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24.1.12

Bezerra no Cantagalo


Meninos, eu vi. E fui ver porque sou dessas. Sou de falar do que vivi e não apenas do que vejo na TV, leio nos jornais, revistas e internet. Já estava passando da hora de conferir in loco a cerzidura da cidade partida. Aproveitei o bom motivo e a boa companhia e, pela primeira vez, “subi o morro cantando”. Era uma homenagem ao sambista Bezerra da Silva no Morro do Cantagalo.

Só a homenagem a um personagem como Bezerra da Silva é, em si, uma ideia que atiçaria meus gostos rebeldes. Ele cantou a marginalidade, a opressão policial, as dores e delícias da malandragem como ninguém e desde sempre despertou minha simpatia e curiosidade. Quando recebi o convite para participar do evento no pacificado Cantagalo, nem pisquei, topei na hora. A programação incluía a apresentação da minha roda de samba favorita, o Samba de Benfica, o lançamento de cordel “A Chegada de Bezerra da Silva no Céu” de Vitor Alvim (Lobisomem) e a exibição do curta “Coruja”, sobre o homenageado, seguida de debate com os compositores que forneceram material para o repertório de Bezerra. Tudo isso em um local que já me fisgou pelo nome: Museu de Favela. Programão imperdível, portanto.

Coisa mais linda a vista que se abre enquanto subimos o elevador panorâmico que leva aos píncaros da comunidade. Ali mesmo, na passarela que liga o elevador às vielas, o samba começou. E foi com alegria que constatei que as letras de alguns deles vão ficando como registro de um passado do qual não sentiremos saudades, como em “Nomes de Favela” de Paulo César Pinheiro (“O galo já não canta mais no Cantagalo / A água já não corre mais na Cachoeirinha / Menino não pega mais manga na Mangueira / E agora que cidade grande é a Rocinha! / Ninguém faz mais jura de amor no Juramento / Ninguém vai-se embora do Morro do Adeus / Prazer se acabou lá no Morro dos Prazeres / E a vida é um inferno na Cidade de Deus”) . Parece que vai ganhando espaço na realidade da cidade o otimismo de Martinho da Vila em “Quando Essa Onda Passar” (“Quando essa onda passar / Vou te levar nas favelas / Para que vejas do alto / Como a cidade é bela / (...) / Pegar o Mané do Cavaco / E levar pra uma roda de samba”). Sei que a perfeição está distante e talvez nós, humanos, jamais cheguemos a ela, mas “a onda” está passando.

Olhos curiosos apareciam nas janelas, nas curvas das vielas, no alto das escadas, nos parapeitos das lajes. Algumas crianças tentavam palavras em inglês conosco, achando que éramos gringos. Mas não estávamos lá em safári antropológico, montados em jeeps. Fomos com os pés no chão e o coração na boca. Queríamos aprender com as diferenças e descobrir as semelhanças. Assim, a desconfiança e o estranhamento no olhar foram cedendo espaço para sorrisos e gentilezas. O pessoal do Museu de Favelas é tão bacana, prestativo, atento e carinhoso que seria ótimo se fossem dar umas aulas para equipes de outros pólos culturais da cidade. O negrinho do morro, todo trabalhado no funk, observava interessado enquanto a moça branca do asfalto lhe mostrava como tocar samba. A dona do quiosque explicava como conseguiu aquele penteado tão descolado. Uma pequena multidão de moradores se formou para mostrar o caminho quando pedimos informação para um rapaz que bebia sua cerveja na porta de casa.


O sol se pôs ao lado dos Dois Irmãos pintando aquela paisagem deslumbrante enquanto samba, poesia popular e cinema enriqueciam nossa alma. Mais que tudo, aquela tarde quente na laje, aquele início de noite fresca lá no alto, é mais um bem-vindo capítulo na aproximação dos habitantes da cidade. E, quem sabe, a gente consiga mais facilmente se dar conta de que nós, os do morro e os do asfalto, somos os dois irmãos.


(Veja as fotos.)


1.12.11

FENIX
(“A Foto Onde Eu Quero Estar”)


O Solar de Botafogo é um dos locais mais agradáveis para se ouvir música na cidade do Rio de Janeiro atualmente. Ontem, Mr. R. e eu fomos lá conferir o show de lançamento do novo CD do cantor Fênix, “A Foto Onde Eu Quero Estar”.


O CD não chegou a tempo da fábrica e este talvez tenha sido um dos motivos do nervosismo do artista no início da apresentação. Entretanto é sempre um susto adorável quando aquele rapaz louro começa a cantar e o que ouvimos é um doce contralto. Se você pensou em Ney Matogrosso, pode esquecer. Pelo menos por enquanto o moço de Recife deixou de lado a indumentária exótica com que aparece em alguns vídeos do YouTube. Além disso, em vários momentos, ele tira vantagem de seu amplo alcance vocal para explorar com sua interpretação notas mais graves e sair da delicadeza para o vigor quase violento. Mesmo com os sintomas da gripe dando as caras aqui e ali, ele conseguiu contorná-los e garantiu uma boa amostra do que é capaz de fazer.

Acompanhado de muito bons músicos (Billy Brandão na guitarra, Bruno Migliari no baixo, Marcelo Vig na bateria e Fabrício Belo no teclado), Fênix apresenta canções autorais de acento pop com temática emocional e emocionada. Ousa num samba inspirado, derrama-se em baladas. Quando ele introduz aqui e ali a releitura de canções de outros artistas a geripoca pia. Ele as demole e reconstrói com tanta personalidade e beleza que arrebata o público em lágrimas, como em “Hallelujah” (Leonard Cohen), ou sorrisos, como em “Paparazzi” (Lady Gaga). Ele também brinda sua audiência com uma visita ao repertório da Legião Urbana (“Meninos e Meninas”) e lembra a transgressora Marina Lima dos anos 80 ao citar “Olhos nos Olhos”, de Chico Buarque (“tantos homens me amaram bem mais e melhor que você”). Mas este artista merece transcender os guetos e ser mais conhecido do grande público. Se você se deparar com o anúncio do próximo show dele, largue tudo e vá.

Neste tempo em que qualquer um tem acesso aos meios de produção e é capaz de realizar o sonho de lançar um disco e se chamar de artista, Fênix nos reforça a lembrança de que para ser assim considerado é preciso bem mais que gostar de música, conhecer as técnicas e ser afinado. Sim, tudo isso é fundamental. Contudo, para se candidatar a um posto no Olimpo é preciso ter talento, presença de palco, carisma, enfim, ter estrela. Lançando seu quarto CD no Solar Botafogo – aquele local onde o técnico de som recebe cumprimentos da platéia ao final do show –, Fênix mostra que sua estrela brilha intensamente.

18.10.11



Literatura Coletiva






“ACABA NÃO, MUNDO e outras do www.cronicadodia.com.br” celebra a longevidade do site e reúne autores para lançamento no Rio.




Palavras que percorrem a estrada do mundo digital para o velho e bom papel não são novidade. Muitos escritores bem sucedidos em sites e blogs se tornaram populares também em livros. O grande barato do Acaba Não, Mundo, livro que vai ser lançado no Rio no próximo dia 22, é ser um sonho e uma realização coletiva, criada na internet com a colaboração de muitas mãos.



A partir da fusão de diversos sites culturais atuantes no final do século passado, Eduardo Loureiro Jr. liderou a criação de um site literário chamado Crônica do Dia que, desde 1998, vem publicando um texto inédito de autores diversos... diariamente. Nesses 13 anos, foram 3165 crônicas de 367 autores de todo o país, lidas por mais de dois milhões de leitores. E, definitivamente, isso tinha que ser comemorado.




A comemoração veio em forma de um livro contendo a seleção das melhores crônicas, escolhidas a dedo por Eduardo e uma comissão de cronistas após mergulharem nesse imenso universo ficcional. O resultado foi o Acaba Não, Mundo, um verdadeiro polaroide da criação literária do Brasil hoje. São 30 autores, trinta visões individuais que têm em comum a necessidade inexplicável de se expressar a através da palavra escrita e o fazem com graça e paixão. A publicação não foi apenas escrita coletivamente, foi também custeada por meio do financiamento colaborativo, obtido através do site catarse.me. Além disso, a capa do livro foi escolhida em um concurso organizado na internet.




Agora chegou a hora de lançar o livro, promover o encontro dos autores com seus leitores e entre si, dispersos que estão por todo o país e até no exterior. E para isso foram organizadas várias noites de autógrafos. As de Belo Horizonte e São Paulo já aconteceram com grande sucesso, com a presença de mais de 600 leitores e amigos, e o Rio é o próximo. Neste sábado, dia 22 de outubro, o Acaba Não, Mundo será arremessado e vários autores, estarão lá, entre eles Albir José Inácio da Silva, Andréa Bianchi, Bíbi Da Pieve, Carla Cintia Conteiro, Claudia Letti, Eduardo Loureiro Jr., Leila Míccolis, Leonardo Marona, Maurício Cintrão e Mônica Bonfim.







Serviço:
Lançamento do livro Acaba Não, Mundo
Data: 22 de outubro de 2011
Hora: das 19h às 22h
Local: Espaço Multifoco
Rua Mem de Sá, 126 - Lapa

Mais informações sobre o livro podem ser obtidas no site http://www.acabanaomundo.com.br/



12.8.11

Vale a pena ler de novo?
Esta vai para o amigo Veleiro.


DEUS PARA CRIANÇAS
(Carla Cintia Conteiro)


Era uma vez um velho artesão mudo chamado Gepetto, que gostava de inventar coisas.

Certa feita dedicou-se a um quartinho abandonado em sua casa e foi reformando, reformando... Pintou paredes, colocou lindas prateleiras, caprichou de verdade. O quarto ficou tão bonito que foi nele que sua filha foi morar.

Vida, a filha de Gepetto, era muito ativa e pediu ao pai, tão habilidoso, que lhe fizesse alguns brinquedos.

Muito contente em poder agradar a sua filhinha, o artesão foi inventando toda sorte de brinquedos para ela: bolas, ursinhos de pelúcia, casinhas... Ela adorava tudo e se divertia muito com cada um deles, até que ficavam muito velhos e imprestáveis e ela jogava-os em uma Grande Caixa que vez ou outra a Empregada levava para esvaziar.

Um dia, Gepetto criou um boneco e deu-lhe o nome de Pinóquio. Pinóquio era o brinquedo mais lindo que o velho mudo jamais criara. Cheio de truques e artimanhas, logo encantou Vida, que lhe deu preferência, em relação a todos os outros brinquedos.

Mas Pinóquio não era feliz. Ele olhava tudo a sua volta e não entendia direito como as coisas funcionavam e porque era assim e não de outro jeito. Por que Gepetto o havia criado apenas para que Vida brincasse com ele? Observava a forma como ela tratava os demais brinquedos e temia desesperadamente a Grande Caixa, destino de todos os brinquedos.

Perguntou Pinóquio ao seu criador sobre tudo isto, tentando esclarecer suas dúvidas, mas Gepetto respondia com a linguagem dos sinais, que Pinóquio não entendia. Ele era apenas um brinquedo-menino e teria muito o que aprender, inclusive a linguagem dos sinais. O boneco tentava perguntar a seus irmãos bonecos se eles entendiam os sinais de Gepetto, mas cada um entendia de um jeito e como cada um achava que sua interpretação era a certa, brigavam muito por este motivo.

Enquanto isto, Vida continuava com sua rotina. Brincava com todos os brinquedos, incluindo os bonecos, até que eles ficassem destruídos e fossem jogados na Grande Caixa. Às vezes furava um olho, arrancava uma perna e este destino podia ser mais triste para um boneco que a Grande Caixa, pois Vida não gostava de brincar com bonecos com defeito e os maltratava muito.

Alguns bonecos faziam de conta que a Caixa não estava ali e brincavam com Vida, sem se preocuparem se iam se estragar ou não. Pinóquio achava que eles eram ignorantes, mas no fundo, morria de inveja de sua alegria.

Os bonecos brincavam com os outros brinquedos também e como se achavam especiais, acabavam destruindo os demais. Eles não se davam conta que isto faria com que Vida voltasse suas atenções exclusivamente aos bonecos, fazendo com que eles fossem destruídos mais rapidamente. Eles também brincavam entre si, mas algumas vezes brigava também. E os bonecos eram os únicos brinquedos que se destruíam uns aos outros.

E Pinóquio continuava acumulando indagações sem respostas. Ele se perguntava para onde iriam os bonecos depois que a Empregada os levava do quarto na Grande Caixa. Alguns bonecos acreditavam que se fossem bons bonecos seriam levados para um quarto grande e arejado, livres para sempre de mofo e cupins. Mas se fossem maus iriam certamente para o incinerador da casa. Outros acreditavam que seriam simplesmente levados para o lixão da cidade. E alguns criam que Gepetto os reciclaria. Isto também era grande motivo de discórdia entre eles.

Nosso bonequinho de madeira estava ficando irritado com a falta de respostas então resolveu ignorar Gepetto, matar Gepetto, fingir que ele não existia No entanto, isto só aumentou sua angustia, já que ficou sem ter com quem conversar nas horas de agonia ou a quem agradecer quando ficava feliz.

Então Pinóquio resolveu seguir calmamente seu destino.

Jogou-se nos braços de Vida, fazendo as pazes com ela, brincando com ela alegremente, (se) divertindo o quanto podia e tentando não pensar que a Grande Caixa sempre estaria ali esperando por ele.

22.7.11

A capa de nosso livro, "ACABA NÃO, MUNDO", será escolhida por meio de um concurso entre ilustradores do site Wedologos.

Você pode conferir as miniaturas das capas que forem se candidatando ou se candidatar aqui.

Para se candidatar ou ver uma versão um pouco maior das artes, é preciso se cadastrar no Wedologos.

O concurso se encerra dia 31 de julho.

E lembre-se: você tem só até o dia 24/07/2011 para participar do projeto de publicação do "ACABA NÃO, MUNDO" no Catarse.

16.6.11

1.6.11

A Quimidéias no 5o. Jogos Mundiais Militares




O primeiro dos mega eventos esportivos que terão como cenário o Rio acontece já agora em 2011: a quinta edição dos Jogos Mundiais Militares.
Realizados de 16 a 24 de julho, com a participação de cerca de 6000 atletas de mais de 100 países, os jogos serão um dos primeiros testes de organização e infraestrtura que a cidade enfrentará.
A Quimidéias estará presente no 5o. Jogos Mundiais Militares prestando serviços de interpretação e acompanhamento a atletas e dirigentes, contribuindo assim para o sucesso de tão importante evento.
Para saber mais sobre os jogos: clique aqui.

31.5.11

8º Prêmio ACIE de Cinema

Como esperado, o grande vencedor do 8º Prêmio ACIE de Cinema , o Globo de Ouro nacional, ocorrido ontem, no Centro Cultural Banco do Brasil, na Candelária, foi o favoritíssimo Tropa de Elite 2. O filme de José Padilha abocanhou os prêmios de Melhor Filme, Melhor Roteiro (Bráulio Mantovani), Melhor Ator (Wagner Moura) e Melhor Fotografia (Lula Carvalho).

Interessante observar que o prêmio de Melhor Diretor não saiu para a mesma produção que levou o troféu de Melhor Filme. Ele foi para a estante de José Joffily por Olhos Azuis, um grande filme, infelizmente, passado quase em branco pelas salas nacionais.

Glória Pires, nossa Meryl Streep, foi a escolhida como Melhor Atriz por Lula, O Filho do Brasil. A mesma fita também foi laureada como aquela com Melhor Trilha Sonora(Antônio Pinto e Jacques Morelembaum).

Uma Noite em 67 foi eleito o Melhor Documentário, mas um dos outros indicados para a categoria não saiu de mãos abanando. Dzi Croquettes foi eleito melhor filme pelo voto popular, o que não deixa de ser uma façanha e tanto para um documentário, como bem sublinhou sua diretora, Tatiana Issa ao receber a estatueta.

Singela e bonita homenagem ao Cacá Diegues, pelo conjunto da obra.

José Padilha subiu ao palco para receber praticamente todos os prêmios refentes ao seu filme no lugar dos premiados, já que, segundo ele, estavam documentando os treinos de Ronaldinho que se prepara para um jogo de despedida oficial pelo Corinthians.

É agradável ver grandes realizadores não mais se queixando das dificuldades de se fazer cinema neste país. Pelo contrário, foi voz corrente durante a cerimônia que, em vários aspectos, o Brasil atravessa um momento especial em sua História. O cinema nacional não poderia ficar de fora deste fenômeno. Os números das bilheterias para as produções nacionais enchem os olhos e os olhos do mundo voltam-se para nós guiados por obras como Rio, Velozes e Furiosos 5, Amanhecer (da Saga Crepúsculo), Os Mercenários, etc. O momento é difinitivamente auspicioso e o cinema brasileiro, embora ainda precise de financiamento, transforma-se em uma atividade permanente, que - torcemos todos - em breve caminhe com as próprias pernas.

Hoje tem mais. O Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, o Oscar brasileiro, acontecerá às 21h, no Teatro João Caetano, na Praça Tiradentes.

Que brilhem cada vez mais nossas estrelas!

21.5.11

20.5.11

Mel - Adoçando a Felicidade

(Sérgio Veleiro)

"Nesse intervalo de vida que se arrasta, andei me arrastando por sobre o livro da Carla Cíntia (Fel – amargando felicidade) e tive vários momentos de puríssimo prazer.

Leitura que se faz de boca cheia, riso fortuito, pontada de dor. Não uma, não duas, algumas vezes parei a leitura entre uma crônica e outra para respirar fundo. Olhar longe que se perde imaginando... E o Rio de Janeiro explode em cada esquina de concreto, em cada nesga de sentimento.

Não são crônicas sobre a cidade, são histórias profundamente humanas como “A viagem na viagem” (pag. 63) em que a autora diz:

“Gosto de estar perto de gente, gente de verdade, daquelas que fazem números largos em estatísticas.”

E a narrativa prossegue no imaginário de uma testemunha ocular do alheio, do que não lhe pertence, mas está tão próximo: o outro.

Sentada dentro de um ônibus ela vê e imagina. E tudo é tão real, e tudo é tão possível que o leitor vai junto no desenrolar da vida do alheio que é o seu modo de encontrar o outro.

Adiante no livro a narrativa percorre o arrumar e o desarrumar da vida na perspectiva do cabideiro não aprovado pela mãe (“Cabideiro” pág. 72). Quem resiste a um bom pendurar de roupas usadas ao alcance da mão?

E as roupas vão se acumulando à vista de todos, assim como as frustrações, quando temos um cabideiro por perto. Sim, eis uma verdade universal: os pregos atrás da porta atraem a roupa do dia.

Na minha casa de infância meu pai nunca deixou de furar as portas do quarto e banheiro com pregos que serviam de cabides. E não adiantava o quanto mamãe pedisse, era um costume de infância dele. Ela se conformou, afinal também tinha seus costumes de infância inexplicáveis.

Mais adiante Carla fala de um tema universal: o diz que me disse. (“Diz-que-diz” pág. 73).



Carla, concordo muito com você quando diz:

“A questão é que não tenho controle sobre o comportamento de ninguém, além do meu próprio.”

Sempre achei isso. O outro é um completo aleatório, o que ele fala de você é tão-somente o que ele pensa, o que ele é. Não é você. Por isso amplio seu pensamento dizendo que não temos controle sobre o pensamento de ninguém, quanto mais sobre o comportamento. Todos somos livres, pensamos, dizemos e fazemos o que temos por dentro, inclusive ódio, revolta, frustração, inveja... Tudo isso a palavra revela. É só ficar atento. Ou como você bem disse na página 74:

“Se alguém sumariamente se afasta de mim após dar ouvido a mexericos engendrados por uma alma vil, só posso agradecer ao que alguns chamam de anjo da guarda, por ter retirado pessoa tão mixuruca do meu campo vibracional.”

Em “Carta ao meu filho” (pág. 90) eu destaco esse alerta que me fez lembrar um fato acontecido no passado recente:

“Olhe dentro dos olhos. Por mais desorientada que esteja, uma pessoa sempre terá alguma virtude.”

Isso foi tema de discussão um dia desses com os amigos daqui de perto. Perguntei assim de supetão, sem explicação alguma: qual é a tua virtude?

Foi engraçado perceber que alguns demoraram para responder e outros começaram pelos defeitos. Um disse “mas eu não gosto de me auto-elogiar”. Como se reconhecer uma virtude fosse um elogio ao ego... Deu pano pra manga e muita luz no espelho das nossas sombras.

Avançando na leitura tropecei com esses questionamentos: você é responsável por aquilo que cativa? Você já fez a diferença na vida de uma pessoa? Alguém já te disse isso alguma vez? Não? Então leia a crônica “Eu e o outro” (pág. 80/81).

E quem não teve saudade da camisa velha, aquela de algodão bem velhinha e esburacada que você adora vestir quando chega em casa depois de um dia exaustivo? Como não fechar o livro e sorrir um pouco depois de ler a crônica “A camiseta furada” (pág. 59) ?

“Com certeza você já teve um amigo camiseta-velha. Com certeza você já teve dias camiseta-velha...”

O livro todo é uma delícia. Daqueles que a gente lê e pensa, essa eu vou reler um dia. Como um alerta de quem já viveu ou presenciou uma situação descrita na crônica e precisa de cúmplice para expiar os pensamentos nada ortodoxos.

Livro bom é assim, a gente termina de ler já sabendo que vai ser relido. Páginas marcadas, idéias fincadas na mente e ao colocar na prateleira a certeza de que em breve estará de volta à cabeceira da cama.

Carla, parabéns pelo livro. Muito grato pelo prazer da leitura.

(...)
P.S. O tipo de letra impresso nos poemas embaralhou minha visão. Por algum problema meu de foco não consegui sentir os versos."

28.4.11

Vem coisa boa aí. Confira!

14.3.11

"Certa manhã acordei de sonhos intranquilos"
Adoro este título do CD do Otto, referência à Metamosfose de Kafka.
Tenho pesadelos com tsunami.
Hoje acordei com o firme propósito de, ao inicial oficialmente o ano, passar a receber apenas boas notícias.
Nem que para isso tenha que virar uma barata, a única que se salvará do apocalipse.

28.2.11


Acompanhando o desenvolvimento do mercado editorial e de e-books, partilho com vocês o lançamento do meu livro FEL – Amargando Felicidade em formato digital.

Nesse formato, excluídos os custos gráicos, o preço da obra cai significativamente. Confira!

Quem não abre mão do toque do papel nem do prazer do livro impresso, não tem com o que se preocupar. FEL – Amargando Felicidade continua disponível no modelo impresso. Portanto, fica a seu critério escolher o formato que mais lhe agrada.
Em seu livro "A língua de três pontas", Moacyr Scliar cita o Talmud:

A língua que fala mal tem três pontas:
uma fere aquele de quem se fala;
outra fere aquele a quem se fala;
a terceira fere aquele que fala.


E adiciona:

"A maledicência é, no fundo, uma atividade melancólica. Melhor dizendo, é uma tentativa de combater nossa própria melancolia, tripudiando sobre outros."

(Moacyr Scliar - 1937-2011)

22.2.11


Depoimento de Regina Makarem

(Para quem não sabe, CCzinha sou eu.)

"CCzinha, vem agora, tão linda com o livro na mão. Que não li mas sei que vou gostar. Porque CCzinha domina as palavras, sabe manejá-las como espadas, flores, caras de baralho, de tarot, cartas de amor. Ah, que importa... fundamental é escrever. Mais que viver. CCzinha sabia disso desde que nasceu e chorou seu choro primordial, feito de sons que derramavam letras e palavras que somente elazinha tão pequenininha - quando era CCzinha de verdade, agora é CCzinha apenas porque é muito queridinha, mas graaaande - pois bem, as palavras que ela ronronava no primeiro chorinho ninguém compreendia. Mamãe-papai-vovós-vovós acharam tão lindo o chorinho que esparramava letras pelo ar. Letras e sonhos de um dia forma palavras, tanta curiosidade. Como é o mundo? Que mundo é este pra onde me trouxeram tão CCzinha de mim. Que medo, que susto! Como é bom o amor em volta. Não sabe das pessoas dos fatos. Apenas o ato de ser e de ser amada. BBzinha sorri e nasce a primeira crônica. Das palavras que descobriu quando associou ao sentimento os nomes que retalham em tantos sentimentos a inteireza de ser apenas a CCzinhtoda fatiada em milhares de sentires e doeres e amares e muitas palavras novas. O que será que tem mais, palavras ou sentimentos? às vezes, ou, tem gente que não sabe o que fazer com palavras como amor, dignidade, gentileza, lealdade, gratidão, generosidade, delicadeza, enfim, tantos sentimentos que só fazem sentido quando existem ao mesmo tempo por dentro da gente. E nem sempre são partes do ser, talvez palavras como um jogo, palavras cruzadas. Nada mais. As palavras só atingem seu pleno significado quando fazem parte do dia a dia de ser gente. Gente como CCzinha."

28.1.11

Promoção especial 28 e 29/01/2011

Desconto de 20% apenas hoje e amanhã no Clube de Autores

Entre hoje e amanhã, as obras publicadas no Clube estarão com desconto, viabilizado por uma ampla negociação feita com todos os fornecedores.

Isso significa uma queda considerável do que estamos batizando de "sexta e sábado literários".

O desconto durará até o final do sábado.

A todos os leitores, boas compras!

Onde?
O que? release 1 e release 2
A premiação?

15.12.10

Sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos: Brasil é
obrigado a investigar e punir os crimes da ditadura militar


Rio de Janeiro, São Paulo e Washington DC, 14 de dezembro de 2010 - A Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH), em uma sentença histórica notificada hoje, determinou a
responsabilidade internacional do Brasil pelo desaparecimento forçado de, pelo menos, 70 camponeses e militantes da Guerrilha do Araguaia entre os anos de 1972 a 1974, durante a ditadura militar brasileira. Conforme compromisso assumido internacionalmente, é obrigatório e
vinculante o pleno cumprimento desta sentença pelo país.

Esta é a primeira sentença contra o Brasil por crimes cometidos durante a ditadura militar, que permite discutir a herança autoritária do regime ditatorial e contribui para o estabelecimento de
uma cultura do “Nunca Mais” no país.

O Centro pela Justiça e o Direito Internacional (CEJIL), o Grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro (GTNM-RJ) e a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos de São
Paulo (CFMDP-SP) atuam, desde 1995, em representação das vítimas e de seus familiares na denúncia internacional perante o sistema interamericano de proteção dos direitos humanos.

Ao longo do processo comprovaram cabalmente a responsabilidade internacional do Brasil pelo desaparecimento forçado das vítimas, pela total impunidade em relação a estes crimes e pela
ausência de procedimentos eficazes para o estabelecimento da verdade no país. Assim, solicitaram diversas medidas de reparação, que abrangiam desde o conceito de reparação integral às vítimas e seus familiares, até medidas mais amplas, especialmente no que tange ao direito à verdade e à justiça, em relação à sociedade brasileira como um todo.

Os fatos, as violações e as reparações mais destacadas que estabelece a sentença são as seguintes:

A Corte Interamericana determinou que as vítimas do presente caso foram desaparecidas por agentes do Estado. A sentença estabelece que o Brasil violou o direito à justiça, no que se
refere à obrigação internacional de investigar, processar e sancionar os responsáveis pelos desaparecimentos forçados em virtude da interpretação prevalecente da Lei de Anistia brasileira, a qual permitiu a total impunidade deste crimes por mais de 30 anos.

A Corte determinou que esta interpretação da Lei de Anistia, reafirmada recentemente pelo Supremo Tribunal Federal, contraria o Direito Internacional. Nas palavras da Corte: “As
(aquelas) disposições da Lei de Anistia brasileira que impedem a investigação e sanção de graves violações de direitos humanos são incompatíveis com a Convenção Americana, carecem de efeitos jurídicos e não podem seguir representando um obstáculo para a investigação dos fatos
do presente caso (Araguaia)”.

Assim, a Corte requereu que o Estado remova todos os obstáculos práticos e jurídicos para a investigação dos crimes, esclarecimento da verdade e responsabilização dos envolvidos.

Também, o Tribunal reafirmou o alcance geral de sua decisão exigindo que as disposições da Lei de Anistia, que impedem as investigações penais, não possa representar um obstáculo a respeito de outros casos de graves violações de direitos humanos.

Quanto à ausência de informação oficial a Corte avançou substancialmente os parâmetros exigidos para proteção do direito de acesso à informação, incluindo o princípio da máxima divulgação e a necessidade de justificar qualquer negativa de prestar informação. A Corte também afirmou que é essencial que o Brasil adote as medidas necessárias para adequar sua legislação sobre acesso à informação em conformidade com o estabelecido na Convenção Americana.

Finalmente, no que se refere à negativa do Estado, por mais de três décadas, de garantir o direito à verdade aos familiares dos desaparecidos, a Corte Interamericana determinou que, em virtude do sofrimento causado aos mesmos, o Estado brasileiro é responsável por sua tortura psicológica e, entre outras coisas, determinou como medidas de reparação: a obrigação de investigar os fatos; a obrigação de realizar um ato publico de reconhecimento de sua responsabilidade; o desenvolvimento de iniciativas de busca e a continuidade na localização dos restos mortais dos
desaparecidos; a sistematização e; a publicação de toda a informação sobre a Guerrilha do Araguaia e as violações de direitos humanos ocorridas durante o regime militar no Brasil.

Portanto, a sentença da Corte IDH no caso Gomes Lund e outros (Guerrilha do Araguaia) é paradigmática porque permitirá a reconstrução da memória histórica para as gerações futuras, o conhecimento da verdade e, principalmente, a construção, no âmbito da justiça, de novos parâmetros e práticas democráticas.

Segundo Vitória Grabois, familiar e vice-presidente do Grupo Tortura Nunca Mais/ RJ: “A falta de informação por mais de 30 anos causou aos familiares dos guerrilheiros do Araguaia angústia,
sofrimento e desconfiança nas instituições brasileiras. A sentença da Corte renova nossa esperança na justiça.”

Nas palavras de Beatriz Affonso, diretora do programa do CEJIL para o Brasil: “Esperamos que a administração de Dilma Roussef demonstre que os governos democráticos não podem fechar os
olhos aos crimes do passado e que se empenhe em saldar a dívida histórica do país. Já o Poder Judiciário, que é parte do Estado brasileiro, deve cumprir a decisão promovendo a investigação dos crimes cometidos durante a ditadura.

Todos os cidadãos brasileiros devem ter certeza de que hoje, na democracia, a lei está ao alcance de todos, inclusive os agentes públicos e privados, civis e militares envolvidos em nome da repressão em crimes contra os cidadãos.”

Segundo Criméia Schmidt de Almeida, familiar e Presidente da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos de São Paulo: “ Essa sentença pode significar um passo importante na
verdadeira redemocratização do país, eliminando os entraves ditatoriais que ainda persistem nas práticas dos agentes públicos. Como familiar espero que possa significar um ponto final a tantas incertezas que há quase 40 anos marcam com angústia a nossa vida”

Neste sentido Viviana Krsticevic, diretora executiva do CEJIL disse: “América Latina tem avançado significativamente na resolução dos crimes contra a humanidade cometidos por governos ditatoriais. O Brasil, no entanto, ainda está em dívida com os familiares e a sociedade no estabelecimento da verdade e da justiça relacionadas a este tema. Esta sentença representa uma oportunidade única para que o Brasil demonstre que é capaz de liderar tanto no âmbito internacional como nacional os temas relacionados aos direitos humanos e democracia. Para isto, o Brasil deve deixar sem efei tos os aspectos da lei de anistia que impedem a justiça frente a crimes contra a humanidade.”

A sentença está disponível no website da Corte Interamericana: http://www.corteidh.or.cr/docs/casos/articulos/seriec_219_por.pdf

Para mais informações:
Centro pela Justiça e o Direito Internacional:
Beatriz Affonso +55 21 2533 1660 ou 7843-7285
Viviana Krsticevic +1 202 319 3000 ou celular: 1-202-651-0706
Millie Legrain +1 202 319 3000
Grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro: +55 21 2286 8762 ou 21 8103-5657
Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos de São
Paulo: +55 11 3101-5549

11.12.10

Noel Rosa e homenagens de talentos impressionantes na Zona Norte


Exatamente hoje, após um ano praticamente inteiro de homenagens, é o dia em que Noel Rosa completaria seu primeiro centenário. Por todo lado pipoca(ra)m show, mostras, exposições, peças para marcar, com justiça, a data redonda desse seminal compositor brasileiro. Ontem fui conferir o show de Beto Caratori e André Gabeh no Centro de Referência da Música Carioca, na Tijuca.

Exceto na parte em que apresentaram os sambas do embate musical histórico entre o poeta da Vila e seu rival Wilson Batista, todo o repertório do show é de Noel e seus parceiros. Entre as canções eternas, que a gente não cansa de ouvir, aquelas histórias saborosas, que a gente não cansa de escutar. Na maior parte do tempo, quem nos conta essas histórias é Beto Caratori.

Caratori também enche o belíssimo teatro com seu canto delicado, seu jeito cool. Meu acompanhante, Mr. R. comparou seu estilo ao de Chet Baker. É o contraponto perfeito para a esfuziante personalidade, o humor ágil, o talento a transbordar de Gabeh. No palco, André é trompete, diva, preto velho, o que ele quiser, conquistando com facilidade a platéia. Fugindo do padrão dominante atual das novas cantoras, muito bonitinhas, muito afinadinhas, rainhas da sensaboria, a voz do cantor alegria das redes sociais é extensa, agradável e original.






É verdade que faltou ensaiar um pouco mais, decorar as letras de todas as músicas, evitar os escorregões dos músicos aqui e ali. Talvez um toque de direção fizesse a dupla render ainda mais. Mas o que se vê e ouve já é delicioso. Caratori encanta e informa sem se tornar excessivamente didático. André, uma força da natureza, diverte sem dar tom caricatural ao show. Já se viu parcerias muito bem sucedidas ao se jogar no caldeirão estilos assim opostos e complementares.

Finda a efeméride dos 100 do boêmio da Vila, o que a dupla trará a seguir? Continuará como dupla? Explorará outros clássicos do cancioneiro brasileiro? Vou gostar de ver qual será a próxima aventura desses dois artistas.

Hoje eles se apresentam novamente. Vale a pena não acreditar em mim e ir lá ver com os próprios olhos, ouvir com os próprios ouvidos. E depois correr para a quadra da Vila Isabel, onde o maravilhoso Zé Renato também homenageia o genial aniversariante.

Beto Caratori e André Gabeh
Centro de Referência da Música Carioca – 19h
Rua Conde de Bonfim, 824 – Tijuca
3238-3831

Zé Renato
Quadra da Vila Isabel – 20h30
Boulevard 28 de setembro, 383
Vila Isabel



(Todas as fotos são de Mr. R., digo, Ricardo Pessanha)