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12.8.11

Vale a pena ler de novo?
Esta vai para o amigo Veleiro.


DEUS PARA CRIANÇAS
(Carla Cintia Conteiro)


Era uma vez um velho artesão mudo chamado Gepetto, que gostava de inventar coisas.

Certa feita dedicou-se a um quartinho abandonado em sua casa e foi reformando, reformando... Pintou paredes, colocou lindas prateleiras, caprichou de verdade. O quarto ficou tão bonito que foi nele que sua filha foi morar.

Vida, a filha de Gepetto, era muito ativa e pediu ao pai, tão habilidoso, que lhe fizesse alguns brinquedos.

Muito contente em poder agradar a sua filhinha, o artesão foi inventando toda sorte de brinquedos para ela: bolas, ursinhos de pelúcia, casinhas... Ela adorava tudo e se divertia muito com cada um deles, até que ficavam muito velhos e imprestáveis e ela jogava-os em uma Grande Caixa que vez ou outra a Empregada levava para esvaziar.

Um dia, Gepetto criou um boneco e deu-lhe o nome de Pinóquio. Pinóquio era o brinquedo mais lindo que o velho mudo jamais criara. Cheio de truques e artimanhas, logo encantou Vida, que lhe deu preferência, em relação a todos os outros brinquedos.

Mas Pinóquio não era feliz. Ele olhava tudo a sua volta e não entendia direito como as coisas funcionavam e porque era assim e não de outro jeito. Por que Gepetto o havia criado apenas para que Vida brincasse com ele? Observava a forma como ela tratava os demais brinquedos e temia desesperadamente a Grande Caixa, destino de todos os brinquedos.

Perguntou Pinóquio ao seu criador sobre tudo isto, tentando esclarecer suas dúvidas, mas Gepetto respondia com a linguagem dos sinais, que Pinóquio não entendia. Ele era apenas um brinquedo-menino e teria muito o que aprender, inclusive a linguagem dos sinais. O boneco tentava perguntar a seus irmãos bonecos se eles entendiam os sinais de Gepetto, mas cada um entendia de um jeito e como cada um achava que sua interpretação era a certa, brigavam muito por este motivo.

Enquanto isto, Vida continuava com sua rotina. Brincava com todos os brinquedos, incluindo os bonecos, até que eles ficassem destruídos e fossem jogados na Grande Caixa. Às vezes furava um olho, arrancava uma perna e este destino podia ser mais triste para um boneco que a Grande Caixa, pois Vida não gostava de brincar com bonecos com defeito e os maltratava muito.

Alguns bonecos faziam de conta que a Caixa não estava ali e brincavam com Vida, sem se preocuparem se iam se estragar ou não. Pinóquio achava que eles eram ignorantes, mas no fundo, morria de inveja de sua alegria.

Os bonecos brincavam com os outros brinquedos também e como se achavam especiais, acabavam destruindo os demais. Eles não se davam conta que isto faria com que Vida voltasse suas atenções exclusivamente aos bonecos, fazendo com que eles fossem destruídos mais rapidamente. Eles também brincavam entre si, mas algumas vezes brigava também. E os bonecos eram os únicos brinquedos que se destruíam uns aos outros.

E Pinóquio continuava acumulando indagações sem respostas. Ele se perguntava para onde iriam os bonecos depois que a Empregada os levava do quarto na Grande Caixa. Alguns bonecos acreditavam que se fossem bons bonecos seriam levados para um quarto grande e arejado, livres para sempre de mofo e cupins. Mas se fossem maus iriam certamente para o incinerador da casa. Outros acreditavam que seriam simplesmente levados para o lixão da cidade. E alguns criam que Gepetto os reciclaria. Isto também era grande motivo de discórdia entre eles.

Nosso bonequinho de madeira estava ficando irritado com a falta de respostas então resolveu ignorar Gepetto, matar Gepetto, fingir que ele não existia No entanto, isto só aumentou sua angustia, já que ficou sem ter com quem conversar nas horas de agonia ou a quem agradecer quando ficava feliz.

Então Pinóquio resolveu seguir calmamente seu destino.

Jogou-se nos braços de Vida, fazendo as pazes com ela, brincando com ela alegremente, (se) divertindo o quanto podia e tentando não pensar que a Grande Caixa sempre estaria ali esperando por ele.

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