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16.6.05

Repassando os textos que recebi do Cordeiro, porque é sempre bom manter o senso crítico ligado.


Há um cheiro estranho nas últimas notícias sobre o PT
(Por Renato Rovai)

Fui à Venezuela duas vezes no último período. Ambas as visitas foram de aproximadamente quinze dias. A primeira foi na semana seguinte à tentativa de golpe. Estive lá com o fotógrafo Satoru Takaesu. Chegamos ao país com apenas um contato, o do secretário-geral do Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Imprensa, Gregório Salazar. Ele foi nosso guia. Gentil, prestativo e antichavista, nos apresentou tudo o que em sua opinião tornava a tentativa de golpe ao presidente de seu país, de certa forma, justificável.Exatamente isso, um jornalista de postura solícita e que parecia de fato acreditar em valores democráticos defendia o movimento golpista. Apontava excessos por parte da turma de Pedro Carmona, o líder empresarial que fechou o Congresso, destituiu a Suprema Corte, rasgou a Constituição e durou 28 horas na presidência, mas entendia que aquelas posturas se justificavam, já que do outro lado estava Chávez.
Em todos os programas de televisão e nos jornais e revistas de maior circulação da Venezuela, as palavras de Salazar pareciam ter sentido. A mídia local veiculava em uníssono seu ódio antichavista.

A cobertura midiática dos últimos episódios, que apontam para um suposto esquema de corrupção na formação da base do atual governo brasileiro, está ganhando contornos muito semelhantes ao que ocorreu no país vizinho. Com uma sutileza: ela não é personalizada na figura do presidente da República, como no caso venezuelano, mas no seu partido político, o PT.
É fato que há uma denúncia que precisa ser apurada e do bom jornalismo espera-se uma investigação com base em entrevistas e reunião de documentos. Faz bem à democracia que a imprensa assim atue. É isso o que dela se espera.

Como se esperava também que assim fosse quando ocorreu o processo de privatização das telefônicas e de outras empresas públicas do país. Naquele momento, os escândalos não precisavam ser abafados pelo governo ou deputados governistas. O midiático poder brasileiro se encarregava disso. O falecido jornalista Aloysio Biondi, de forma quixotesca, tentava “destampar a panela”, mas seus artigos, publicados duas vezes por semana na Folha de S. Paulo, não recebiam sequer chamada de primeira página. Ao contrário, uma vez me confidenciou que quando recebeu convite para ir trabalhar no então Diário Popular, ganhando um pouco mais, mas tendo uma coluna diária, recebeu como contraproposta da Folha ganhar mais para escrever apenas uma única coluna semanal. Entendeu aquilo como um cala-boca e foi para o Diário.
Seu livro, o Brasil Privatizado, repleto de provas escandalosas, vendeu mais de 100 mil exemplares e mereceu apenas registros pontuais nos veículos. Não impulsionou nenhum movimento anti-PSDB nos veículos de comunicação.

É disso que se trata. Anuncia-se na mídia brasileira uma campanha sanguinolenta contra o PT. Se vier a acontecer em sua plenitude, será contra tudo o que partido representa. Ou mesmo o que um dia representou com mais firmeza. Não será uma campanha contra o que pode haver de podre na agremiação.

Sugere-se em editorias e opiniões de articulistas e parlamentares tucanos que Lula precisará se livrar do PT caso queira terminar o mandato. Justifica-se a pressão por conta de o tesoureiro do partido estar sendo acusado de comprar toda a bancada de deputados do PL e do PP. O curioso é que desses deputados acusados nada se fala. Alguns são bastante famosos, como Delfim Neto e o próprio presidente da Câmara, Severino Cavalcanti. Mas nenhum foi emparedado por veículos de comunicação para dar explicações. Ao contrário, o presidente do PT, José Genoino, tem sido acuado com ironias e grosserias em muitas de suas participações em programas de rádio e TV.
Não se espera que o midiático poder brasileiro se comporte como em relação a Eduardo Jorge Caldas, secretário-geral da Presidência da República, que, entre outras coisas, foi acusado de participar de suposto esquema de liberação de verbas no valor de R$ 169 milhões para o Tribunal Regional do Trabalho (TRT) de São Paulo, e de criar caixa-dois para a reeleição de FHC. Naqueles dias, tudo era debatido via jornais e revistas com excesso de cuidado além da conta. Espera-se que se vá mais a fundo, como manda o bom jornalismo, no escândalo do suposto mensalão.

Mas é bom que se saiba que no ataque ao PT o que está na mira não é só a sigla, mas algumas de suas bandeiras históricas e também de amplos setores da esquerda. A campanha para renovar o fôlego da onda das privatizações como maneira de diminuir a corrupção no Estado já começou. Porta-vozes do mercado têm tratado do assunto sem corar ou gaguejar. Atenção aos artigos e/ou comentários de rádio e TV de certos articulistas econômicos.

Ao mesmo tempo que ataca o PT por suposto envolvimento em corrupção, o midiático poder também joga contra sua credibilidade política. Mesmo sendo avalista da atual política econômica, nos últimos tempos passou a ampliar a voz daqueles que criticam o partido por ter traído princípios históricos e se rendido à lógica do capital. Há uma clara tentativa de misturar as coisas para que tudo pareça resultado de uma mesma confusão. Na Venezuela, o sangramento público midiático de Chávez durou quase dois anos até que se buscasse o golpe que a revista Fórum denominou de midiático-militar. A imagem de um Chávez autoritário e fanfarrão, como grifou a revista Veja na edição de 12 de setembro de 2002 (“A queda do presidente fanfarrão”) foi cuidadosamente trabalhada. Aqui no Brasil, algo começa a ser construído nesse sentido. Até a cartilha do Politicamente Correto, que de fato merece ser criticada pelo que representa de estapafúrdia, foi apontada como mais um lance do autoritarismo do atual governo petista, que pretenderia cercear até a língua portuguesa. Ignorou-se que ela, mesmo sendo uma grande bobagem, tinha como único objetivo divulgar termos supostamente preconceituosos. Nada mais.
Em nome da liberdade de imprensa, a revista Veja desta semana faz uma matéria sem uma única fonte em on acusando a ex-prefeita Marta Suplicy de também comprar votos na Câmara Municipal. O título da matéria é sintomático da venezuelização do midiático poder brasileiro: “O mensalão da perua”. A liberdade de imprensa de Veja nunca permitiria que um de seus funcionários escrevesse algo como “Picolé de chuchu repete as mesmas balelas em relação ao caos na Febem”.

Evidente que se trata de uma liberdade assistida, onde quem pode de fato exercê-la não são os jornalistas, mas os donos dos veículos e seus capitães do mato, que tratam repórteres à base da chibata, como bem sabem aqueles que vivem ou viveram experiências de dia-a-dia em redações. Que também sabem o quanto essas empresas, paladinas da moralidade, desrespeitam, por exemplo, as leis trabalhistas. Ou mesmo o quanto não fazem de acordos comerciais que garantem espaços editoriais aos tais clientes. E ao mesmo tempo mantêm uma relação sabuja com eles.

O fato de investigar o PT e seus dirigentes faz bem à democracia. Fiscalizar o governo também. A imprensa deve ter liberdade para isso. Precisa fazer o seu papel. Mas há um limite entre investigação, fiscalização e perseguição. Na sociedade contemporânea, onde a cidadania é garantida de certa forma pela informação que se recebe, quando o setor midiático – associado a um espectro da política – resolve fazer uma campanha persecutória contra um partido ou governo, sem tratar com rigor e responsabilidade o que publica, não há outro nome para designar tal movimento. Busca-se, nesse caso, um golpe midiático. E para que isso aconteça basta ao midiático poder brasileiro acompanhar o toque editorial da última edição de Veja. Estará desenhado o cenário. E o cheiro podre que vem da Veja pode infestar a democracia brasileira. E não será a primeira vez que a “liberdade de imprensa” participa de um golpe no Brasil. Com a diferença que, desta vez, nada indica que os quartéis serão acionados. Na atualidade é mais aconselhável, para parecer democrático, que o midiático poder aja sozinho.



A lira sedutora (e enganadora) do golpismo
(Por Lula Miranda)

Por ofício, leio os principais jornais e sites do país. Além da cobertura jornalística em si, acompanho com especial interesse e atenção as manifestações dos leitores nas sessões desses veículos destinadas ao “leitorado”. E é sintomático constatar como a mesma intolerância e parcialismo crítico, com relação ao governo Lula, repetem-se nas falas dos leitores (não à toa um cientista político já alertou que o governo está perdendo – ou já perdeu – a batalha da opinião pública).

Alguns articulistas têm recorrido reiteradas vezes ao expediente de publicar cartas de alguns leitores que se auto-intitulam “ex-petistas” e que se dizem, em seus breves relatos, decepcionados e frustrados com o partido ou com o chamado “governo do PT” (em verdade, e isso todos sabemos, e daí certamente decorrem muitos dos problemas do atual governo, esse é um governo de coalizão e não exatamente “puro-sangue” ou “do PT”). Reputo exageradas algumas dessas críticas e mais ainda a postura irascível e intolerante de certos leitores, e estou certo de que, muitas delas (as críticas, mas também a postura desses leitores), são fruto da mais bem urdida e escancarada manipulação da opinião pública posta em prática pela grande imprensa nos últimos anos nesse país. O que chamo de lira sedutora (e enganadora) do golpismo.
Quem leu os editoriais do jornal Folha de S. Paulo desse último domingo (12/06) já não tem dúvida alguma (se é que ainda restava alguma) do escancarado “antipetismo” que norteia a linha editorial daquele jornal. Uma questão possível seria: o que estaria por trás desse “antipetismo” da Folha? Não seria uma questão de classe? Uma questão de interesses feridos ou ameaçados? Mas alguns poucos, mais atentos e ponderados, já haviam se perguntado antes, e certamente muitos estão perguntando-se agora, após essa última entrevista de Roberto Jefferson publicada nesse veículo: qual a credibilidade desse parlamentar para assacar tão graves (e inacreditáveis) denúncias contra o PT (principalmente quando comparamos a história desse deputado e de seu partido com a história do PT)? Por que continuar a dar crédito e tamanho destaque a uma acusação em que o próprio acusador agora já afirma não dispor de provas documentais? Será que o acusado não poderia estar apenas manobrando para desviar de si o foco das investigações, que, por sinal, já apontam inequivocamente em sua direção? Se se trata de matéria “requentada”, pois essa denúncia de “mensalão” já havia saído no Jornal do Brasil em setembro de 2004, por que só agora volta ao noticiário e revestida de todo esse tom avassalador, “espetacular” e “bombástico”? Essa denúncia coaduna-se com a história e a “práxis” do Partido dos Trabalhadores? Mas essas são questões que parecem não importar aos mais apressados, aos que estão indo na onda e, claro, aos que fazem essa “onda”.

Não pretendo aqui fazer uma defesa cega do governo Lula ou do PT, que fique claro. Ou até mesmo fazer pouco caso e tratar como ilegítimas todas as manifestações desses leitores. Até porque, como já disse em textos anteriores, muitas dessas críticas, e até mesmo a frustração de muitos eleitores do presidente Lula, são legítimas e eram até esperadas diante dos graves problemas que foram legados ao país, por vários anos e governos anteriores, e diante das promessas feitas na campanha e as contradições em discursos anteriores do presidente e de seu partido. Pois esses problemas e promessas não se resolvem ou cumprem-se no curto prazo. E as contradições entre o discurso quando na oposição e agora no poder são inerentes ao aprendizado que o exercício do poder impõe. O que se pretende questionar aqui é o tom dessas críticas e sua crescente hegemonia do debate. Pois há também muito exagero, preguiça, precipitação e falta de uma reflexão mais acurada dos fatos nessa “ira santa” de alguns leitores, da chamada “opinião pública”. O que se pretende questionar aqui é o tom dessas críticas e o superdimensionamento que se dá a atual crise política. Alguns mais apressados chegam a falar em “fim do PT”, outros falam em “fim do governo Lula” – a revista Veja dessa semana, revista essa que literalmente faz a cabeça da classe média brasileira, chega a comparar Lula com Collor. Um claro despropósito.

Sim, reitero, o governo Lula tem problemas, tem cometido muitos equívocos, notadamente na sua articulação política. Porém, parece-me que, nas questões que dizem respeito à defesa dos interesses do país e da maioria da população, as ações desse governo têm sido meritórias. E muitas dessas questões e ações vão nitidamente no sentido de implementar medidas que propiciem a inclusão social, a reconstrução e o reaparelhamento do Estado. E essa ponderação faz-se necessário – a menos que se queira fazer proselitismo político e não jornalismo.
Pode-se, ou melhor, deve-se criticar a política de juros altos retomada no final do ano passado e ainda mantida, na minha opinião e na de muitos outros analistas, de modo desnecessário, nesses últimos meses, pelo Banco Central. Pode-se criticar a falta de agilidade do presidente em fazer as mudanças necessárias em seu ministério. Pode-se criticar um ou outro aspecto das reformas implementadas pelo governo. Pode-se criticar algumas más companhias na chamada base aliada. E outras críticas pertinentes e pontuais. Isso é legítimo e necessário no debate construtivo e necessário ao aperfeiçoamento das políticas públicas propostas por esse governo (ou por qualquer outro) – e a esse debate esse governo que aí está não tem se furtado. Quanto a isso devemos ser honestos. Por outro lado, também não se pode negar que esse governo vem implementando medidas urgentes de cunho “civilizatório” que significam uma verdadeira inversão de prioridades quanto ao público alvo das políticas públicas, o que futuramente, no médio e longo prazos, poderá reduzir o nosso déficit social e reduzir a exclusão.

Não dá para aceitar, passivamente, tanta intolerância e, repito, má vontade, com relação a esse governo. Não dá para aceitar o “golpismo” expresso na publicação e na leitura apressada e irrefletida de certas manchetes tão “bombásticas” quanto inconseqüentes e, por vezes, o que é ainda mais grave, mentirosas. Da parte de alguns articulistas, até tenho a compreensão do seu papel: eles fazem apenas o trabalho pautado pelos chefes de redação, que por sua vez refletem os interesses dos donos do jornal, que por sua vez atendem aos interesses de determinada classe social ou de determinados grupos econômicos e políticos. Ou seja, eles seguem a “linha” do veículo, pois se não seguir essa “linha” não galgam degraus e postos na redação e até mesmo, em alguns casos, não teriam sequer seus textos publicados. O mesmo fenômeno dá-se, por outro lado, com alguns intelectuais de esquerda que na ânsia de terem seus textos publicados nesses grandes veículos da imprensa, aceitam fazer o “serviço sujo” da crítica desonesta e parcial. Esse, infelizmente, para nós, é o que mais deploramos, é o pior lado dessa história. E o que dizer de certos “intelectuais do PT” que se calam em um momento tão difícil e delicado?

Tá certo que, como também já disse em um outro artigo, muitos desses leitores, tal qual boneco de ventríloquo, apenas repetem, sem perceber, a opinião expressa pela chamada “linha” do jornal ou pelos seus articulistas. Alguns leitores, é curioso observar, chegam a utilizar expressões e termos caros e característicos do léxico desses articulistas e desses veículos. É a marca indelével da falta da necessária reflexão e ponderação que deveria existir nessa comunicação entre jornalista e leitor. A maioria dos leitores aceita como definitiva, quase como um “dogma”, as opiniões de certos articulistas ou “âncoras”.

Finalmente faço um alerta aos leitores: não se deixem seduzir pelo belo canto da sereia. Não se deixem inebriar pela lírica do golpismo. O governo não acabou. O PT não acabou, o partido é maior do que eventuais/possíveis erros cometidos por alguns de seus dirigentes ou militantes – o que seria a política brasileira hoje sem a vigilância do PT, sem a sua história, sem a sua apaixonada militância? A democracia não acabou. Não se precipite. Aguarde um pouco a sujeira assentar. A verdade prevalecerá.

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