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16.10.03

Percebam, meus caros, o quanto sofre uma mulher no mundo moderno.

Ontem foi dia dos professores, portanto, as crianças não tiveram aula e você, minha amiga, que providencie um jeito pra uma criança sem aula em pleno dia útil. Para as mais sortudas, que dispõem de avós de boa vontade de plantão, não chega a ser uma grande transtorno, afinal, um diazinho cuidando do futuro genético sobre a terra, aquele ser que dizem amar tanto, não vai matar ninguém. Além disso aposentadoria ou a simples continuidade de uma vida dedicada à madamice foi feita pra isso mesmo: mimar os netos. Mas avós ou boa vontade nem sempre são artigos disponíveis. E a você, companheira, que numa hora que não sabe onde estava com a cabeça, decidiu que, para o bem de todos e felicidade geral da família, ia desenvolver sua vida profissional dentro dos limites do próprio lar, conciliando vida doméstica com ganha-pão, cabe o papel de sempre: vire-se.

E daí que o seu trabalho acumule? Você tem flexibilidade de horário. Vamos parar com essa bobagem de dormir 6 horas por noite. Amanhã você acorda às 6 e corre atrás dos atrasos. E nem adianta pensar em ir deitar antes das 2, viu? Hoje você dá um descanso para a regiamente paga escola do seu filho e faz você mesmo a função que era dela de ficar com ele no horário que você tem para ganhar o dinheiro para pagá-la.

O.K. Cinema, então, que a casa não agüenta uma criança quicando sobre todos os móveis durante um dia inteiro. É preciso liberar energia ou, pelo menos, distrair. É pouco ver um filme que não te interessa nadinha. Vamos completar a alegria do moleque que é o que interessa. Convidemos um amiguinho que, também filho único, passou igualmente a manhã chuvosa trancado num apartamento acumulando carga.

Vou poupá-los dos detalhes sórdidos que incluem "o que fazer se esta sessão está lotada e só tem ingresso pra próxima quando se está num shopping com dois meninos de oito anos?". Pulo para a parte em que encontrei uma colega de sina, acompanhada da filhota. Já na fila, com nossos ingressos e pipocas nas mãos damos as duas, atônitas, de cara com isso:



Que vem a ser a foto que ilustra o cartaz do filme Amar Custa Caro (Intolerable Cruelty), estrelado pela indubitavelmente bela Catherine Zeta-Jones e George "Olhos de Travesseiro" Clooney.

Mas espera lá. Lembra do Oscar 2003, em março? Ela estava gravidíssima. Corre lá e vê se este filme é produção deste ano. É. Mas como que uma criatura consegue esta cintura num vestido justo vermelho se há pouco mais de seis meses (nem vamos contar tempo de produção, divulgação, delay para chegar ao Brasil, etc.) ela estava assim:



Então você começa a se questionar se existe mesmo um Deus e se Ele realmente ama todas as suas filhas da mesma forma. Porque se alguém em menos de seis meses consegue parir e retornar a uma cintura dessas, você, pobre mortal excluída do Olimpo hollywoodiano, deve ser uma ímpia que não merece nada.

Mas há a luz. E ela vem através de raios catódicos. Você dá um pulinho na Internet e olhando fotos do tal filme, descobre que:



Ela é linda, talentosa, rica, usa os melhores vestidos e as melhores jóias, freqüenta os melhores lugares, tem o mundo aos seus pés e um Oscar na estante, mas, recém-parida, ao contrário do que querem impigir a nós como verdade, padrão e régua, só arruma cintura de vespa e abdômen reto com muita cinta e photoshop.

15.10.03

Enquanto não consiguia reestabelecer a conexão, fui anotando os posts:


Bode expiatório


The history of "scapegoat" is based on a linguistic misunderstanding. On Yom Kippur, the ancient Hebrews would sacrifice one goat for the Lord and lead another one into the wilderness bearing the sins of the people. The ceremony is described in Leviticus, where it is said that one lot shall be cast for the Lord and one for "Azazel." Modern scholars usually interpret "Azazel" as being the name of a demon living in the desert. But ancient biblical translators thought "Azazel" referred to the goat itself, apparently confusing it with the Hebrew phrase "‘ez ’ozel," meaning "goat that departs." The mistranslation was carried through Greek and Latin into a 16th-century English translation, where the goat was rendered as "scapegoat"; that is, "goat that escapes."


***


"Conhecendo o Rio a pé: Aspectos Arquitetônicos e Urbanos da Cidade"
a partir do dia 11 de novembro próximo pela Universidade Veiga de Almeida
(campus Barra da Tijuca)


Curso de extensão universitária: "Conhecendo o Rio a pé: Aspectos Arquitetônicos e Urbanos da Cidade"
Professor: Antônio Agenor de Melo Barbosa - Arquiteto / Urbanista e Prof. de Evolução Urbana do Rio
Público-alvo: Qualquer pessoa interessada em conhecer a história urbana e arquitetônica da Cidade.
Carga horária: 25 horas/aula (15 horas em sala de aula e 10 horas em visita de campo no centro do Rio)
Investimento: R$ 140,00 (com certificado de participação emitido pela UVA)
Início do curso: dia 11 / 11 / 2003 (terça-feira) às 13:30 horas.
Local das aulas teóricas: Campus da Universidade Veiga de Almeida na Av. Felicíssimo Cardoso n. 500 em frente ao Barra Shopping na Barra da Tijuca.
Aulas externas: aos sábados, no Centro do Rio, a partir das 9:00 horas da manhã.
Inscrições: 3325 2333 / r. 113 (coordenação de extensão da UVA) com Viviane ou Rogério das 9:00 h às 21:00 horas.
Informações: extensaobarra@uva.br


13.10.03

Recebido por e-mail:

Pleasing Others

Most importantly you understood that you are the creator of your experience and that pleasing others is not what is at the heart of being the creator of your own experience. In other words, pleasing others compromises your vibrational pattern....

..You come forth with this very powerful decision that you are going to be independently aware of how you feel that you are going to line up the energy within YOU. You see, the people who have the hardest time being deliberate creators, are the people who have the most people in their lives to please.

Abraham 8/16/03 W. Los Angeles
Ele pergunta, balançando uma barra de chocolate diante do meu rosto:
- O que você faz para ganhar um Chokito?
- Te dou um beijo estalado na bochecha.
- Não... (resposta completa no final do post).





Aos 80 anos de Fernando Sabino, dia das crianças, dia de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, com o Teatro João Caetano completando 190 anos, o Rio de Janeiro estava sob chuva.

Uma criança, você sabe, já foi uma delas, espera ansiosamente por esse dia. E chovia. Tudo o que tínhamos planejado de antemão, literalmente por água abaixo. Mas houve um iluminado que inventou revistas e cadernos culturais nos jornais que salvam pais e mães desesperados. A palavra grátis parecia piscar para nós em neon.

Meio como convidados, meio como penetras assistimos a uma peça/espetáculo promovida pela FIA (Fundação da Infância e Adolescência), cheia de todas aquelas coisas que criança gosta: música, dança, circo, brincadeiras, umas carinhas conhecidas da TV e no final um sacão de doces. E já que tínhamos passado a manhã inteira no teatro nada melhor para um programa mais para a tarde/noite chuvosa que... mais algum tempo no teatro.

Com a palavra Fernando Bicudo:

"Terra Brasilis luta por um resgate de nossas riquíssimas raízes culturais - as mais valiosas e diversas do planeta.

Terra Brasilis é um casamento de extremos, de opostos que se unem, de clássico com moderno, de erudito com popular, de real com virtual, de passdo com futuro, que se unem no todo da imensidão da cultura de nossa gente.

Terra Brasilis é, sobretudo, um grito de amor ao Brasil, um grito de amor ao que faz a nossa grandeza: o povo brasileiro.

O brasileiro é a síntese do melhor de todas as raças, e isso se espelha nas nossas manifestações populares, de norte a sul.

Apesar de nosso passado de injustiças sociais, somos o povo mais feliz do mundo, o que melhor sabe viver, o que mais cultua seu amor à vida. Somos o povo do perdão e da esperança. Somos o país do belo.

Somos o país da música, da dança, das festas, das celebrações, da excelência da cultura.

O objetivo maior de Terra Brasilis é promover um mutirão pela cidadania brasileira e pela busca de nossas verdades.

Viva o Brasil!"


O espetáculo é belíssimo e conta do Brasil de antes do Big Bang até o futuro. Com ótima música, figurinos caprichadíssimos, coreografias algumas vezes beirando o fantástico e principalmente um amor e uma alegria que fizeram esquecer que lá fora o Rio de Janeiro não se reconhecia, apresentam lundu, maculelê, caboclinho, maracatu, coco, ciranda, xaxado, capoeira, chula, samba de roda, valsa, maxixe, chorinho, gafieira, partido-alto, mangue beat e dança de rua, entre muitos outros.



- Não. Para ganhar um chokito, você enfia a mãozita na tomadita.

10.10.03

quandoéqueseabreumaportaaberta?
(resposta no final do post)



Living de pegnoir

Quando eu era pequena, no bairro onde eu morava, o sinal da Rede Globo não chegava com nitidez. Só no final dos 70 é que colocaram uma super-antena lá no alto do que dizem ser um vulcão extinto e eu finalmente me vi livre de chuviscos e fantasmas. Antes, preferíamos a Tupi, não pela programação, mas porque conseguíamos ver o que se passava. Crianças, vocês estão diante de uma balzaquina testemunha ocular da história. Sim, eu assisti a TV Tupi.

E eu acho que foi na extinta emissora que eu vi uma cena de novela que jamais me esqueci, embora, como muitas outras memórias remotas minhas, ela viva adormecida e só desperte à força de algum estímulo do mundo presente. Não me lembro qual eram os atores, nem qual era o folhetim televisivo, mas recordo que ele era um mordomo daqueles bem caricatamente pernósticos e ela uma moça simples que acabara de casar-se com um ricaço. Os dois fizeram um trato de que ele ensinaria a ela como portar-se no novo ambiente social.

Na tal cena ela vinha esbaforida da parte íntima da casa, porque tinham avisado que havia uma visita a sua espera. O mordomo a olha com total reprovação. Ela o puxa para o canto e pergunta o que estava errado. Ele empina o nariz e responde:

- Madame, uma dama jamais vai ao living de peignoir.

Eu, que queria crescer e ser uma dama, corri para Mamãe para saber onde é que ficava aquele lugar onde nunca deveria ir. Será que era perto de casa ou na Europa, o tal Lívin Dipenhoá?


Resposta: Quando Berta bate à porta.

9.10.03

Será que a Marina Lima não tem um amigo sincero que sente com ela e diga:

- Escuta, querida, sua voz acabou, já era, babau, kaput. Pega toda essa sua musicalidade e gosto musical estupendo e concentre-se em composição, ou invista na carreira de instrumentista, ou vai produzir o trabalho de alguém. Cantar não dá mais, nega.

8.10.03

Prenhe de idéias.
Tricotando projetos.
Aguarde convite para o batizado.

1.10.03

Cara feia
Gabriel O Pensador/Liminha

Cara feia... pra mim é fome
E cara alegre é a cara de quem come
Cara feia... pra mim é fome
E cara alegre é a cara de quem come

É, não me distraí, não me distraí
Me deixa aproveitar a sensação um pouco mais
A sensação de esperança que invadiu o meu peito
Não me envergonha com esse velho preconceito
Não me atrapalha agora não, por favor
Não me apavora com as notícias do terror
O seu terror psicológico e as previsões sinistras dos seus mapas astrológicos
Não vão fazer o papai aqui fazer pipi na cama
Não sou do tipo que tem medo de sair da lama
Nós não somos covardes
E nunca é tarde pra cuidar de quem a gente ama
A gente sabe se amar, a gente sabe se amar, a gente sabe da vida

A gente sabe somar, e quer saborear a soma dividida
A gente sabe se amar, a gente sabe se amar, a gente sabe da vida
A gente sabe sonhar, e desse sonho a gente não duvida
Cara feia... pra mim é fome
E cara alegre é a cara de quem come
Cara feia... pra mim é fome
E cara alegre é a cara de quem come

E quem não mata a fome, a fome mata
Quem não mata a fome some; quem não mata a fome, a fome come
(A fome não é só um nome)
E tem também a outra fome, fora do abdômen
Cara feia... eu vi na cara de um cara que matou um homem, por causa dessa outra fome
Fome de vingança, vingança do destino
E essa cara eu já vi na cara de um menino
E os meninos assassinos vão se renovando
E vão nascendo, vão morrendo e vão matando
É que eles pensam que o crime é o único caminho
Pra chegar em qualquer tipo de comando
Mas se os meninos forem mais malandros
Vão saber que ser trabalhador não é ser otário
Um bom exemplo vem da nossa presidência
Porque lá quem tá mandando é um operário

Refrões

Não faça cara feia de barriga cheia
Não faça cara feia de barriga cheia
Não faça cara feia de barriga cheia
Nem meta a colher em cumbuca alheia
Quem deixa um pé atrás
Nunca chega na frente
Quem tem medo do futuro
Vira escravo do presente
Não me enche com essa fome de derrota
Nem me bota nesse time que defende o pessimismo
Agora eu sei, cansei da linha burra que separa, desune
E empurra todo mundo pro abismo
O caminho é mais pro alto
No mar e no sertão, na favela e no asfalto
Todo mundo sente fome, fome de futuro
Pra que pichar, se eu posso derrubar o muro?
Não é com tanque, nem com trator
Não é com ódio, nem com rancor
Não é com medo, nem com terror
Minha campanha também é paz e amor.

29.9.03

"Paulinho da Viola - Meu tempo é hoje", documentário de Izabel Jaguaribe sobre o sambista que eu só consegui ir conferir no último final de semana é simplesmente o máximo. Mais uma prova de que o Brasil faz documentários de gente grande. Além de divertido, é informativo, bonito, inteligente e comovente sem ser piegas. Tem a melhor música do mundo e a Cidade Maravilhosa no que ela tem de melhor: sua gente e seu espírito. Tem Paulinho da Viola lindo, transbordando sua dignidade, sua nobre musicalidade, sua vida entre familiares, amigos e parceiros, suas idiossincrasias... Tem Monarco, Nelson Sargento, Zeca Pagodinho, Walter Alfaiate, Cristina Buarque, Teresa Cristina e mais um monte de gente boa. Tem mais ou menos 30 músicas amarrando as saborosas histórias e depoimentos. Tem expectador aplaudindo no final da exibição porque ficou se segurando para não fazer isso durante o filme.

Se você já viu, deve estar se perguntando como é que eu ainda não sabia disso tudo. Pois é, eu estava querendo ver este filme há um tempão, mas a chance ainda não tinha aparecido. Se você ainda não viu, corre que ainda está levando lá no Museu da República. E em volta tem os jardins, tem o café, tem o teatro, tem a livraria, tem as exposições ao ar livre, tem os saraus, tem o Museu do Folclore...

28.9.03

Imperdível!
E é de graça!

O artista plástico brasileiro Vik Muniz, radicado há 20 anos em Nova York, apresenta uma série inédita de fotografias. Intitulada Retratos de revista, a série traz imagens que são reconstituição do retrato de personalidades e personagens, que ele admira e/ou convive, com pequenas pastilhas feitas de papel recortado de revistas.

O ponto de partida do artista foi a observação de retratos publicados em revista que mostram a intimidade das celebridades, ao mesmo tempo em que são essas publicações que tornam famosos quase anônimos. Vik se colocou a pergunta: como fragmentar e reconstruir a fisionomia das pessoas com pedaços de outras imagens e ainda assim mantê-las reconhecíveis? Partiu então para fotografar cada um dos seus 'heróis'. De posse dos retratos, submeteu-os, em estúdio, a um processo de ampliação com lentes que ele próprio construiu e que produzem cromos de 20 x 25 cm, com definição extraordinária. A partir daí, remontou os retratos, a mão livre, com pastilhas de páginas de revista, feitas com furador de papel. A última etapa é a foto da remontagem, enfim o formato final, em ampliações de até 230 x 180 cm, que dá a impressão de um desenho pontilhista.

(trechos retirados daqui)

Em exposição no Paço Imperial até 12 de outubro.
Deliciosa e gay em todos os sentidos, especialmente o original:

27.9.03

Para Carolzinha:

"...E agora meus ombros se retesavam não pelo que eu via, mas no afã de captar ao menos uma palavra. Palavra? Sem a mínima noção do aspecto, da estrutura, do corpo mesmo das palavras, eu não tinha como saber onde cada palavra começava ou até onde ia. Era impossível destacar uma palavra da outra, seria como pretender cortar um rio a faca. Aos meus ouvidos o húngaro poderia ser mesmo uma língua sem emendas, não constituída de palavras, mas que se desse a conhecer só por inteiro. E o avião reapareceu na pista, numa imagem distante, escura, estática, que salientava mais ainda a voz masculina da locução em off. A notícia do avião já pouco me importava, o mistério do avião era ofuscado pelo mistério do idioma que dava a notícia".

“única língua do mundo que, segundo as más línguas, o diabo respeita”.
Dizem que Cosme e Damião eram árabes e viveram na Sicília, às margens do Mediterrâneo, por volta do ano 283. Praticavam a medicina e curavam pessoas e animais, sem nunca cobrar nada.

O culto aos dois irmãos é muito antigo, registrado a partir do século 5. Contam que, em certas igrejas havia um óleo santo de São Cosme e Damião, que tinha o poder de curar doenças e dar filhos às mulheres estéreis.

Aqui no Brasil, a devoção trazida pelos portugueses misturou-se com o culto aos orixás-meninos da tradição africana. Isso gerou uma festa brasileira, que tem nas crianças os personagens principais.

Os santos mabaças são tão populares quanto Santo Antônio e São João em todo o Brasil. No dia 27 de setembro, crianças saem às ruas para pedir doces e esmolas em nome deles e, depois, as famílias aproveitam para fazer um grande almoço, servindo comida típica da data: caruru dos meninos.

No Candomblé, Cosme e Damião são conhecidos como Ibejis e são os protetores das crianças e muitas vezes aparecem com um irmão ainda menorzinho, o Idowu (Doum), que cuida das criancinhas pequenas. Além de crianças saindo às ruas pedindo doces, no candomblé elas ganham uma festa na qual são chamadas a desempenhar o papel principal. E são as primeiras a se servirem de caruru, em potes pequenos.

Quando eu era bem pequena lá nos cafundós do subúrbio, uma vizinha invejosa apontou para a nossa casa: “Ali tá dando! Ali tá dando!” Era a senha para a molecada formar uma fila diante do portão que se desmanchava em tumulto assim que alguém aparecia à porta com uma bolsa onde deveriam estar os saquinhos recheados de doces.

Mas lá em casa não havia doces a serem distribuídos. Nossa família não oferecia confeitos nem brindes no dia de São Cosme e Damião. E o número de crianças ia crescendo. Alguns garotos, já ansiosos com a espera, temendo perder outras oportunidades, iam subindo no muro, ameaçando pular para o quintal. A situação começava a ficar periclitante. A vizinha gargalhava: “Ali tá dando! Ali tá dando!”

Minha mãe pegou então um grande pote que ficava estrategicamente colocado em casa e decidiu que aquela seria a saída. De avanço, ela jogou moedas para a multidão de meninos que ocupavam nossa calçada. Eu, que naquele tempo, já sabia que dinheiro para nosso clã era sinônimo de trabalho, chorei: “Meu paizinho deu um duro danado pra ganhar esse dinheiro. Quando ele chegar, vou contar tudo.” Na hora ela apenas sorriu, mas depois Mamãe me explicou que parte daquele dinheiro ela também ajudara a ganhar e que ela estava fazendo isso para nos proteger e que ela tinha certeza de que quando eu falasse com Papai ele iria ficar satisfeito porque os moleques ficaram felizes, nós estávamos todos bem e que aquelas moedas não iam nos fazer falta, porque eles iam trabalhar mais e ganhar mais. Ela estava certa.

Hoje faz seis anos que meu pai desencarnou.

(Ilustração: "Cosme e Damião" de Hélio Siqueira)
Recebido por e-mail

Passarinho quer dançar

O Gugu quis enganar
Reportagem quis forjar
E ferrou o SBT
Tchu-tchu-tchu-tchu

Agora vai apanhar
Quem mandou ele brincar
Com o pessoal do PCC
Tchu-tchu-tchu-tchu

Audiência vai cair
Emissora vai falir
E o Gugu empobrecer
Tchu-tchu-tchu-tchu

Não adianta nem chorar
Nem a Hebe se meter
Saiu do ar

A farsa deu merda
Vão te processar
E não vai sobrar, Gugu
Nem carnê do Baú
Pra apresentar

O Gugu quis enganar
Reportagem quis forjar
E ferrou o SBT
Tchu-tchu-tchu-tchu...

21.9.03

CRISE

Domingo. Passa pouco de uma da tarde. Numa grande avenida da Zona Norte carioca separada naquele trecho em duas pistas por um rio que leva o mesmo nome, há duas poderosas churrascarias encarando-se. Diante de uma delas, uma fila colossal torna a calçada intransitável. Com satisfação e paciência, aquelas gentes esperam vagar uma mesa. Por trás do vidro fumê, a vizinha oposta exibe seu enorme salão granítico absolutamente deserto e seus funcionários importados de terras gaúchas tentam parecer ocupados e, graves, atendem a clientes inexistentes.

Quando você pensa em almoçar numa churrascaria, em que você pensa?

Tá bem, tá bem. Certo. Deixe agora de lado o mau humor. Pare de pensar em crianças correndo e berrando, em velhinhos com cara de contrariados porque foram arrastado a lugar tão inóspito por parentes sádicos, em garçons desajeitados pingando sangue de picanha malpassada em sua calça nova, em gerações que se reúnem em torno da mesa para mostrar o orgulho que sentem de sua má educação, em altíssimos decibéis e na desculpa que você vai ter que arranjar pro seu endocrinologista, pro seu personal trainer, pro seu nutricionista e pro seu analista. Pronto. Parou?

Vamos tentar de novo? Você pensa em churrascaria e pensa em carne preparada na brasa. Confere? Picanha, maminha, alcatra, lingüicinha, coraçãozinho... Pra acompanhar uma farofa, de preferência incrementada, batatinha frita, bananinha... Dizem até que alguns pervertidos aceitam quando o garçom de castigo oferece o cupim.

Acho estranho que alguém vá a este tipo de restaurante querendo um sushi. Imagina: “Mô, tô morrendo de vontade de comer um sushizinho. Vamu ali na Vaca Amarela?”

Não rola. Ou rola?

Na cabeça dos empresários do setor sim. Parece que a idéia é atender também a quem vai a churrascaria como acompanhante e não quer saber de churrasco. O problema é que todo simples mortal louco para entregar-se aos - de acordo com a moral vigente - mais vis pecados da carne, paga pela comida japonesa, pelos camarões extra grandes, pelos javalis e avestruzes em que não estava nem um pouco interessado quando combinou com a patroa de se empanturrar antes de passar o resto do dia vendo futebol na TV até fazer bico.

Então o pulo do gato da churrascaria lotada é este. Ela é uma churrascaria que vende – adivinhe! – churrasco e acompanhamentos de churrasco. Por isso cobra preço de churrascaria e não de restaurante metido a besta. Porque quem gosta de restaurante metido a besta – ou sofisticado, como prefiram meus diletos, raríssimos e preciosos leitores – simplesmente não vai a churrascarias.

O responsável pela linda, requintada e abandonada churrascaria do outro lado da rua provavelmente caiu no conto dos manuais que falam em agregar valor e que recomendam que se ofereça mais que o concorrente. Parece que muitas delas caíram nessa história que as empurrou numa espiral que as jogou para bem longe do povão que freqüenta churrascaria. Pode ser o problema da tradução. Ou pode ser que as pesquisas tenham sido feitas com pessoas de outros países. Quem sabe de outras cidades por aqui mesmo. Outro dia li uma entrevista com um desses gênios do mal. Ele inventou o conceito de que um boa pesquisa em São Paulo é representativa do Brasil. É respeitadíssimo. Ganhou uma fortuna durante um tempão só para ficar com a boca fechada.

Mas os restaurantes não são os únicos a reclamar de crise quando tem um monte de gente disposta a pagar por coisas mais com a sua cara por um preço justo.

Atenção empreendedores do setor de vestuário! Sou uma balzaquiana que ganha seu próprio dinheiro e gosta de separar (grande) parte dele para comprar roupas. Segundo a Organização Mundial de Saúde, o IMC (Índice de Massa Corpórea) normal está entre 18,6 e 24,9 (veja como calcular abaixo). Meu IMC é 22. E eu não encontro roupas do meu tamanho nas lojas! Tem GG – e ergo as mãos para o céu quando tem G e ele é grande mesmo – que não me cabe! Eu tenho dinheiro para comprar roupa, as lojas não querem vender nem pra mim nem pras minha amigas e ainda reclamam de crise. Ora, façam-me o favor! Vocês acham que as adolescentes tem o mesmo poder aquisitivo (e os mesmos problemas a serem resolvidos num shopping) que uma mulher madura e bem sucedida profissionalmente? Alô-ôu! Queridos que estão a um passo da bancarrota, revejam suas estratégias de marketing e o perfil de consumidor que pretendem atingir.

Será que crise não é preguiça de pensar?

***



IMC= Peso corpóreo (em kg) /o quadrado da altura (em Cm)

Por exemplo, para uma mulher de 1,60 m de altura e 54 kg, IMC= 54/ 1,60X 1,60= 21,09
Imparcialidade não é eufemismo destinado a camuflar a ausência de emoções. Trata-se da compulsiva inclinação para a busca da verdade. Seja qual for o fato, tema ou versão, exige contemplação crítica, que não se deve confundir com olhar ressentido.

Ser independente não significa ser contra todo mundo. Proliferam na fauna brasileira espécimes como o arauto da denúncia, o caçador de bandalheira, o correio de má notícia. Mas necessariamente existirão, em qualquer país e qualquer tempo, episódios animadores, homens decentes e boas novas. Até no Brasil. Mesmo nos momentos complicados.


Parece que estou me repetindo?

Mas dessa vez as palavras não são minhas. São do Augusto Nunes, na edição de hoje do JB.

19.9.03

A primeira vez que ouvi sobre Santa Maria Egipcíaca foi num livro de António Alçada Baptista chamado Os Nós e os Laços. Depois descobri que também Manuel Bandeira já havia encantado-se com sua história, literalmente incrível.

Para resumir a história, Maria Egipcíaca, natural do Egito, abandonou a casa paterna aos 12 anos de idade e se tornou pecadora escandalosa. Tinha 29 anos quando, tocada pela graça, converteu-se e fugiu para um local isolado, na Palestina, onde passou 47 anos sem ver nenhuma criatura humana e fazendo as mais austeras penitências.

Ela vivia nua no deserto, porque suas roupas rasgaram-se com o tempo e alimentava-se (por 47 anos!) de três pães que levara para lá quando de seu exílio.

A história fica ainda mais fascinante quando a gente a lê como publicada em Legenda Áurea (Vidas de Santos), de Jacopo de Varazze. Para se ter uma idéia, esse livro, uma reunião de biografias de santos, foi escrita no século XIII "com a intenção de difundir valores morais edificantes e arregimentar um maior número de fiéis para a Igreja Católica". Com a moda de as editoras distribuirem capítulos de cortesia nos balcões das livrarias, a biografia de Maria Egipcíaca acabou caindo de bandeja no meu colo. O mais interessantes são as descrições detalhadas dos pecados da santa que é freqüentemente confundida com sua colega Maria Madalena (as duas foram prostitutas e fugiram do pecado no deserto).

"Entreguei-me publicamente à libertinagem."
"Nunca me recusei a quem quer que fosse."
"Não tenho dinheiro, irmãos, mas posso entregar meu corpo como pagamento."
"Durante os primeiros dezessete anos passados neste deserto fui atormentada pelas tentações da carne."

(Legenda Áurea, Jacopo de Varazze, Companhia das Letras)



Balada de Santa Maria Egipcíaca
(Manuel Bandeira)

Santa Maria Egipcíaca seguia
Em peregrinação à terra do Senhor.

Caía o crepúsculo, e era como um triste sorriso de mártir.

Santa Maria Egipcíaca chegou
À beira de um grande rio.
Era tão longe a outra margem!
E estava junto à ribanceira,
Num barco,
Um homem de olhar duro.

Santa Maria Egipcíaca rogou:
- Leva-me ao outro lado.
Não tenho dinheiro. O Senhor te abençoe.

O homem duro fitou-a sem dó.

Caía o crepúsculo, e era como um triste sorriso de mártir.

- Não tenho dinheiro. O Senhor te abençoe.
Leva-me ao outro lado.

O homem duro escarneceu: - Não tens dinheiro,
Mulher, mas tens o teu corpo. Dá-me o teu corpo, e vou levar-te.

E fez um gesto. E a santa sorriu,
Na graça divina, ao gesto que ele fez.

Santa Maria Egipcíaca despiu
O manto, e entregou ao barqueiro
A santidade da sua nudez.

(Ritmo Dissoluto, Manuel Bandeira)



"No texto acima, mais do que à relação opositiva santa/prostituta, segundo a interpretação de Affonso Romano de Sant'Anna, é preciso ater-se ao sentido mais profundo da própria negação do pecado carnal. Com efeito, mesmo considerando a notícia biográfica de que Santa Maria Egipcíaca fora uma prostituta durante sua mocidade, no texto ela aparece como santa, e o corpo que ela entrega ao barqueiro não é o de uma mulher fácil, mas de uma jovem virtuosa. O verso final, a santidade da sua nudez, contém o sentido colocado no poema todo: nudez e santidade não são elementos opostos, antagônicos. Se a nudez é natural e a natureza é criação de Deus, logo a nudez é divina, santa. O pecado não está no corpo, mas na mente; não no ato, mas na intenção. A protagonista do poema, ao entregar-se sexualmente ao barqueiro, não está cometendo um pecado, mas uma obra de caridade, satisfazendo o desejo de um homem triste e abrutalhado pela solidão em que vivia. O amor verdadeiro consiste em fazer a felicidade do outro, não de si; reside em atender com um sorriso (note-se, no poema, a relação entre o sorriso do mártir e o sorriso da santa) às necessidades de quem nos solicita. Acima da doxa, a opinião comum ditada pelas injunções morais, eleva-se o paradoxo poético, revelador de uma verdade não-aparente, convencional, mas profunda, porque atinge a própria essência da natureza humana."
(Teoria do Texto 2 - teoria da lírica e do drama, Salvatore D'ONOFRIO, Ática, 1995)




Ilustrações:

1 - La Juventud de Santa Maria Egipciaca, Emil Hansen Nolde
2 - Relevo da fachada do Colegio de Franciscanos Capuchinos de Santa María Egipciaca (fundado em 1612 em Alcalá de Henares, Espanha), que representa São Zózimo dando a comunhão a Santa Maria Egipciaca
Keith Haring


18.9.03

Ah, sim! Como inveja é um assunto que me fascina, porque eu sou pop fã de primeira hora e uma tia ploc enrustida, já tenho o meu exemplar.