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17.5.04

A semana passada foi bastante cinematopgráfica pra mim. Teve Kil Bill (argh! bleagh! puft!) na segunda, Duplex na quarta, Invasões Bárbaras em dvd na quinta e Diários da Motocicleta no sábado.

Invasões Bárbaras parece jiló, que eu adoro, mas é bem amargo. Fiquei
pensando num monte de coisas que acabaram se encaixando depois com o que senti ao assistir a Diários da Motocicleta. O último foi uma experiência maravilhosa. O filme é bem feito, bonito e, na falta de um adjetivo melhor, importante, muito importante nesses dias que correm. Ele me provocou uma avalanche de emoções (ainda mais, como disse, tão próximo de Invasões Bárbaras) que achei difícil colocar em palavras. Só conseguia pensar algo como:"A pior parte da vitória deles foi ter aniquilado o sonho."

E então, li este artigo na coluna Entre Nós do Pedro Blank, na Revista de Domingo do JB e me senti um pouco aliviada por ter encontrado alguém que entendesse o tipo de coisa que estava se passando em mim naquele momento.

Destaquei a parte que mais me tocou em negrito.




O Generoso Che

Nossos escritos são nossas próprias leituras do mundo e, curiosos como
naturalmente somos, procuramos encontrar alguém que pense da mesma forma, nos basta ao menos um. Acontecendo, permitimos que outros possam discordar de nós totalmente e até venham a gerar uma nova forma no nosso próprio ato de ler". (...)os escritos não passam de uma leitura do mundo que traz para perto os semelhantes e estabelece contato com os diferentes. Meu próximo não é meu semelhante, costumava dizer um dos meus mestres preferidos, o psicanalista mineiro Célio Garcia.

(...)Contração receptiva, eis o mistério do que chamamos de relação e que se reflete na comunicação que tecemos nesta página. Um mestre cabalista do século 16, o Ari de Zfat, da Galiléia, fez a pergunta: se tudo é Deus, como pode haver mundo? De modo surpreendente, concluiu que Deus se contraiu para que pudesse haver um espaço desocupado de sua presença e onde o mundo pudesse existir. Neste caminho, outros sábios construíram uma visão em que a relação entre os homens só pode existir à medida que aprendemos a contrair a mente para que o outro se faça mundo. É esse o motor de toda generosidade.

Generosidade é atitude que só surge se aprendemos a contrair a nossa mente egoísta por natureza e deixamos que o mundo nos afete e nos surpreenda. Esta generosidade tão fora de moda é que levou o jovem Che, montado na La Poderosa, a encontrar no meio da selva amazônica o início de uma vida doada ao próximo radicalmente diferente dele, os internos do leprosário de San Pablo. O que impressiona na viagem conduzida por Walter Salles no filme Diários de motocicleta é a ausência de discursos calcados em mensagens partidárias pré-fabricadas. Trata-se, isto sim, do antigo apelo que a mente bíblica trouxe para o mundo; a descoberta da existência do outro nos obriga a um compromisso de responsabilidade com ele. É a generosidade comprometida do jovem Che que o atira no Rio Amazonas em direção ao leprosário isolado pelas águas caudalosas e o leva a encontrar, em uma terceira margem, um destino hoje chamado de idealista com certo tom de desprezo. O desejo de libertar os abandonados da impiedosa indiferença a que são submetidos aparece no filme como resultado desta estranha e radical conversão ao outro.

O maior trunfo do neoliberalismo não é o papo do fim da divisão entre
esquerda e direita. A grande vitória do capital sobre a generosidade é a transformação do sentimento de indiferença numa atitude banal e presente em nosso dia-a-dia.
Indiferença e cinismo que nós cariocas vemos diariamente nas jogadas politiqueiras de nossos governantes e que vamos passivamente incorporando às nossas vidas junto com o medo que enclausura os corações e constrange as mentes. Mas, para ser realista, não acredito que a idéia da contração receptiva interesse a quem realmente precisa dela, os egos expandidos do poder achariam este papo um grande despropósito. A contração e a generosidade acabam sendo o objetivo de uma minoria persistente, uma ilhota de esperança no mar da indiferença.

16.5.04

O Arauto entra e anuncia o rei. (...)

Entram o Grão-duque, a Grã-duquesa, o Ministro e o Funcionário Honesto.

Tecelão - Excelência, quanta honra! (uma reverência) Aproximem-se, Excelências. Apreciem nossa obra.

Eles aumentam a luz. Tiram o pano que cobre o tear. O Grão-duque e a Grã-duquesa arregalam os olhos.

Tecelão - Vejo que estão admirados, Excelências, com nosso tecido...

Tecelã - Espantados com o nosso trabalho. Foi difícil e demorado. Passamos noites trabalhando.

Tecelão - Noites e noites...

O Alfaiate dá pulinhos atrás do Grão-duque.

Funcionário Honesto e Ministro - Oh! Oh! Oh!

O Grão-duque (para o público) - Oh, Jesus, sou um idiota! Um incompetente! Um burro! Que será de mim quando meus súditos souberem disto? Finjo tudo. Vou fingir que estou vendo.

Grão-duque - Senhores tecelões de ouro, estou realmente admirado! Tanta formosura, tanta beleza num tecido! Que maravilha. Veja, Alfaiate, pegue, admire! (o Grão-duque faz a mímica de pegar o tecido no tear vazio)

Grão-duque - E você, querida esposa... já viu tecido mais rico? Não é divino?

Grã-duquesa - Sim, querido!

Tecelão - Vejam os rococós.

Todos - Magníficos.

Grã-duquesa - Sim, querido.

Tecelã - Apreciem os bizurados!

Todos - Fantásticos!

Tecelão - Notem as quizumbas!

Todos - Fenomenais!

Grã-duquesa - Sim querido! (mais alto)

Tecelã - Observem os fricotes!

Todos - Chocantes!

Grã-duquesa - Sim, querido! (mais alto)

Grão-duque - Estou estupefato! Es-tu-pe-fa-to! Nunca vi tamanha obra de arte! Mal posso esperar pra ver o tecido transformado em trajes que usarei triunfalmente para que o povo me admire. Será minha milionésima qüinquagésima roupa. Tecelões, confio a tarefa a vocês. Comecem agora a fazer o mais lindo traje do mundo com o mais maravilhoso, misterioso dos tecidos!

Tecelã - Sim, meu senhor (ajoelha-se). Sob as ordens de Vossa Excelência e a bênção de Deus o faremos!

Tecelão - Cumpriremos a nossa missão!

Grão-duque - Então, mãos à obra.

Saem todos. Os dois vigaristas ficam a sós, dão gargalhadas, rodam o corrupio.

Tecelão e tecelã (para o público) - O que é a humanidade...


(Trecho da peça O Alfaiate do Rei, de Maria Clara Machado, baseada no conto de Hans Christian Andersen A Roupa Nova do Rei)

14.5.04

Sei lá porque, o Blogger não deu as caras por aqui ontem. Deve ser adaptação ao novo sistem, sei lá. De qualquer forma, estes são os posts acumulados enquanto Blogger está fora do ar:

"Se alguma mulher roubar seu marido, vingue-se: deixe que ela fique com ele."




Sobre o protesto de ontem dos funcionários do Pesagro, que distribuiriam 2.000 galinha, diz o JB hoje, na primeira página que eles "melhoraram o jantar de quem trabalha no Centro do Rio".

E fiquei pensando cá com meus botões: quem ainda abate frango em casa? Porque, que nem criança urbana, criada longe de fazendas e grandes quintais, eu mal consigo estabelecer conexão entre aquele animal cheio de penas e o mirrado filé de peito grelhado da minha dieta. Será que é sintoma de esquizofrenia não associar aquele pedaço de carne congelada do supermercado àquele bicho engraçado e dado à ciscadas?

Não consigo comer animal que eu vi vivo. Costumo dizer que se minha vida fosse mais rural, acabaria por virar vegetariana. Já vi muita galinha ser abatida nos fundos de casa pra poder contar pra vocês: meninos, não é uma coisa bonita de se ver.

Além disso, herdando a vocação do meu pai, minha irmã também é veterinária e de vez em quando, nos tempos de faculdade, levava uns frangos pra estudar em casa. Bem, não eram os frangos o seu dever de casa, eram os vermes dos galináceos. Depois de ter contaminado minha retina com aquelas imagens era pra eu nunca mais experimentar a ave. Fazer o quê? Sou sem-vergonha mesmo.

Mas a foto da cacarejante me fez imaginar o sujeito voltando da hora do almoço com a penosa de baixo do braço pro escritório. Será que amarrou o bichinho ao pé da escrivaninha? E ainda, sobraçando a bicuda enquanto espera o elevador, encontra a mulher, também ela voltando do trabalho e mostra orgulhoso o futuro jantar. Quem se encarregará da degola? Quem ainda se lembrará dos rituais? Em que parte do minúsculo apartamento fazer isso? Que estranho processo leva os construtores a entregar imóveis cada vez mais reduzidos em suas dimensões a uma população cuja altura média cresce visivelmente e quando floresce a geração canguru? Quem matou Lineu Vasconcelos? Perguntas que não querem calar...

Felizmente nos dias de hoje podemos devorar nossos fasianídeos com farofa e hipocrisia à mesa sem nos preocuparmos com a morte e o sangue no tanque de roupas. Fico muito contente em trazer pra casa meu prato do dia já depenado, sem pele e quiçá desossado.

Não sinto a menor nostalgia dos tempos de perseguição e decapitação no quintal. Por isso não sou como os saudosistas que vivem a chorar pelo tempo que se foi. Lembro daquela frase do saudoso sambista João Nogueira que dizia que não é que os carnavais de antigamente fossem melhores; você é que não tem mais dezoito anos.




Transcrição na íntegra das palavras de Lúcia de Jesus que contêm a revelação da primeira e segunda partes do segredo de Fátima escritas por Lúcia no ano de 1941 e conhecidas logo a seguir:

"(...) o segredo consta de três coisas distintas, duas das quais vou revelar. A primeira foi pois a vista do inferno! Nossa Senhora mostrou-nos um grande mar de fogo que parecia estar debaixo da terra. Mergulhados nesse fogo os demônios e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras , ou bronzeadas com forma humana, que flutuavam no incêndio levadas pelas chamas que delas mesmas saiam, juntamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados, semelhante ao cair das faúlhas em os grandes incêndios sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero que horrorizava e fazia estremecer de pavor.

Os demônios distinguiam-se por formas horríveis e acrosas de animais espantosos e desconhecidos, mas transparentes e negros.
Esta vista foi um momento, e graças à nossa boa Mãe do Céu; que antes nos tinha prevenido com a promessa de nos levar para o Céu (na primeira aparição) se assim não fosse, creio que teríamos morrido de susto e pavor.
Em seguida, levantamos os olhos para Nossa Senhora que nos disse com bondade e tristeza: Vistes o inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores, para as salvar, Deus quer estabelecer no mundo a devoção a meu Imaculado Coração.

Se fizerem o que eu disser salvar-se-ão muitas almas e terão paz. A guerra vai acabar, mas se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI começará outra pior. Quando virdes uma noite, alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai a punir o mundo dos seus crimes, por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre. Para a impedir virei pedir a consagração da Rússia a meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz, se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja, os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas, por fim o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz".


Terceira parte do Segredo de Fátima, revelado em 13 de Julho de 1917, em Fátima, eue a Ir. Lúcia dos Santos, a única das três videntes ainda viva, redigiu em 03 de Janeiro de 1944:

"Escrevo, diz Ir. Lúcia, em ato de obediência a Vós meu Deus, que me mandais por meio de Sua Excelência Reverendíssima o Sr. Bispo de Leuria, e da Vossa e minha Santíssima Mãe. Depois das duas partes que já expus, vimos ao lado esquerdo de Nossa Senhora, um pouco mais alto, um anjo com uma espada de fogo na mão esquerda.
Ao cintilar despedia chamas que pareciam incendiar o mundo. Mas, apagavam-se com o contato do brilho que da mão direita expedia Nossa Senhora ao seu encontro. O anjo, apontando com a mão direita para a terra, com voz forte dizia: - Penitência, penitência, penitência.

E vimos numa luz imensa, que é Deus, algo semelhante a como se vêem as pessoas no espelho, quando lhe diante passa um bispo vestido de branco. Tivemos o pressentimento de que era o Santo Padre. Vimos vários outros bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas subir uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma grande cruz, de tronco tosco, como se fora de sobreiro como a casca. O Santo Padre, antes de chegar aí, atravessou uma grande cidade, meia em ruínas e meio trêmulo, com andar vacilante, acabrunhado de dor e pena. Ia orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho.

Chegando ao cimo do monte, prostrado, de joelhos, aos pés da cruz, foi morto por um grupo de soldados que lhe disparavam vários tiros e setas e assim mesmo foram morrendo uns após os outros, os bispos, os sacerdotes, religiosos, religiosas e várias pessoas seculares. Cavalheiros e senhoras de várias classes e posições. Sob os dois braços da cruz, estavam dois anjos. Cada um com um regador de cristal nas mãos recolhendo neles o sangue dos mártires e com eles irrigando as almas que se aproximavam de Deus."

12.5.04

Ligaram ontem da escola para que eu fosse buscá-lo mais cedo porque apresentava sintomas da epidemia do momento: conjuntivite.

Como ele teria que ter um atestado médico para hoje, fosse garantindo que não era contagioso e que ele poderia freqüentar as aulas ou abonando suas faltas, de lá fomos direto para oftalmologista. Conseguimos o último horário do dia na clínica. O pai passou de carro pela escola e por aqui em casa porque a carteirinha do plano de saúde estava comigo. Resolvi ir junto, na última hora, embora tivesse um compromisso profissional marcado em Copacabana às 19h00. Ia dar tempo.

Ele veio chorando no carro, aborrecidíssimo porque não poderia ir à aula de vôlei. Na sala de espera do consultório, observei sua apreensão, porque ele não conseguia se manter sentado. Ao contrário do normal, nada prendia sua atenção, nem a onipresente TV, nem as revistas, nem o game do celular, nem o papo de mãe tentanto tranquilizar o filho.

A médica, já conhecida, mal conseguia andar. Era o último horário de seu último dia antes da licença maternidade. No primeiro exame verificou-se que o menino está com dificuldades para enxergar. Ele, ainda mais contrariado, ouviu quando ela disse que depois que terminar a infecção, ele deve voltar para um exame mais detalhado. Provavelmente terá que usar óculos. Pinga colírio. Protestos inúteis. Aplica anestésico. Aí, isso arde muito! Não fique nervoso, só vou mexer na pálpebra pra ter certeza. Ei, não faz isso. Não se joga desse jeito que...

Bum! Ele caiu desmaiado pra trás e bateu com o parte posterior da cabeça com toda força no chão de granito. E ali ficou, com os olhos abertos e sem qualquer reação, completamente desacordado. Só me dei conta de que eu estava gritando quando a recepcionista entrou no consultório com ar desesperado para ver o que estava acontecendo. Olhei para a médica. Ela estava quase tão assustada e surpresa quanto eu. Não sei fazer parto e a barriga dela parecia maior que nunca.

Próxima parada: pronto-socorro infantil. O gigantesco galo cantava retumbantemente. O garoto só reclamando de fome e muito sono. Oh, céus! Sono não. Cadê o neurologista? Compromisso em Copacabana? Que compromisso em Copacabana? Cliente esperando retorno de ligação? Amanhã é outro dia.

Raio X. Ficha a preencher. Pesa, mede, examina. E então, doutora? Talvez seja necessária uma tomografia. Talvez seja necessário internar para ficar em observação. Alergia a algum alimento?

Finalmente o neurologista chega. Antecedentes? Não. Histórico familiar? Não. Ô garoto, você tava nervoso por causa do exame? Bingo! Ele até deu um nome bonito e pomposo pra esse tipo de reação de medo, comum em crianças em relação aos procedimentos médicos, mas já não estava mais ouvindo, tamanho o alívio.

O restaurante que eu quiser, mãe? A comida que eu quiser, pai?

Muita pizza no rodízio da Parmê pra comemorar que do coração não morremos mais.

Mas adivinha quem passou a noite em claro, levando muito a sério, corujamente, a recomendação de observação!

11.5.04

Kill Bill


Uma vez assisti na televisão a uma entrevista Maria Adelaide Amaral em que ela falava sobre a língua e os povos. Ela contava de uma viagem de carro que fazia com amigos brasileiros pelo interior de seu Portugal natal quando resolveram parar e pedir informações:

- Com licença, senhor. Bom dia. Esta estrada vai para a Espanha, perguntou um de seus companheiros de jornada.
- Se for, respondeu o lusitano abordado por eles, há de nos fazer muita falta.

A autora usava o episódio para ilustrar as diferenças entre o idioma português falado no Brasil e aquele usado na terrinha, observando que eles diziam muito sobre o caráter de cada povo. Concluiu afirmando que não é o gênio da nação que molda a língua, mas a língua que determina os limites do pensamento da nação.

Algo como o defendido por George Orwell no livro 1984, onde uma nova língua é imposta. Assim, especulava o grande escritor, sem palavras como “liberdade” seria impossível dominar seus conceitos.

E ainda havia um artigo que li uma vez que aventava a hipótese de as expressões em cada idioma acabarem por entregar as mazelas de cada civilização. Um flagrante, por exemplo, no Brasil seria “ser pego com a boca na botija”, o que indicaria o delito de quem furta para saciar a própria fome, traindo a endêmica miséria. Já em inglês, “caught with a smoking gun”, traduziria o traço armamentista dos estadunidenses.

Arrisco ao ir um pouco mais longe dizendo que todo o produto cultural de um país é a transpiração de sua essência em termos de sentimentos e visão da vida.

Kill Bill
fala muito mais do que deveria sobre a substância da gente que na primeira metade da primeira década do novo milênio já invadiu dois países, sustentou um golpe de estado na América do Sul e apoia incondicionalmente todas as insanidades israelense. Kill Bill também deixa escapar que tipo de alma habita jovens que resolvem seus problemas saindo um dia para a escola com o irredutível propósito de chacinarem todos os seus colegas e professores. Kill Bill imprime na tela o mesmo sorriso que a soldado torturadora tinha no Iraque. Kill Bill espirra sangue e o mal gosto. Kill Bill pretende transformar em arte o grotesco, evocando a honra samurai, assim como Bush pretende convencer o mundo de que sua sanha petrolífera tem a ver com Deus e o espírito dos pais da América, que devem estar se revolvendo em seus túmulos. Kill Bill entrega tudo. Com o risco adicional de ser uma retroalimentação.

Uma débil esperança me faz acreditar que depois da publicação das fotos hediondas o mundo vai acordar e começar a agir em relação às arbitrariedades do império e talvez até acabe com a vergonha para a humanidade chamada Guantanamo e outras bases ianques espalhadas pelo globo. Também me permito crer que não financiando mais produções como essas com o suado dinheiro do meu ingresso posso ajudar - como o beija-flor que transporta em seu bico a água para apagar o incêndio da floresta – a transformar este mundo num lugar melhor, onde pessoas como Tarantino recebam tratamento de saúde adequado ao seu caso.

Se perder essa fé, talvez acabe concordando com aqueles que apontam o roteirista e diretor como genial e eu deva me auto-flagelar por ser tão inculta e não dominar o universo citado em seu filme, por não admirar o desrespeito à vida humana, por não vislumbrar toda a plasticidade de uma mutilação, de uma decapitação, de uma chacina, de uma multidão sanguinolenta gemendo.

Kill Bill é a obra perfeita para quem prefere deixar de lado tudo de bom com que os Estados Unidos brindou o mundo - desnecessário desfiar exemplos como rock’n’roll e Woody Allen - e escolhe a cardina e o chorume do Tio Sam.

10.5.04

Eu sei, você tá achando tudo uma bosta.

Mas já reparou que:

* já são dois anos sem mortandade de peixes na Lagoa Rodrigo de Freitas?
* os manguezais dão sinais claros de crescimento?
* os socós começaram a voltar à região?

Você é uma das 50 mil pessoas que desfrutam as delícias da Lagoa nos finais de semana? Aproveita o local privilegiado pra umas caminhadas?

Já reparou o que está diante de você quando sai do Túnel Rebouças?
Fico abismada com a quantidade de Medéias que encontro.

Essas mulheres mal-amadas e/ou traídas que usam os filhos para punir e torturar (ex-)maridos podem até ratificar um dos mais antigos mitos da humanidade, mas que é nojento, covarde e pesadão pro carma, não há dúvidas.
Respondendo a um e-mail (com adaptações):

Vejo muitas meninas hoje reclamarem dos garotos que exigem super-mulheres perfeitas em todos as novas necessidades dos novos papéis, sem descuidar em nada do velho roteiro da Amélia e da mulher de Atenas.

Sabe que eu venho de um ponto no tempo e no espaço que ainda se valorizava a virgindade. Minha mãe, mesmo dando um excelente educação sexual pra mim e minhas irmãs, vivia repetindo que os rapazes não queriam casar com meninas que não fossem virgens. Até que um dia respondi pra ela que era eu quem não queria me casar com um homem tão inseguro que tivesse que se calcar na virgindade da moça.

Pois esses moços impertinentes não servem para nós, mulheres cheias de qualidades, mas passíveis de falhas pela própria condição humana.

Mas temos que tomar cuidado para não virarmos uma versão feminina desses chatos, exigindo deles o impossível.
No sábado, mais uma vez, fui à Portela para um de seus almoços de samba. Adoro o ambiente de samba. Há sempre uma aura de confraternização, uma felicidade contagiante, um prazer...

E cada dia vejo que isso é o contrário do que ocorre com outra grande riqueza da cultura nacional, o futebol. O esporte bretão anda rodeado de violência dentro e fora dos campos, muita briga, muita morte. Da minha janela, observo as torcidas indo e vindo. Enquanto nas escolas de samba, independente da competição, há sempre respeito pelas adversárias, no futebol, faz parte da graça espezinhar o oponente.

Noto - em algumas torcidas isso é mais evidente - que ainda mais comemorada que a própria vitória é a derrota do rival. Se você duvida, procure um vascaíno num dia em que o time cruzmaltino arrebenta a boca do balão e depois num dia de derrota do rubro-negro. É fácil constatar que nada lhe dá mais prazer que ver o Flamengo perder. Se for vexaminosamente, tanto melhor.

É por essas e por outras que acho que um ciclo do futebol brasileiro está encerrado. Talvez também faça parte do processo o enfraquecimento dos times cariocas, com sua jugular entregue aos cartolas. Outra razão poderia ser o fato de os jogadores não mais fazerem a bola rolar por gosto pelo esporte ou por amor ao seu clube. Joga-se pelos grandes deuses, o dólar e o euro. Tão logo conseguem alguma projeção, os rapazes arribam para o Velho Continente, para as Arábias, para a Terra do Sol Nascente. Fica por aqui quem (ainda) não conseguiu se destacar, quem não se adaptou e voltou com rabinho entre as pernas, quem já deveria ter se aposentado. Enfim, o sobejo.

E é dessa lavagem que se faz o futebol que se joga no Brasil hoje.
A cara nova do Blogger está muito bonitinha. Ainda estou testando pra ver se ficou mais prática também.

Ele está de volta, com carga total. Por favor, visitem e comentem.

6.5.04

Século XX - década de 40:

AI, QUE SAUDADES DA AMÉLIA
(Ataulfo Alves e Mário Lago)

Nunca vi fazer tanta exigência
Nem fazer o que você me faz
Você não sabe o que é consciência
Nem vê que eu sou um pobre rapaz

Você sé pensa em luxo e riqueza
Tudo o que você vê, você quer
Ai, meu Deus, que saudades da Amélia
Aquilo sim é que era mulher

Às vezes passava fome ao meu lado
E achava bonito não ter o que comer
E quando me via contrariado
Dizia: "Meu filho, o que se há de fazer!"

Amélia não tinha a menor vaidade
Amélia é que era mulher de verdade


Século XX - década de 70:

MULHERES DE ATENAS
(Chico Buarque - Augusto Boal/1976
Para a peça Mulheres de Atenas de Augusto Boal)

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Vivem pros seus maridos, orgulho e raça de Atenas
Quando amadas, se perfumam
Se banham com leite, se arrumam
Suas melenas
Quando fustigadas não choram
Se ajoelham, pedem, imploram
Mais duras penas
Cadenas

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Sofrem pros seus maridos, poder e força de Atenas
Quandos eles embarcam, soldados
Elas tecem longos bordados
Mil quarentenas
E quando eles voltam sedentos
Querem arrancar violentos
Carícias plenas
Obcenas

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Despem-se pros maridos, bravos guerreiros de Atenas
Quando eles se entopem de vinho
Costumam buscar o carinho
De outras falenas
Mas no fim da noite, aos pedaços
Quase sempre voltam pros braços
De suas pequenas
Helenas

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Geram pros seus maridos os novos filhos de Atenas
Elas não têm gosto ou vontade
Nem defeito nem qualidade
Têm medo apenas
Não têm sonhos, só têm presságios
O seu homem, mares, naufrágios
Lindas sirenas
Morenas

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Temem por seus maridos, heróis e amantes de Atenas
As jovens viúvas marcadas
E as gestantes abandonadas
Não fazem cenas
Vestem-se de negro, se encolhem
Se conformam e se recolhem
Às suas novenas
Serenas

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Secam por seus maridos, orgulho e raça de Atenas


Século XXI:

PAGÚ
(Rita Lee e Zélia Duncan)

Mexo e remexo na inquisição
Só quem já morreu na fogueira sabe o que que é ser carvão
Eu sou pau pra toda obra
Deus dá asas à minha cobra
Minha força não é bruta
Não sou freira, nem sou puta

Porque nem
Toda feiticeira é corcunda
Nem
Toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone
Sou mais macho que muito homem

Sou rainha do meu tanque
Sou Pagú indignada no palanque
Fama de porra louca...tudo bem
Minha mãe é Maria ninguém

Não sou atriz
Modelo ou dançarina
Meu buraco é mais em cima

Porque nem
Toda feiticeira é corcunda
Nem
Toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone
Sou mais macho que muito homem



ELA É BAMBA
Ana Carolina

Ela é bamba
Ela é bamba essa preta do Pontal
Cinco filhos pequenos pra criar
Passa o dia no trampo pau e pau
Ainda arranja um tempinho pra sambar
Quando cai na avenida ela é demais
Todo mundo de olho ela nem aí
Fantasia bonita ela mesmo faz
Manda todas não erra a mira
Mãe passista atleta manicure diplomata
Dona da boutique enfermeira acrobata

Ela é bamba ela é bamba ela é bamba
Ela é bamba ela é bamba ela é bamba

Ela é bamba essa índia da Central
Vai no ombro um cestinho com neném
Oito quilos de roupa no varal
Ainda vende cocada nesse trem
Toda sexta ela fica mais feliz
Vai dançar numa boate do Jaú
Faz um jeito e já pensa que é atriz

Cada dia inventa um nome
Dora Isaura Emília Teresinha e Marina
Ana Rita Joana Iracema e Carolina

Ela é bamba

Ela é bala a mestiça é todo gás
Cada braço é uma viga do país
Abre o olho com ela meu rapaz
Ela é quase tudo que se diz
Quando compra briga ela é demais

Vai no groove e não deixa desandar
Ela é pop ela é rap ela é blues e jazz
E no samba é primeira linha
Laura Lígia Luma Lucineide Luciana
Quer seu nome escrito numa letra bem bacana

5.5.04

Tá legal!

É imaturidade dizer "Viu? Eu não disse?"

É crueldade dizer "Bem feito!"

Mas tem umas situações, para as quais a gente alertou, advertiu, aconselhou, em que o óbvio se cumpre e a gente tem que se prostrar rogando por maturidade e compaixão.

Haja antídoto para ignorância temperada com teimosia!
Graças a um trabalho que às vezes se torna bem duro, estou tendo muito contato com a Bíblia. Como tudo o que vivencio acaba se grudando à minha história e a mim, de alguma forma e já que esse blog, embora não seja um retrato, é um eco da minha vida, talvez eu sinta vontade de postar alguma coisa que me toque mais profundamente por aqui, com suas reflexões associadas ou não.

Tudo depende de impluso, vontade e tempo, o que não é mau.

Mas, talvez, esta vontade não surja mais, simplesmente por seguir os ensinamentos contidos nas mensagens que enviaria.
Sabe o que é melhor do que assistir um show de uma artista cuja carreira que você vem observando de longe há tempos?

Assistir a este show no espaço VIP.

Sabe que é mais bacana que assistir àquele show especial no espaço VIP?

Receber um telefonema informando que você foi sorteado e vai para o espaço VIP em esquema BLT (boca livre total).

O que, além da companhia já confirmada do homem da sua vida, poderia ser mais legal que isso?

Um amigo de fora da cidade ligar e marcar de encontrar com você lá.

4.5.04

"O mundo pertence aos otimistas; os pessimistas são meros espectadores."
Eisenhower

"De nada vale tentar ajudar aqueles que não se ajudam a si mesmos."
Confúcio

"O pessimista considera o sol apenas como um fazedor de sombras."
Décio Valente

"Os fracos acomodam-se... Os fortes lutam por uma melhor posição na vida."
Dinamor

"Nunca está só quem possui um bom livro para ler e boas idéias sobre as quais meditar."
Renato Kehl

"Nada tem qualquer poder sobre mim, além daquilo que permito por meio de meus pensamentos conscientes."
Harold Hoppkins

"Há pessoas que não sabem viver sem depender dos outros.São como certos animais que só vivem bem quando têm dono."
Célio Devenat

"Há um momento que é preciso parar de sonhar ....... e partir."
Amir Klinck

"Nada jamais será tentado, se todas as objeções possíveis tiverem de ser superadas antes."
Samuel Johnson

"Qualquer um pode ficar zangado - isto é fácil. Mas zangar-se com a pessoa certa, na intensidade correta, no momento adequado, pelos motivos justos e da maneira mais apropriada - isto não é fácil. "
Aristóteles

"O que somos é conseqüência do que pensamos."
Buda

"Pelos erros dos outros, o homem sensato corrige os seus."
Oswaldo Cruz
Você conhece a Valquíria?
"Quem inicia a Busca sabendo o que vai encontrar, está longe da verdade".

3.5.04

Estranhos no paraíso
(Paulo Blank)


Não fosse a cobra, falaríamos todos a mesma língua clara, sem subterfúgios. Foi ela que introduziu a sedução como modo de desviar o outro do próprio caminho. Sua fala enganadora nos expulsou do paraíso da transparência. Foi sobre isso que conversei com o vendedor de cachorro-quente na esquina de casa, em Botafogo. Gilberto, um Bíblia, como se dizia, vive pregando e tentando me converter. Inteligente, daria bom pastor de almas. Ando até pensando em propor-lhe uma esquina de estudos bíblicos, um Café Philo tropical.

Quando passei, Gilberto me saudou com o Shalom de sempre e puxou papo. Dia quente de céu azul, o cheiro do cachorro-quente enchendo o ar, os carros passando, entabulamos uma conversa que já inventou um povo e está em vias de criar outro. Refiro-me ao apego ao texto bíblico e ao desejo obsessivo de não parar de extrair mensagens dele. Hábito que eu e Gilberto cultivamos com prazer. Só que há duas maneiras de entrar neste pomar secreto. Uma é penetrar as palavras sabendo que ali podemos encontrar uma infinidade de sentidos. Outra é fazer todo mundo ler pela mesma cartilha e, se alguém entender diferente, vêm as expulsões e as excomunhões para deixar claro qual a largura da estrada que o pensamento pode trilhar sem oferecer perigo.

Agora éramos três na esquina. De calção e chinelo, o recém-chegado foi dizendo: "Para entrar no céu tem que quebrar o ego". Olhei espantado, o homem me tocou. Quis saber de onde saíra aquela conversa budista de quebrar o ego e me mostraram o livro. Guardado com carinho numa pasta de plástico transparente, fechado com zíper a salvo de respingos impuros de fritura, o livrinho surgiu nas mãos do Gilberto. O autor é japonês, só podia. Argumentei que esta contribuição era do Oriente e eles, dois sábios seguindo a estrela de Belém, concordaram. Pouco a pouco, uma ponte de entendimentos de erguia sobre a fumaça do cachorro-quente e o abismo social que nos separa. A miscigenação holística dos trópicos dava vida às palavras geradas no ardor do longínquo deserto. Esqueci de dizer, um fícus centenário lança enorme sombra sobre a esquina, abrigando passantes que param para um lanche ou uma conversa bíblica.

Quando a cobra entrou no papo, peguei um guardanapo e anotei: narrash. Em hebraico, a língua em que a história foi escrita, cobra é narrash. Ao lado escrevi nirrush, que significa adivinhação. Os sábios antigos concluíram, comparando as palavras, que a cobra era sedutora e falava por alusões misteriosas como falam os adivinhos quando querem impressionar. O seu nome já dizia quem era. A cobra, o tal narrash, introduziu no paraíso o papo envolvente. Antes, Adão e Eva eram seres de luz. Sua relação era transparente, suas palavras claras. Depois de comer a fruta da enganação, Eva transou com a serpente e seu esperma misturado ao de Adão gerou filhos que perderam a luz divina da qual foram criados. Cobertos de peles, Adão e Eva ficaram opacos, perderam a existência translúcida e nós, descendentes desse triângulo pouco amoroso, vivemos até hoje falando através de vestimentas que disfarçam nossos objetivos. A cobra, como é fácil perceber, deixou vestígios. Prometemos coisas que não cumprimos, inventamos motivos que não existem, camuflamos sentimentos e intenções sob camadas de peles rugosas para que outros não percebam a luz de nossas intenções. E, quando alguém resolve falar claro, sem subterfúgios, é chamado de radical e, num julgamento cheio de cobras espertas, condenado ao desterro. Em certos países tropicais, estranhos são os que insistem em falar claro.

30.4.04

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DORIVAL CAYMMI
90 ANOS




A história da música popular brasileira passa obrigatoriamente pela música de Dorival Caymmi, que para nossa alegria continua firme e saudável ao completar hoje 90 anos.

Como não poderia deixar de ser, as homenagens pululam pelo Brasil afora.

A imagem da Bahia como é hoje no imaginário popular deve-se, em grande parte, à obra deste grande compositor. Mas ele, malandro velho, não se deixa pegar quando lhe perguntam porque mora no Rio e passa longas temporadas em Minas - seria ele realmente baiano, carioca ou mineiro? Ele sorri daquele jeito gostoso e responde com calma: sou brasileiro.

Viva Caymmi!




Pachorra

Contam que a música João Valentão demorou uma década para ficar pronta.

Quem compôs Suíte dos Pescadores, É Doce Morrer no Mar, A Preta do Acarajé, O que É que a Baiana Tem?, Só Louco, só para citar algumas, pode passar a vida cochilando na rede.

Amor

Hoje também é aniversário de casamento de Dorival Caymmi com Stella Maris. São 64 anos de um amor que começou na Rádio Nacional.

Prole

Outro aniversário comemorado hoje é o de Nana, a primogênita. Além dela o casal teve Dori e Danilo. Todos são talentosíssimos elementos da música popular brasileira. Assim, Caymmi, além de uma obra musical primorosa, enriqueceu a terra com seus genes.