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8.2.06

O que você diria?

Ao abrir o jornal pela manhã, você lê, na sua coluna favorita, aquela por que você aguarda avidamente e devora às quartas-feiras, o seguinte:


"Livro de Jó, exemplo de redação
(Deonísio Silva)

'De onde se tira a sabedoria? Ela não está entre nós. Onde está a inteligência?'. Alunos de Comunicação Social da Universidade Estácio de Sá escreveram no convite de formatura esses versículos bíblicos. Movido por sua escolha, muitos leram ou releram o Livro de Jó, um dos mais belos textos da literatura mundial.
'Ele vivia na terra de Hus', na atual Palestina, era pai de três filhas e sete filhos. Era o mais rico dos homens. Tinha sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois e quinhentas jumentas. Era também latifundiário e senhor de numerosos escravos, mas naquelas antiguidades bíblicas as referências de um homem de bem eram outras.

Seus filhos e fillhas faziam rodízio de banquetes, comendo e bebendo muito. O pai, homem incorruptível e temente a Deus, não cuidava apenas de sua honestidade, mas também da dos filhos. Preocupado, oferecia sacrifícios para purgar eventuais pecados: 'quem sabe se meus filhos não pecaram?'.

É exemplo de narração bem tecida o Livro de Jó. A situação inicial é de perfeito equilíbrio. O desequilíbrio é proposto por Satanás num diálogo com Deus, que lhe pergunta: 'De onde vens?'. E ouve em resposta: 'Acabei de dar uma volta pela terra inteira'. Deus, usando sempre a segunda pessoa do singular, o que denota linguagem coloquial, pois não está, solene e durão, como é seu costume quando repreende o Demônio, faz a segunda pergunta amistosa: 'Reparaste no meu servo Jó? Não há outro igual sobre a terra: incorruptível, justo, temente a Deus, alheio ao mal!'.

Satanás, cujo significado em hebraico é caluniador, diz que Jó é um interesseiro: com a vida que tem, é fácil amar a Deus. E na segunda pessoa do plural, em sinal de solene e artificioso respeito, como faz em geral quem a utiliza, sugere: 'Tocai nos seus bens para ver de que ele será capaz'.

Deus aceita o desafio: 'tudo o que ele tem, está à tua disposição, só não toques na sua pessoa'.

Satanás sai dali e dá início à guerra contra o indefeso Jó, que perde tudo: não apenas todos os bens, mas também todos os filhos e filhas, que morrem soterrados quando estão num dos costumeiros banquetes.

Deus volta a jactar-se de Jó, que continua íntegro depois de tantas perdas. Mas Satanás replica: 'cada um dá tudo o que tem para salvar a própria pele'. E recebe autorização para fazê-lo sofrer mais: 'Jó está à tua disposição, mas poupa-lhe a vida'.

Então, leproso dos pés à cabeça, é expulso da casa pela mulher.

A seguir, três amigos vêm para consolá-lo: Elifaz, Baldad e Sofar. Seria melhor enfrentar inimigos, pois eles, por unanimidade, condenam o amigo: ele deve ter pecado muito para ser afligido por desgraças descomunais.

Entra em cena, porém, um quarto amigo, Eliú, até então oculto, que dá outra explicação: Deus assim procede para aperfeiçoar Jó.

No fechamento, onde está o significado, Deus, que já dera vários exemplos poéticos da incapacidade de o homem entender os desígnios divinos, repreende os amigos de Jó, menos Eliú, e restitui em dobro os antigos bens, dando-lhe também outros sete filhos e três filhas.

'Depois disso, Jó viveu 140 anos, viu filhos e netos de quatro gerações e morreu farto de anos'.

Textos bíblicos são excelente material bibliográfico para ensinar redação. Ensinar a escrever é ensinar a pensar. Para isso, o principal requisito é ler. "



Até aqui, nada de extraordinário. Mas, no mesmo dia, você vai tentar ler e-mails que deixou acumular nos últimos tempos e escolhe para começar justo aquele que traz uma palavra por dia e se deparasse com um verbete que diz:


behemoth \bih-HEE-muth\ noun

1 often capitalized : a mighty animal described in Job 40:15-24 as an example of the power of God
*2 : something of monstrous size, power, or appearance

Example sentence:
Suddenly a behemoth of a truck, honking madly and going at least 80 mph, bore down on me from out of the blue.

Did you know?
The original "behemoth" was biblical; it designated a mysterious river-dwelling beast in the Book of Job. Based on that description, scholars have concluded that the biblical behemoth was probably inspired by a hippopotamus, but details about the creature's exact nature were vague. The word first passed from the Hebrew into Late Latin, where, according to English poet and monk John Lydgate, writing in 1430, it "playne expresse[d] a beast rude full of cursednesse." In English, "behemoth" was eventually applied more generally to anything large and powerful.

*Indicates the sense illustrated in the example sentence.

(fonte)



E então? Você recorre a Jung e à sincronicidade? Acha que o Universo está tentando dizer alguma coisa a você? Deixa o seu lado supersticioso e místico aflorar?

Eu, por via das dúvidas, fui lá conferir, pelo menos o trechinho recomendado textualmente:


Jó 40:

15 Contemplas agora o beemote, que eu fiz contigo, que come a erva como o boi.
16 Eis que a sua força está nos seus lombos, e o seu poder nos músculos do seu ventre.
17 Quando quer, move a sua cauda como cedro; os nervos das suas coxas estão entretecidos.
18 Os seus ossos são como tubos de bronze; a sua ossada é como barras de ferro.
19 Ele é obra-prima dos caminhos de Deus; o que o fez o proveu da sua espada.
20 Em verdade os montes lhe produzem pastos, onde todos os animais do campo folgam.
21 Deita-se debaixo das árvores sombrias, no esconderijo das canas e da lama.
22 As árvores sombrias o cobrem, com sua sombra; os salgueiros do ribeiro o cercam.
23 Eis que um rio transborda, e ele não se apressa, confiando ainda que o Jordão se levante até à sua boca.
24 Podê-lo-iam porventura caçar à vista de seus olhos, ou com laços lhe furar o nariz?



Como diria minha amiguinha vizinha sazonal e filósofa Joyce: "Vá-se saber, né?"

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