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24.1.12

Bezerra no Cantagalo


Meninos, eu vi. E fui ver porque sou dessas. Sou de falar do que vivi e não apenas do que vejo na TV, leio nos jornais, revistas e internet. Já estava passando da hora de conferir in loco a cerzidura da cidade partida. Aproveitei o bom motivo e a boa companhia e, pela primeira vez, “subi o morro cantando”. Era uma homenagem ao sambista Bezerra da Silva no Morro do Cantagalo.

Só a homenagem a um personagem como Bezerra da Silva é, em si, uma ideia que atiçaria meus gostos rebeldes. Ele cantou a marginalidade, a opressão policial, as dores e delícias da malandragem como ninguém e desde sempre despertou minha simpatia e curiosidade. Quando recebi o convite para participar do evento no pacificado Cantagalo, nem pisquei, topei na hora. A programação incluía a apresentação da minha roda de samba favorita, o Samba de Benfica, o lançamento de cordel “A Chegada de Bezerra da Silva no Céu” de Vitor Alvim (Lobisomem) e a exibição do curta “Coruja”, sobre o homenageado, seguida de debate com os compositores que forneceram material para o repertório de Bezerra. Tudo isso em um local que já me fisgou pelo nome: Museu de Favela. Programão imperdível, portanto.

Coisa mais linda a vista que se abre enquanto subimos o elevador panorâmico que leva aos píncaros da comunidade. Ali mesmo, na passarela que liga o elevador às vielas, o samba começou. E foi com alegria que constatei que as letras de alguns deles vão ficando como registro de um passado do qual não sentiremos saudades, como em “Nomes de Favela” de Paulo César Pinheiro (“O galo já não canta mais no Cantagalo / A água já não corre mais na Cachoeirinha / Menino não pega mais manga na Mangueira / E agora que cidade grande é a Rocinha! / Ninguém faz mais jura de amor no Juramento / Ninguém vai-se embora do Morro do Adeus / Prazer se acabou lá no Morro dos Prazeres / E a vida é um inferno na Cidade de Deus”) . Parece que vai ganhando espaço na realidade da cidade o otimismo de Martinho da Vila em “Quando Essa Onda Passar” (“Quando essa onda passar / Vou te levar nas favelas / Para que vejas do alto / Como a cidade é bela / (...) / Pegar o Mané do Cavaco / E levar pra uma roda de samba”). Sei que a perfeição está distante e talvez nós, humanos, jamais cheguemos a ela, mas “a onda” está passando.

Olhos curiosos apareciam nas janelas, nas curvas das vielas, no alto das escadas, nos parapeitos das lajes. Algumas crianças tentavam palavras em inglês conosco, achando que éramos gringos. Mas não estávamos lá em safári antropológico, montados em jeeps. Fomos com os pés no chão e o coração na boca. Queríamos aprender com as diferenças e descobrir as semelhanças. Assim, a desconfiança e o estranhamento no olhar foram cedendo espaço para sorrisos e gentilezas. O pessoal do Museu de Favelas é tão bacana, prestativo, atento e carinhoso que seria ótimo se fossem dar umas aulas para equipes de outros pólos culturais da cidade. O negrinho do morro, todo trabalhado no funk, observava interessado enquanto a moça branca do asfalto lhe mostrava como tocar samba. A dona do quiosque explicava como conseguiu aquele penteado tão descolado. Uma pequena multidão de moradores se formou para mostrar o caminho quando pedimos informação para um rapaz que bebia sua cerveja na porta de casa.


O sol se pôs ao lado dos Dois Irmãos pintando aquela paisagem deslumbrante enquanto samba, poesia popular e cinema enriqueciam nossa alma. Mais que tudo, aquela tarde quente na laje, aquele início de noite fresca lá no alto, é mais um bem-vindo capítulo na aproximação dos habitantes da cidade. E, quem sabe, a gente consiga mais facilmente se dar conta de que nós, os do morro e os do asfalto, somos os dois irmãos.


(Veja as fotos.)


1.12.11

FENIX
(“A Foto Onde Eu Quero Estar”)


O Solar de Botafogo é um dos locais mais agradáveis para se ouvir música na cidade do Rio de Janeiro atualmente. Ontem, Mr. R. e eu fomos lá conferir o show de lançamento do novo CD do cantor Fênix, “A Foto Onde Eu Quero Estar”.


O CD não chegou a tempo da fábrica e este talvez tenha sido um dos motivos do nervosismo do artista no início da apresentação. Entretanto é sempre um susto adorável quando aquele rapaz louro começa a cantar e o que ouvimos é um doce contralto. Se você pensou em Ney Matogrosso, pode esquecer. Pelo menos por enquanto o moço de Recife deixou de lado a indumentária exótica com que aparece em alguns vídeos do YouTube. Além disso, em vários momentos, ele tira vantagem de seu amplo alcance vocal para explorar com sua interpretação notas mais graves e sair da delicadeza para o vigor quase violento. Mesmo com os sintomas da gripe dando as caras aqui e ali, ele conseguiu contorná-los e garantiu uma boa amostra do que é capaz de fazer.

Acompanhado de muito bons músicos (Billy Brandão na guitarra, Bruno Migliari no baixo, Marcelo Vig na bateria e Fabrício Belo no teclado), Fênix apresenta canções autorais de acento pop com temática emocional e emocionada. Ousa num samba inspirado, derrama-se em baladas. Quando ele introduz aqui e ali a releitura de canções de outros artistas a geripoca pia. Ele as demole e reconstrói com tanta personalidade e beleza que arrebata o público em lágrimas, como em “Hallelujah” (Leonard Cohen), ou sorrisos, como em “Paparazzi” (Lady Gaga). Ele também brinda sua audiência com uma visita ao repertório da Legião Urbana (“Meninos e Meninas”) e lembra a transgressora Marina Lima dos anos 80 ao citar “Olhos nos Olhos”, de Chico Buarque (“tantos homens me amaram bem mais e melhor que você”). Mas este artista merece transcender os guetos e ser mais conhecido do grande público. Se você se deparar com o anúncio do próximo show dele, largue tudo e vá.

Neste tempo em que qualquer um tem acesso aos meios de produção e é capaz de realizar o sonho de lançar um disco e se chamar de artista, Fênix nos reforça a lembrança de que para ser assim considerado é preciso bem mais que gostar de música, conhecer as técnicas e ser afinado. Sim, tudo isso é fundamental. Contudo, para se candidatar a um posto no Olimpo é preciso ter talento, presença de palco, carisma, enfim, ter estrela. Lançando seu quarto CD no Solar Botafogo – aquele local onde o técnico de som recebe cumprimentos da platéia ao final do show –, Fênix mostra que sua estrela brilha intensamente.

18.10.11



Literatura Coletiva






“ACABA NÃO, MUNDO e outras do www.cronicadodia.com.br” celebra a longevidade do site e reúne autores para lançamento no Rio.




Palavras que percorrem a estrada do mundo digital para o velho e bom papel não são novidade. Muitos escritores bem sucedidos em sites e blogs se tornaram populares também em livros. O grande barato do Acaba Não, Mundo, livro que vai ser lançado no Rio no próximo dia 22, é ser um sonho e uma realização coletiva, criada na internet com a colaboração de muitas mãos.



A partir da fusão de diversos sites culturais atuantes no final do século passado, Eduardo Loureiro Jr. liderou a criação de um site literário chamado Crônica do Dia que, desde 1998, vem publicando um texto inédito de autores diversos... diariamente. Nesses 13 anos, foram 3165 crônicas de 367 autores de todo o país, lidas por mais de dois milhões de leitores. E, definitivamente, isso tinha que ser comemorado.




A comemoração veio em forma de um livro contendo a seleção das melhores crônicas, escolhidas a dedo por Eduardo e uma comissão de cronistas após mergulharem nesse imenso universo ficcional. O resultado foi o Acaba Não, Mundo, um verdadeiro polaroide da criação literária do Brasil hoje. São 30 autores, trinta visões individuais que têm em comum a necessidade inexplicável de se expressar a através da palavra escrita e o fazem com graça e paixão. A publicação não foi apenas escrita coletivamente, foi também custeada por meio do financiamento colaborativo, obtido através do site catarse.me. Além disso, a capa do livro foi escolhida em um concurso organizado na internet.




Agora chegou a hora de lançar o livro, promover o encontro dos autores com seus leitores e entre si, dispersos que estão por todo o país e até no exterior. E para isso foram organizadas várias noites de autógrafos. As de Belo Horizonte e São Paulo já aconteceram com grande sucesso, com a presença de mais de 600 leitores e amigos, e o Rio é o próximo. Neste sábado, dia 22 de outubro, o Acaba Não, Mundo será arremessado e vários autores, estarão lá, entre eles Albir José Inácio da Silva, Andréa Bianchi, Bíbi Da Pieve, Carla Cintia Conteiro, Claudia Letti, Eduardo Loureiro Jr., Leila Míccolis, Leonardo Marona, Maurício Cintrão e Mônica Bonfim.







Serviço:
Lançamento do livro Acaba Não, Mundo
Data: 22 de outubro de 2011
Hora: das 19h às 22h
Local: Espaço Multifoco
Rua Mem de Sá, 126 - Lapa

Mais informações sobre o livro podem ser obtidas no site http://www.acabanaomundo.com.br/



12.8.11

Vale a pena ler de novo?
Esta vai para o amigo Veleiro.


DEUS PARA CRIANÇAS
(Carla Cintia Conteiro)


Era uma vez um velho artesão mudo chamado Gepetto, que gostava de inventar coisas.

Certa feita dedicou-se a um quartinho abandonado em sua casa e foi reformando, reformando... Pintou paredes, colocou lindas prateleiras, caprichou de verdade. O quarto ficou tão bonito que foi nele que sua filha foi morar.

Vida, a filha de Gepetto, era muito ativa e pediu ao pai, tão habilidoso, que lhe fizesse alguns brinquedos.

Muito contente em poder agradar a sua filhinha, o artesão foi inventando toda sorte de brinquedos para ela: bolas, ursinhos de pelúcia, casinhas... Ela adorava tudo e se divertia muito com cada um deles, até que ficavam muito velhos e imprestáveis e ela jogava-os em uma Grande Caixa que vez ou outra a Empregada levava para esvaziar.

Um dia, Gepetto criou um boneco e deu-lhe o nome de Pinóquio. Pinóquio era o brinquedo mais lindo que o velho mudo jamais criara. Cheio de truques e artimanhas, logo encantou Vida, que lhe deu preferência, em relação a todos os outros brinquedos.

Mas Pinóquio não era feliz. Ele olhava tudo a sua volta e não entendia direito como as coisas funcionavam e porque era assim e não de outro jeito. Por que Gepetto o havia criado apenas para que Vida brincasse com ele? Observava a forma como ela tratava os demais brinquedos e temia desesperadamente a Grande Caixa, destino de todos os brinquedos.

Perguntou Pinóquio ao seu criador sobre tudo isto, tentando esclarecer suas dúvidas, mas Gepetto respondia com a linguagem dos sinais, que Pinóquio não entendia. Ele era apenas um brinquedo-menino e teria muito o que aprender, inclusive a linguagem dos sinais. O boneco tentava perguntar a seus irmãos bonecos se eles entendiam os sinais de Gepetto, mas cada um entendia de um jeito e como cada um achava que sua interpretação era a certa, brigavam muito por este motivo.

Enquanto isto, Vida continuava com sua rotina. Brincava com todos os brinquedos, incluindo os bonecos, até que eles ficassem destruídos e fossem jogados na Grande Caixa. Às vezes furava um olho, arrancava uma perna e este destino podia ser mais triste para um boneco que a Grande Caixa, pois Vida não gostava de brincar com bonecos com defeito e os maltratava muito.

Alguns bonecos faziam de conta que a Caixa não estava ali e brincavam com Vida, sem se preocuparem se iam se estragar ou não. Pinóquio achava que eles eram ignorantes, mas no fundo, morria de inveja de sua alegria.

Os bonecos brincavam com os outros brinquedos também e como se achavam especiais, acabavam destruindo os demais. Eles não se davam conta que isto faria com que Vida voltasse suas atenções exclusivamente aos bonecos, fazendo com que eles fossem destruídos mais rapidamente. Eles também brincavam entre si, mas algumas vezes brigava também. E os bonecos eram os únicos brinquedos que se destruíam uns aos outros.

E Pinóquio continuava acumulando indagações sem respostas. Ele se perguntava para onde iriam os bonecos depois que a Empregada os levava do quarto na Grande Caixa. Alguns bonecos acreditavam que se fossem bons bonecos seriam levados para um quarto grande e arejado, livres para sempre de mofo e cupins. Mas se fossem maus iriam certamente para o incinerador da casa. Outros acreditavam que seriam simplesmente levados para o lixão da cidade. E alguns criam que Gepetto os reciclaria. Isto também era grande motivo de discórdia entre eles.

Nosso bonequinho de madeira estava ficando irritado com a falta de respostas então resolveu ignorar Gepetto, matar Gepetto, fingir que ele não existia No entanto, isto só aumentou sua angustia, já que ficou sem ter com quem conversar nas horas de agonia ou a quem agradecer quando ficava feliz.

Então Pinóquio resolveu seguir calmamente seu destino.

Jogou-se nos braços de Vida, fazendo as pazes com ela, brincando com ela alegremente, (se) divertindo o quanto podia e tentando não pensar que a Grande Caixa sempre estaria ali esperando por ele.

22.7.11

A capa de nosso livro, "ACABA NÃO, MUNDO", será escolhida por meio de um concurso entre ilustradores do site Wedologos.

Você pode conferir as miniaturas das capas que forem se candidatando ou se candidatar aqui.

Para se candidatar ou ver uma versão um pouco maior das artes, é preciso se cadastrar no Wedologos.

O concurso se encerra dia 31 de julho.

E lembre-se: você tem só até o dia 24/07/2011 para participar do projeto de publicação do "ACABA NÃO, MUNDO" no Catarse.

16.6.11

1.6.11

A Quimidéias no 5o. Jogos Mundiais Militares




O primeiro dos mega eventos esportivos que terão como cenário o Rio acontece já agora em 2011: a quinta edição dos Jogos Mundiais Militares.
Realizados de 16 a 24 de julho, com a participação de cerca de 6000 atletas de mais de 100 países, os jogos serão um dos primeiros testes de organização e infraestrtura que a cidade enfrentará.
A Quimidéias estará presente no 5o. Jogos Mundiais Militares prestando serviços de interpretação e acompanhamento a atletas e dirigentes, contribuindo assim para o sucesso de tão importante evento.
Para saber mais sobre os jogos: clique aqui.

31.5.11

8º Prêmio ACIE de Cinema

Como esperado, o grande vencedor do 8º Prêmio ACIE de Cinema , o Globo de Ouro nacional, ocorrido ontem, no Centro Cultural Banco do Brasil, na Candelária, foi o favoritíssimo Tropa de Elite 2. O filme de José Padilha abocanhou os prêmios de Melhor Filme, Melhor Roteiro (Bráulio Mantovani), Melhor Ator (Wagner Moura) e Melhor Fotografia (Lula Carvalho).

Interessante observar que o prêmio de Melhor Diretor não saiu para a mesma produção que levou o troféu de Melhor Filme. Ele foi para a estante de José Joffily por Olhos Azuis, um grande filme, infelizmente, passado quase em branco pelas salas nacionais.

Glória Pires, nossa Meryl Streep, foi a escolhida como Melhor Atriz por Lula, O Filho do Brasil. A mesma fita também foi laureada como aquela com Melhor Trilha Sonora(Antônio Pinto e Jacques Morelembaum).

Uma Noite em 67 foi eleito o Melhor Documentário, mas um dos outros indicados para a categoria não saiu de mãos abanando. Dzi Croquettes foi eleito melhor filme pelo voto popular, o que não deixa de ser uma façanha e tanto para um documentário, como bem sublinhou sua diretora, Tatiana Issa ao receber a estatueta.

Singela e bonita homenagem ao Cacá Diegues, pelo conjunto da obra.

José Padilha subiu ao palco para receber praticamente todos os prêmios refentes ao seu filme no lugar dos premiados, já que, segundo ele, estavam documentando os treinos de Ronaldinho que se prepara para um jogo de despedida oficial pelo Corinthians.

É agradável ver grandes realizadores não mais se queixando das dificuldades de se fazer cinema neste país. Pelo contrário, foi voz corrente durante a cerimônia que, em vários aspectos, o Brasil atravessa um momento especial em sua História. O cinema nacional não poderia ficar de fora deste fenômeno. Os números das bilheterias para as produções nacionais enchem os olhos e os olhos do mundo voltam-se para nós guiados por obras como Rio, Velozes e Furiosos 5, Amanhecer (da Saga Crepúsculo), Os Mercenários, etc. O momento é difinitivamente auspicioso e o cinema brasileiro, embora ainda precise de financiamento, transforma-se em uma atividade permanente, que - torcemos todos - em breve caminhe com as próprias pernas.

Hoje tem mais. O Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, o Oscar brasileiro, acontecerá às 21h, no Teatro João Caetano, na Praça Tiradentes.

Que brilhem cada vez mais nossas estrelas!

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