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21.10.05

Caros,

Tenho ouvido muitas desinformações causadas pela complexidade do tema e argumentos de boa vontade, porém facilmente rebatíveis na defesa do voto NÃO no referendo. Quero meter minha colher, porque não estou a fim de tomar um tiro na cara e gostaria de evitar chorar mais mortos por 38 da Taurus. Não visto branco, quero que a Sou da Paz e o Viva Rio se fodam, mas isso não me deixa burro o suficiente para achar que mantendo o atual Bang-Bang o país um dia vai ficar mais seguro por ordem e graça do Divino Espírito Santo. Eu quero mudar e acho que essa é uma forma de começar. Dizer NÂO é acenar pro bang-bang; tô fora! Vai com o pouco de informação que tenho, que, no entanto, percebo que é mais do que a que as
pessoas, de modo geral, dispõe. Serei breve:

1- Da importância do referendo: nenhum problema do Brasil é tão sério quanto o da segurança. O Brasil é o país no mundo onde mais se morre por arma de fogo. Mais de 50% das famílias, inclusive a minha, já tiveram componentes mortos por armas de fogo. O referendo, votemos sim ou votemos não, não vai mudar da noite para o dia essa situação. Mas votar NÃO significa manter tudo como está. Votar SIM significa diminuir o número de armas em circulação, e, por conseqüência óbvia, diminuir as chances de haver mortes por arma de fogo, como as dos cinco garotos que morreram em escolas estaduais de São Paulo só esse ano. Só vota NÃO quem tá satisfeito com o jeito que a coisa está.

2- O governo convocou o referendo. Não foi; foi o Congresso, antes dos escândalos começarem, e atendendo a uma campanha que começou no Brasil em 1997, por parte de mães que tiveram seus filhso assassinados. A primeira matéria que eu fiz sobre o tema foi em 1998. Os primeiros projetos datam dessa época. Políticios vagabundos de todos os partidos (Serra PSDB, Garotinho PMDB, Lula PT) apóiam o SIM. Do lado de la´tem o Fleury do Carandiru, o Bolsonaro e o Caiado da UDR).

3- Desarmamento não muda nada. Mentira. Desde que começou a campanha do desarmamento, o número vergonhoso de homicídos no Brasil diminuiu. Pela primeira vez em 13 anos, o número de mortes por arma de fogo caiu no Brasil. Pesquisa feita pelo Ministério da Saúde revelou que, depois do início da campanha, em 2004, o número de homicídios por arma de fogo
diminuiu 8,2% em relação ao ano anterior. Os dados mostraram que, em um só ano, 3.234 vidas foram poupadas. Dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade com o número de armas recolhidas e revelou que as maiores quedas ocorreram justamente nos Estados que mais recolheram armas. A Unesco divulgou outra pesquisa, também no mês passado, na qual estimou como seria a progressão no número de homicídios caso a campanha não tivesse ocorrido e concluiu que mais de 5.000 vidas foram poupadas

4- Ninguém tem que entregar arma nenhuma. É verdade. Quem já tem arma vai poder mantê-la. O porte de armas não muda em nada. Se o "Não" vencer, o comércio de armas continua como é hoje; se o "Sim" vencer, de acordo com o artigo 35 do Estatuto do Desarmamento, só muda a venda de armas, que será proibida. Quem um dia precisar de proteção, por se sentir
ameaçado, ou morar em área isolada, poderá ter arma. Leis complemteares vão regulamentar isso.

5- Fato: As armas dos bandidos já foram de “cidadãos de bem” (sem dizer que qual é o cidadão de bem que você conhece que anda armado?). Os números a seguir são oficiais, da Polícia, não de ongs de merda. No Rio de Janeiro, 30% das armas apreendidas na ilegalidade foram originalmente vendidas para "cidadãos de bem", e depois desviadas para o mercado
clandestino [Polícia Civil RJ, 2003]. As armas compradas legalmente muitas vezes caem em mãos erradas, através de roubo, perda ou revenda. Só no Estado de São Paulo, segundo a Secretaria de Segurança Pública, entre 1993 e 2000, foram roubadas,
furtadas ou perdidas 100.146 armas (ou seja, 14.306 por ano).
6- Opinião da Veja não vale: Da colunista Barbara Gancia, sexta-feira, dia 14 de outubro de 2005, no caderno Cotidiano da Folha de São Paulo ”Por que a revista [Veja] não nos contou que a empresa à qual pertence paga aluguel de cerca R$ 1 milhão à família Birmann, que vem a ser proprietária do prédio que serve de sede da Editora Abril e também, veja só, da CBC, a Companhia Brasileira de Cartuchos?” A CBC é a única empresa que produz munição no Brasil.

7- Da Época: As armas legais fazem um mal brutal pra mim, pra você e pra todo o mundo.ELAS ERAM LEGAIS Armas compradas por pessoas sem antecedentes criminais, em lojas regulares, foram usadas em: 67% dos estupros- 51% dos roubos - 46% dos latrocínios - 49% das lesões - 38% dos homicídios - 51% dos casos de tráfico com registro de flagrante.
Fonte: Iser 2003, registro de 3394 ocorrências da Polícia Civil no Rio, em 2003 8- O mercado negro vai aumentar. Bobagem. Então, é mais fácil comprar cocaína hoje do que quando ela era vendida em farmácia. Esse argumento é bobo demais. A Època já desmontou. “A cada ano, cerca de 35 mil armas de fogo são furtadas de cidadãos. Pesquisa feita com dados de ocorrências no Rio de Janeiro mostra que 65% das armas apreendidas eram de
pessoas físicas, haviam sido registradas e acabaram em mãos de bandidos. Essas armas formam a grande parte do mercado negro, que movimenta cerca de R$ 1 bilhão. Um efeito colateral é que também há armas apreendidas pela polícia e revendidas a bandidos várias vezes seguidas. Esse comércio, como o roubo puro e simples de armas, continuará existindo. Porém, se o cidadão comum tiver menos armas, o preço de cada peça no mercado negro vai subir. Isso já acontece desde a entrada em
vigor da nova lei. Em Santa Catarina, um revólver calibre 38 que custava R$ 200 na favela está em R$ 1.000. Em Porto Alegre, há quatro meses, um 38 custava R$ 80. Hoje, vale R$ 300.
9- Muita gente morre de bobeira, não na mão do bandido. Votar SIM ou votar NÂO não muda a necessidade de combater os bandidos. Ridículo e ingênuo é imaginar que uma lei poderia desarmar os bandidos. Mas tem o efeito de dificultar que ele se arme. O pé de chinelo que assalta e mata na rua (não é de AR-15, né?) não vai ter dinheiro para se abastecer no mercado negro. Mas a gente deve temer tb o “cidadão de bem” que está armado. Só assim a gente pode ficar livre de um “Dia de fúria” de algum maluco, pitboy, corintiano, bêbado ou chifrudo. “O sociólogo Guaracy Mingardi acompanhou 1.200 boletins de ocorrência e 300 inquéritos, em 14 distritos de São Paulo. Constatou que a maioria era de fato provocada por cidadãos comuns. "Assassinatos cometidos por criminosos são minoria. Quem mata mais não é o bandido, como a maioria das pessoas imagina. As mortes ocorrem nas brigas de bar, entre vizinhos, por ciúme", diz. São conflitos conjugais, violência contra mulheres e crianças, brigas de trânsito, disputas entre vizinhos, discussões em bar. "Os bandidos matam quando acham que a vítima está armada", observa o criminólogo Tulio Kahn. Segundo ele, somadas as chacinas, os latrocínios e as resistências seguidas de morte, tem-se 12% dos homicídios. Andar armado é um direito – Não é. Interessante como as pessoas falam "Eu não ando armado, mas defendo esse direito. Direito para quem!!??? Pra mim quem anda armado não é flor-que-se-cheire, salvo se trabalha com isso. O direito dessas pessoas vai continuar garantido pela lei. Comprar arma não é direito porque põe os outros em perigo, por sua ação ou pela de outro que se apossa da arma. Andar com um pitbull também não; acelerar a 140 por hora também não; vender bebida pra criança também não; jogar pedra portuguesa pela janela tabém não. Tudo iisso põe as pessoas em risco, portanto é normal que se proíba.

Então, queridos, pensem. Se for pra votar NÂO, votem. Mas esse referendo é mais importante do que a eleição presidencial. Quem acha o referendo um erro, vota NULO. Eu vou de SIM.

(Dirley Fernandes - Jornalista)

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