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10.1.07

Sou Uma Criança, Não Entendo Nada
(Erasmo Carlos)

Antigamente quando eu me excedia ou fazia alguma coisa errada.
Naturalmente minha mãe dizia: "ele é uma criança, não entende nada".
Por dentro eu ria satisfeito e mudo. Eu era um homem e entendia tudo.
Hoje só, com meus problemas rezo muito, mas eu não me iludo.
Sempre me dizem quando fico sério: "ele é um homem e entende tudo".
Por dentro com a alma atarantada, sou uma criança, não entendo nada.


No final dos anos 1970, a escola onde eu estudava promoveu eleições, mas já não lembro qual eram os cargos que os vencedores ocupariam. Algo decorativo, imagino, pois vivíamos período de trevas na política. Recordo, entretanto, que os nomes das chapas causaram comoção. Devo destacar que naquela época, naquele bairro, o sinal da Rede Globo nem sempre chegava claro, não haviam as parabólicas, nem TV a cabo, e a torre de UHF no alto da Serra do Mendanha ainda era um projeto. Assim, a TV Tupi tinha forte audiência na região. Por isso as chapas receberam os nomes de "O Astro", em homenagem à novela de Janete Clair exibida pela Vênus Platinada em horário nobre e "O Profeta", folhetim de Ivani Ribeiro levada então pela Tupi. A cisão advinda dessa escolha fez com que a acalorada disputa sobre qual álbum de figurinhas era o mais interessante, o dos personagens da Disney ou o de ciências, fosse completamente esquecida.

Não perdia um capítulo de "O Profeta", com o saudoso Carlos Augusto Strazzer no papel título e Débora Duarte no papel de irmã feia carismática. Também lembro da Márcia de Windsor (que trabalhava como jurada em programa de calouros) como a mãe que acobertava as armações da irmã arrivista. Mas quase não tenho registro da história em si, além dos poderes do protagonista, usados em causa própria contra os conselhos dos sensatos e da paixão da feiosa por ele. Assisto a poucos capítulos do remake na Globo, mas eles não despertam qualquer recordação do original.

Estranho como nossas memórias são mais de sensações do que de fatos. E me lembro das sensações da disputa na escola, de como adorava ver a novela e tentar ver o rosto de Jesus na imagem do borrão na abertura, mas não recordo bem do enredo.

De qualquer forma, pelo pouco que vi, constato que muita coisa não despertaria interesse no mundo de hoje. O mocinho tendo que casar contra sua própria vontade porque engravidou a vilã? Hoje em dia o golpe da barriga não rola. Ou rola?

Aliás, acho que cada vez mais teremos novelas de época, porque os grandes clichês folhetinescos foram exterminados pelas novas tecnologias. Desencontros e bolos? Na era do celular!? Desconhecidos que se aproximam e se apaixonam, descobrem que são irmãos e só no final concluem que não. Ou quem é o verdadeiro pai da criança... Vai exame de DNA aí? E a carta, aquela que desvenda tudo, ou compromete, ou inocenta? Cadê os missivistas de caneta e papel em 2007?

É, o povo da dramaturgia tem que ralar para criar novos chavões. Mas por enquanto eles ainda falam de e com o pessoal que ainda não chegou no século XXI.

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