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8.6.05

O drástico
(Fernando de Castro)



Há muito tempo venho refletindo sobre o drástico. Não que eu seja dado a muitas reflexões, mas alguns casos me forçam a pelo menos simular um pensamento mais profundo. E o drástico, de alguma forma, fez-se o motivo da vez. Não toleramos o drástico. É da nossa natureza amenizar quando o impulso quase nos conduz a medidas extremas. Vejo pelo caso do jogador que denunciou o outro por racismo. De todos os elogios convenientes à sua postura, sobrou tempo para criticarmos o exagero. Exagerou-se nas algemas. Exagerou-se no tempo de detenção. Exagerou a imprensa. Foi-se muito drástico. Preferimos a conduta permissiva e camarada à rispidez do drástico. No fundo, simpatizamos com aqueles que roubam pelo suposto dever público e pouco nos lixamos se o destino (ou a Polícia Federal) eventualmente apresenta dois safados para um show de contra-acusações. No fim das contas, sempre tendemos para o que roubou menos, mas nem por isso conseguimos disfarçar um certo respeito pelos nossos bem-sucedidos vilões.
É difícil reconhecer no país um governo sequer que não tenha em seu histórico algum escândalo de cinco dias, alguma suspeita convenientemente esquecida pelo tempo e pelos acordos naturais. Mas isso não é o mais grave. O grave é que pouco nos importamos. Recusamos o drástico, porque o drástico fatalmente nos atingirá de algum modo. Vibramos pelo meio-termo. Pela alternativa que preserve nossos canalhas, pelo menos. Todos temos um canalha para adorar. Seja ele o presidente de um clube de futebol ou um populista medonho que aplica o dinheiro público no atraso travestido de brinde-cidadania em troca de votos. Seja na oposição, na situação ou no PMDB. É ridículo olhar o passado recente de boa parte dos políticos envolvidos nos escândalos da hora e simular um ar de chocado. É ridículo tentarmos disfarçar um ''não acredito'' quando basta um fiapo de memória para associá-los à corja que nós mesmos viemos entronando sucessivamente há anos, e cujo hábito do assalto sempre foi uma virtude declarada. E pior: avalizadas pelo nosso próprio voto. O nosso pavor pelo drástico nos impede de espiar uma ficha corrida antes de votar.

É uma piada grosseira justificarmos nossa conivência com o argumento de que o poder corrompe mesmo, e que pelo menos nosso ladrão fala inglês e constrói pracinhas, campos de futebol e que, apesar de todo empenho da Justiça, nunca se provou legalmente nada. É uma piada sofisticada demais empregarmos a palavra política quando, na verdade, na maioria dos casos estamos nos referindo mesmo é a uma corja de ladrões protegidos pelo interesse comum de seus pares. Mas nós adoramos piadas. Antes elas que o drástico.

Um Congresso onde a maioria dos eleitos se permite unir-se pelo voto do atraso, por simples vaidade, não é um lugar que por hora eu me permita levar a sério. Qualquer discurso que reze pelo ''bem da população'' depois disso, a meu ver, não passa de pura balela. Uma afronta. Um governo que não sabe ou finge que desconhece a conduta duvidosa de seus indicados não escapa das duas verdades possíveis: ou é mal-intencionado ou é incompetente. Qualquer autoridade que se presta ao papel de posar em público ao lado de um bandido aliado para demonstrar seu apoio pela conveniência da aliança, pra mim, não passa de um sem-vergonha.

Eu nuca roubei ninguém. Talvez por isso ando simpatizando cada vez mais com o drástico.

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