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9.5.02

Quem já me conhece há algum tempo sabe que tenho sérias dúvidas quanto à arte contemporânea. Tenho questões sérias principalmente no tocante ao uso de cobertores.

Peço desculpas aos amigos de longa data, mas quero contextualizar o comentário que farei a seguir e a menção aos cobertores. Visitando um museu famoso, eu me senti vendo uma exposição sobre a roupa nova do rei ao me deparar com um cobertor azul jogado sobre uma espécie de bolsa que inflava e esvaziava simulando alguém dormindo no chão. Tive um acesso de rebeldia e me recusei a continuar a visita.

Hoje, lendo o jornal, vejo a confusão armada por um auto-aclamado artista plástico que montou uma intervenção nos pilotis do MEC (centro do Rio) ontem. Eram blocos de gelo tingidos de vermelho e esculpidos na forma de corpos de crianças e cobertos por cobertores baratos. À medida que o gelo derretia, escorria para fora dos cobertores o líquido vermelho que lembrava sangue. Quem passava por ali levava o maior susto, enquanto o "artista" observava a reação das pessoas. A polícia apareceu duas horas depois, informada que havia corpos na rua. A intervenção A sangue frio era para ser uma metáfora da violência e acabou devidamente faxinada.

Sou uma ignorante e como tal carrego a prerrogativa de poder perguntar: isso é arte?

8.5.02

OS SETE PRINCÍPIOS BÁSICOS DO CONHECIMENTO
(Leis Herméticas)


Primeiro: a mente é tudo. O universo é mental. Por baixo de tudo aquilo que
conhecemos há o plano de um Espírito que não podemos conhecer. Ele é a lei.

Segundo: como é em cima, é embaixo; como é embaixo, é em cima. Tudo se
corresponde. As mesmas leis que atuam sobre o homem atuam sobre uma lagarta
ou uma estrela.

Terceiro: nada descansa, tudo se move. Nada desaparece, tudo se transforma.

Quarto: tudo é dual. Tudo tem dois pólos. Os opostos são idênticos, da mesma
natureza, porém em diferentes graus. Os extremos se tocam.

Quinto: tudo flui, fora e dentro. Tudo tem suas subidas e descidas. O ritmo
compensa e mantém o equilíbrio.

Sexto: qualquer causa tem seu efeito. Qualquer efeito tem sua causa. Tudo
acontece de acordo com a Lei. Nada escapa dela.

Sétimo: tudo tem seu princípio masculino e feminino. O gênero se manifesta
em todos os níveis da existência.


(O Mestre de Quéops - Albert Salvadó - Ediouro)



Depois de driblar alguns assaltantes com o filho pela mão, sentei numa sala de espera lendo um conto que me fez lembrar da Lu a cada linha (Linda, uma história terrível, do Caio Fernando Abreu, que cita Cazuza e Ana Cristina Cesar), enquanto deixava de ser almodovariana (carne trêmula).

Ganhando a rua novamente, achei que seria uma boa idéia me lambuzar de Chicabom. Alguém sabe se alteraram a receita do meu picolé favorito? Ou é aquela história de retornar à velha casa da infância para descobrir que os cômodos enormes não passavam de cubículos? Ou será que o gosto só é completo quando misturado com maresia e areia?

Hoje eu só queria um Chicabom com gosto de Chicabom da minha memória...
E mais uma sem sair de cima (ou debaixo, fica a seu gosto):

Coisinha mais comum no ano passado andando pelas ruas de Nova Iorque era ouvir o som de Ben Jor.
Agora totalmente no clima:

Mestres da MPB
Jorge Ben Jor ao vivo
Repetir enquanto o número de linhas for menor ou igual a 979
abre janela
ilumina linha
copia
fecha janela
abre janela
ilumina linha
cola
fecha janela

Paradinha estratégica para colocar para tocar Raio X, da Fernandinha Abreu, que tem Jorge da Capadócia, o que me faz lembrar que não tenho tempo a perder e que devo voltar rapidinho à ralação.

7.5.02

Um dia você vai entender
Porque para você
Eu sou de fácil acesso
Você vai descobrir o que não escondo
Você vai compreender tudo.
Mas quando?
Porque, prá mim, você já é um sucesso
Porque meus olhos te convidam
Para me inundar com seu cálice
Talvez a mensagem seja mais clara assim
Do que se eu falasse
Porque brindo ao embaçado
Da minha embriagez com sua taça
Não sei o que mais
Você quer que eu faça
Porque quando você me olha
Meu sangue vira vinho
E eu fico tonta
Dentro do meu próprio corpo
Não preciso, para esse veneno,
Nem de copo
E suas intenções maliciosas eu adivinho
Se você quiser uma dose desta bebida
É cortesia da casa
Porque a chama deste cigarro
Já está acesa
E eu fecho as portas do bar
Para esta festa
E quando elas voltarem a se abrir
Nas prateleiras nada mais resta
A não ser o gosto amargo
Da ressaca
E o cheiro forte do cigarro
Que se apaga
Qunado eu crescer, é criança que quero ser.

6.5.02

Uma palavra de que eu gosto e não é proparoxítona: cocuruto.
He said that three groups of people lived in every village. First were those you could see - walking around, eating, sleeping, and working. Second were the ancestors, whom Grandma Yaisa had now joined. "And the third people - who are they?" asked Kunta. "The third people," said Omoro, "are those waiting to be born."
(ROOTS - Alex Haley - 1925-1992)


Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Philosophicamente.

Unica lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os colectivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.

(MANIFESTO ANTROPOFÁGICO - Oswald de Andrade
Anno 374 da Degustação do Bispo Sardinha.)


Veja, ilustre passageiro,
O belo tipo faceiro
Que o senhor tem a seu lado
No entanto, acredite,
Quase morreu de bronquite
Salvou-o Rhum Creosotado

(slogan histórico, que vivia pregado nas janelas dos bondes)

eu quero esse homem de cor
um Deus Negro do Congo ou daqui

(BLACK IS BEAUTIFUL - Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle)


O tipo garboso que ora ilustra este blog não é outro senão meu bisavô, o "afamado propagandista", J. A. Roger da Costa.

O novo layout é uma brincadeira de recorte e colagem com um cartaz onde ele anunciava um dos produtos que comercializava.

Além de eu achar o cartaz muito interessante pessoal e historicamente, também é uma oportunidade de mostrar que o estilo sissi de ser (não no sentido norte americano, mas no baiano/hype e meguiano) está na quarta geração, pelo menos.

Um dos motivos para o sobrenome dele ser diferente do meu é o fato de ele ter sido pai da minha avó materna. Mas uma ala da família assina como ele. Não o conheci, mas algumas de suas história me foram transmitidas. Como sempre tive muita curiosidade sobre sua figura, minha tia-avó, sua nora, era quem me saciava. Era a única remanescente dos que o conheceram, mas se foi no ano passado.

Sua bênção, Biso.

5.5.02

Cariocas costumam falar alto. Alguém que goste de explicações poderia lembrar que a amplidão da praia e o barulho das ondas faz com que se eleve o tom da voz. Bobagem...

Mas o problema se agrava porque uma praga assola os locais públicos ultimamente. A TV é onipresente em bares, salas de espera de consultórios médicos, restaurantes... Ela fica ligada em um volume tal que nem é possível abstrair seu som nem distingüir o que está sendo dito. Para acompanhá-la um rádio toca, sintonizado geralmente em uma estação que você detesta. E todo mundo coloca um auto-falante na garganta para conseguir ser ouvido no meio do burburinho.

É, acho que estou ficando velha...
"Afakakikorta da kortissendô"

Eu adorava os fonemas sonoros que tinham um sabor ancestral. Lógico que eu não tinha ainda a menor noção do que fossem fonemas ou ancestral. Tampouco imprimia sentido nas palavras da canção de ninar. Só bem mais tarde é que descobri, como uma revelação, que os versos diziam "a faca que corta dá corte sem dor".

Lembrei disso cantando para meu filho dormir. E, seguindo um fio de recordações e associações bem peculiar, fui viajando. Guardo memórias bem antigas. Ainda tenho a imagem, o cheiro e o toque de minha avó materna bem armazenados. Talvez sejam apenas lembranças das lembranças que cultivei durante estas três décadas e meia, já que me parece impossível realmente recordar de alguém que se foi pouco antes de eu completar quatro anos. E naquela noite em que cantava para meu filho dormir, me lembrei dela cantando para mim quando minha mãe perdia a paciência, do meu choro baixinho e soluçado, das figuras que imaginava na parede não emassada no canto da cama enquanto tentava me concentrar para pegar no sono antes que ela também desistisse de me embalar. Ela era minha segurança.

A sensação mais forte que tenho é daquele dia na cadeira de balanço. Tive um furúnculo na parte interna da orelha e um primo e um tio me seguraram com firmeza, enquanto minha mãe tratava de espremê-lo. Eu tremia de raiva, impotência e dor. E foi lá, no seu colo negro, gordo e quente que encontrei conforto balançando, balançando, balançando...

Minha avó supriu aquela carência que toda crinaça sente à chegada de um novo bebê na casa. Penso nisso só agora. Ela está forte dentro de mim porque eu passava muito tempo com ela. Imagino que minha mãe passava muito tempo então cuidando de minhas irmãs mais novas. Vovó era muito doente e sabia que tinha pouco tempo conosco. Éramos muito cúmplices e ela sabia que eu sofreria muito com sua partida, então tratou de me preparar. No dia em que foi sepultada, fiquei sozinha em casa com a empregada. Os adultos no cemitério e não sei onde estavam minhas irmãs. A mocinha me perguntou porque eu, tão agarrada com minha avó, não estava chorando (ela mesma estava escondendo mal suas lágrimas). Respondi que minha avó tinha pedido para que eu não chorasse quando ela se fosse, que eu ia viver muito, ter uma vida muito bonita e quando eu fosse bem velhinha como ela (mentira, ela não era tão velha assim) e também morresse, a gente ia se encontrar no céu, porque é isso o que acontece com as pessoas que se amam muito.

Estou vivendo a minha vida muito bonita. Tenho em mim a marca dos primogênitos. Sim, os primogênitos são diferetes dos caçulas e dos filhos do meio. Já repararam? Os primogênitos são sempre os mais sisudos e mais esforçados. Os caçulas são os carismáticos e os do meio, quando os há, ou são os mais livres dos papéis familiares pré-estabelecidos ou são os porras-loucas, as ovelhas negras.

É através do mais puro empirismo que afirmo que os casais mais harmoniosos são formados por primogênito-primogênito, caçula-caçula, do meio-do meio. Os filhos únicos ou permanecem solteiros ou casam-se com alguém com vocação para a servidão e para os bastidores. Observe: o filho único vai estar espalhado pelo sofá enquanto seu parceiro se espreme num cantinho; ele vai dominar a conversa enquanto o outro apenas abana com a cabeça, chamado a opinar apenas para confirmar o que o outro disse.

Meu lindinho dormiu e eu fui tomar meu banho para nanar também. E enquanto a água caia morna sobre o corpo, pensei que o "fator filho único disfarçado" pode ser o causador de algumas rusgas por aqui.

3.5.02

Muito assunto para por em dia, mas estou exausta.

Mas não vou dormir ainda.

Hoje tem Os Normais!

30.4.02

Ontem chegou até nós uma caixa enorme enviada por um amigo dos EUA para nosso filho. Era uma montanha russa em miniatura do Mickey. Bem, miniatura se comparada com a original (se é que ela existe), porque ocupa agora uma boa parte da sala.

A montagem me consumiu das 18 às 23:30 de ontem. Era zilhões de trilhos, suportes, apoios, estrelinhas, conectores e nem sei mais o quê. Meu polegar direito, já carcomido por uma alergia desencadeada por qualquer coisa, desde tensão até detergente, tem agora um calo colossal.

Geralmente montagem de brinquedos e afins ficam a cargo da outra parte do casal. Sim, há um regimento não escrito por aqui. Nada muito rígido, mas geralmente sou eu que cozinho e ele que lava a louça. Eu leio histórias e ajudo em trabalhos manuais e deveres de casa e ele leva ao parquinho, joga bola, monta brinquedos.

Entretanto, depois da cirurgia no olho, meu amo e senhor ainda se recupera e tem tido dificuldades para enxergar de perto, o que inclui leitura de manuais e peças pentelhosamente pequenas.

Montado o brinquedo é realmente lindo. Sabe aqueles capacetes de mineiros com uma lanterna na altura da testa? Eu queria um daqueles com uma filmadora ou máquina fotográfica para instantes como o de hoje quando meu filho acordou e viu a parafernália montada na sala. Aí eu poderia mandar uma cópia para o Bruce agradecendo o presente. Ah, sim, junto iria uma foto do meu doloridíssimo calo.

É uma tremenda veleidade valorizar tanto um calo quando falo do nosso amigo que recentemente sofreu um grave acidente.

Oh, Senhor, me ajude a parar de adiar os telefonemas que preciso fazer!
Tudo começou com a compra da mesa-estante de computador. Ela ficou linda. E fez sobressair a inadequação de uma estante de livros que estava do outro lado do quarto.

Devo dizer que a tal estante já me incomodava há tempos. Ela estava pendurada acima da cabeceira da cama e os livros e aquelas coisas que a gente nunca sabe direito onde colocar iam se acumulando sobre ela. Além disso, o apartamento é antigo e em alguns pontos o emboço é frágil. Uma vez acordamos de madrugada com um barulho que custamos a identificar na escuridão. O giro-visão tinha despencado junto com TV e vídeo. Então era comum eu sonhar que morria sob uma pilha de jacarandá, reboco e livros.

Resolvi aproveitar um espaço morto do corredor para instalar algumas prateleiras e abolir o motivo dos meus pesadelos. E o conselho familiar arbitrou que a estante de jacarandá iria para o lugar de outras duas bem velhas que também não me agradavam e que ficavam atrapalhando a circulação. Só que o que estava nas estantes que seriam descartadas não cabiam na que entraria em seu lugar. E começou a ciranda de mexe e arruma que já dura umas duas semanas.

Resumindo a história, praticamente todos os armários, gavetas e estantes da casa foram visitados e reorganizados. A novela ainda não acabou, mas tudo está ficando mais bonito que antes. E muito mais racional também.

A verdade é que havia coisas guardadas em caixas desde que me mudei para cá. Muito foi para o lixo ou reencaminhado. A disposição de alguns móveis ainda refletia aquele momento de correria e improviso de condensar duas casas em uma, daquele instante de susto que acontece quando você decide morar com alguém, mas sente muita necessidade de agarrar-se a seus objetos pessoais para, de alguma forma, manter ainda o pé fincado na sua individualidade. Insegurança, acho.

Outro dia meu amo e senhor leu um texto que escrevi e disse que tinha muitas das idéias dele ali. Ele estava certo. Fiquei calada, mas lembrei de uma cena de novela. Uma mulher falava que seu sonho era viver uma história como a de um casal que ela conhecia, juntos há décadas. A esposa contava um sonho para um casal amigo. Ao terminar o esposo observou que era ele quem tinha sonhado aquilo. A mulher que contava a história observava que este era o verdadeiro amor, a perfeita comunhão, quando até os sonhos se misturavam.

Nossas coisas estão sendo arrumadas. Nossa casa tem mais a nossa cara.

OK, OK... Seus discos são intocáveis e meu candidato continua sendo o Lula.

29.4.02

Um porta-retrato com a foto do artesão que o fez; um cesto de papelzinho para rascunho e post-it com uma menina super-poderosa; um calendário 2002 com fotos dos EUA sacadas por meu amo e senhor na viagem do ano passado; uma caixinha redonda ilustrada com um anjinho sentado nas costas de um leão; um porta-incenso com motivos africanos; um conjunto de caixas de som que devo instalar ainda hoje; brindes do kinder ovo: um guerreiro zulu, um tubarão roxo articulado, uma árvore onde está pousada uma cacatua, um fantasminha fosforescente, uma jumenta que se desmonta e tem um jumentinho na barriga; um monstrinho verde transparente da Coca-Cola; uma caixinha minúscula de madeira que ao ser aberta mostra uma joaninha e a frase "I Love You"; muitos livros CDs e cadernos; um cinzeiro; outro calendário; uma máquina fotográfica digital abandonada; um vidro com um boneco de fofíssimo de tecido cheio de frases esquisitas como "Eu não faço nada sozinho. Dependo do meu Criador"; outro porta-incenso; pastas com documentos já organizados; documentos não organizados; folhas, cartões, etiquetas para impressão...

E, no meio de tudo isso, computador e impressora...
Não consigo tirar os olhos de

28.4.02

DERIVA


[Do fr. dérive.]
S. f.
1. Desvio que um instrumento sofre com o tempo, a partir do ponto de repouso, quando a variável medida e as condições ambientes permanecem constantes.
2. Cronol. Variação progressiva de marcha de um relógio.
3. E. Ling. Na evolução de uma língua, a direção para a qual parecem apontar diversas mudanças não relacionadas; conspiração. [A partir do séc. XVI, p. ex., diferentes modificações no português, como a ditongação (mã-o > mão) e a contração de vogais (que-ente > quente), tiveram como resultado a eliminação dos muitos hiatos do galego-português.]

* Deriva dos continentes. Geofís.
1. Fenômeno pelo qual os continentes se deslocam sobre a superfície terrestre, como que flutuando sobre o magma.

* À deriva.
1. Sem rumo; solto, perdido; arrastado, levado

(Retirado do meu pai, o dos burros, o Aurélio)
Ódio é aquilo que você sente quando se percebe numa situação desfavorável e sabe que não há ninguém para culpar além de si mesma.

Meu pai tinha uma frase ótima para a posição em que me encontro, mas ela é impublicável. Bem, acho que dá para entender se eu disser que terminava assim: "... e ainda pedir desculpas por estar de costas".