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26.10.06

MARTA E AS JUSTIFICATIVAS

Silvio de Abreu fez com que sua personagem Bia Falcão tivesse um final feliz. Rica, em Paris, ela era paparicada pelo jovem e belo amante a despeito de todas as artimanhas e crueldades que cometeu ao longo do folhetim. O público assim desejou, segundo demonstraram as pesquisas, e foi atendido. Talvez a simpatia suscitada pela personagem viesse colada ao carisma de sua intérprete, uma das poucas - talvez única – unanimidades nacionais: Fernanda Montenegro.

Entretanto o fenômeno se repete. A personagem de Lilia Cabral em Páginas da Vida, escrita por Manoel Carlos para ser uma grande vilã, encontra inúmeros defensores. É aquela mulher que (para quem não viu ou esqueceu) nos primeiros momentos da novela afirmava que deveriam passar com o carro por cima da cabeça de um pivete recém-atropelado. E outra personagem rebate: “é um menino, poderia ser seu filho”, ao que ela retruca “se fosse meu filho, eu matava”. Depois de maltratar a filha grávida, torturar o neto e planejar vendê-lo ao pai rico, ainda encontra quem diga que na pele dela faria o mesmo, coitadinha, tão sofrida. Numa aparentemente doce dona-de-casa, num profissional liberal com acesso à melhor educação e informação, num vizinho polido habitam latentes um membro de quadrilha de extermínio, um pai / uma mãe insensível, um torturador, um traficante de seres humanos. Estou com medo.

Medo das pessoas que defendem que se suba o morro atirando, independente da maioria honesta que mora lá. Medo de quem ignora as conquistas da nossa civilização, como os direitos humanos e civis e defende massacre em presídio e invasão de privacidade em nome de justiça e segurança. Que justiça? Que segurança? Não basta o mundo ter encaretado desde a última década, estamos retrocedendo também no que íamos indo bem, com os avanços das conquistas humanitárias. E aí vem o Bush e seus pretextos ocos e as vilãs da Globo angariando sentimentos amistosos.

A defesa para os atos da Marta da Lilia Cabral talvez explique o porquê de os pecados do PT terem influenciado pouco nos resultados, apontados até agora pelas pesquisas (sempre elas), da eleição para presidente. Aliás, os candidatos que chegaram ao segundo turno estão empatados no quesito (falta de) ética partidária, porque não dá para esquecer o inferno que foram os anos sob o PSDB. Mas o carisma do Lula, como o de Fernanda Montenegro, absolve-o de qualquer possível crime. Espera-se que a gente faça vistas grossas para os erros daqueles de quem gostamos, não vale a pena estragar uma relação longa por causa de uma falha de caráter, dizem. Bia Falcão vai para a Cidade Luz com seu bofe, Lula lá e me vejo cercada de Martas.

Estou assustada com esta lógica mafiosa. Para os amigos, tudo, para os inimigos, os rigores da lei. Ou a vala. Gente! O que é isso? Será que ninguém está lembrando que o que nos diferencia dos bandidos é que não cometemos as mesmas atrocidades que eles. Não somos ladrões porque não roubamos. Não somos assassinos porque não matamos. Não somos monstros porque não trucidamos outros seres humanos. Se roubarmos, matarmos e trucidarmos, seremos iguais a eles. Mesmo que façamos isso silenciando nos massacres, votando em quem defende a pena de morte, levando um por fora aqui e ali. Cada um por si é coisa da barbárie. É a favor disso que nossa voz se levanta?

Fico muito triste com o que sinaliza a identificação do público com as grandes vilãs e as urnas. Desculpem a falta de modéstia, mas eu não sou a Marta, não.

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