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27.9.01

Epílogo

Helena foi, de repente, arrebatada por um desconforto crescente. Aquilo que ela detectou nos olhos de João lhe pareceu comum e era completamente diferente do que via no rosto de Fred. Se Fred demonstrava carinho, desejo e admiração, o que era tudo aquilo com que convivera por toda a vida? Ela observou as pessoas a sua volta que a encaravam, como sempre. Estava muito perturbada. Quis ir embora.

A noite foi terrível, com insônia entremeada por pesadelos. Helena sentia-se despertando de um sonho bom para uma realidade tosca. Entretanto não conseguia divisar que realidade era esta.

Quando seu irmão chegou em casa vindo do treino no final da manhã, viu pela porta entreaberta que ela estava apenas de calcinha e sutiã diante da parede de espelho do seu quarto. Ia seguindo seu caminho.

- Mano!?
- Oi!
- Vem aqui um pouquinho...
- Tudo bem? Aconteceu alguma coisa?
- Não. Senta aí... Eu estive pensando em algumas coisas e queria que você me desse a sua opinião. Você acha que eu deveria fazer um tratamento ortodôntico?
- Bem... Você sabe que primeiro devia cuidar da sua respiração. Se você continuar respirando mal, pela boca...
- Isso mesmo! Sabe? Eu podia aproveitar a cirurgia de correção de desvio de septo para dar um jeito no nariz, né?
- Eu gosto do seu nariz. Ele tem personalidade.
- Mas aí o queixo ia sobressair... Bom, eu podia dar um jeito nisso também...
- O que está acontecendo com você, maninha?
- Sei lá... Eu queria mudar algumas coisas... Uma aluna minha da academia operou as orelhas e voltou prá casa no mesmo dia. E nem foi tão caro... Acho que ia ficar bem melhor se as minhas orelhas não aparecessem debaixo do cabelo. Talvez um permanente ajudasse a criar mais volume também...
- Ih! Relaxa... A gente gosta de você do jeitinho que você é.
- É mesmo? E prótese de silicone nos seios? A da mãe ficou tão linda! E um implante para aumentar o bumbum?
- Gente! Esse exercício de imaginação de auto-mutilação pelo jeito não vai terminar nunca. Olha aqui: eu vou para o meu quarto, que eu ainda tenho muito o que fazer, tá? E se você quer saber, acho você não devia procurar um cirurgião plástico não. Procura um ginecologista que isso deve ser TPM.
- Grosso! Tem certas coisas que a gente só pode conversar com outra mulher mesmo. Homem não entende nada...

Quando Fred chegou, logo percebeu que a namorada estava acabrunhada. Teve que insistir muito antes que ela começasse a dar pistas sobre o que estava acontecendo.

- Aquele seu amigo ontem...
- Eu sabia! Eu sabia que isso ia dar problema...
- Viu só? Então, deixa...
- Deixa nada! É melhor você falar o que está te incomodando prá gente tentar resolver logo.
- É que eu fiquei curiosa com as coisas que ele falou. Sua coleção... Você nunca me falou que fazia uma coleção...
- E não faço. É por isso que eu não gosto de badalação. Tem muita gente boba circulando por aí. Este cara é um deles.
- Do que é que ele estava falando, então?
- Deixa prá lá...
- Foi você que disse que a gente tinha que conversar para resolver...
- Verdade... Bom, ele faz parte de uma turma que eu conheço há muito tempo, desde a época do segundo grau, quando eu comecei a namorar a Sílvia. A gente se encontrou por causa de uma tragédia. Eu estava passando quando ela foi atropelada. Fui eu que chamei a ambulância, que liguei para os pais dela, que fui com ela para o hospital. A gente ficou amigo e eu ia visitar sempre. O pai dela trabalhava como louco para fugir do drama da filha, a mãe só sabia chorar. Fui que acabei assumindo o papel de acompanhante dela nas sessões de fisioterapia, de terapia... Era comigo que ela desabafava sobre o namorado que tinha sumido... A amizade acabou virando namoro. Eu ficava com ela quase o tempo todo. Era difícil. Às vezes ela ficava muito deprimida... Ela demorou quase dois anos para passar da cadeira de rodas para as muletas e mais outro ano para livrar-se delas. Quando tudo ficou bem, o ex-namorado reapareceu e... Bom, eu aproveitei uma chance que apareceu e fui estudar por um tempo no Canadá. Deve ter sido nesta época que você conheceu minha irmã e por isso a gente não se conheceu. Lá eu conheci a Anna. A gente chegou a pensar em se casar, mas eu não queria morar o resto da vida naquele frio. Eu sou um bicho tropical, você sabe... Ela ficou com medo de vir para cá e sofrer com o sol...
- Por quê? Ela não gostava de calor?
- Ela é albina. Aí eu voltei sozinho e acabei conhecendo a Júlia. A gente ficou junto um tempo, mas eu não consegui mais acompanhar o ritmo e a animação dela depois que ela fez o transplante de córnea. O João e a turma dele começaram a pegar no meu pé quando eu comecei a namorar a Lili. Ela praticava boxe e era bem forte e eles diziam que era melhor eu andar na linha senão ela ia acabar me mandando para a enfermaria. Quando me viram com a Arlete, então... Foi um escândalo. Mas o negócio com a ela não durou muito. Ela perdeu mais de cinqüenta quilos com a cirurgia de redução do estômago e só queria saber de malhar, de fazer trilha ecológica, de escalar a Pedra da Gávea e eu queria sossego.
- Tá! Pára de falar das suas ex que eu já estou ficando com ciúmes! Nem lembro mais porque você está me contando tudo isso. Ah, era a tal coleção, né? Quer saber? Deixa prá lá que eu não estou entendendo o que uma coisa tem a ver com outra e já estou ficando com vontade mesmo é de dar uma volta. Vamos pegar um cineminha?
- Eu prefiro um lugar onde eu possa ficar olhando para você...
- Tudo bem... Vamos ver o pôr-do-sol no Arpoador, então.

E Helena nunca mais pensou em cirurgia plástica

25.9.01

Capítulo II

Era a festa de inauguração de uma nova academia de dança. Uma colega dos velhos tempos era a proprietária e enviou o convite para Helena. Ela não perdia nenhum evento social. Adorava ver e ser vista. Gostava muito de conversar com as pessoas, em especial aquelas que pertenciam ao seu mundo.

Por algum motivo que ela desconhecia, caprichou mais do que o normal na própria produção. Antes de sair conferiu o resultado no espelho e aprovou.

Chegou um pouco atrasada, o lugar já estava cheio de gente e ela tentava chegar à anfitriã, mas parava aqui e ali para cumprimentar um e outro conhecidos. Ela era muito popular. Ninguém jamais esquecia seu nome ou seu rosto.

Finalmente, alcançou a amiga e congratularam-se com entusiasmo. Helena estava realmente feliz com a realização do sonho da companheira e por estar ali, em seu habitat natural, cercada de gente, espelhos e barras.

- Eu quero muito que você conheça o meu irmão, disse a amiga. Fred, ô Fred, vem cá. Quero te apresentar à Helena, aquela minha colega dos tempos da escola de dança, que eu te falei. Helena, este é o Fred, meu irmão.

O olhar de Fred incomodava Helena. Era diferente dos olhares a que estava acostumada. Ele olhava para a sua boca enquanto ela falava. Helena tentava desvencilhar-se dele e ele continuava um assunto sem pé nem cabeça. Perdia-se no seu decote. Ela disse que ia pegar alguma coisa para beber e ele segurou o garçom pelo braço e perguntou o que ela ia querer. Entregou-lhe o copo de vinho branco e conduziu-a até uma das mesas. Observou discretamente o caimento de sua saia enquanto ela cruzava as pernas.

- Você é amiga da mana há muito tempo?
- Continua trabalhando com balé?

Ela estava assustada.

- Desculpa, mas preciso mesmo falar com algumas pessoas. A gente se fala mais depois, tá?

Ela levantou-se e começou a andar para longe dele. Ele alcançou a mão dela e disse que só deixaria que ela se perdesse na multidão depois de lhe autorizar a pegar o número de seu telefone com a irmã. Ela não tinha experiência com estas coisas. Concordou e saiu quase correndo.

Ele ligou no dia seguinte. E no outro e no outro e outros mais até que ela concordasse em encontrar-se com ele. Era preciso que se conhecessem melhor, ele dizia. Helena foi perdendo o medo e conhecendo um outro tipo de sentimento que ela ainda não conseguia entender o que era. Ele, sem a presença física e aquele olhar, não era tão assustador, afinal. Conversava sobre coisas interessantes e era bem gentil. E era irmão de uma de suas amigas mais antigas. Não havia o que temer, tranqüilizava-se.

Ela queria ir ao cinema, mas ele insistiu que fossem a algum lugar onde pudessem conversar.

Na verdade, eu queria um lugar onde pudesse olhar bem para você, ele disse quando finalmente se encontraram. Ela começou a ficar assustada de novo, mas ele logo percebeu. Disse que ela não precisava ter medo. Ele só estava encantado por ela. Ela era perfeita. Ela era maravilhosa.

Helena nunca tinha ouvido nada parecido com tanta sinceridade. Ele parecia realmente gostar dela. E conversa seguiu leve. Ela estava se sentindo à vontade com ele. Riram juntos. Ele contou uma versão resumida de sua história e prestou bastante atenção quando ela contou a dela.

Quando chegaram à porta da casa dela ele inclinou-se para dar-lhe um beijo. Ela virou o rosto, sem jeito. Ele perguntou por que não e ela respondeu que não sabia. Helena nunca tinha sido beijada antes.

Ela pensou que depois disso ele jamais a procuraria novamente, porém outros telefonemas vieram e eles se encontraram novamente. Ele trouxe flores. Ele disse que queria namorá-la. Ela jamais poderia sonhar com homem mais romântico. Ela contou que jamais havia namorado. Ele disse que não entendia o que os outros rapazes tinham na cabeça, que ficaria muito honrado em ser seu primeiro namorado. Ela viveria mil anos e jamais esqueceria a sensação daquele beijo. Ela estava apaixonada.

Fred seguia o roteiro dos sonhos de Helena. Ele era muito carinhoso e paciente com as resistências dela. Sabia ouvi-la. Sabia encantá-la. Sabia conquistar seu coração.

Três meses transcorreram desde o primeiro encontro. Ele fez o convite. Ela já estava tomando pílula há um mês. Foi mais lindo do que ela jamais imaginara.

O tempoia passando e ela estranhava o fato de sempre estarem sozinhos. Eles não saiam com outros casais e ele jamais falava sobre seus amigos. Ela imaginava que ele devia gostar de ficar o tempo todo com ela, sem ninguém para atrapalhar. Entretanto, sentia falta de estar com outras pessoas em festas e lugares da moda, como era seu hábito antes de conhecê-lo. Insistiu tanto nisso, que depois de algum tempo, mesmo sob protestos, ele acabou cedendo.

Foram a uma casa noturna que tinha aberto suas portas recentemente e já atraía aquela turma de que ela gostava tanto. Ao contrário do habitual, ele não estava segurando sua mão, nem mantinha o braço sobre os ombros dela. Aqui está cheio demais e ele quer me deixar livre para circular, ela pensou. Encontrou muitos conhecidos e ficou contente em estar de novo em circulação. Era bom estar em contato com aquele ambiente novamente.

- Você não conhece ninguém por aqui, tchutchuquinho?
- Por enquanto não vi ninguém conhecido.

Neste instante alguém tocou o ombro dele e ele virou-se.

- E aí, campeão? Há quanto tempo! Como é que estão as coisas, Fred? Você anda sumido, cara! Garimpando mais alguma peça para a sua coleção?
- Tudo bem. Esta aqui é a Helena. Helena, este é o João.

O amigo de Fred lançou sobre ela o olhar familiar, aquele que o namorado quase a fizera esquecer que existia. Estava visivelmente alcoolizado e conquistou de imediato a antipatia da moça. João sorriu e piscou para o amigo. Aproximou-se do ouvido, mas falou tão alto que ela pode ouvir:

- Você não tem jeito, né?

E afastou-se.

Helena ficou curiosa com a observação de João. E que coleção era essa que Fred jamais mencionara?


O trabalho de casa pedia que ele recortasse ilustrações de algumas profissões que ele conhecesse.

- Mãe, presidente é profissão?

- É.

- Então posso colocar aqui uma foto do Fernando Henrique?

- Pode. Deixa eu ver as outras figuras que você escolheu.

Diante de fotos do presidente da república, do papa, de Schumacher comemorando mais um grande prêmio e da Júlia Roberts recebendoum Oscar, pensei que é de pequeno que se pensa grande.

24.9.01

Foi estranho...

Depois de AI fiquei com um nó na garganta, um desconforto, mas não chorei. Eu sou chorona, mas o filme não me tocou o coração. Minha leitura foi mais cerebral mesmo.

Então ontem finalmente assisti a Dançando no Escuro e aí voltei a cachoeira lacrimal normal. Que coisa angustiante! Ui, ui, ui! O filme é ma-ra-vi-lho-so, mas eu fiquei me sentindo mal, enjoada... Não teve remédio, para rebater tive que apelar, pegar pesado e encarar um Jim Carey em Eu, Eu Mesmo e Irene. Eu nem sou o tipo que curte piada escatológica, grosseria e violência gratuita, mas precisava tanto dar uma risada, relaxar, soltar a franga que até me diverti bastante. Apesar das caretas, muitas vezes exageradas e dispensáveis, eu gosto do Jim Carey. Que bom que ele não fica só nisso e já mostrou do que é capaz em filmes como No Mundo da Lua e Show de Truman. No filme que vi ontem tem uma cena em que ele mostra um enorme talento em expressão corporal, simulando uma cena de luta consigo mesmo, recebendo e perpetrando golpes e jogando(se) para dentro de um carro.

Ruim de aturar mesmo foi a sua aparição naquele programa em cadeia mundial pelos heróis da catástrofe norte-americana. A idéia é boa, mas o resultado destas coisas é sempre meloso e cafona. E o Jim Carey fazendo aquela cara me fez pensar que ele só não é bom tentando criar um personagem diferente para ele mesmo.





[De maniqueu + -ismo; fr. manichéisme.]
S. m.
1. Filos. Doutrina do persa Mani ou Manes (séc. III), sobre a qual se criou uma seita religiosa que teve adeptos na Índia, China, África, Itália e S. da Espanha, e segundo a qual o Universo foi criado e é dominado por dois princípios antagônicos e irredutíveis: Deus ou o bem absoluto, e o mal absoluto ou o Diabo.
2. P. ext. Doutrina que se funda em princípios opostos, bem e mal.

Num de seus primeiros discursos sobre os atentados e as possíveis reações norte-americanas, o presidente George W. Bush disse a seguinte frase: "Esta é uma GUERRA do BEM contra o MAL".

A partir daí o mundo inteiro percebeu que não haveria uma solução justa, com busca, apreensão, julgamento e condenação dos culpados. Ao invés disto teríamos guerra. Pouco importava que não houvesse então (e ainda agora) provas inquestionáveis sobre quem era o inimigo. Considera-se detalhe insignificante o fato de o FBI ter divulgado pelo menos dois nomes errados na lista dos terroristas que teriam sequestrado, pilotado e arremessado os aviões. Quem ousa colocar em dúvida todo o processo de investigação e chamá-lo de viciado? Quem ousa questionar a satisfação da indústria bélica norte-americana que ajudou a eleger (como foram mesmo as eleições?) este presidente?

Diante da afirmação de que os EUA eram o bem algumas pessoas começaram a pensar: será? Surgiram aí os primeiros textos que questionavam o fato de os yankees estarem quietinhos em seu canto e serem uma nação pacífica. Estavam mesmo? Eram mesmo? Então quem seriam aqueles que apoiavam Israel? Quem teria treinado e apoiado o talibã? Quem armou Sadam? Quem são os que estão matando árabes nas ruas de suas cidades em atitude revanchista? De onde vem o calamor pela guerra (desde que ela não aconteça em seu território)?

Então a coisa ficou assim:

primeiro momento: choque mundial com ínfimas manifestação de alegria
segundo momento: questionamento internacional
terceiro momento: estamos culpando as vítimas?

Creio que não. Só estamos exercitando a capacidade de fugir de maniqueísmos. Matar milhares de inocentes norte-americanos e de mais de 60 nacionalidades e deplorável, inaceitável, horrível e todos os outros nomes que conseguirmos imaginar para a nossa indignação. E matar milhares de inocentes afegãos ou de qualquer outro país árabe é aceitável? Por quê? Por que a vida ocidental vale mais que a dos filhos do Islã? Seu sangue não é vermelho? Não são também pais, filhos, cônjuges, amigos? Não querem apenas viver feliz e seguros?

Se o Islã produz Bin Laden, o ocidente produz McVeigh, Unabomber, Marcinho VP, Jader Barbalho, ACM e Fernandinho Beira-mar. Vamos bombardear o mundo inteiro? Não são todos norte-americanos que estão nas ruas espancando árabes, certo? Também não são todos os mulçumanos que querem o fim da civilização ocidental.

Onde está o maniqueísmo?


23.9.01


Ontem fui ver AI. Muito melhor se eu tivesse comparecido à pré-estréia, quando estive em LA há pouco mais de um mês, vinda de NY. Seriam olhos mais puros, que não se chocariam tanto com a ilusão de torres gêmeas sobrevivendo ao tempo e a pelo menos duas hecatombes. Seria mais fácil digerir a necessidade humana de circo de morte, a busca incessante por culpados pela infelicidade e irreversibilidade do fim...

Hoje recebi um e-mail da Casa Branca. Claro que foi um auto-responder, mas me deu a certeza de que os links abaixo entregam a correspondência no endereço correto. A campanha pela paz continua. Neste momento está acontecendo um movimento em torno da Lagoa Rodrigo de Freitas e no dia 25 às 12:00 haverá uma manifestação ecumênica no Saara (centro de comércio popular no centro do Rio).

21.9.01




Capítulo 1

Todos na família de Helena eram belos. A mãe mantinha uma loja de roupas, que, de alguma forma, lhe dava a confortável impressão de que não havia abandonado de todo a vida de modelo de outrora. O irmão era um atleta de renome, assediado tanto por seu talento quanto por sua aparência que despertava paixões nas mocinhas em tempestade hormonal. Com o pai Helena não tinha muito contato, desde que ela deixara a família para unir-se a uma jovem que, na época, tinha metade de sua idade.

Helena atraía olhares por onde quer que passasse. Ninguém ficava indiferente a ela. Com o tempo ela aprendeu a lidar com pescoços torcidos e olhares perplexos. Helena era incrível e irremediavelmente feia.

A mãe que sonhara com uma bonequinha para reviver seus próprios passos não deixou-se abater por esta adversidade. Desde cedo a menina foi matriculada em cursos de modelo e no balé. Se alguém esboçasse alguma crítica a mãe tinha a resposta na ponta da língüa e aos poucos Helena aprendeu a repeti-la: tinham inveja do seu talento.

Não era de todo mentira. O que lhe faltava em graça e beleza ela compensava com uma técnica irrepreensível. Além disto, era uma pessoa de trato agradável e muito simpática. Assim, aos dezoito anos começou a ensinar seus ofícios sem jamais ter conseguido qualquer contrato ou convite para exercê-los, exceto nos eventos promovidos pela própria mãe.

Helena nunca tivera um namorado. Ninguém estranhava quando ela dizia isto. Estava na cara. Mas havia aprendido bem a lição com mãe e repetia que era muito exigente. As pessoas se entreolhavam. Havia um agravante: os rapazes, principalmente os amigos dos irmãos, consideravam que ela era carta definitivamente fora do baralho e permitiam-se brincar com ela como se ela fosse café-com-leite. Gracejavam, simulavam convites e olhares apaixonados, como em casa fariam com uma tia idosa ou alguém que se visita no hospital. Achavam-se divertidos e imaginavam que ela jamais poderia levar aquilo a sério. Mas ela levava. E diante do recuo quando fazia menção de retribuir as atenções afirmava que os meninos de hoje não queriam compromisso de verdade.

O irmão não interferia nestes assuntos. Agia naturalmente, como se nada fosse. Silenciosamente compactuava com o jogo das mulheres da família. Se mesmo os estranhos, apreciando o bom gênio da irmã, poupavam-na de um confronto com a realidade, por que ele, sangue do seu sangue, deveria despertá-la de sua fantasia?

Assim, a jovem seguiu com sua auto-imagem distorcida até que...

Como quase todo mundo, já fui submetida a testes de QI. Nunca soube resultados numéricos, mas sei que estou alguns pontinhos acima da minha xará ex-Tchan.

Estou falando isso porque me passou pela cabeça que se descobrissem algumas das minhas preferências, como esta, minha (questionável) reputação ficaria comprometida.

20.9.01


Ontem meu amo e senhor me presenteou, colocando para tocar a canção que eu precisava ouvir. Hoje, a Fer cantou "Take me to the River" e me fez lembrar daquele peixinho que começa a cantar quando a gente passa por ele. Além desta música, o simpático ser da água canta meu mantra, o melhor presente que eu poderia ter recebido ontem.

Há ainda motivos para sorrir. Eis um deles:


PP


Esta criaturinha chegou ontem da escola dizendo que tinha uma surpresa para a hora de dormir. Ao contrário de nossa rotina, ontem foi ele quem leu um livro para mim. Quanto orgulho eu senti dele! Como fico feliz em ver o seu sorriso largo, onde já está faltando um dentinho! Que venham muito mais lágrimas de alegria!

19.9.01


Mais um endereço importante: Shared Voice.

Chega uma hora em que não podemos nos enfiar embaixo da cama para esperar o desastre. Se o sistema em que vivemos tem algum mérito é o de permitir que todo e qualquer cidadão expresse suas opiniões. Nós, que amamos a paz, nos chocamos com os atentados, mas discordamos veementemente das medidas de guerra que estão sendo tomadas. Defendemos a prisão e julgamento dos agressores, mas não concordamos com o extermínio de milhares de civis inocentes que vem sendo anunciado.

Marília, uma amiga virtual, começou a pedir informações sobre sites onde pudesse manifestar o repúdio à guerra. A Fer surgiu com algumas sugestões. Recomendo a todos que visitem os links abaixo, deixem suas assinaturas e/ou opiniões e repassem para o maior número possível de pessoas.

1 - Working for Change - é uma carta para o presidente Bush solicitando uma solução pacífica.
2 - Café Utne - fórum e debate
3 - 9-11 Peace - Vamos romper o ciclo de violência
4 - Petição aos líderes mundiais contra a guerra - em português, espanhol, inglês, francês, italiano e alemão.

17.9.01

Uma urgência toma conta de mim.
Padeço com a sofreguidão dos que se despedem.
Demoro um pouco mais nos abraços.
Declaro meu amor com mais freqüência.
Faço ouvidos moucos para os agravos.
Danço a Macarena tendo a Baía da Guanabara como cenário e tomo chopp com amigos novos e de décadas.
Sorrio para todos na rua.
Estou tirando as manchas daquela camiseta pacifista e me engajando em todo e qualquer movimento pela paz.

Ando tão à flor da pele que até uma música antiga do Rei me faz chorar.

14.9.01



Minha tia-avó faleceu ontem. Viveu uma vida feliz e parte quando já chegava aos noventa. Construiu uma família sólida e unida. Viu filhos, netos e bisnetos seguirem seus caminhos em paz. Nossa saudade é tranqüila.

Entretanto, minha madrinha, sua filha, não poderá lhe prestar pessoalmente as últimas homenagens. Nem minha prima ou seus filhos. Nem meu primo e os bisnetos que gerou para aquela que era a mais velha de nossa família. Estão todos nos EUA, alguns a passeio, outros residentes, alguns bem perto de onde aconteceu parte da tragédia, outros mais distantes. Todos tomados como reféns do terror.

Tristeza...

Mas em meios aos telefonemas familiares que informam horários e locais, a notícia: minha irmã do meio está novamente grávida.

Alegria e esperança.

A vida segue. Cíclica.


13.9.01

LOUCURA NÃO SE CURA COM MAIS LOUCURA

Outro dia comentava num grupo de amigos sobre o desejo revanchista de alguns ao presenciarem um crime hediondo. Defendia-se a pena de morte. São os mesmos que hoje defendem uma declaração de guerra, antes mesmo de saberem quem são os inimigos. Creio que nada melhora ao nos igualarmos aos criminosos.

Quando falo isso não defendo a impunidade. Não mesmo! Os crimes devem ser punidos com justiça. E justiça não é olho por olho dente por dente. Hoje no jornal leio que se houver retaliação, haverá re-retaliação e em breve não haverá olhos suficientes. Assim vejo. Matar um assassino não trará a vida perdida de volta. Apenas aplacará uma necessidade de vingança.

Perdão também não significa impunidade. O caso há algumas semanas na revista Veja sobre pai que ajuda o presídio onde os seqüestradores e assassinos de seus filhos estão detidos é um bom exemplo. Ele não defende que estas criaturas sejam
postas em liberdade, apenas conseguiu, com muito trabalho e exercício racional e de amor, retirar o ódio de seu coração. Se assim não tivesse sido, como ele mesmo declarou, poderia ter atentado contra os criminosos e alavancaria outra série de desgraças, sendo ele mesmo preso, deixando desamparadas a mulher e as filhas.

O sentimento de vingança, além de não repor o que foi perdido, geralmente volta-se contra seu agente, corroendo e envenenando, não raro desencadeando ainda mais desastres.

Ontem vi fotos de ruas de Nova Iorque. Pixações diziam: Matem os árabes. Cartazes exigiam um ataque ao Afeganistão. Nada disso trará de volta as dezenas de milhares de vidas perdidas e ainda causará a morte de outros tantos. Os culpados devem ser descobertos e punidos exemplarmente. Mas devemos estar atentos para este sentimento generalizado de ódio que cresce
contra o Islã, que abriga em seu seio milhões de humanos que nada têm a ver com toda esta monstruosidade.

Não podemos deixar de lembrar da lei da causa e efeito. É preciso recordar que o Talibã foi posto no poder pelos EUA e que o Iraque armou-se até os dentes com ajuda norte-americana, o apoio incondicional a Israel... Talvez os que comemoram hoje os ataques terroristas encontrem respaldo para esta insanidade em injustiças acumuladas por décadas. Eles estão certos? Não, não e não. Assim como não seremos justos ao apoiarmos uma retaliação que até o momento nem alvo definido tem.

Para concluir e enfatizar minha linha de raciocínio, vamos fazer um exercício de imaginação e supor que, como no atentado de Oklahoma, os responsáveis sejam cidadãos americanos. Seria apoiado com tanto imediatismo e naturalidade o bombardeio ao estado em que eles nasceram e foram criados?

10.9.01



Vou te contar...

Ando sem paciência para certas coisas mínimas porque toda a (pouca) tolerância que eu arianamente tenho tem sido desviada para determinados aspectos da minha vida.

Frescura é uma destas pequenas coisas. Geralmente levo na brincadeira até porque sou um depósito de pequenas frescuras, mas tenho tido ímpetos de jogar na lata: meu filho, vai capinar um quintal ou virar um concreto.

Ando muito a fim de proferir frases não muito elegantes que começam com "vai prá..."

Tenho me sentido tentada a cuspir em cima de uns e outros os sapos que estas criaturas, sempre com as intenções mais nobres (como não poderia deixar de ser) andam querendo me fazer engolir.

Começo a desconfiar que o modelão que eu adotava antes, aquele de não levar desaforo para casa, precisa ser revisitado. Às favas o equilíbrio e a sobriedade da maturidade. Estou pelas tampas com este povo manipulador.

Já estou montada: saia rodada, tamancão e mãos nas cadeiras. O próximo a investir, leva a primeira.

24.8.01

A SEMANA QUE NÃO EXISTIU

Deixa quieto.

Já são quatro e logo a noite chega. Vou dormir cedo e torcer para amanhecer um sábado daqueles que chutam a gente para fora da cama e de casa e vou cair nos braços de uma Lagoa ou uma Ipanema generosa e ensolarada que acena com cores e sorrisos.

Fui me deitar na noite do dia 17 e só vou acordar amanhã. Pronto! E mais: vou passar dois dias flutuando, espreguiçando, fazendo alongamento em calçadões e areias, molhando os pés em águas salgadas que lavarão qualquer resto do que quer que tenha sido esta última semana.

E A Maré Levou...

O garoto me olhou hoje com cara de cão que mijou no tapete. Tenho um instinto maternal atrapalhado com adolescentes do sexo masculino. Eles me parecem tão desprotegidos, querendo parecer machinhos e eficientes. Ele não tem culpa, claro. Ninguém tem culpa. Só senti vontade de abraçá-lo e dizer que tudo estava bem. Mas ele ia saber que eu estava mentindo. Sou uma péssima mentirosa. Então apenas sorri e as lágrimas que iam lavar suas sardas secaram. Ele entendeu, enfim.

Tudo porque eu estou no Moulin Rouge, lá no alto, num balanço coberto de flores. O mundo é vermelho e dourado e a música está alta demais, mas eu não ligo. Se alguém olhar para cima vai ver minha calcinha e minha boca escancarada. Estou com sede. Parar a brincadeira para beber alguma coisa não passa pela minha cabeça. Tenho vertigem. Aperto com força as cordas e tudo gira. Estou no carrossel. Vejo manchas onde devem estar as pessoas. O vulto dele, aquele outro, é inconfundível. Quando estou deitada aqui, sua silhueta fica ainda mais alta. E eu vou ficando cada vez mais leve. A balança confirma: eu posso voar.

É o nome de um anjo que me ronda a cabeça. Acabo falando em voz alta, mas ninguém ouve. Devem estar todos surdos. Eu piso na seda e ela vira algodão - algodão algodão, não algodão tecido. Você consegue imaginar infinitos degraus feitos de algodão bem branquinho? Então... A escada vai se apertando cada vez mais naquele espiral lá em cima e eu digo oi para o João. Ele está
voltando da casa do gigante todo carregado de ouro. Para que tanto ouro? Ouro não compra o que mais se quer.

Claro que esta ela também não ouviu. Há tempos não nos falamos. Seu telefone está sempre ocupado e eu ocupada demais para ir lá. Melhor assim. Não me lembro da última vez que nos entendemos. Falamos idiomas diferentes. Não, não é isso. Vivemos em eras diversas. Seria pior se eu ainda alimentasse ilusões.

Há um dirigível sobrevoando a costa e as ninfas aprisionaram pirilampos em caixinhas transparentes para iluminar a praia. Antes de sairmos, elas escovaram meus cabelos e aplicaram pequenas flores que não combinavam em nada comigo. Arrastei meu visual clown até as areias e lá encontrei o lord inglês. Ele me reconheceu de imediato. Nos abraçamos e choramos e rimos. Era tempo.

Só havia frutas para comer. Frutas de todos os tipos, tamanhos, cores e sabores. Frutas com gosto de infância, com cheiro doce, com nomes que não sei. Virgínia estava de pé ao meu lado e disse sim. Quando eu respondi que era cedo ainda, ela ficou triste e foi conversar com o mago, me olhando de vez em quando de soslaio. Ela gosta de jogar xadrez e eu quero brincar de pique. Um dia ela desfaz o bico e descobre que é sempre sem querer...

Manitoq fala sem parar de futebol. Agora sim tenho com quem trocar idéias interessantes. Só ele entende o que quero dizer quando passo batom na ponta do nariz. A sessão vai começar e eu perco muito tempo tentando me ajeitar na posição de lotus. Resolvo plantar bananeira e tudo começa a fazer sentido.

Amanhã...

14.8.01

Desisti de continuar falando sobre a viagem. Talvez, quando o tempo permitir, coloque umas fotos por aqui...

Mas quero mesmo ir falando do que vai acontecendo e do que deve acontecer logo. Tenho a sensação de início de ciclo, com algumas coisas importantes sendo concluídas e espaços sendo abertos para as pendências que se arrastam e muitas novidades.

Ontem chegou meu micro novo. Lindinho! Tudo fica mais fácil e rápido e é disso que preciso: lubrificação para que as coisas que já estão nos trilhos deslizem e cheguem aonde eu quero num intervalo menor e menos custoso. Também recebi o certificado de um curso que me ajudou muito, mas que já estava ficando longo demais. Vira página.

Estou reorganizando rotinas e disposições. Sacos e sacos de passado estão sendo jogados pela lixeira. Recebi um telefonema importante que talvez me ajude a recuperar ainda mais espaço.

As prioridades estão mudando. Outros relógios que se ajustem pelo meu. Acabou a fase barroca. Mas daí a me tornar parnasiana vai uma eternidade...

OS ANOS EM QUE VIVEMOS

Outro dia me peguei pensando em que década estamos.

A gente fala da música dos anos 90, do comportamento da década de 60, mas não consegui me lembrar de ninguém falando sobre a década atual. Como ela se chama?

Eu recebo diariamente um e-mail com uma palavra em inglês. É uma forma
prática e indolor de melhorar o vocabulário e, como tudo é muito bem desenvolvido, dar uma polida na cultura geral. Agora já sei a expressão proposta para batizar nossa década na língua da matriz:

aught \AWT or AHT\ (pronoun)
*1 : anything
2 : all, everything

Example sentence:
"It was too early for aught but a few dogs to notice us as we noticed birds." (Claire Gerber, _The Christian Science Monitor_, January 8, 1987)

Did you know?
"For aught I know, my lord, they do," answers the Duke of Aumerle to a question from his father in Shakespeare's _Richard II_. Shakespeare didn't coin the pronoun "aught," which has been a part of the English language since before the 12th century, but he did put it to frequent use. Plenty of other literary lights have found "aught" to be a useful term over the years, too. Writers living today may be less likely to employ "aught" than were their predecessors, but the pronoun does continue to turn up occasionally. "Aught" can also be a noun meaning "zero," and in recent years the phrase "the aughts" has been bandied about as a proposed label for the decade that began in the year 2000.


Quem surgirá com uma proposta para a nossa língua?