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18.8.05

Crônica pouco original do medo
(Antônio Torres)




Nada de pânico. Embora o horizonte continue sombrio e o estado da atmosfera indique que ainda não atravessamos as zonas de turbulência, este país não pode ser considerado uma nau sem rumo. Ao longo dos seus 505 anos de navegações, já deve ter aprendido a se proteger das tempestades e a se defender dos ataques dos flibusteiros.
No entanto, isto não nos torna refratários ao mais humano dos sentimentos: o do medo. E não estou me referindo aos sobressaltos do cotidiano. Mas aos papos nas filas dos bancos, dos motoristas de táxis e na boca do caixa da mercearia ali na esquina:

- Estamos precisando de um novo marechal Castelo Branco, para fechar logo este Congresso!

- Vira essa boca pra lá, homem!

- Mas para que serve essa democracia? Para fazer a gente eleger ladrão? Pra mim, chega. Nunca mais voto em ninguém.

- Nunca mais é o PT! Nunca mais é o Lula!

- Impeachment! Impeachment!

Neste exato momento, há no ar sinais tão preocupantes quanto o perigo das balas a esmo, dos assaltos à mão armada, de um ou outro laivo de saudosismo da ditadura militar. Incorpora-se a esta lista a confiança perdida neste governo, a um ano e meio do seu fim, o que faz com que as raposas oposicionistas saiam de suas selvas de dentes arreganhados. Por conveniências eleitorais, porém, estão dando um tempo. Mas atenção. Nesse mato não tem só flores cheirosas, não é o que estamos vendo, diante das câmeras?

Alguns Zés ali da esquina estão com medo do que os raposões possam vir a aprontar. E ponderam: que o chefe da nação assuma o leme para o barco não ficar à deriva. Depois de cumprida a sua missão (ainda falta um ano e meio, ufa!), que tal procurar outra ocupação, como qualquer um de nós, ao perder o emprego? Seja qual for o destino que tiver, com certeza será melhor do que o dos milhões de brasileiros que acreditaram nas suas promessas de esperança. Certo. Ao deixar o comando, perderá o seu atual cartão de crédito. Em compensação, sairá dessa sem precisar entrar nas filas dos programas assistenciais, como o Fome Zero.

Para baixar o tom editorializante até aqui, mas sem fugir do assunto, recorro a uns versos de O poema pouco original do medo, do português Alexandre O'Neill. Embora escrito em outra circunstância histórica - a ferrenha era do salazarismo -, a sua essência confere-lhe atualidade, como veremos:

''O medo vai ter tudo/ pernas/ ambulâncias/ e o luxo blindado de alguns automóveis./ Vai ter enredos quase inocentes/ ouvidos não só nas paredes/ mas também no chão/ no teto/ no murmúrio dos esgotos/ e talvez até (cautela!)/ ouvidos nos teus ouvidos./ O medo vai ter tudo./ Milagres/ cortejos/ frases corajosas/ congressos muitos/ ótimos empregos/ projetos altamente porcos/ heróis (o medo vai ter heróis!)/ a tua voz talvez/ talvez a minha/ com certeza a deles./ Vai ter suspeitas como toda a gente... (Penso no que o medo vai ter/ e tenho medo/ que é justamente/ o que o medo quer.)''

Assino embaixo. Digo, lá em cima.

(fonte)

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