosado,/É belo, cordial e como é mole,/Qual suave manjar todo se engole".
____________________
Fonte: Frutas-Brasil (ISBN 85-7234-008-4)
A CULTURA DO MARACUJÁ
O maracujá é uma planta de clima tropical com ampla distribuição geográfica. A cultura do maracujá está em franca expansão tanto para a produção de frutas para consumo "in natura" como para a produção de suco. O Brasil é o primeiro produtor mundial de maracujá.
Retirado daqui
Sei que muitos podem discordar, mas creio que uma das bênçãos desta cidade é a mistura das classes sociais. Mesmo nos bairros mais ricos, é possível encontrar representantes de favelas, cortiços e afins como vizinhos. Isso diminui a distância e faz com que pessoas mais sensíveis tenham a oportunidade de experimentar outras formas de cultura e confirmar que todo mundo tem dor de barriga, quer ser feliz e sonha com uma vida digna para os filhos. Porque conhecimento é o único remédio que conheço para dar fim ao preconceito.
Ainda assim, conviver com diferenças nem sempre é fácil. Aqui pertinho tem uma casa de cômodos, um conjunto de sobrados que faz parte de um daqueles processos intermináveis de herança, contam que de um barão, e foi ocupada por pessoas que não tinham para onde ir. Observo com curiosidade a movimentação por lá. Há muita festa, muita criança, algumas brigas fomentadas por 51, que chegam às raias do cômico.
E, como a maioria da população brasileira, lentamente as coisas vão melhorando para eles. Alguns conseguem até sair de lá e ir para um lugar mais adequado. Quem não consegue, tenta fazer a vida mais confortável. Assim um deles comprou um aparelho de som novo. Deduzo isso porque a música toca sem parar. E houve dinheiro suficiente para comprar, além do eletrodoméstico, dois discos. E esse é o problema: são dois - e somente dois - discos!
Eles tocam sem parar dia e noite, revezando-se em alto volume, e suspeita meu lado paranóico, com o intuito claro de me levar à loucura. Acordo com Jose & Durval, conhecidos nacionalmente como Chitãozinho e Xororó. Aí vem Àgua da Minha Sede, do Zeca Pagodinho. Então, novamente o pai e tio da Sandy e do Júnior e mais uma vez o ex-morador de Xerem. Ad infinitum...
Adoro o Zeca, mas assim não há cristão que agüente! E o que falar da dupla sertaneja?
Socorro!
Ainda assim, conviver com diferenças nem sempre é fácil. Aqui pertinho tem uma casa de cômodos, um conjunto de sobrados que faz parte de um daqueles processos intermináveis de herança, contam que de um barão, e foi ocupada por pessoas que não tinham para onde ir. Observo com curiosidade a movimentação por lá. Há muita festa, muita criança, algumas brigas fomentadas por 51, que chegam às raias do cômico.
E, como a maioria da população brasileira, lentamente as coisas vão melhorando para eles. Alguns conseguem até sair de lá e ir para um lugar mais adequado. Quem não consegue, tenta fazer a vida mais confortável. Assim um deles comprou um aparelho de som novo. Deduzo isso porque a música toca sem parar. E houve dinheiro suficiente para comprar, além do eletrodoméstico, dois discos. E esse é o problema: são dois - e somente dois - discos!
Eles tocam sem parar dia e noite, revezando-se em alto volume, e suspeita meu lado paranóico, com o intuito claro de me levar à loucura. Acordo com Jose & Durval, conhecidos nacionalmente como Chitãozinho e Xororó. Aí vem Àgua da Minha Sede, do Zeca Pagodinho. Então, novamente o pai e tio da Sandy e do Júnior e mais uma vez o ex-morador de Xerem. Ad infinitum...
Adoro o Zeca, mas assim não há cristão que agüente! E o que falar da dupla sertaneja?
Socorro!
28.3.02
Questões rápidas:
- É melhor conhecer as regras para então quebrá-las, mesmo que isso custe uma certa limitação, ou o melhor é deixar o institucionalizado de lado e correr o risco de redescobrir a pólvora?
- Ácool não pode. Cigarro não pode. Drogas nem pensar. Sexo só com camisinha, de preferência monogamicamente. A Quaresma me intriga pelo culto ao sofrimento. Prefiro o peixe (símbolo inicial do Cristianismo) à cruz. Mas a questão é: vivemos uma época de busca pelo controle e contra o prazer que liberta a mente e o corpo? O que seria do mundo capitalista se todos resolvessem olhar os lírios do campo? O que adviria de uma indisponibilidade para o trabalho, numa sociedade hedonista? Tenho pensado em 1984 mais do que deveria...
27.3.02
O tempo está curto, então só algumas observações rápidas:
1 - Ando de saco cheio destes shows burocráticos, completamente roteirizados e marcados, em que até as palavras dirigidas ao público e a hora em que ele pode cantar estão no script.
2 - Um pouco de loucura sempre é necessária e bem-vinda.
3 - Gosto muito do Otto, mesmo sabendo que como cantor, ele é ótimo percussionista e compositor onomatopéico.
4 - Compreendo que devido a problemas como perda de voz, um show deste artista deva ser limitado a poucas canções e que ele talvez tenha sido instruído a preencher as lacunas com papo com o público para que o show não ficasse curto demais.
5 - Gosto de espetáculos em clima de "a rapazida está toda aí".
6 - Acho até charmoso um artista tímido no palco.
7 - Engulo de bom grado a história de que artistas são seres diferentes, mais sensíveis e especiais.
Ainda assim, me senti incomodada com o alto teor etílico e talvez de THC ou outros bichos na apresentação de ontem.
Mas acredito que sou fã e fã perdoa tudo e ainda acha sempre que o show foi muito bom. Adoro as músicas, a banda estava dez, o som do cacete, a turma que apareceu (e empesteou o ar do Rivar BR e meu cabelo com aquela marola típica) era bacaninha, a companhia era agradável e não faltou besteirol sobre nossa mesa, vi muita gente de que gosto desfilando pertinho, como Ana Carolina e Alceu, dancei um bocado, ri e me diverti muito.
É, o show do Otto valeu.
1 - Ando de saco cheio destes shows burocráticos, completamente roteirizados e marcados, em que até as palavras dirigidas ao público e a hora em que ele pode cantar estão no script.
2 - Um pouco de loucura sempre é necessária e bem-vinda.
3 - Gosto muito do Otto, mesmo sabendo que como cantor, ele é ótimo percussionista e compositor onomatopéico.
4 - Compreendo que devido a problemas como perda de voz, um show deste artista deva ser limitado a poucas canções e que ele talvez tenha sido instruído a preencher as lacunas com papo com o público para que o show não ficasse curto demais.
5 - Gosto de espetáculos em clima de "a rapazida está toda aí".
6 - Acho até charmoso um artista tímido no palco.
7 - Engulo de bom grado a história de que artistas são seres diferentes, mais sensíveis e especiais.
Ainda assim, me senti incomodada com o alto teor etílico e talvez de THC ou outros bichos na apresentação de ontem.
Mas acredito que sou fã e fã perdoa tudo e ainda acha sempre que o show foi muito bom. Adoro as músicas, a banda estava dez, o som do cacete, a turma que apareceu (e empesteou o ar do Rivar BR e meu cabelo com aquela marola típica) era bacaninha, a companhia era agradável e não faltou besteirol sobre nossa mesa, vi muita gente de que gosto desfilando pertinho, como Ana Carolina e Alceu, dancei um bocado, ri e me diverti muito.
É, o show do Otto valeu.
26.3.02
EBÓ PARA ABERTURA DE CAMINHO OFERECIDO A OGUN
½ kg de cada tipo de miúdo de boi;
1 inhame bem grande;
1 alguidar grande;
21 palitos.
Cozinhe os miúdos e o inhame (com casca) separadamente. No alguidar, coloque os miúdos e o inhame, cravejado de palitos em cima.
Leve essa oferenda numa trilha de mata e peça para Ogun abrir seus caminhos, trazendo fortuna e prosperidade.
25.3.02
Beleza, mermão!
- Ipanema em 1999: 2060 coliformes fecais por 10 ml de água.
Ipanema em 2002: 500 coliformes fecais por 10 ml de água.
(limite estabelecido pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente: 1000 coliformes por 10 ml)
- 30/03/2002: Ressurreição do Circo Voador na Lapa
07/04/2002: Inauguração do Circo Voador em Ramos
- Em um mês será reinaugurada a Rua do Lavradio. Foi trocada toda a a galeria pluvial, o terminal de ônibus foi transferido, as calçadas agora têm 3 metros de largura e o trecho inicial é só para pedrestres. Três praças para eventos culturais forma construídas e árvores serão replantadas. Postes de iluminação imitando os do século passado instalados. Comerciantes estão atendendo ao chamado. Escritório de arquitetura, showroom de móveis contemporâneos, antiquários com bar e música ao vivo, teatro, centro cultural, teatro-cabaré, possibilidade de um centro gastronômico, talvez a Fnac. Tem gente apostando que o lugar vai virar a Nova Orleans brasileira, com samba e chorinho no lugar de blues e jazz.
(pinçado da Veja Rio)
JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI!!!!!!!!
Pressão de Bush
Os EUA querem controlar a Opaq
Coragem para enfrentar o gigante bélico
Bustani vence e continua na Opaq
24.3.02
Está em diversas análises sobre a TV aberta brasileira: há um problema de audiência no horário das sete da noite na Globo.
Os executivos queimam as pestanas para arranjar atrações que fisguem principalmente os jovens e as mulheres. Esse é o erro, meus caros.
Domenico de Masi, em sua entrevista à revista Veja desta semana, afirma que "os produtos surgem para ocupar lacunas de mercado. O chefe tem de estar ciente da visão do mercado, circular, conhecer outros lugares, outras pessoas." Se os todo-poderosos da TV estivessem em casa típica nesse momento, veriam que as mulheres, nessa hora, estão encarando o segundo round: lêem as agendas e os cadernos dos filhos que chegaram da escola, estão envolvidas com o jantar, ajeitam a casa, enfim, tentam pôr ordem no galinheiro. Os jovens, por sua vez, estão provavelmente estão fazendo sua parte, conforme lhes foi ensinado na perpetuação de modelos não questionados, ouvindo música, telefonando para os amigos e tentando driblar aquela chata que fica mandando que tomem banho ou façam suas tarefas escolares.
Quem está sentado diante da TV? O rei, claro. É ele que costuma engrossar a audiência de programas como Cidade Alerta, ou seja lá como se chama aquela atração estranha. Ele não liga a mínima para os desejos de mulher, aquele ser humano estranho que insiste em resmungar por ajuda. Para ele deveriam voltar-se as produções do horário, portanto.
Então, quando a coitada finalmente termina o terceiro turno e senta-se para assistir TV nas noites de quarta-feira ou depois de lavar toda a louça do trabalhoso almoção de domingo, o que vê? Futebol! O que lhe resta? O SBT, evidentemente.
E depois a Globo reclama.
Só eu não posso reclamar, já que sempre posso fugir para o cabo e porque o roteiro por aqui é outro.
Os executivos queimam as pestanas para arranjar atrações que fisguem principalmente os jovens e as mulheres. Esse é o erro, meus caros.
Domenico de Masi, em sua entrevista à revista Veja desta semana, afirma que "os produtos surgem para ocupar lacunas de mercado. O chefe tem de estar ciente da visão do mercado, circular, conhecer outros lugares, outras pessoas." Se os todo-poderosos da TV estivessem em casa típica nesse momento, veriam que as mulheres, nessa hora, estão encarando o segundo round: lêem as agendas e os cadernos dos filhos que chegaram da escola, estão envolvidas com o jantar, ajeitam a casa, enfim, tentam pôr ordem no galinheiro. Os jovens, por sua vez, estão provavelmente estão fazendo sua parte, conforme lhes foi ensinado na perpetuação de modelos não questionados, ouvindo música, telefonando para os amigos e tentando driblar aquela chata que fica mandando que tomem banho ou façam suas tarefas escolares.
Quem está sentado diante da TV? O rei, claro. É ele que costuma engrossar a audiência de programas como Cidade Alerta, ou seja lá como se chama aquela atração estranha. Ele não liga a mínima para os desejos de mulher, aquele ser humano estranho que insiste em resmungar por ajuda. Para ele deveriam voltar-se as produções do horário, portanto.
Então, quando a coitada finalmente termina o terceiro turno e senta-se para assistir TV nas noites de quarta-feira ou depois de lavar toda a louça do trabalhoso almoção de domingo, o que vê? Futebol! O que lhe resta? O SBT, evidentemente.
E depois a Globo reclama.
Só eu não posso reclamar, já que sempre posso fugir para o cabo e porque o roteiro por aqui é outro.
22.3.02
Não sou de fazer planos a longo prazo. Tenho o hábito de ler tudo o que me aparece diante dos olhos.
Estava no final da adolescência e nem me lembro como chegou às minhas mãos um destes livros que ensinam a ser uma pessoa de sucesso e que enchem os bolsos, na verdade, de seus escritores e editores. Já naquela época percebi que se tratava de uma empulhação, mas achei divertido fazer um dos exercícios propostos e - sabe-se lá por que cargas d'água - fiquei com isso na memória.
Eu deveria fazer uma lista de tudo o que eu queria e deveria estabelecer um prazo para consegui-las. Era imperioso marcar uma data. Assim o fiz. Essa data é hoje.
Lembro das coisas que relacionei. Não alcancei nenhuma delas. Pelo menos não pelos caminhos que eu pretendia.
Passei pelos vinte guinando à direita, à esquerda, acima, abaixo. Era uma nômade sem causa, uma vagabunda emocional, uma irresponsável em muitos aspectos, séria demais em outros. Não esquentava lugar, inquieta de carteirinha. Aos vinte e cinco já tinha passado por coisas que muita gente de cinqüenta ainda está por viver. Achava bonito, excitante e assustador ter a vida inteira pela frente.
Os cinco anos seguintes foram de tempestade total e ainda assim meu nome do meio era festa. Tudo o que está na frente do palco da minha vida hoje veio desta época e houve uma convergência que me trouxe até aqui.
Não tenho um emprego estável. Não comprei um apartamento confortável. Não dirijo meu carro. Não vivo um caso como o de Simone de Beauvoir e Sartre. Não como maionese em todas as refeições nem Nescau com creme de leite todos os dias. Não fiquei famosa com meus escritos, nem de nenhuma outra forma. Não fiz nenhuma cirurgia plástica.
Tive um filho. Estou casada com um homem que em breve será canonizado. Vivo uma vida confortável. Freqüento salas de cinema, teatros, casas de espatáculos. Fiz uma viagem de sonhos a Paris. Moro na cidade mais linda do mundo, localizada no país mais rico cultural e geograficamente que se tem notícia, sem padecer nenhuma de suas eventuais mazelas. Algumas pessoas me magoam às vezes, mas há muita gente para me dar carinho. Há até os loucos que me amam. Abro as janelas e vejo um grande estádio, muitas árvores, um rio, passarinhos, gente de todo tipo, uma grande avenida, carros e ônibus, um pedação do céu, o sol da manhã, nuvens, a lua desbundante nascendo, estrelas, a ponte Rio-Niterói, a Floresta da Tijuca, prédios, casas, morros verdes ou ocupados pelas favelas. Alguns querem me tirar o que outros me dão de mão beijada. Geralmente tenho boa saúde. Bons dentes, pele ruim. Levanto para fazer xixi de madrugada e tenho sono à tarde. Passeio por coberturas milionárias à beira-mar e por subúrbios longínquos, aceitando convites para réveillon regado a champanhe francês ou pagode encharcado de cerveja e caipirinha. Fumo desbragadamente. Trabalho em diversos projetos ao mesmo tempo e ganho muito pouco. Adoro calçar uma sandália de salto alto, mas me reconheço mesmo de Havaianas. Passo pela década de Balzac driblando a gravidade e com certa dignidade estética. Tenho sorte de não ter nascido na era da beleza rococó. Leio muito. Viajo de vez em quando. Prefiro a Lagoa à praia. Ainda tenho problemas para comprar sapatos e calças compridas. Minha casa é cheia de livros, discos, filmes, riso e choro de criança, jornais espalhados, almofadas, quadros, beijos e abraços... Tenho uma rede pendurada num canto da sala e acabamos de comprar um hamster. Recebo vários e-mails por dia e os amigos ligam. Quando tem festa muita gente aparece. A próxima oficina que meu filho vai freqüentar na escola é a de culinária; diz que quer aprender a cozinhar tão bem quanto o pai. Uso um perfume no dia-a-dia e outro em ocasiões especiais. Não uso tintura de cabelo. Ouço música clássica e Carmen Miranda do aparelho de som do vizinho. Em dias de jogos noturnos é difícil dormir. A rinite passou. Erro muito e sofro para limpar a barra. Distribuo bananas para quem está à espreita.
Compare os dois parágrafos anteriores.
Estava no final da adolescência e nem me lembro como chegou às minhas mãos um destes livros que ensinam a ser uma pessoa de sucesso e que enchem os bolsos, na verdade, de seus escritores e editores. Já naquela época percebi que se tratava de uma empulhação, mas achei divertido fazer um dos exercícios propostos e - sabe-se lá por que cargas d'água - fiquei com isso na memória.
Eu deveria fazer uma lista de tudo o que eu queria e deveria estabelecer um prazo para consegui-las. Era imperioso marcar uma data. Assim o fiz. Essa data é hoje.
Lembro das coisas que relacionei. Não alcancei nenhuma delas. Pelo menos não pelos caminhos que eu pretendia.
Passei pelos vinte guinando à direita, à esquerda, acima, abaixo. Era uma nômade sem causa, uma vagabunda emocional, uma irresponsável em muitos aspectos, séria demais em outros. Não esquentava lugar, inquieta de carteirinha. Aos vinte e cinco já tinha passado por coisas que muita gente de cinqüenta ainda está por viver. Achava bonito, excitante e assustador ter a vida inteira pela frente.
Os cinco anos seguintes foram de tempestade total e ainda assim meu nome do meio era festa. Tudo o que está na frente do palco da minha vida hoje veio desta época e houve uma convergência que me trouxe até aqui.
Não tenho um emprego estável. Não comprei um apartamento confortável. Não dirijo meu carro. Não vivo um caso como o de Simone de Beauvoir e Sartre. Não como maionese em todas as refeições nem Nescau com creme de leite todos os dias. Não fiquei famosa com meus escritos, nem de nenhuma outra forma. Não fiz nenhuma cirurgia plástica.
Tive um filho. Estou casada com um homem que em breve será canonizado. Vivo uma vida confortável. Freqüento salas de cinema, teatros, casas de espatáculos. Fiz uma viagem de sonhos a Paris. Moro na cidade mais linda do mundo, localizada no país mais rico cultural e geograficamente que se tem notícia, sem padecer nenhuma de suas eventuais mazelas. Algumas pessoas me magoam às vezes, mas há muita gente para me dar carinho. Há até os loucos que me amam. Abro as janelas e vejo um grande estádio, muitas árvores, um rio, passarinhos, gente de todo tipo, uma grande avenida, carros e ônibus, um pedação do céu, o sol da manhã, nuvens, a lua desbundante nascendo, estrelas, a ponte Rio-Niterói, a Floresta da Tijuca, prédios, casas, morros verdes ou ocupados pelas favelas. Alguns querem me tirar o que outros me dão de mão beijada. Geralmente tenho boa saúde. Bons dentes, pele ruim. Levanto para fazer xixi de madrugada e tenho sono à tarde. Passeio por coberturas milionárias à beira-mar e por subúrbios longínquos, aceitando convites para réveillon regado a champanhe francês ou pagode encharcado de cerveja e caipirinha. Fumo desbragadamente. Trabalho em diversos projetos ao mesmo tempo e ganho muito pouco. Adoro calçar uma sandália de salto alto, mas me reconheço mesmo de Havaianas. Passo pela década de Balzac driblando a gravidade e com certa dignidade estética. Tenho sorte de não ter nascido na era da beleza rococó. Leio muito. Viajo de vez em quando. Prefiro a Lagoa à praia. Ainda tenho problemas para comprar sapatos e calças compridas. Minha casa é cheia de livros, discos, filmes, riso e choro de criança, jornais espalhados, almofadas, quadros, beijos e abraços... Tenho uma rede pendurada num canto da sala e acabamos de comprar um hamster. Recebo vários e-mails por dia e os amigos ligam. Quando tem festa muita gente aparece. A próxima oficina que meu filho vai freqüentar na escola é a de culinária; diz que quer aprender a cozinhar tão bem quanto o pai. Uso um perfume no dia-a-dia e outro em ocasiões especiais. Não uso tintura de cabelo. Ouço música clássica e Carmen Miranda do aparelho de som do vizinho. Em dias de jogos noturnos é difícil dormir. A rinite passou. Erro muito e sofro para limpar a barra. Distribuo bananas para quem está à espreita.
Compare os dois parágrafos anteriores.
21.3.02
CHUVA E OUTRAS EMOÇÕES MATINAIS
Finalmente a chuva!
E ela veio para levar embora o mal-estar que tomou conta de mim desde a madrugada do domingo. Alguns sintomas de dengue, mas não era. Nada de febre alta, nada de manchas na pele... Poupei os médicos do brilhante diagnóstico de virose. Assim como veio foi-se. Já não era sem tempo.
A chuva não foi a única emoção desta manhã carioca, pelo menos aqui em casa.
Educar filhos não é um processo linear. É lunar. Fases, fases e mais fases... A gente tem que se preparar para repetir a mesma coisa muitas vezes e de vez em quando deparar-se com a mesma situação que já pensávamos resolvida.
O garoto cismou que tem que dormir no nosso quarto. Um estorvo, sem dúvida. Muita conversa, muita justificativa e nada parece adiantar. Como meu horário para despertar é mais flexível, sou a voluntária para resolver este problema, que muitas vezes toma as madrugadas. Ponho o moleque para dormir no quarto dele, espero que pegue no sono e saio pé ante pé para a minha caminha. Daqui a pouco lá vem ele e começa tudo de novo. A paciência batendo pino. Nova estratégia. "Vou fazer isso que você me pediu amanhã bem cedinho, meu amor, claro, mas se a mamãe não consegui dormir não vai conseguir acordar e não vai poder fazer." Sucesso! Parcial, logicamente. A nova tática do terror noturno é esperar que eu adormeça para invadir meu quarto. Já aprendeu que se for para a minha cama eu acordo, então vem trazendo colchonete, travesseiro próprio, lençol e coberta. É óbvio que quando acordo de madrugada e vejo aquele ninho no chão, levo o pacoe todo de volta ao lugar de origem. Ele também já sabe disso.
Assim, mais um dia iluminou a vizinhança. Eu dormia pesado, como sempre faço nas primeiríssimas horas da manhã, portanto não vi meu marido levantar-se para trabalhar ou sua alegria ao ver que nosso filho não estava enroscado ao lado de nossa cama. Também não vi quando, depois de cumprir quase toda sua rotina matinal, foi encerrá-la dando um beijo no menino adormecido. Tampouco presenciei seu desespero ao constatar que o moleque não estava em sua cama, nem no sofá da sala, nem no banheiro ou qualquer outro cômodo da casa. Apenas posso imaginar a sofreguidão com que começou a abrir portas de armários, examinar vãos atrás de todos os móveis e eletrodomésticos e, finalmente, verificar absurdamente as gavetas, em pânico virginianamente contido para não me acordar e correr o risco de testemunhar o que é um real escândalo. Ficou tão alivido quando sua busca teve um final bem sucedido que esqueceu-se de consertar a situação ou me avisar sobre o que ocorrera, deixando-me a oportunidade fantástica de reviver sua comovente experiência.
Sou um ser praticamente acéfalo ao despertar. Abri os olhos sem pressa. Ouvi o barulho agradável da chuva. Sentei na cama. Que bom! Não fiquei tonta, penso que já devo estar boa. Com toda calma e preguiça do mundo me levanto e dou a volta no leito para desligar o aparelho de ar condicionado. Percebo um leve movimento no tapete sobre o qual estou pisando. Esfrego os olhos antes de procurar o que originou tal movimento sem ter certeza ainda de que estou acordada. Olho. Não faz sentido. Pisco. Não há dúvida: um pé número trinta sai de sob a cama empurrando o tapete.
Pedro descobriu uma forma de dormir no meu quarto sem ser conduzido de volta ao seu: embaixo da cama eu não iria encontrá-lo. Acabou conseguindo também uma fórmula para ficar sem TV e game boy por um tempo.
E depois dizem que a vida de casado é monótona. Por aqui, de tédio não se morre.
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