
A princípio, pensei ser uma questão de embalagem. A garrafa de
vidro manteria as propriedades de sabor que o alumínio e o pet não conseguiriam
manter. E até funcionou relativamente. Era um prazer quando encontrava aquela
garrafinha miúda, com chapinha, do tamanho certo da vontade, sem pesar muito na
culpa de quem sapateia fora da dieta. Agora nem isso. Só desilusão. Não valem
as numerosas calorias ingeridas.
Desde que comecei a fazer reeducação alimentar, fiquei mais
consciente de certas propriedades de determinados alimentos. Nunca fui muito
amiga de confeitos, salvo em caso de nostalgia infantil, como já disse. Sempre
preferi os sabores salgados e picantes. Mas comecei a ficar atenta para a
quantidade de gordura, principalmente a hidrogenada, e do sódio presente na
comida industrializada. Optar por alimentos menos processados me levou a
descobrir novos ingredientes e temperos e abriu novos horizontes para o meu
paladar, longe do apelo ancestral e fácil do doce, do gordo e do salgado.
Por essas e outras fico cabreira quando falam, sempre em tom
de elogio, que alguém não mudou nada, apesar de ter se tornado bem-sucedido,
rico ou famoso... As pessoas podem manter valores familiares, o caráter. Elas podem
continuar tratando com respeito e cortesia quem cresceu ao seu lado, quem
ajudou a formar seu caráter. É lógico. Mas continuar o mesmo? Quem viaja pelo
mundo, conhece outras gentes e outros costumes, experimenta outros cheiros e gostos,
dá a cara a bater, toma porrada, faz e recebe um carinho especial, perde e
ganha, lê sobre assuntos diversos... e permanece igual?
Por outro lado, o louvor a estagnação parece uma reprovação
a quem procura novos caminhos. A desconfiança é ainda maior se o sujeito tem
sucesso. Sabe-se lá se por que razão, há na alma de muita gente a crença de que
só se dá bem quem é desonesto. Daí, talvez, eu veja por aí muita
auto-sabotagem. Imagina: se alguém acredita que só quem é corrupto pode se
desenvolver, então desenvolver-se é tornar-se corrupto, portanto deve-se
permanecer onde está, como está. Mesmo que as condições não sejam as melhores. E,
olha, há muitos vigias do êxito alheio, todos prontinhos para apontar dedos
acusatórios. Até porque se o outro progrediu e eu não a culpa tem que ser dele
ou terei que encarar certos fatos.
Enquanto isso, os ponteiros do relógio avançam e sei cada
vez menos. Mas suspeito que a Coca-Cola continua igual.
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