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29.11.02

só testando
Minha irmã caçula faz aniversário hoje e não vou vê-la.
Isso é uma prova de que definitivamente minha vida virou de cabeça para baixo nos últimos anos.
Não sou mais a mesma pessoa. Ou talvez seja, talvez apenas uma pequena mutação, talvez o tempo, talvez a conjuntura, talvez o clima, talvez a vida, talvez a roda viva, talvez a vista e os ouvidos tenham melhorado, talvez eu tenha ficado míope e mouca...
As grandes mudanças acontecem sem que a gente se dê conta.

28.11.02

Os bem-te-vis da vizinhança entraram em surto e me denunciam alucinadamente. Eles também devem estar assando, derretendo, murchando...
Para mim, as imagens e os sons vão sumindo na distância.
Nem ouso investigar se a pressão está muito baixa ou muito alta.
Os refluxos de uma peça teatral de quatro horas assombram ainda minha mesa de trabalho.
Não há chibata, apenas um zunido forte no ouvido que vem de dentro de mim mesma.
Nada me apetece. Já não suporto alface e frango grelhado.
Suo.
Penso seriamente em me inscrever no Guiness Book of Records na categoria maior número de banhos tomados num único dia.
Desisto. Vai dar muito trabalho.
Os dias nos dois últimos meses do ano deveriam dobrar de tamanho para que a gente não se sentisse tão incapaz de realizar tudo o que aparece para ser feito. E o que aparece não é apenas o imprevisto, mas tudo aquilo que você jurou, no final do ano passado, entre listas e sacolas sem fim, que deixaria concluído antes do final de outubro.
Acho que vou me mudar para dentro da geladeira.
Olho para todo o trabalho doméstico, familiar, profissional, social, maternal e o escambau a ser ainda feito e penso que o pior é que sonhada e impossível praia é um dos poucos remédios que conheço para curar novembrite.

26.11.02

Oráculo (porque as questões poderiam ser outras, mas resposta seria a mesma)



"Prezado Professor: temos de ser escravos do Português correto? Muitas vezes me sinto um pouco pedante ao pronunciar corretamente algumas palavras que são geralmente maltratadas: /rubríca/, /recórde/, /condôr/, /catetér/, /crôsta/ (os acentos aqui servem apenas para indicar o som) ... Devo continuar assim, ou é melhor falar como todos falam?".

Andréia Prado
______________________




Minha cara Andréia: entendo perfeitamente tua hesitação: muitos já sentiram essa tentação de afrouxar o controle sobre a linguagem e mergulhar no morno e aprazível mar da ignorância. Todos sabemos que é menos penoso e dá menos trabalho; no entanto, devemos seguir lutando, porque escolher o próprio destino, em vez de deixar que os outros o façam por nós, deixa nossa vida muito mais qualificada.

Volto mais uma vez à minha eterna comparação entre língua e vestimenta: entre duas formas igualmente aceitáveis, escolhe aquela em que te sentes mais à vontade. Nota bem: entre duas formas aceitáveis. Um dia desses escrevi sobre "onde" e "aonde" com verbos de movimento; as duas têm justificativas e bons defensores - escolhe a que te parece mais confortável. Agora, entre /rubríca/ e /*rúbrica/, a escolha se dá entre o culto (paroxítona) e o inculto (proparoxítona; neste caso, a pronúncia defeituosa também induz a erro de acentuação na grafia). Aqui não deves hesitar em escolher a correta.

Azar que soe pedante - é sinal de que, à tua volta, as pessoas andam precisando de mais estudo. Se lês a minha página e te preocupas em perguntar, é porque dás valor à linguagem que empregas; se a maioria não o faz, pior para eles. E um aviso: quanto mais estudares, quanto mais leres, mais vai parecer que os outros estão ficando para trás (na verdade, estão mesmo). Agora, se queres ser como a maioria (o que eu duvido), relaxa, fica feliz e nunca mais te preocupes com problemas de linguagem; até já me disseram que é mais fácil viver assim... Eu, hein? Abraço. Prof. Moreno


(retirado daqui)

25.11.02

É bobagem sim, mas é divertido.
Qual é a boa?

- Seu Jorge no Rival hoje e amanhã.

- Ed Motta de 27 a 30 de novembro, de 4 a 7, de 11 a 14 e de 18 a 21 de dezembro no Rival.

- Búzios Cine Festival

- Novo centro cultural na Barra com café, auditório e teatro para até 300 pessoas. Cursos de teatro para a terceira idade, percussão e violão. Centro Cultural Suassuna (2439-8002).

- Madame Satã

- 4º Salão do Livro para Crianças e Jovens. Galpão das Artes do MAM. Até 1º de dezembro.
Hoje é o Dia Nacional do Doador Voluntário de Sangue.

Você sabe se pode doar sangue? Já doou vida alguma vez?

Meu mundo é hoje (eu sou assim)
(Wilson Batista / José Batista)

Eu sou assim
Quem quiser gostar de mim:
Eu sou assim

Eu sou assim
Quem quiser gostar de mim:
Eu sou assim

Meu mundo é hoje
Não existe amanhã prá mim
Eu sou assim
Assim morrerei um dia
Não levarei arrependimento
Nem o peso da hipocrisia

Tenho pena daqueles
Que se agacham pelo chão
Enganando a si mesmos
Por dinheiro ou posição
Nunca tomei parte
Nesse enorme batalhão
Pois sei que além de flores
Nada mais vai no caixão
.
A palavra de hoje é: Ylem.

23.11.02

Vi coisas estranhas hoje:

- Num salão de beleza, uma banca com diversos itens de maquiagem a R$5,00. Batom, blush, corretivo, base, gloss, tudo, qualquer coisa R$5,00. Achei tão estranho que resolvi olhar de perto. Todos, absolutamente todos com o prazo de validade vencido. Uma praga de cupim ia bem na cara daquele povo.

- Uma família estava sentada à nossa frente no restaurante. Depois da conta paga, todos se leventaram com exceção daquela que parecia ser a mãe das crianças. Ela ficou ali ajeitando, mexendo e quando achou que ninguém estava olhando jugou o resto da água que estava servido nos copos de volta para a garrafa de água mineral que levou com ela. Podem me chamar de perdulária, mas taí uma coisa que ninguém vai me ver fazendo.

- O público do show do Rush.

- Harry Potter e a Câmara Secreta.
É hora do Rush. A vizinhança está pegando fogo. Helicópteros ameaçam invadir minha janela.

22.11.02

Isso está aqui porque quando li lembrei da Paula:

"Catar feijão se limita com escrever: joga-se os grãos na água do alguidar e as palavras na folha de papel; e depois, joga-se fora o que boiar."
(João Cabral de Melo Neto)
Ricardo, depois de se dar conta que era a única pessoa no país que jamais tinha ouvido a dita demoníaca canção, resolveu correr atrás do prejuízo e descobriu um site que conta tudo o que você sempre quis saber sobre a Ragatanga e nunca teve coragem de perguntar.

Por exemplo:

Aserejé é uma canção que fala sobre uma outra canção. Ela conta a história de Diego, um rastafariano negro-cigano que passa as noites dançando rap e hip-hop. Ele gosta de uma certa música de 1979 chamada "Rapper's Delight", do conjunto de rap Sugar Hill Gang, formado em 1977. Acontece que o Diego não conhece direito a letra da canção por não saber inglês, então pronuncia as palavras mais ou menos do jeito que as escuta. Assim, "Aserejé" é a pronúncia espanhola deturpada de "I said a hip", trecho tomado da canção original.

Esta história em detalhes (inclusive com letras comparadas), os passos da dança que ameaça ser a febre do verão que se avizinha e tudo o mais que se possa imaginar sobre o assunto, aqui.

Você está me julgando uma desocupada por ter um post destes, certo? Pois devo dizer em minha defesa que ele está engatilhado há dias. E depois de ver um cara criar um site dedicado a Ragatanga, conheci o verdadeiro sentido da palavra ócio e percebi que ele é algo inatingível para mim.
"M-MÚSICA DESAFINA A FOME"


A M-MÚSICA, um dos mais ativos grupos na Internet de discussão sobre música, sai do virtual e entra na campanha NATAL SEM FOME, organizada pela Ação da Cidadania Contra a Fome, a Miséria e Pela Vida:

Os shows serão realizados no Rio de Janeiro, São Paulo, Fortaleza, Curitiba e Brasília, e contarão com as apresentações de artistas, produção e divulgação de integrantes do grupo e convidados.

Venha e traga um kilo de alimento não perecível.

Rio de Janeiro
Apresentando Arthur Verocai, Carlos Montes, Clarisse Grova, Cláudia Telles, Cláudio Jorge, Cristina Saraiva, Denise Pinaud, Eduardo Braga, Eliane Tassis, Irinéia Maria, Etel Frota, Felipe Radiccetti, Fernando Leporace,, Marcílio Figueiró, Moína Braga, Paula Santoro, Reynaldo Bessa, Sanny Alves, Suely Mesquita, Tânia Méliga, Tato Fischer.

Produção: Tânia Méliga
Sala Funarte Sidney Miller - Rua da Imprensa, 16, esquina com Araújo Porto Alegre.
Dia 05/12/2002, quinta-feira, às 18h30.

Direção Geral:
Nana Valente Soutinho
nana@m-musica.org

21.11.02

Hoje recebi uma notícia de morte.

Hoje recebi este presente lindo da Adriana. Estava em um metablog (que idéia genial!).



Muitos beijos a Adriana, a menina super-poderosa, porque graças a ela o dia foi salvo.

E para quem está em meu pensamento sempre com carinho e amizade, hoje mais que nunca, com preocupação e pesar, um beijo e minha prece silenciosa, que nessas horas as palavras só atrapalham.

20.11.02


Martinho da Vila
cantor e compositor

Minha bisavó era purinha, bem limpinha
De Angola
O meu bisavô também ourinho, bem limpinho
De Moçambique
Eu não sou branquinho, nem pretinho
A minha dona é moreninha
Eu tenho muitos mulatinhos
Salve! salve!
Salve a mulatada brasileira!
Salve a mulatada brasileira, salve! salve!
Salve a mulatada brasileira!

José do Patrocínio
Alejadinho
Machado de Assis que também era mulatinho
Salve a mulatada brasileira!
Salve a mulatada brasileira, salve! salve!
Salve a mulatada brasileira!


(trecho da música Salve a Mulatada Brasileira de Martinho da Vila)




Elisa Lucinda
poeta, professora, jornalista e atriz

Mulata exportação
Elisa Lucinda

Mas que nega linda
E de olho verde ainda
Olho de veneno e açúcar!
Vem nega, vem ser minha desculpa
Vem que aqui dento ainda te cabe
Vem ser meu álibi, minha bela conduta
Vem, nega exportação, vem meu pão de açúcar!
(Monto casa procê mas ninguém pode saber, entendeu meu dendê?)
Minha tonteira minha historia contundida
Minha memória confundida, meu futebol, entendeu meu gelol?
Rebola bem meu bem-querer, sou seu improviso, seu karaoquê;
Vem nega, sem eu ter que fazer nada. Vem sem ter que me mexer
Em mim tu esqueces tarefas, favelas, senzalas, nada mais vai doer.
Sinto cheiro docê, meu maculelê, vem negra, me ama, me colore
Vem, nega, vem me arrasar, depois te levo pra gente sambar.
Imaginem: Ouvi tudo isso sem calma e sem dor.
Já preso esse ex-feitor, eu disse: "Seu delegado..."
E o delegado piscou.
Falei com o juiz, o juiz se insinuou e decretou pequena pena
com cela especial por ser esse branco intelectual...
Eu disse: "Seu Juiz, não adianta! Opressão, Barbaridade, Genocídio
nada disso se cura trepando com uma escura"!
Ó minha máxima lei, deixai de asneira
Não vai ser um branco mal resolvido
Que vai libertar uma negra:
Esse branco ardido está fadado
porque não é com lábia de pseudo-oprimido
que vai aliviar seu passado.
Olha aqui meu senhor:
Eu me lembro da senzala
E tu te lembras da Casa-Grande
E vamos juntos escrever sinceramente outra história
Digo, repito e não minto:
Vamos passar essa verdade a limpo
Porque não é dançando samba
Que e te redimo ou te acredito:
Vê se te afasta, não invista, não insista!
Meu nojo!
Meu engodo cultural!
Minha lavagem de lata!
Porque deixar de ser racista, meu amor,
Não é comer uma mulata!


Da série Brasil, meu espartilho. Published in O semelhante.
Rio de Janeiro: Editora Record, 2000. 2nd Edition, pp. 184-85.

Joel Rufino dos Santos
historiador, romancista, professor da UFRJ e membro do Comitê Científico Internacional do Programa Rota do Escravo, da Unesco


"Não lhe batiam por maldade, embora isso também ocorresse. A finalidade era esvaziá-lo da parte propriamente humana que todos os homens possuem - e são homens propriamente porque a possuem. Assim coisificado, o negro africano estava pronto para ser escravo."

"Numa noite qualquer do ano de 1597, quarenta escravos fugiram de um engenho no sul de Pernambuco. Fato corriqueiro. Escravos fugiam o tempo todo de todos os engenhos. O número é que parecia excessivo: quarenta de uma vez. Fora também insólito o que fizeram antes de optar pela fuga coletiva: armados de foices, chuços e cacetes haviam massacrado a população livre da fazenda. Já não poderiam se esconder nos matos e brenhas da vizinhança - seriam caçados furiosamente até que, um por um, tivessem o destino dos amos e feitores que haviam justiçado.

De manhã, certamente, a notícia correria a Zona da Mata - essa formidável galeria verde que, salpicada de canaviais, a uns dez quilômetros do mar, o acompanha sem nunca perdê-lo de vista. Tinham a liberdade e uma noite para agir.

Havia umas poucas mulheres, um que outro velho e diversas crianças, mas o grosso eram pretos fortes, canelas finas e magníficos dentes. Escolheram caminhar na direção do sol poente, um pouco para baixo. Com duas horas compreenderam que jamais qualquer deles havia ido tão longe naquela terra. Mesmo os crioulos, nascidos aqui, desconheciam o pio daquelas aves, nunca tinham visto aqueles cipós. Andaram toda a noite e a manhã seguinte; descansaram quando o sol chegava a pino; contornaram brejos e grotões, subiram penhascos e caminharam, um a um, na beirada de feios precipícios.

Se passou ainda uma noite. Eram observados, mas não tinham qualquer medo de índios. Então, na vigésima manhã se sentiram seguros. De onde estavam podiam ver perfeitamente quem viesse dos quatro cantos; com boa vista se podia mesmo vislumbrar o mar, além das lagoas. A terra, vermelho-escura, esboroava ao aperto da mão. Ouviam águas correndo sobre pedras. E havia palmeiras, muitas palmeiras.

Por que escravos fugiam?

A fuga era a única maneira de recuperarem a sua humanidade - esta é a melhor resposta que conheço."

Assim descreve Joel Rufino dos Santos, em seu livro Zumbi (ed. Moderna, 1985), o episódio que teria dado origem ao quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga (que tem esse nome "talvez por parecer grávida a quem vem de Maceió, pelo Vale do Mundaú"), em Alagoas, onde é hoje o município de União dos Palmares.

(retirado daqui)

***


Memórias do cárcere


Vivianne Cohen

O quarto do escritor e historiador Joel Rufino dos Santos ficava a três andares do chão. Não era decorado com quadros, embora a tinta preta se destacasse da parede de tijolos largos. As fotografias e os livros ficavam acondicionados num canto. Em 12 de agosto de 1973, Rufino escreveria a primeira das 32 cartas enviadas ao filho Nélson, na época com 8 anos. "Moramos em quartos. O meu é o número 31", dizia um dos trechos. O menino sorria com o que pensava ser o diário de viagem do pai, quando na realidade as palavras enviadas por Rufino eram escritas de uma cela do Presídio do Hipódromo, em São Paulo, onde o escritor estava, junto com outros sete presos políticos.

Quando descobriu a verdade, o garoto, com lágrimas nos olhos, escondeu-se embaixo da cama abraçado à gaiola de seu passarinho de estimação. "Ele sempre resistiu à idéia de conversar sobre o assunto", recorda Rufino. Em maio, com 35 anos, Nélson rendeu-se ao passado ao revirar as cartas no fundo do baú. Os velhos envelopes corroídos pelo tempo foram reunidos em Quando voltei, tive uma surpresa, que Rufino, autor de mais de 20 livros infantis, está lançando pela Editora Rocco. "Só agora tenho a noção exata do que aconteceu naquela época", afirma Nélson, funcionário da Prefeitura do Rio de Janeiro, e pai de Eduardo, 6, Rafael, 4, e Isabel 2.

A tragédia familiar começou no reveillón de 1973. Militante da Aliança Libertadora Nacional, grupo armado que fazia oposição ao regime militar, Rufino viajava de São Paulo para o Rio de Janeiro para ver o filho e a mulher Teresa Garbayo dos Santos. Só não contava que fosse preso durante o trajeto e levado ao Dops (Departamento de Ordem Política e Social), onde seria torturado antes de ser encarcerado no Presídio do Hipódromo. Nos primeiros seis meses, Rufino sustentou a versão de que estava viajando a trabalho. "Eu tinha medo de que ele me confundisse com um ladrão."

O menino passou a visitá-lo na cadeia acompanhado da avó Felícia e da tia Bena. A sala de espera era o pátio, onde outros filhos de presos políticos amontoavam-se em dias de visita. As duas horas passavam voando e Nélson pouco falava de si para o pai. Antes de despedir-se, porém, esticava o braço e levava para casa um presente feito pelo pai no cárcere, que geralmente era um cinto ou um brinquedo de cerâmica. Nesse cenário, o garoto chegou a comemorar seu aniversário de 9 anos. Ao voltar para casa, aumentava a espera por mais uma carta de Rufino. "Eu pedia para minha mulher ler antes dele dormir, como se estivesse narrando uma história", recorda o escritor.

A correspondência era uma maneira do pai aliviar o sofrimento do menino. As histórias desviavam a imaginação do garoto da dura realidade dos porões da ditadura militar. Eram coloridas e cheias de desenhos. Em uma delas, Rufino agradecia pelas canetas hidrocores que ganhara do filho no último encontro entre os dois. E ainda destacava que era o único preso da cadeia a contar com tamanho privilégio. O futebol também era um canal de contato. Em 21 de julho, ele queria saber se o menino havia visto o gol do ponta Jairzinho na partida da Seleção Brasileira contra a União Soviética. E chegava a comparar o juiz que o condenara aos árbitros de futebol. "Na hora de respondê-las, o Nélson ditava suas cartas para mim", lembra a mãe Teresa.

Na vida real, o menino conhecia pouco da militância do pai. Em 1964, Rufino soube do nascimento de Nélson por um telegrama. Membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB), ele vivia exilado na Bolívia e só veio a conhecer o garoto um mês depois no Chile, já em seu segundo exílio. "O Nélson já foi uma barriga sem pai", brinca Teresa. De volta ao Brasil, Rufino foi preso e ficou três meses longe de casa. Em 1970, trocou o PCB pela ALN e adotou o codinome Pedro Ivo. "Joel Rufino era um professor, que nos dava aulas de história", diz o deputado federal José Genoíno. Durante dois meses, ele foi companheiro de cela do escritor no Presídio do Hipódromo e chegou a ler correspondências que o garoto enviou ao pai e que ficaram retidas na prisão. "Foram as únicas coisas que eu quis levar quando saí", afirma Rufino.

Na volta para casa, em 1974, o escritor encontrou uma realidade diferente da idealizada durante os anos de cárcere. Havia perdido de uma só vez a mulher e o filho. "Não conseguimos nos reaproximar", diz. Separado, casou-se com uma adolescente, mas, em 1977, voltou para Teresa, com quem teve mais uma filha, Juliana, de 21 anos. No primeiro governo de Leonel Brizola no Rio, foi nomeado diretor do Museu Histórico Nacional. Hoje, Rufino é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e ocupa um cargo na Unesco. "Meu pai é um grande herói", diz Nélson.

(retirado daqui)


Ricardo Pessanha
escritor, jornalista, fotógrafo, tradutor e profissional de marketing

"Quilombos, colonies formed by runaway slaves in the interior of Brazil, also helped perpetuate African culture. The largest and the most famous of these was Palmares, established in the rugged interior of northeastern Alagoas state in the seventeenth century. The inhabitants of Palmares made an effort to organize a society based in African traditions. It lasted for several decades and had a population in the thousands (some say as high as twenty thousand). To the Portuguese, Palmares was a threat to the established order, not to mention the institution of slavery. Numerous armed expeditions were mounted against it by the Portuguese crown, beginning in 1654. All were unsuccessful until the last major campaign, waged in 1694, which overwhelmed and destroyed Palmares. Zumbi, the quilombo's famed war commander, was captured and killed the following year. The legendary warrior is still celebrated in Brazilian music today, and his birthday (November 20) has been a holiday since 1995."

"Racial issues have often been addressed in popular music. Since the 1980s, Afro-Brazilian pride has been more frequently asserted _ and racial injustices protested _ in lyrics by artists like Gilberto Gil, Bezerra da Silva, and Batacotô, and in Carnaval songs written for Rio's escolas de samba and Bahia's blocos afro. This is a significant change from previous decades, when racial commentary in music usually consited of jokes at the expense of black and mulattos."


(trecho de The Brazilian Sound de Ricardo Pessanha e Chris McGowan -Temple University Press - 1998)

19.11.02

Fato ocorrido recentemente me deixou boquiaberta, pensativa e muitíssimo preocupada. Determinado assunto tendo tomado conta dos noticiários foi comentado numa roda de conhecidos. Três pessoas presentes no local onde a ação desenrolava-se, em pontos diferentes, testemunharam que havia outros fatos além do que a grande imprensa estava noticiando. Seus depoimentos foram rechaçados com veemência e um toque de ultraje. O que não aparecia no jornal não poderia ser real. Pouco importa se seus amigos são testemunhas oculares e defendem versão ligeiramente diferente da que está na primeira página para vender jornal. Se a Fátima Bernardes e o William Bonner não anunciam, não existe.

Fiquei incomodada não apenas por ter, de certa forma, sido chamada de mentirosa, mas por perceber o que acontece com a mente de algumas pessoas que já não conseguem aceitar qualquer verdade a não ser aquela regurgitada pelas agências de notícias.

Então, escolhendo textos de Joel Rufino dos Santos para amanhã, encontrei este aqui e essa história que estava adormecida, mas não esquecida dentro de mim, acordou.


RELAÇÕES PERIGOSAS
Joel Rufino


"Lançamentos redimensionam a relação entre os jornais brasileiros e a censura", copyright Jornal do Brasil, 21/10/00

"Por que os jornais quase nunca dizem a verdade?

A pergunta só tem cabimento se nos pusermos de acordo sobre o que são jornais e o que é verdade. Periódicos escritos para comunicar existem pelo menos desde Roma. Já verdade, em nosso tempo, é o que você convenceu alguém de que é verdade.

Acabam de sair dois livros sobre regime militar e imprensa que repõem em discussão esse velho tema. Têm méritos diferentes. O de João Batista de Abreu (Manobras da informação) é exibir, por dentro, como se fazia jornal nos anos de chumbo; o de Anne-Marie Smith (Um acordo forçado) é retirar o foco da censura prévia, visível, instalada nas redações, e pô-lo sobre a autocensura, invisível, instalada nas mentes. Falo dos méritos principais. Ambos são duros com os grandes jornais, produzindo análises complementares do mesmo fenômeno.

Os presos políticos da ditadura não conseguíamos nos explicar aos colegas ?comuns?, com quem repartíamos alojamento. Os diretores de presídio tinham ordem para nos chamar de terroristas: ?carta para o terrorista?, ?tira o terrorista para ir à Auditoria?... Expliquei ao Pelezinho (um ?colega?) que nosso nome correto era revolucionários. ?Tomar de rico pra dar a pobre? Então o que vocês são é bunda-mole?, ele concluiu. Havia uma guerra dos nomes e, analisando o vocabulário da imprensa sob a ditadura, João Batista nos mostra que a imprensa nos ajudou a perdê-la. Aceitando nomear o opositor armado (e logo também os outros) de terrorista, os jornais designavam um sujeito sem história, sem significado, irracional e, portanto, disponível para qualquer violência.

Vinte anos depois, alguns ex-diretores de jornal (escrito e televisivo) se vangloriam de terem resistido à ditadura. Inocência ou cinismo? O regime militar não fechou diretamente nenhum jornal, embora, por exemplo, O Correio da Manhã e, mais tarde, o Opinião e o Movimento tenham sido levados a nocaute econômico. ?As pessoas que bancam hoje o papel do censurado, que agem como se tivessem sofrido muito, são ridículas?, escreveu Mino Carta (diretor de Veja, entre 1968 e 76). A censura, de fato, foi seletiva. O Globo, por exemplo, jamais foi censurado, nem a Folha de S. Paulo ? e, sintomaticamente, os dois são, hoje, sólidas empresas. Censurados foram O Estado de S. Paulo, Veja, O São Paulo (da Arquidiocese de São Paulo, leia-se D. Evaristo Arns), a Tribuna da Imprensa, Opinião e toda a imprensa alternativa.

Ficam em melhor situação moral - pela sinceridade - os diretores que aderiram à ditadura, aceitando sua violência sem, necessariamente, apoiar a censura. Como Boris Casoy, o âncora do impeachment de Collor: ?O que eu quero dizer é que havia pontos de contato [entre as maneiras de ver da imprensa e do regime]. Os jornais são empresas vinculadas ao capitalismo, ao anticomunismo, e nunca estiveram do lado dos guerrilheiros, até aprovavam a repressão contra eles. O resto nós não aprovávamos mas aceitávamos. Do fundo do meu coração, eu os apoiava, apoiava!? Ou como Walter Fontoura que, quando do retorno dos exilados, insistiu em que as acusações da ditadura contra eles eram um fato jornalístico em si: ?Para mim, tanto fazia se a acusação fora obtida à custa de tortura. A acusação ainda existia. Agora, se fosse verdade que ela fora obtida sob tortura ? bem cabia ao acusado prová-la, vir defender-se.?

Para que servem os jornais? Em nosso país, eles funcionam como aparelhos ideológicos do Estado. Isso não diminui o prazer matinal, ao café, que proporcionam, quase uma Bíblia; nem significa que jornalistas não se esforcem todo o tempo para lhes dar outra função. O jornal de denúncia, de defesa classista, étnica, baluarte dos direitos humanos sempre existiu no Brasil, mesmo sob as ditaduras. A grande e média imprensa, porém, é um diálogo exclusivo entre as elites instruídas, visando a manter a ordem social que as beneficia. Em 1972, o Brasil tinha 37 jornais por mil habitantes, a Argentina 154. Apesar disso, seu alcance político é grande. Por exemplo: essa pequena imprensa de um país que não lê jornais pauta os veículos de massa, decidindo, em última instância, o que se vai e não se vai ficar sabendo. É ela que cria essa outra natureza social, essa prótese do real, expressa na fórmula: ?deu no jornal?. Se deu, existe. (Um acordo forçado: o consentimento da imprensa à censura no Brasil, Anne-Marie Smith, 264, páginas, R$ 29 e Manobras da informação, João Batista de Freitas, Mauad/Eduff, 270 páginas, R$ 29)"


(Texto retirado daqui)