20.5.11
Mel - Adoçando a Felicidade
(Sérgio Veleiro)
"Nesse intervalo de vida que se arrasta, andei me arrastando por sobre o livro da Carla Cíntia (Fel – amargando felicidade) e tive vários momentos de puríssimo prazer.
Leitura que se faz de boca cheia, riso fortuito, pontada de dor. Não uma, não duas, algumas vezes parei a leitura entre uma crônica e outra para respirar fundo. Olhar longe que se perde imaginando... E o Rio de Janeiro explode em cada esquina de concreto, em cada nesga de sentimento.
Não são crônicas sobre a cidade, são histórias profundamente humanas como “A viagem na viagem” (pag. 63) em que a autora diz:
“Gosto de estar perto de gente, gente de verdade, daquelas que fazem números largos em estatísticas.”
E a narrativa prossegue no imaginário de uma testemunha ocular do alheio, do que não lhe pertence, mas está tão próximo: o outro.
Sentada dentro de um ônibus ela vê e imagina. E tudo é tão real, e tudo é tão possível que o leitor vai junto no desenrolar da vida do alheio que é o seu modo de encontrar o outro.
Adiante no livro a narrativa percorre o arrumar e o desarrumar da vida na perspectiva do cabideiro não aprovado pela mãe (“Cabideiro” pág. 72). Quem resiste a um bom pendurar de roupas usadas ao alcance da mão?
E as roupas vão se acumulando à vista de todos, assim como as frustrações, quando temos um cabideiro por perto. Sim, eis uma verdade universal: os pregos atrás da porta atraem a roupa do dia.
Na minha casa de infância meu pai nunca deixou de furar as portas do quarto e banheiro com pregos que serviam de cabides. E não adiantava o quanto mamãe pedisse, era um costume de infância dele. Ela se conformou, afinal também tinha seus costumes de infância inexplicáveis.
Mais adiante Carla fala de um tema universal: o diz que me disse. (“Diz-que-diz” pág. 73).
Carla, concordo muito com você quando diz:
“A questão é que não tenho controle sobre o comportamento de ninguém, além do meu próprio.”
Sempre achei isso. O outro é um completo aleatório, o que ele fala de você é tão-somente o que ele pensa, o que ele é. Não é você. Por isso amplio seu pensamento dizendo que não temos controle sobre o pensamento de ninguém, quanto mais sobre o comportamento. Todos somos livres, pensamos, dizemos e fazemos o que temos por dentro, inclusive ódio, revolta, frustração, inveja... Tudo isso a palavra revela. É só ficar atento. Ou como você bem disse na página 74:
“Se alguém sumariamente se afasta de mim após dar ouvido a mexericos engendrados por uma alma vil, só posso agradecer ao que alguns chamam de anjo da guarda, por ter retirado pessoa tão mixuruca do meu campo vibracional.”
Em “Carta ao meu filho” (pág. 90) eu destaco esse alerta que me fez lembrar um fato acontecido no passado recente:
“Olhe dentro dos olhos. Por mais desorientada que esteja, uma pessoa sempre terá alguma virtude.”
Isso foi tema de discussão um dia desses com os amigos daqui de perto. Perguntei assim de supetão, sem explicação alguma: qual é a tua virtude?
Foi engraçado perceber que alguns demoraram para responder e outros começaram pelos defeitos. Um disse “mas eu não gosto de me auto-elogiar”. Como se reconhecer uma virtude fosse um elogio ao ego... Deu pano pra manga e muita luz no espelho das nossas sombras.
Avançando na leitura tropecei com esses questionamentos: você é responsável por aquilo que cativa? Você já fez a diferença na vida de uma pessoa? Alguém já te disse isso alguma vez? Não? Então leia a crônica “Eu e o outro” (pág. 80/81).
E quem não teve saudade da camisa velha, aquela de algodão bem velhinha e esburacada que você adora vestir quando chega em casa depois de um dia exaustivo? Como não fechar o livro e sorrir um pouco depois de ler a crônica “A camiseta furada” (pág. 59) ?
“Com certeza você já teve um amigo camiseta-velha. Com certeza você já teve dias camiseta-velha...”
O livro todo é uma delícia. Daqueles que a gente lê e pensa, essa eu vou reler um dia. Como um alerta de quem já viveu ou presenciou uma situação descrita na crônica e precisa de cúmplice para expiar os pensamentos nada ortodoxos.
Livro bom é assim, a gente termina de ler já sabendo que vai ser relido. Páginas marcadas, idéias fincadas na mente e ao colocar na prateleira a certeza de que em breve estará de volta à cabeceira da cama.
Carla, parabéns pelo livro. Muito grato pelo prazer da leitura.
(...)
P.S. O tipo de letra impresso nos poemas embaralhou minha visão. Por algum problema meu de foco não consegui sentir os versos."
(Sérgio Veleiro)
"Nesse intervalo de vida que se arrasta, andei me arrastando por sobre o livro da Carla Cíntia (Fel – amargando felicidade) e tive vários momentos de puríssimo prazer.
Leitura que se faz de boca cheia, riso fortuito, pontada de dor. Não uma, não duas, algumas vezes parei a leitura entre uma crônica e outra para respirar fundo. Olhar longe que se perde imaginando... E o Rio de Janeiro explode em cada esquina de concreto, em cada nesga de sentimento.
Não são crônicas sobre a cidade, são histórias profundamente humanas como “A viagem na viagem” (pag. 63) em que a autora diz:
“Gosto de estar perto de gente, gente de verdade, daquelas que fazem números largos em estatísticas.”
E a narrativa prossegue no imaginário de uma testemunha ocular do alheio, do que não lhe pertence, mas está tão próximo: o outro.
Sentada dentro de um ônibus ela vê e imagina. E tudo é tão real, e tudo é tão possível que o leitor vai junto no desenrolar da vida do alheio que é o seu modo de encontrar o outro.
Adiante no livro a narrativa percorre o arrumar e o desarrumar da vida na perspectiva do cabideiro não aprovado pela mãe (“Cabideiro” pág. 72). Quem resiste a um bom pendurar de roupas usadas ao alcance da mão?
E as roupas vão se acumulando à vista de todos, assim como as frustrações, quando temos um cabideiro por perto. Sim, eis uma verdade universal: os pregos atrás da porta atraem a roupa do dia.
Na minha casa de infância meu pai nunca deixou de furar as portas do quarto e banheiro com pregos que serviam de cabides. E não adiantava o quanto mamãe pedisse, era um costume de infância dele. Ela se conformou, afinal também tinha seus costumes de infância inexplicáveis.
Mais adiante Carla fala de um tema universal: o diz que me disse. (“Diz-que-diz” pág. 73).
Carla, concordo muito com você quando diz:
“A questão é que não tenho controle sobre o comportamento de ninguém, além do meu próprio.”
Sempre achei isso. O outro é um completo aleatório, o que ele fala de você é tão-somente o que ele pensa, o que ele é. Não é você. Por isso amplio seu pensamento dizendo que não temos controle sobre o pensamento de ninguém, quanto mais sobre o comportamento. Todos somos livres, pensamos, dizemos e fazemos o que temos por dentro, inclusive ódio, revolta, frustração, inveja... Tudo isso a palavra revela. É só ficar atento. Ou como você bem disse na página 74:
“Se alguém sumariamente se afasta de mim após dar ouvido a mexericos engendrados por uma alma vil, só posso agradecer ao que alguns chamam de anjo da guarda, por ter retirado pessoa tão mixuruca do meu campo vibracional.”
Em “Carta ao meu filho” (pág. 90) eu destaco esse alerta que me fez lembrar um fato acontecido no passado recente:
“Olhe dentro dos olhos. Por mais desorientada que esteja, uma pessoa sempre terá alguma virtude.”
Isso foi tema de discussão um dia desses com os amigos daqui de perto. Perguntei assim de supetão, sem explicação alguma: qual é a tua virtude?
Foi engraçado perceber que alguns demoraram para responder e outros começaram pelos defeitos. Um disse “mas eu não gosto de me auto-elogiar”. Como se reconhecer uma virtude fosse um elogio ao ego... Deu pano pra manga e muita luz no espelho das nossas sombras.
Avançando na leitura tropecei com esses questionamentos: você é responsável por aquilo que cativa? Você já fez a diferença na vida de uma pessoa? Alguém já te disse isso alguma vez? Não? Então leia a crônica “Eu e o outro” (pág. 80/81).
E quem não teve saudade da camisa velha, aquela de algodão bem velhinha e esburacada que você adora vestir quando chega em casa depois de um dia exaustivo? Como não fechar o livro e sorrir um pouco depois de ler a crônica “A camiseta furada” (pág. 59) ?
“Com certeza você já teve um amigo camiseta-velha. Com certeza você já teve dias camiseta-velha...”
O livro todo é uma delícia. Daqueles que a gente lê e pensa, essa eu vou reler um dia. Como um alerta de quem já viveu ou presenciou uma situação descrita na crônica e precisa de cúmplice para expiar os pensamentos nada ortodoxos.
Livro bom é assim, a gente termina de ler já sabendo que vai ser relido. Páginas marcadas, idéias fincadas na mente e ao colocar na prateleira a certeza de que em breve estará de volta à cabeceira da cama.
Carla, parabéns pelo livro. Muito grato pelo prazer da leitura.
(...)
P.S. O tipo de letra impresso nos poemas embaralhou minha visão. Por algum problema meu de foco não consegui sentir os versos."
28.4.11
14.3.11
"Certa manhã acordei de sonhos intranquilos"
Adoro este título do CD do Otto, referência à Metamosfose de Kafka.
Tenho pesadelos com tsunami.
Hoje acordei com o firme propósito de, ao inicial oficialmente o ano, passar a receber apenas boas notícias.
Nem que para isso tenha que virar uma barata, a única que se salvará do apocalipse.
Adoro este título do CD do Otto, referência à Metamosfose de Kafka.
Tenho pesadelos com tsunami.
Hoje acordei com o firme propósito de, ao inicial oficialmente o ano, passar a receber apenas boas notícias.
Nem que para isso tenha que virar uma barata, a única que se salvará do apocalipse.
28.2.11
Acompanhando o desenvolvimento do mercado editorial e de e-books, partilho com vocês o lançamento do meu livro FEL – Amargando Felicidade em formato digital.
Nesse formato, excluídos os custos gráicos, o preço da obra cai significativamente. Confira!
Quem não abre mão do toque do papel nem do prazer do livro impresso, não tem com o que se preocupar. FEL – Amargando Felicidade continua disponível no modelo impresso. Portanto, fica a seu critério escolher o formato que mais lhe agrada.
Em seu livro "A língua de três pontas", Moacyr Scliar cita o Talmud:
A língua que fala mal tem três pontas:
uma fere aquele de quem se fala;
outra fere aquele a quem se fala;
a terceira fere aquele que fala.
E adiciona:
"A maledicência é, no fundo, uma atividade melancólica. Melhor dizendo, é uma tentativa de combater nossa própria melancolia, tripudiando sobre outros."
(Moacyr Scliar - 1937-2011)
A língua que fala mal tem três pontas:
uma fere aquele de quem se fala;
outra fere aquele a quem se fala;
a terceira fere aquele que fala.
E adiciona:
"A maledicência é, no fundo, uma atividade melancólica. Melhor dizendo, é uma tentativa de combater nossa própria melancolia, tripudiando sobre outros."
(Moacyr Scliar - 1937-2011)
22.2.11

Depoimento de Regina Makarem
(Para quem não sabe, CCzinha sou eu.)
"CCzinha, vem agora, tão linda com o livro na mão. Que não li mas sei que vou gostar. Porque CCzinha domina as palavras, sabe manejá-las como espadas, flores, caras de baralho, de tarot, cartas de amor. Ah, que importa... fundamental é escrever. Mais que viver. CCzinha sabia disso desde que nasceu e chorou seu choro primordial, feito de sons que derramavam letras e palavras que somente elazinha tão pequenininha - quando era CCzinha de verdade, agora é CCzinha apenas porque é muito queridinha, mas graaaande - pois bem, as palavras que ela ronronava no primeiro chorinho ninguém compreendia. Mamãe-papai-vovós-vovós acharam tão lindo o chorinho que esparramava letras pelo ar. Letras e sonhos de um dia forma palavras, tanta curiosidade. Como é o mundo? Que mundo é este pra onde me trouxeram tão CCzinha de mim. Que medo, que susto! Como é bom o amor em volta. Não sabe das pessoas dos fatos. Apenas o ato de ser e de ser amada. BBzinha sorri e nasce a primeira crônica. Das palavras que descobriu quando associou ao sentimento os nomes que retalham em tantos sentimentos a inteireza de ser apenas a CCzinhtoda fatiada em milhares de sentires e doeres e amares e muitas palavras novas. O que será que tem mais, palavras ou sentimentos? às vezes, ou, tem gente que não sabe o que fazer com palavras como amor, dignidade, gentileza, lealdade, gratidão, generosidade, delicadeza, enfim, tantos sentimentos que só fazem sentido quando existem ao mesmo tempo por dentro da gente. E nem sempre são partes do ser, talvez palavras como um jogo, palavras cruzadas. Nada mais. As palavras só atingem seu pleno significado quando fazem parte do dia a dia de ser gente. Gente como CCzinha."
28.1.11
Promoção especial 28 e 29/01/2011
Desconto de 20% apenas hoje e amanhã no Clube de Autores
Entre hoje e amanhã, as obras publicadas no Clube estarão com desconto, viabilizado por uma ampla negociação feita com todos os fornecedores.
Isso significa uma queda considerável do que estamos batizando de "sexta e sábado literários".
O desconto durará até o final do sábado.
A todos os leitores, boas compras!
Onde?
O que? release 1 e release 2
A premiação?
Desconto de 20% apenas hoje e amanhã no Clube de Autores
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A todos os leitores, boas compras!
Onde?
O que? release 1 e release 2
A premiação?
23.12.10
15.12.10
Sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos: Brasil é
obrigado a investigar e punir os crimes da ditadura militar
Rio de Janeiro, São Paulo e Washington DC, 14 de dezembro de 2010 - A Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH), em uma sentença histórica notificada hoje, determinou a
responsabilidade internacional do Brasil pelo desaparecimento forçado de, pelo menos, 70 camponeses e militantes da Guerrilha do Araguaia entre os anos de 1972 a 1974, durante a ditadura militar brasileira. Conforme compromisso assumido internacionalmente, é obrigatório e
vinculante o pleno cumprimento desta sentença pelo país.
Esta é a primeira sentença contra o Brasil por crimes cometidos durante a ditadura militar, que permite discutir a herança autoritária do regime ditatorial e contribui para o estabelecimento de
uma cultura do “Nunca Mais” no país.
O Centro pela Justiça e o Direito Internacional (CEJIL), o Grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro (GTNM-RJ) e a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos de São
Paulo (CFMDP-SP) atuam, desde 1995, em representação das vítimas e de seus familiares na denúncia internacional perante o sistema interamericano de proteção dos direitos humanos.
Ao longo do processo comprovaram cabalmente a responsabilidade internacional do Brasil pelo desaparecimento forçado das vítimas, pela total impunidade em relação a estes crimes e pela
ausência de procedimentos eficazes para o estabelecimento da verdade no país. Assim, solicitaram diversas medidas de reparação, que abrangiam desde o conceito de reparação integral às vítimas e seus familiares, até medidas mais amplas, especialmente no que tange ao direito à verdade e à justiça, em relação à sociedade brasileira como um todo.
Os fatos, as violações e as reparações mais destacadas que estabelece a sentença são as seguintes:
A Corte Interamericana determinou que as vítimas do presente caso foram desaparecidas por agentes do Estado. A sentença estabelece que o Brasil violou o direito à justiça, no que se
refere à obrigação internacional de investigar, processar e sancionar os responsáveis pelos desaparecimentos forçados em virtude da interpretação prevalecente da Lei de Anistia brasileira, a qual permitiu a total impunidade deste crimes por mais de 30 anos.
A Corte determinou que esta interpretação da Lei de Anistia, reafirmada recentemente pelo Supremo Tribunal Federal, contraria o Direito Internacional. Nas palavras da Corte: “As
(aquelas) disposições da Lei de Anistia brasileira que impedem a investigação e sanção de graves violações de direitos humanos são incompatíveis com a Convenção Americana, carecem de efeitos jurídicos e não podem seguir representando um obstáculo para a investigação dos fatos
do presente caso (Araguaia)”.
Assim, a Corte requereu que o Estado remova todos os obstáculos práticos e jurídicos para a investigação dos crimes, esclarecimento da verdade e responsabilização dos envolvidos.
Também, o Tribunal reafirmou o alcance geral de sua decisão exigindo que as disposições da Lei de Anistia, que impedem as investigações penais, não possa representar um obstáculo a respeito de outros casos de graves violações de direitos humanos.
Quanto à ausência de informação oficial a Corte avançou substancialmente os parâmetros exigidos para proteção do direito de acesso à informação, incluindo o princípio da máxima divulgação e a necessidade de justificar qualquer negativa de prestar informação. A Corte também afirmou que é essencial que o Brasil adote as medidas necessárias para adequar sua legislação sobre acesso à informação em conformidade com o estabelecido na Convenção Americana.
Finalmente, no que se refere à negativa do Estado, por mais de três décadas, de garantir o direito à verdade aos familiares dos desaparecidos, a Corte Interamericana determinou que, em virtude do sofrimento causado aos mesmos, o Estado brasileiro é responsável por sua tortura psicológica e, entre outras coisas, determinou como medidas de reparação: a obrigação de investigar os fatos; a obrigação de realizar um ato publico de reconhecimento de sua responsabilidade; o desenvolvimento de iniciativas de busca e a continuidade na localização dos restos mortais dos
desaparecidos; a sistematização e; a publicação de toda a informação sobre a Guerrilha do Araguaia e as violações de direitos humanos ocorridas durante o regime militar no Brasil.
Portanto, a sentença da Corte IDH no caso Gomes Lund e outros (Guerrilha do Araguaia) é paradigmática porque permitirá a reconstrução da memória histórica para as gerações futuras, o conhecimento da verdade e, principalmente, a construção, no âmbito da justiça, de novos parâmetros e práticas democráticas.
Segundo Vitória Grabois, familiar e vice-presidente do Grupo Tortura Nunca Mais/ RJ: “A falta de informação por mais de 30 anos causou aos familiares dos guerrilheiros do Araguaia angústia,
sofrimento e desconfiança nas instituições brasileiras. A sentença da Corte renova nossa esperança na justiça.”
Nas palavras de Beatriz Affonso, diretora do programa do CEJIL para o Brasil: “Esperamos que a administração de Dilma Roussef demonstre que os governos democráticos não podem fechar os
olhos aos crimes do passado e que se empenhe em saldar a dívida histórica do país. Já o Poder Judiciário, que é parte do Estado brasileiro, deve cumprir a decisão promovendo a investigação dos crimes cometidos durante a ditadura.
Todos os cidadãos brasileiros devem ter certeza de que hoje, na democracia, a lei está ao alcance de todos, inclusive os agentes públicos e privados, civis e militares envolvidos em nome da repressão em crimes contra os cidadãos.”
Segundo Criméia Schmidt de Almeida, familiar e Presidente da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos de São Paulo: “ Essa sentença pode significar um passo importante na
verdadeira redemocratização do país, eliminando os entraves ditatoriais que ainda persistem nas práticas dos agentes públicos. Como familiar espero que possa significar um ponto final a tantas incertezas que há quase 40 anos marcam com angústia a nossa vida”
Neste sentido Viviana Krsticevic, diretora executiva do CEJIL disse: “América Latina tem avançado significativamente na resolução dos crimes contra a humanidade cometidos por governos ditatoriais. O Brasil, no entanto, ainda está em dívida com os familiares e a sociedade no estabelecimento da verdade e da justiça relacionadas a este tema. Esta sentença representa uma oportunidade única para que o Brasil demonstre que é capaz de liderar tanto no âmbito internacional como nacional os temas relacionados aos direitos humanos e democracia. Para isto, o Brasil deve deixar sem efei tos os aspectos da lei de anistia que impedem a justiça frente a crimes contra a humanidade.”
A sentença está disponível no website da Corte Interamericana: http://www.corteidh.or.cr/docs/casos/articulos/seriec_219_por.pdf
Para mais informações:
Centro pela Justiça e o Direito Internacional:
Beatriz Affonso +55 21 2533 1660 ou 7843-7285
Viviana Krsticevic +1 202 319 3000 ou celular: 1-202-651-0706
Millie Legrain +1 202 319 3000
Grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro: +55 21 2286 8762 ou 21 8103-5657
Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos de São
Paulo: +55 11 3101-5549
obrigado a investigar e punir os crimes da ditadura militar
Rio de Janeiro, São Paulo e Washington DC, 14 de dezembro de 2010 - A Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH), em uma sentença histórica notificada hoje, determinou a
responsabilidade internacional do Brasil pelo desaparecimento forçado de, pelo menos, 70 camponeses e militantes da Guerrilha do Araguaia entre os anos de 1972 a 1974, durante a ditadura militar brasileira. Conforme compromisso assumido internacionalmente, é obrigatório e
vinculante o pleno cumprimento desta sentença pelo país.
Esta é a primeira sentença contra o Brasil por crimes cometidos durante a ditadura militar, que permite discutir a herança autoritária do regime ditatorial e contribui para o estabelecimento de
uma cultura do “Nunca Mais” no país.
O Centro pela Justiça e o Direito Internacional (CEJIL), o Grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro (GTNM-RJ) e a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos de São
Paulo (CFMDP-SP) atuam, desde 1995, em representação das vítimas e de seus familiares na denúncia internacional perante o sistema interamericano de proteção dos direitos humanos.
Ao longo do processo comprovaram cabalmente a responsabilidade internacional do Brasil pelo desaparecimento forçado das vítimas, pela total impunidade em relação a estes crimes e pela
ausência de procedimentos eficazes para o estabelecimento da verdade no país. Assim, solicitaram diversas medidas de reparação, que abrangiam desde o conceito de reparação integral às vítimas e seus familiares, até medidas mais amplas, especialmente no que tange ao direito à verdade e à justiça, em relação à sociedade brasileira como um todo.
Os fatos, as violações e as reparações mais destacadas que estabelece a sentença são as seguintes:
A Corte Interamericana determinou que as vítimas do presente caso foram desaparecidas por agentes do Estado. A sentença estabelece que o Brasil violou o direito à justiça, no que se
refere à obrigação internacional de investigar, processar e sancionar os responsáveis pelos desaparecimentos forçados em virtude da interpretação prevalecente da Lei de Anistia brasileira, a qual permitiu a total impunidade deste crimes por mais de 30 anos.
A Corte determinou que esta interpretação da Lei de Anistia, reafirmada recentemente pelo Supremo Tribunal Federal, contraria o Direito Internacional. Nas palavras da Corte: “As
(aquelas) disposições da Lei de Anistia brasileira que impedem a investigação e sanção de graves violações de direitos humanos são incompatíveis com a Convenção Americana, carecem de efeitos jurídicos e não podem seguir representando um obstáculo para a investigação dos fatos
do presente caso (Araguaia)”.
Assim, a Corte requereu que o Estado remova todos os obstáculos práticos e jurídicos para a investigação dos crimes, esclarecimento da verdade e responsabilização dos envolvidos.
Também, o Tribunal reafirmou o alcance geral de sua decisão exigindo que as disposições da Lei de Anistia, que impedem as investigações penais, não possa representar um obstáculo a respeito de outros casos de graves violações de direitos humanos.
Quanto à ausência de informação oficial a Corte avançou substancialmente os parâmetros exigidos para proteção do direito de acesso à informação, incluindo o princípio da máxima divulgação e a necessidade de justificar qualquer negativa de prestar informação. A Corte também afirmou que é essencial que o Brasil adote as medidas necessárias para adequar sua legislação sobre acesso à informação em conformidade com o estabelecido na Convenção Americana.
Finalmente, no que se refere à negativa do Estado, por mais de três décadas, de garantir o direito à verdade aos familiares dos desaparecidos, a Corte Interamericana determinou que, em virtude do sofrimento causado aos mesmos, o Estado brasileiro é responsável por sua tortura psicológica e, entre outras coisas, determinou como medidas de reparação: a obrigação de investigar os fatos; a obrigação de realizar um ato publico de reconhecimento de sua responsabilidade; o desenvolvimento de iniciativas de busca e a continuidade na localização dos restos mortais dos
desaparecidos; a sistematização e; a publicação de toda a informação sobre a Guerrilha do Araguaia e as violações de direitos humanos ocorridas durante o regime militar no Brasil.
Portanto, a sentença da Corte IDH no caso Gomes Lund e outros (Guerrilha do Araguaia) é paradigmática porque permitirá a reconstrução da memória histórica para as gerações futuras, o conhecimento da verdade e, principalmente, a construção, no âmbito da justiça, de novos parâmetros e práticas democráticas.
Segundo Vitória Grabois, familiar e vice-presidente do Grupo Tortura Nunca Mais/ RJ: “A falta de informação por mais de 30 anos causou aos familiares dos guerrilheiros do Araguaia angústia,
sofrimento e desconfiança nas instituições brasileiras. A sentença da Corte renova nossa esperança na justiça.”
Nas palavras de Beatriz Affonso, diretora do programa do CEJIL para o Brasil: “Esperamos que a administração de Dilma Roussef demonstre que os governos democráticos não podem fechar os
olhos aos crimes do passado e que se empenhe em saldar a dívida histórica do país. Já o Poder Judiciário, que é parte do Estado brasileiro, deve cumprir a decisão promovendo a investigação dos crimes cometidos durante a ditadura.
Todos os cidadãos brasileiros devem ter certeza de que hoje, na democracia, a lei está ao alcance de todos, inclusive os agentes públicos e privados, civis e militares envolvidos em nome da repressão em crimes contra os cidadãos.”
Segundo Criméia Schmidt de Almeida, familiar e Presidente da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos de São Paulo: “ Essa sentença pode significar um passo importante na
verdadeira redemocratização do país, eliminando os entraves ditatoriais que ainda persistem nas práticas dos agentes públicos. Como familiar espero que possa significar um ponto final a tantas incertezas que há quase 40 anos marcam com angústia a nossa vida”
Neste sentido Viviana Krsticevic, diretora executiva do CEJIL disse: “América Latina tem avançado significativamente na resolução dos crimes contra a humanidade cometidos por governos ditatoriais. O Brasil, no entanto, ainda está em dívida com os familiares e a sociedade no estabelecimento da verdade e da justiça relacionadas a este tema. Esta sentença representa uma oportunidade única para que o Brasil demonstre que é capaz de liderar tanto no âmbito internacional como nacional os temas relacionados aos direitos humanos e democracia. Para isto, o Brasil deve deixar sem efei tos os aspectos da lei de anistia que impedem a justiça frente a crimes contra a humanidade.”
A sentença está disponível no website da Corte Interamericana: http://www.corteidh.or.cr/docs/casos/articulos/seriec_219_por.pdf
Para mais informações:
Centro pela Justiça e o Direito Internacional:
Beatriz Affonso +55 21 2533 1660 ou 7843-7285
Viviana Krsticevic +1 202 319 3000 ou celular: 1-202-651-0706
Millie Legrain +1 202 319 3000
Grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro: +55 21 2286 8762 ou 21 8103-5657
Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos de São
Paulo: +55 11 3101-5549
11.12.10
Noel Rosa e homenagens de talentos impressionantes na Zona Norte
Exatamente hoje, após um ano praticamente inteiro de homenagens, é o dia em que Noel Rosa completaria seu primeiro centenário. Por todo lado pipoca(ra)m show, mostras, exposições, peças para marcar, com justiça, a data redonda desse seminal compositor brasileiro. Ontem fui conferir o show de Beto Caratori e André Gabeh no Centro de Referência da Música Carioca, na Tijuca.
Exceto na parte em que apresentaram os sambas do embate musical histórico entre o poeta da Vila e seu rival Wilson Batista, todo o repertório do show é de Noel e seus parceiros. Entre as canções eternas, que a gente não cansa de ouvir, aquelas histórias saborosas, que a gente não cansa de escutar. Na maior parte do tempo, quem nos conta essas histórias é Beto Caratori.
Caratori também enche o belíssimo teatro com seu canto delicado, seu jeito cool. Meu acompanhante, Mr. R. comparou seu estilo ao de Chet Baker. É o contraponto perfeito para a esfuziante personalidade, o humor ágil, o talento a transbordar de Gabeh. No palco, André é trompete, diva, preto velho, o que ele quiser, conquistando com facilidade a platéia. Fugindo do padrão dominante atual das novas cantoras, muito bonitinhas, muito afinadinhas, rainhas da sensaboria, a voz do cantor alegria das redes sociais é extensa, agradável e original.




É verdade que faltou ensaiar um pouco mais, decorar as letras de todas as músicas, evitar os escorregões dos músicos aqui e ali. Talvez um toque de direção fizesse a dupla render ainda mais. Mas o que se vê e ouve já é delicioso. Caratori encanta e informa sem se tornar excessivamente didático. André, uma força da natureza, diverte sem dar tom caricatural ao show. Já se viu parcerias muito bem sucedidas ao se jogar no caldeirão estilos assim opostos e complementares.
Finda a efeméride dos 100 do boêmio da Vila, o que a dupla trará a seguir? Continuará como dupla? Explorará outros clássicos do cancioneiro brasileiro? Vou gostar de ver qual será a próxima aventura desses dois artistas.
Hoje eles se apresentam novamente. Vale a pena não acreditar em mim e ir lá ver com os próprios olhos, ouvir com os próprios ouvidos. E depois correr para a quadra da Vila Isabel, onde o maravilhoso Zé Renato também homenageia o genial aniversariante.
Beto Caratori e André Gabeh
Centro de Referência da Música Carioca – 19h
Rua Conde de Bonfim, 824 – Tijuca
3238-3831
Zé Renato
Quadra da Vila Isabel – 20h30
Boulevard 28 de setembro, 383
Vila Isabel
(Todas as fotos são de Mr. R., digo, Ricardo Pessanha)
Exceto na parte em que apresentaram os sambas do embate musical histórico entre o poeta da Vila e seu rival Wilson Batista, todo o repertório do show é de Noel e seus parceiros. Entre as canções eternas, que a gente não cansa de ouvir, aquelas histórias saborosas, que a gente não cansa de escutar. Na maior parte do tempo, quem nos conta essas histórias é Beto Caratori.
Caratori também enche o belíssimo teatro com seu canto delicado, seu jeito cool. Meu acompanhante, Mr. R. comparou seu estilo ao de Chet Baker. É o contraponto perfeito para a esfuziante personalidade, o humor ágil, o talento a transbordar de Gabeh. No palco, André é trompete, diva, preto velho, o que ele quiser, conquistando com facilidade a platéia. Fugindo do padrão dominante atual das novas cantoras, muito bonitinhas, muito afinadinhas, rainhas da sensaboria, a voz do cantor alegria das redes sociais é extensa, agradável e original.
É verdade que faltou ensaiar um pouco mais, decorar as letras de todas as músicas, evitar os escorregões dos músicos aqui e ali. Talvez um toque de direção fizesse a dupla render ainda mais. Mas o que se vê e ouve já é delicioso. Caratori encanta e informa sem se tornar excessivamente didático. André, uma força da natureza, diverte sem dar tom caricatural ao show. Já se viu parcerias muito bem sucedidas ao se jogar no caldeirão estilos assim opostos e complementares.
Finda a efeméride dos 100 do boêmio da Vila, o que a dupla trará a seguir? Continuará como dupla? Explorará outros clássicos do cancioneiro brasileiro? Vou gostar de ver qual será a próxima aventura desses dois artistas.
Hoje eles se apresentam novamente. Vale a pena não acreditar em mim e ir lá ver com os próprios olhos, ouvir com os próprios ouvidos. E depois correr para a quadra da Vila Isabel, onde o maravilhoso Zé Renato também homenageia o genial aniversariante.
Beto Caratori e André Gabeh
Centro de Referência da Música Carioca – 19h
Rua Conde de Bonfim, 824 – Tijuca
3238-3831
Zé Renato
Quadra da Vila Isabel – 20h30
Boulevard 28 de setembro, 383
Vila Isabel
(Todas as fotos são de Mr. R., digo, Ricardo Pessanha)
30.10.10
Clique aqui para conferir estas e muitas outras fotos da solenidade de entrega dos prêmios do Concurso Internacional de Literatura UBE-RJ 2010, onde tirei o 1º Lugar na Categoria Crônicas - PRÊMIO PAULO MENDES CAMPOS com meu livro “FEL – Amargando Felicidade”. A premiação foi na Academia Brasileira de Letras, no último dia 22 de outubro.
29.9.10
É com enorme prazer que divido a alegria de ter meu livro "FEL - Amargando Felicidade" premiado pela União Brasileira de Escritores no Concurso Internacional de Literatura UBE-RJ 2010.
"Fel" ficou em primeiro lugar na categoria crônicas e por isso recebe o Prêmio Paulo Mendes Campos. A cerimônia de entrega dos prêmio...s desta e das demais categorias será no dia 22 de outubro na Academia Brasileira de Letras.
Concurso Internacional de Literatura UBE-RJ 2010
União Brasileira de Escritores
Categoria Crônicas - PRÊMIO PAULO MENDES CAMPOS
1º Lugar: Carla Cintia Conteiro, com: “FEL – Amargando Felicidade”
Local: Teatro R. Magalhães Jr. da ABL
Dia 22 de outubro de 2010, às 14h30
End.: Av. Presidente Wilson, 203 - Castelo
Rio de Janeiro - RJ
Veja este e outros premiados aqui.
"Fel" ficou em primeiro lugar na categoria crônicas e por isso recebe o Prêmio Paulo Mendes Campos. A cerimônia de entrega dos prêmio...s desta e das demais categorias será no dia 22 de outubro na Academia Brasileira de Letras.
Concurso Internacional de Literatura UBE-RJ 2010
União Brasileira de Escritores
Categoria Crônicas - PRÊMIO PAULO MENDES CAMPOS
1º Lugar: Carla Cintia Conteiro, com: “FEL – Amargando Felicidade”
Local: Teatro R. Magalhães Jr. da ABL
Dia 22 de outubro de 2010, às 14h30
End.: Av. Presidente Wilson, 203 - Castelo
Rio de Janeiro - RJ
Veja este e outros premiados aqui.
18.8.10
Desenhos e fotos de Pedro Conteiro Pessanha: http://www.kawek.com.br/pessanha
Eu acho que é coisa de profissional. Por favor, confira e diga se é só corujice materna.
Eu acho que é coisa de profissional. Por favor, confira e diga se é só corujice materna.
20.7.10
Enquanto o meu livro "FEL - Amargando Felicidade" continua sua carreira com todo garbo, uma outra obra com minhas digitais ganha mundo. Trata-se de "Quatro Amigas e suas Histórias".Quem assina o conjunto de crônicas são quatro amigas de Belém do Pará cheias de criatividade e espírito aventureiro, que me convidaram para coordenar o projeto: Katia Lazera, Adriana Sales, Ana Uchoa e Débora Bemerguy. Foi um trabalho muito prazeroso e divertido. Agora é hora de dividir essa satisfação com todo mundo.
Este é o convite para o lançamento no Rio de Janeiro. Em breve, tem mais.
Rio de Janeiro - 28/07/2010
Belém - 10/08/2010 (mais detalhes em breve)
São Paulo - Bienal - 14/08/2010 (mais detalhes em breve)
Prestigie com sua presença!
19.7.10
8.6.10
4.6.10
Todos os textos, do passado e do presente.
Junho/2010
Ana González www.agonzalez.com.br
Impossível não se encantar com os poemas de um caderno amarelado pelo tempo - facilmente imaginado pelo leitor -, e também com as crônicas que retratam um cotidiano cheio de vida, no livro Fel, amargando felicidade de Carla Cintia Conteiro (Rio de Janeiro: Edição do Autor, 2009).
Nos poemas, encontramos o retrato de relações afetivas em que há violência, pois “sob seus pés seguros de partida me amassa” e dor, pois há um “quase” entre o desejo e a crua realidade.
Nesse embate com a subjetividade, há sinais de uma adolescente que anseia por respostas: “E viajando nesta estrada/ que dizem levar à maturidade/ só espinhos, só tristezas, só silêncio/ por parte dos donos da verdade”.
Encontramos também questionamentos de quem se sabe lutadora, sonhadora e viva, tentando sobreviver a seu jeito: “Para aguentar/ o engarrafamento/as manchetes garrafais/só uma garrafa bem cheia/ de líquido amniótico/ que me cure desta sensação de morte”. E de quem se sabe agindo ativamente em tempos de passagem: “Estou de branco/porque assisto a um parto/sou a mãe que me dá à luz/ sou a criança parindo adulto”.
Há espaços de alívio, seja para achar um amor e “passear na lua” seja para o sorriso mudo do amigo. E aspectos da realidade social, ainda que em pequenas doses, como a personagem do boia-fria ou a ascendência africana: “Tenho orgulho dos meus olhos escuros/ meu cabelo crespo/e minha alma/ acima de tudo, negra africana.”.
Nesses poemas iniciais, estão indícios importantes que se marcam firmemente nas crônicas de Carla Cintia.
Denominar a segunda parte do livro de O cotidiano indica certa prudência, até desnecessária. Trata-se de crônicas que nos levam mais longe do que a básica realidade da vida diária.
Li de um sopetão os textos todos, voltei a eles procurando coisas que tinham ficado meio perdidas na memória. E, na hora de parar e pensar o conjunto, só consegui seguir a linha da leitura às avessas. Começando pela prosa. Deixei os poemas por último, talvez pela força das palavras quando se alinham uma após outra sem interrupção, proseando numa descrição sem rodeios.
Esse texto assim forte passa pela realidade em todas as suas cores, trazendo o impensável, a surpresa, a comédia e a tragédia. Com variações, entre o cômico deslavado e a ironia sutil, ente a tragédia e a banalidade cotidiana.
À primeira vista, o que fica mais forte, são as referências de mundo, expressando uma enorme curiosidade, que vaza fartamente pelos textos: pitadas gordas de cultura cinéfila, música popular e literatura brasileiras, a contracultura, figuras da política, da religiosidade, da arte e de outras áreas da cultura. Encontramos também sinais de uma realidade carioca, dos bairros da cidade e muitos traços de um diálogo da autora com as marcas das épocas e daquilo que as faz diferentes umas das outras. Passeamos por “jaleco com estampa de caveiras” e nos solidarizamos com camisetas velhas e furadas.
Há dados da natureza humana em seus aspectos negativos e especiais soluções positivas: “ ...escolho continuar acreditando que as pessoas são boas, de uma forma geral e que os pérfidos, vis e torpes são a exceção.”
O bom humor acontece abrindo espaços: “Será que é sintoma de esquizofrenia não associar aquele pedaço de carne congelada do supermercado ao bicho engraçado dado às ciscadas?”, em meio a pontos de ironia e fina observação: “Como saber da altura do banquinho? Como saber quantas pessoas permanecerão na sala quando começarmos a expor nossa pequena imortalidade?” ou ainda em “Pouca gente é capaz de introjetar a desimportância que pode representar para o outro, a indiferença e desinteresse que pode suscitar.”
Todo esse conjunto de aspectos, sérios, bem humorados e irônicos, configuram um quadro de nossa condição humana, desvendada em seus variados níveis e desenvolvidos na experiência dos relacionamentos.
Encontros impensáveis despontam na rotina diária, quando “lá estávamos, a pústula e eu, nos encarando mutuamente através do espelho...”. A realidade nos visita, apontando para a complexidade das situações da vida e dos afetos, nem sempre simples: “Só o amor é grátis”. Mesmo assim, cabe uma ressalva e, sem amargor, como óbvia constatação e sinal de coragem: “ainda assim sempre haverá pensões de ex-cônjuges, reclamações de esposas...”.
E junto a essa coragem e força de encarar a realidade sem dó, nem fantasias, uma sutil presença do mundo feminino pontua o olhar e a sensibilidade da autora: “...lembro que quando engravidei, sentia um poder enorme, por gerar uma vida.”
E, uma última razão para o encanto do leitor vem da poesia que surge assim na p.84 “Subi as escadas do prédio antigo, brincando de claro e escuro com suas clarabóias. No fim dos degraus, a viajante do tempo me aguardava com cheiro de feijão.”
A realidade e a poesia se encontram também na p.94 : “Meu relógio faleceu bizarra e melancolicamente. Enquanto me recuperava do susto e anunciava a sua morte, esqueci do que estava fazendo. A garrafa d’ água ficou abandonada sob a torneira aberta do filtro.” Ou ainda na p.95: “Levo minhas sandálias rasteiras para passear por estas calçadas, ignorando o sol estorricante e adiando quase indefinidamente para a próxima quadra a entrada em um transporte que me traria para casa.”
São momentos em que as palavras ganham liberdade e se soltam. Dizem então coisas por si mesmas, como se a autora as tivesse liberado.
Crônicas são fotos rápidas, fugidias. Poemas, nem tanto. Juntar os dois é tarefa difícil. Neste livro, a presença de ambos explica a trajetória da autora junto às palavras. Poemas que se querem prosa e, às vezes, prosa que se quer poema.
Dos poemas às crônicas permeadas de cotidiano e de vida presenciamos o amadurecimento da autora. O início e o momento presente. A passagem do tempo, o trabalho da memória, o resgate da experiência. O amor pela expressão escrita desde sempre construindo momentos encantados para nossa leitura.
(O livro FEL - Amargando Felicidade está à venda no Clube de Autores)
Junho/2010
Ana González www.agonzalez.com.br
Impossível não se encantar com os poemas de um caderno amarelado pelo tempo - facilmente imaginado pelo leitor -, e também com as crônicas que retratam um cotidiano cheio de vida, no livro Fel, amargando felicidade de Carla Cintia Conteiro (Rio de Janeiro: Edição do Autor, 2009).
Nos poemas, encontramos o retrato de relações afetivas em que há violência, pois “sob seus pés seguros de partida me amassa” e dor, pois há um “quase” entre o desejo e a crua realidade.
Nesse embate com a subjetividade, há sinais de uma adolescente que anseia por respostas: “E viajando nesta estrada/ que dizem levar à maturidade/ só espinhos, só tristezas, só silêncio/ por parte dos donos da verdade”.
Encontramos também questionamentos de quem se sabe lutadora, sonhadora e viva, tentando sobreviver a seu jeito: “Para aguentar/ o engarrafamento/as manchetes garrafais/só uma garrafa bem cheia/ de líquido amniótico/ que me cure desta sensação de morte”. E de quem se sabe agindo ativamente em tempos de passagem: “Estou de branco/porque assisto a um parto/sou a mãe que me dá à luz/ sou a criança parindo adulto”.
Há espaços de alívio, seja para achar um amor e “passear na lua” seja para o sorriso mudo do amigo. E aspectos da realidade social, ainda que em pequenas doses, como a personagem do boia-fria ou a ascendência africana: “Tenho orgulho dos meus olhos escuros/ meu cabelo crespo/e minha alma/ acima de tudo, negra africana.”.
Nesses poemas iniciais, estão indícios importantes que se marcam firmemente nas crônicas de Carla Cintia.
Denominar a segunda parte do livro de O cotidiano indica certa prudência, até desnecessária. Trata-se de crônicas que nos levam mais longe do que a básica realidade da vida diária.
Li de um sopetão os textos todos, voltei a eles procurando coisas que tinham ficado meio perdidas na memória. E, na hora de parar e pensar o conjunto, só consegui seguir a linha da leitura às avessas. Começando pela prosa. Deixei os poemas por último, talvez pela força das palavras quando se alinham uma após outra sem interrupção, proseando numa descrição sem rodeios.
Esse texto assim forte passa pela realidade em todas as suas cores, trazendo o impensável, a surpresa, a comédia e a tragédia. Com variações, entre o cômico deslavado e a ironia sutil, ente a tragédia e a banalidade cotidiana.
À primeira vista, o que fica mais forte, são as referências de mundo, expressando uma enorme curiosidade, que vaza fartamente pelos textos: pitadas gordas de cultura cinéfila, música popular e literatura brasileiras, a contracultura, figuras da política, da religiosidade, da arte e de outras áreas da cultura. Encontramos também sinais de uma realidade carioca, dos bairros da cidade e muitos traços de um diálogo da autora com as marcas das épocas e daquilo que as faz diferentes umas das outras. Passeamos por “jaleco com estampa de caveiras” e nos solidarizamos com camisetas velhas e furadas.
Há dados da natureza humana em seus aspectos negativos e especiais soluções positivas: “ ...escolho continuar acreditando que as pessoas são boas, de uma forma geral e que os pérfidos, vis e torpes são a exceção.”
O bom humor acontece abrindo espaços: “Será que é sintoma de esquizofrenia não associar aquele pedaço de carne congelada do supermercado ao bicho engraçado dado às ciscadas?”, em meio a pontos de ironia e fina observação: “Como saber da altura do banquinho? Como saber quantas pessoas permanecerão na sala quando começarmos a expor nossa pequena imortalidade?” ou ainda em “Pouca gente é capaz de introjetar a desimportância que pode representar para o outro, a indiferença e desinteresse que pode suscitar.”
Todo esse conjunto de aspectos, sérios, bem humorados e irônicos, configuram um quadro de nossa condição humana, desvendada em seus variados níveis e desenvolvidos na experiência dos relacionamentos.
Encontros impensáveis despontam na rotina diária, quando “lá estávamos, a pústula e eu, nos encarando mutuamente através do espelho...”. A realidade nos visita, apontando para a complexidade das situações da vida e dos afetos, nem sempre simples: “Só o amor é grátis”. Mesmo assim, cabe uma ressalva e, sem amargor, como óbvia constatação e sinal de coragem: “ainda assim sempre haverá pensões de ex-cônjuges, reclamações de esposas...”.
E junto a essa coragem e força de encarar a realidade sem dó, nem fantasias, uma sutil presença do mundo feminino pontua o olhar e a sensibilidade da autora: “...lembro que quando engravidei, sentia um poder enorme, por gerar uma vida.”
E, uma última razão para o encanto do leitor vem da poesia que surge assim na p.84 “Subi as escadas do prédio antigo, brincando de claro e escuro com suas clarabóias. No fim dos degraus, a viajante do tempo me aguardava com cheiro de feijão.”
A realidade e a poesia se encontram também na p.94 : “Meu relógio faleceu bizarra e melancolicamente. Enquanto me recuperava do susto e anunciava a sua morte, esqueci do que estava fazendo. A garrafa d’ água ficou abandonada sob a torneira aberta do filtro.” Ou ainda na p.95: “Levo minhas sandálias rasteiras para passear por estas calçadas, ignorando o sol estorricante e adiando quase indefinidamente para a próxima quadra a entrada em um transporte que me traria para casa.”
São momentos em que as palavras ganham liberdade e se soltam. Dizem então coisas por si mesmas, como se a autora as tivesse liberado.
Crônicas são fotos rápidas, fugidias. Poemas, nem tanto. Juntar os dois é tarefa difícil. Neste livro, a presença de ambos explica a trajetória da autora junto às palavras. Poemas que se querem prosa e, às vezes, prosa que se quer poema.
Dos poemas às crônicas permeadas de cotidiano e de vida presenciamos o amadurecimento da autora. O início e o momento presente. A passagem do tempo, o trabalho da memória, o resgate da experiência. O amor pela expressão escrita desde sempre construindo momentos encantados para nossa leitura.
(O livro FEL - Amargando Felicidade está à venda no Clube de Autores)
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