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17.6.03

1 - As Exposições que eu não posso perder:

Arte do Fogo, do Sal e da Paixão - Celeida Tostes
Centro Cultural Banco do Brasil até 29 de junho
Terça a domingo - 12h às 20h
GRÁTIS

Castro Maya, Colecionador de Debret
Museu Chácara do Céu até 29 de junho
De quarta a segunda (fecha na quinta - feriado) - 12h às 17h
R$2,00 ou GRÁTIS (menor de 12 ou maior de 65)

Luiz Aquila
MAC - Niterói até 31 de agosto
De terça a domingos e feriados - 11h às 18h
R$4,00 ou R$2,00 (estudantes) ou GRÁTIS (menor de 7 ou maior de 65)

Mestre Vitalino
Museu Chácara do Céu (permanente)
De quarta a segunda (fecha na quinta - feriado) - 12h às 17h
R$2,00 ou GRÁTIS (menor de 12 ou maior de 65)

Revert Henry Klumb - Fotógrafo da Casa Imperial
Instituto Moreira Salles até 3 de agosto
De terça a domingo - 13h às 20h
GRÁTIS

2 - Filmes que eu quero ver

O Homem que Copiava
Alphaville
Desmundo
Embriagado de Amor
Tiros em Columbine
X-Men 2


3 - Filmes dos quais existe pouca chance de eu conseguir escapar

Canguru Jack
A Creche do Papai


4 - Peças a que talvez eu tenha que assistir e espero que seja daquelas que adultos também se divertem

Bicho Esquisito
A Bonequinha de Pano
Pluft, o Fantasminha


5 - Lugar onde eu daria um pedaço do corpo para estar (no caso um pedaço de unha)

Festival Oi de Inverno
Castelo Barão de Itaipava* - Petrópolis
De 19 de junho a 27 de julho
shows (Capital Inicial, Frejat, Rita Lee, O Rappa, Cidade Negra, Titãs, Marina), moda (roupas, acessórios e decoração), gastronomia, esportes radicais e exposição.

*O barão J. Smith de Vasconcellos, o Barão de Itaipava, era avô da prefeita de São Paulo Marta Suplicy e mandou contruir o castelo de inspiração renascentista. Você (pim) sabia?

6 - Lugares onde periga eu ir sozinha se ninguém me acompanhar

MPB para Dançar
Symbol
Quinta às 19h
R$10,00 (mulher) e R$18,00 (homem)

Lançamento do Songbook do Guinga
Modern Sound
Terça (é hoje!) às 20h
GRÁTIS!
Apolônio de Tiana...
A Última Ceia versão astrológica...
Os três segredos de Fátima...
As leis herméticas...

Materialzinho light para começar bem a semana...

13.6.03

Pobre quando recebe pagamento, esquece a senha do cartão do banco.

Ajuda eu aí, tio.
Hortelã
Mentha


Histórico

Segundo a mitologia grega, Mentha era uma ninfa de um deus grego transformada em Hortelã pela maldição de sua esposa enciumada. Por seu perfume marcante, era tratada quase como erva sagrada pelos árabes. Quando ameaçadas de morte por serem proibidas de beber vinho, as mulheres romanas mascavam Hortelã com mel para disfarçar o hálito. Existem referências de uso no piso de sinagogas e igrejas italianas.

Uso culinário

Aromática e perfumada, a Hortelã é básica na cozinha árabe, tanto no preparo de pratos típicos quanto na decoração. Também é muito usada no preparo de chás, assados e grelhados em geral. É indicada para enriquecer sobremeses.

Uso terapêutico

O chá de Hortelã é indicado para tratamento de gripes e má digestão. O gargarejo alivia dores de garganta. Pode aliviar picadas de insetos.
EU QUERO, PRECIS0, NÃO POSSO VIVER SEM


Autor canadense satiriza a auto-ajuda e a filosofia da consolação
XICO SÁ
da Folha de S. Paulo



No Brasil, já afogaram até os gansos nas águas térmicas e milagrosas da auto-ajuda. Os danados são protagonistas de "O que Podemos Aprender com os Gansos", livro de Alexandre Rangel. Em vez da tortura do foie gras, os bichos mostram que tudo conspira para a felicidade.

O Tibet é bem ali na esquina, a R$ 1,70 de ônibus apertado, nas quebradas do Jardim Irene. Só é pobre quem quer. Tudo tem seu preço, reflete Zibia Gasparetto, escriba do ramo. O editor Edwin de Valu, personagem principal de "Ser Feliz", romance do canadense Will Ferguson, acerta no milhar quando publica "O que Aprendi na Montanha", de um certo Tupak Soirée. Fenômeno.

É o livro definitivo do gênero. A América está condenada à felicidade. Os drogados não voltam mais ao pó, os alcoólatras afastam-se dos seus cálices, os maridos preguiçosos e flatulentos viram os bambas do sexo tântrico.

Edwin diz a May, colega de trabalho com quem vai para a cama: "Isso é uma panacéia para todos os males humanos. É o segredo da felicidade, durante eras procurado pelo filósofos, finalmente descoberto". É uma citação, do escritor inglês Thomas de Quincey, que o editor carrega no bolso.

Edwin só queria explicar a May que a auto-ajuda é o ópio da nossa era. "E nós controlamos o mercado. Isso não é uma editora. Não estamos vendendo livros, estamos vendendo ópio."

"Ser Feliz" é uma comédia de neuroses sobre a praga da auto-ajuda e da escrita de consolação. A busca pelos livros de sucesso, a relação de escritores com a editora, as fórmulas (o ideal para um best-seller é possuir 60 mil palavras), o plágio desavergonhado, a picaretagem para enganar os trouxas. Um porre de felicidade.

O autor é divertidíssimo. Literatura de entretenimento, essa coisa que, segundo o poeta e crítico José Paulo Paes, sempre fez falta no estoque das editoras brasileiras e bancos escolares. "Ser Feliz" não carecia ser tão gordinho de páginas, poderia ter ficado nas 309, como se comenta em uma reunião da editora de Edwin sobre o ideal para um romance. Mas quem disse que isso é defeito?

Ser Feliz
Lançamento:Companhia das Letras
Autor:Will Ferguson
Quanto:R$ 41 (400 págs.)


11.6.03

This is my new blogchalk:
Brazil, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Maracanã, Portuguese, English, Carla Cintia, Female, 36-40, Cinema, Music. :)

9.6.03

Hoje a secretária do meu amor não foi trabalhar. Está cumprindo a dolorosa e sofrida tarefa de sepultar a sua mãe.
Hoje a minha diarista não veio. Está cumprindo a dolorosa e linda tarefa de parir uma menina.

Encontros e Despedidas
(Milton Nascimento & Fernando Brant)

Mande notícias do mundo de lá
Diz quem fica
Me dê um abraço venha me apertar
Tô chegando
Coisa que gosto é poder partir sem ter planos
Melhor ainda é poder voltar quando quero
Todos os dias é um vai-e-vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai querer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
E assim chegar e partir
São só dois lados da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem da partida
A hora do encontro é também despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar
É a vida desse meu lugar, é a vida.


Na íntegra, como saiu aqui em 13/12/2001, o meu texto republicado no blog da tal Tati sem crédito:

Recebi uma notícia de morte. Não era alguém muito próximo, mas fazia parte de um grupo ao qual pertenço. Além disso, uma morte precoce sempre nos alerta, nos impele a avaliações.

Não faz muito alguém segurou na minha mão e perguntou se eu havia morrido. Temo dizer que sim e me escondo no escuro e no silêncio. Não sei se morri, mas com certeza estou mais etérea, quase diáfana. Essa transparência traz vantagens e também desvantagens. Posso ser eu à vontade em meu próprio mundo particular e oculto. Entretanto as pessoas passam através de mim sem saberem que depois tenho que repor tudo no devido lugar sozinha. E elas sequer se dão conta disso.

Tinha um sonho que quase se cumpriu uma vez antes de transformar em pesadelo. Hoje já o abandonei porque sei que ele só me traz sofrimento. Tenho outros que não sei se já passaram do tempo. Talvez sim. Não é confortante a idéia de que se passou da idade para certas coisas. Foco então no possível e tento, do meu jeito canhestro, torná-los reais, que não sou do tipo de gente que se farta com migalhas e restos. Revirar lixeiras? Estou fora! Nasci para brilhar. E gosto de ter a minha volta quem, como eu, saiba polir. A si mesmo e a mim. Gosto de quem também sonha bonito. Gosto de realizar sonhos, que sonhos não realizados são espinhos doloridos demais. Felizmente há ainda muito tempo para muita coisa. Dou as boas vindas a quem se dispuser a embarcar comigo. Para os demais, lenço branco.

Mixaria me cansa. Gosto da fartura de sorrisos, de carícias, de afeto, de troca, de amor. Comedimento é coisa para fracos. Sou franca e não gosto de jogos. Nem dos de guerra, nem dos afetivos, nem dos das regras sociais. Quero arrebatamento! Quero tesão! Quero amplos gramados onde possa soltar as feras da minha insanidade sem ferir ninguém... Fazer-me miúda para não incomodar me exaure e me adoece. Quero espaço para ser! Rir quando estiver com vontade e ter motivos para querer a toda hora.
Muito desagradável esta história da tal menina Tati, que andou copiando tantos textos próprios, citações e figuras do blog da Claudia e até um meu que nossa deusa olímpica citou por lá (creditado, evidentemente).

Minha amiga é uma lady e passou uma descompostura com uma classe que é só dela. Eu aqui já estava preparando um belo escândalo. Mas tem gente que tem sorte, viu, dona Tati. Ontem o Blogger não queria conversa comigo e não me deixou enviar o post rodada de baiana e hoje já estou em outra vibe.

Acho que não se deve mesmo trabalhar no final de semana, senão Papai do Céu castiga. Ontem nada rendeu. Consegui terminar o serviço que é pra entregar hoje, mas nunca me foi tão custoso. Isso sem falar dos incêndios informáticos e da vida social.

Quem não foi no Degusta Rio perdeu uma ótima diversão e um programa literalmente delicioso. No Armazém 6 do Cais do Porto, alguns dos melhores restaurantes da cidade com pratinhos de degustação a preços realmente baixos. A única coisa cara era a cerveja, mas a Bohemia pode ser cara que eu pago. Além de toda a mítica em torno da marca, há uma história afetiva: numa época em que morei em Petrópolis havia na minha rua uma seqüência que começava pela casa onde eu, universitária, alugava um quarto, passava por um bar onde bebíamos e cantávamos muito e terminava - na minha referência, lógico - na fábrica da Bohemia. Bons tempos!

Voltando a 2003, recomendo que fiquem de olho no próximo ano para não perderem este programão. Só tinha gente (com cabeça de) magra lá.

No sabadão ainda fomos ver Todo Poderoso. O filme é bem legal na primeira metade, mas vira uma chorumela moralizante e sentimentalóide no final. Continuo amando Jim Carrey, acho o cara genial. Mas, francamente, o que deu na cabeça destes caras de Hollywood, hein?

Só mais uma coisinha. Estava eu em um churrasco, me divertindo, interagindo numa muito boa, de repente alguém aparece com uma TV e a desculpa de que era a final do campeonato. Um monte de caras embasbacadas diante do aparelho. As caras rubro-negras foram ficando mais rubras que negras, principalmente depois do gol do Cruzeiro. Depois de um gol anulado, o Mengo consegue empatar nos últimos instantes do jogo. Eu, na minha ingenuidade feminina, depois de ver a festa propriamente dita entrar pelo cano, ou melhor, pelo tubo de raios catódicos, pergunto, temendo ter que ficar paralisada por mais algum tempo ainda, se agora viria uma prorrogação ou os pênaltis. Sob sorrisinhos debochados de machos que detém todo o ocnhecimento futebolístico e em bando gostam de se iludir que são muito superiores às mulheres recebo a resposta de que não, há ainda outro jogo a ser realizado em BH.

Fala sério, mermão! Interrompem uma festa, fazem shhhh a toda hora, olham de cara feia quando a gente passa em frente ao monitor para pegar outra cerveja, ignoram fêmeas lindas e maravilhosas e a final não finaliza nada?

6.6.03

Fato 1: Há alguns anos, meu digníssimo esposo apresentou um projeto que acabou não se concretizando a um conhecido e recentemente morto produtor musical.

Fato 2: Precisamente, ontem, ligaram para meu amo e senhor para tratar, depois de muitas ida e vindas, de assuntos referentes ao tal projeto.

Fato 3: Hoje vi um pequeno vulto branco passeando pelo chão da casa. Acudi. Era um envelope com carimbo de postagem de 1995, endereçado ao meu amado, idolatrado, salve-salve. Perguntei a mim mesma de onde teria saído envelope tão sujo, velho e amassado para ficar flanando pela casa. Ainda mais vazio. Verifico o remetente: Almir Chediak.

Ui!

5.6.03



LOKUA KANZA EM CONCERTO
Participação especial:
VANESSA DA MATA
Hoje - 05 de junho
às 21 horas
SESC Vila Mariana
Rua Pelotas, 141
Informações: (11)50 80 30 00



Poderemos rever a voz magnífica que soube seduzir tanto o público brasileiro quanto vários de nossos artistas nas suas precedentes passagens por aqui.

Nascido na República Democrática do Congo ( ex Zaire ) aprendeu a cantar em coros de igreja e tocando guitarra nos conjuntos de rumba do Zaire, mora atualmente na França onde produz seus discos.

Cantando em francês ou em lingala, com um tom confidencial, discreto e natural, cheio de sensibilidade, o trabalho de LOKUA KANZA constitui uma profunda reformulação da canção africana.


TURNÊ PELO BRASIL:

4 e 5 São Paulo - SESC Vila Mariana
7 Vitória (Teatro UFES)
9 Rio de Janeiro (Teatro Gloria)
13 João Pessoa
14 Salvador (Teatro da Aliança Francesa)
16 e 17 Brasília (Teatro da Caixa Econômica)

3.6.03

E para não pensarem mal de mim, conto outra história:

X DO PROBLEMA
(Noel Rosa)

Nasci no Estácio
Eu fui educada na roda de bamba
Eu fui diplomada na escola de samba
Sou independente, conforme se vê

Nasci no Estácio
O samba é a corda, e eu sou a caçamba
E não acredito que haja muamba que possa fazer
Eu gostar de você

Eu sou diretora da Escola de Estácio de Sá
E felicidade maior nesse mundo não há
Já fui convidada para ser estrela do nosso cinema
Ser estrela é bem fácil
Sair do Estácio é que é
O X do problema

Você tem vontade
Que eu abandone o Largo do Estácio
Para ser a rainha de um grande palácio
E dar um banquete um vez por semana

Nasci no Estácio
Não posso mudar minha massa de sangue
Você crer que palmeira do mangue
Não vive na areia de Copacabana

Eu sou diretora ...

Porque acho que pra tudo - ou quase - há hora:

Volta
(Lupiscínio Rodrigues)

Quantas vezes não durmo
A rolar-me na cama
A sentir tantas coisas
Que a gente não pode explicar
Quando ama

O calor das cobertas
Não me aquece direito
Não há nada no mundo
Que possa afastar
Esse frio do meu peito

Volta
Vem viver outra vez ao meu lado
Não consigo dormir sem teu braço
Pois meu corpo está acostumado.


Tú Me Acostumbraste

Tú me acostumbraste
a todas esas cosas,
y tú me enseñaste
que son maravillosas.

Sutil llegaste a mi como una tentación
llenando de ansiedad mi corazón.

Yo no comprendía cómo se quería
en tu mundo raro y por ti aprendí.
Por eso me pregunto al ver que me olvidaste
porque no me enseñaste como se vive sin ti.

Por eso me pregunto al ver que me olvidaste
porque no me enseñaste como se vive sin ti
porque no me enseñaste como se vive sin ti
porque no me enseñaste como se vive sin ti.

Tu me acostumbraste

Tú me acostumbraste
a todas esas cosas,
y tú me enseñaste
que son maravillosas.

Sutil llegaste a mi como una tentación
llenando de ansiedad mi corazón.

Yo no comprendía cómo se quería
en tu mundo raro y por ti aprendí.
Por eso me pregunto al ver que me olvidaste
porque no me enseñaste como se vive sin ti.

Por eso me pregunto al ver que me olvidaste
porque no me enseñaste como se vive sin ti
porque no me enseñaste como se vive sin ti
porque no me enseñaste como se vive sin ti


Eu ainda era muito pequena. Só lembro que, sim, tínhamos Ben (ainda sem jor) em casa, mas o outro era visto com certo desprezo. O outro era deixado para o pessoal sem opção de lazer nos finais de semana, para os bailes de subúrbio, para a plebe. E nunca ouvi o outro com atenção. Tenho agora, burra velha, uma música dele numa coletânea e uma dúvida:

Bebeto estava para Benjor assim como Vercilo está para Djavan?
Eu quero, preciso, não posso viver sem:


Toda saída é entrada para outra coisa.
(Tom Stoppard)

2.6.03

O RIO DO MEU TEMPO
(Heloisa Seixas)

O Rio do meu tempo tinha cor e luz e cheiros, como em lugar algum. Tinha manhãs de outono em que o sol vencia o ar frio e tocava a pele devagar, numa carícia. Tinha também tardes de primavera, em que floriam os espinheiros das praças, espalhando na atmosfera um cheiro de jasmim. Tinha buganvílias, flamboyants e amendoeiras. E coqueiros enfileirados junto à orla, cujas palmas delicadas, mexidas pela brisa, se recortavam diante do horizonte lilás, como um cenário de filme. O Rio do meu tempo tinha montanhas, cadeias e mais cadeias de montanhas esbatendo-se em degradê pela paisagem afora e ainda um pôr do sol que no verão deixava um rastro de cobre na areia molhada, transformando em silhuetas os retardatários das praias, que se deixavam ficar junto às ondas até a última réstia de luz. Ah, e tinha mar, um mar enorme no Rio do meu tempo.

O Rio do meu tempo tinha também sons, murmúrios, batuques. Choros e sambas em velhos casarões, burburinhos sem fim nas madrugadas sob os Arcos, risadas nas portas dos botequins, onde os embates sobre futebol tinham sabor de cerveja, de fritura e churrasquinho. O Rio do meu tempo tinha a nova Bossa, que era mais que Nova e reinava em templos com nome de maestro, de sons modernos ou finas misturas. Música, música, muita música - é o que tinha o Rio do meu tempo. Sem falar no carnaval, porque aí já é covardia. O Rio do meu tempo sabia ser espalhafatoso, quando fazia de sua ópera popular um milagre gigantesco, com dezenas de milhares de atores em ação. Ou ainda quando deixava escoar pelas ruas uns rios brancos, feitos não de água mas de gente, para saudar na praia o novo ano. Mas a cidade sabia também ser acolhedora e mansa, envolvendo quem a amasse em pequenos refúgios, em seus cafés, em suas livrarias. Eram coloridas e animadas as livrarias do Rio, e nelas nos deixávamos ficar por horas e horas, folheando os livros sem pressa, conversando nas mesas de seus cafés, encontrando amigos.

Ah, como era bom o Rio do meu tempo.

É claro que havia, também, problemas. Corrupção, drogas, violência. Muita violência. Mas ainda assim o Rio do meu tempo era maravilhoso. E nós não podíamos deixar que as notícias ruins tomassem todo o espaço, não podíamos deixar que o pânico crescesse e gerasse mais pânico, numa escalada sem fim. Sabíamos bem que éramos uma caixa de ressonância, tudo o que acontecia em nossa cidade repercutia mais. Precisávamos fazer alguma coisa, mostrar a nós mesmos nossos encantos, para nunca esquecê-los. Dizê-los em voz alta como a recitar um mantra, com o qual ganharíamos força para vencer o medo. E porque era tempo - sempre seria - de salvar aquela cidade feita de beleza e pavor.

Era assim, no Rio do meu tempo - esse tempo chamado agora.

A moça que trabalha como diarista aqui em casa está para ter bebê ainda este mês. Para garantir que eu não fique ao deus-dará e que sua vaga vai estar aqui quando ela estiver pronta para voltar ao batente, sua irmã será sua substituta. Hoje vieram as duas para que eu conhecesse e conversasse com a doméstica reserva, uma ensinasse o serviço a outra e para que a transição fosse tranqüila.

Passava pouco das nove da manhã. Com exceção do moleque, que teve um final de semana de arromba para comemorar o aniversário e ainda dormia, a casa seguia em ritmo acelerado. De repente, ele aparece na porta do meu quarto, pijama e cara amassados e meio tortos ainda. Estava lívido, olhos arregalados, expressão de total desespero:

- Mamãe, me ajude, por favor. Estou ficando louco. Estou vendo coisas.
- O que foi que você viu, meu filho?
- Vi duas jussaras limpando a sala.
A cenografia da violência na capital que é internacionalmente símbolo do País tem mais visibilidade, ressalta ele [coronel José Vicente da Silva Filho]. "Mesmo um crime que não tem a ver com o tráfico é tratado de um jeito que acaba dando a impressão de que a cidade está contaminada, dominada. O conjunto se torna até meio teatral devido às ações executadas pelos traficantes, que acabam reforçando esta situação", analisa Vicente.

Para o ex-secretário, a quantidade de assaltos e mortes não difere de centros urbanos como São Paulo e Vitória. "A cobertura é injusta para
o Rio na proporção do que acontece em outras capitais. Está havendo uma espécie de demonização. A situação no Rio é grave, como é grave em São Paulo e em outras cidades."


***


A juíza aposentada e deputada federal Denise Frossard (PSDB-RJ) acredita que o crime organizado tem tudo a ver com a violência do cotidiano. "Ao contrário do que se diz, não é um poder paralelo, antes fosse. É um poder transversal. Há um momento em que essa criminalidade cruza com o Estado constitucional pela corrupção. Esse mau exemplo passa para toda a sociedade", acredita Denise. "Com esse desarranjo no andar de cima, a base agrega o valor da impunidade", diz. O juiz Wálter Maierovitch, ex-secretário Nacional Antidrogas e presidente do Instituto Brasileiro Giovanni Falcone de Ciências Criminais, aponta que a chave do enigma passa por abrir a "caixa preta" das polícias. Os níveis de violência no Brasil são comparáveis aos de zonas de guerra ou à situação em Israel e nos territórios palestinos. É o que diz o último relatório da Anistia Internacional, espécie de guardiã dos direitos humanos no planeta. De acordo com o relatório, entre janeiro e outubro de 2002, 703 pessoas foram mortas pela polícia em São Paulo.


(Leia tudo aqui)